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A química liberada por nosso cérebro quando rimos com naturalidade ajuda a combater os efeitos do estresse, eliminando a tensão e tornando o ambiente mais leve Crédito: Pixabay

LIDERANÇA

Lideranças e equipes precisam rir mais juntos

O riso é um poderoso agente de conexão, que pode ajudar a produtividade, criatividade e melhorar muito um ambiente de trabalho estressante

Por Soraia Yoshida 05/07/2021

Todos sabemos que os tempos não estão muito propícios a boas risadas, mas manter o bom humor e, sempre que possível, sorrir para os outros e rir com eles ainda é uma prescrição para saúde física e mental sem contraindicação. Uma pesquisa aponta que as pessoas têm maiores probabilidades de resolverem problemas no trabalho se estiverem de melhor humor. A química liberada por nosso cérebro quando rimos com naturalidade e com frequência ajuda a combater os efeitos do estresse, eliminando a tensão e tornando o ambiente mais leve – que é tudo que precisamos neste momento – e aumenta nossa função cardiovascular, fortalecendo nossos sistemas endócrino e imunológico.

“De acordo com pesquisas de instituições sérias como Wharton, MIT e London Business School, cada risada ou gargalhada traz consigo uma série de benefícios para os negócios”, escreve a editora sênior da Harvard Business Review Alison Beard no artigo “Leading with Humor”. “O riso alivia o estresse e o tédio, aumenta o envolvimento e o bem-estar e estimula não apenas a criatividade e a colaboração, mas também a precisão analítica e a produtividade”. Segundo pesquisas, os bebês riem, em média, 400 vezes ao dia. Uma pessoa com mais de 35 anos? Apenas 15 vezes (provavelmente bem menos desde o início da pandemia). E de acordo com uma pesquisa do Gallup de 2014, a tendência é rir muito menos durante a semana – justamente quando estamos trabalhando.

“Por que rir seria importante no âmbito organizacional? Porque normalmente a coisa mais comum é as pessoas dizerem ‘o meu trabalho é estressante’ ou ‘a minha rotina é estressante’. Quando você tem um fator estressante, o seu corpo produz cortisol e esse hormônio em excesso não faz bem para o nosso organismo”, explica Fabio Camilo, doutor em Psicologia da Saúde, mestre em Avaliação Psicológica e Head de Conteúdo Psicológico da Vittude, startup que oferece soluções voltadas ao bem-estar e saúde mental nas empresas. Segundo ele, quando há excesso de cortisol que vai para a corrente sanguínea, o corpo manifesta dores de cabeça daquelas latejantes e problemas gastrointestinais, entre outras respostas físicas. “O sorriso vai na contramão. Ele traz para a gente a produção de hormônios de prazer, a tolerância à dor, então nos ajuda a lidar com os problemas de uma forma melhor”.

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O riso e o fato de que temos apreciação pelo humor são componentes essenciais da função social, emocional e cognitiva adaptativa. Em sua raiz, o riso é uma atividade comunitária que promove o vínculo, a conexão dentro de um grupo. Igualmente interessante é o fato de que o riso tem o poder de anular outras emoções momentaneamente. Basta pensar em um momento muito tenso e na reação quando alguém disse algo engraçado e todos riram. Alívio imediato. Da mesma forma, ninguém consegue espumar de raiva e rir ao mesmo tempo. No momento em que riu, a raiva sumiu.

“O riso é incompatível com algumas emoções, como muita tristeza e raiva. Nesse aspecto, o sorriso inspira comportamentos positivos, ele nos ajuda a gente lidar com as emoções. E o riso pode ser contagiante: em um grupo, diante de uma história ou uma situação muito engraçada, o riso se espalha e contagia as pessoas”, lembra o psicólogo.

Camilo aponta que as emoções existem para serem sentidas e não guardadas ou camufladas. Quando se faz isso, há o risco de uma explosão de raiva em uma situação sem qualquer relação, com uma resposta desproporcionar. “Nada em excesso costuma ser positivo”, avisa Camilo.

Rir juntos, ainda que à distância

Quando rimos, os músculos faciais e nossa arquitetura vocal são “sequestrados” em prol de emoções mais leves. O riso acaba inibindo regiões do cérebro geralmente envolvidas na tomada de decisões e no controle de nosso comportamento para facilitar esse movimento espontâneo. Por isso é que a sensação imediata de relaxamento nos libera de julgamentos e pode nos ajudar a resolver problemas. Mais do que tudo, porém, um momento de riso indica que nos sentimos relaxados e seguros dentro daquele grupo e daquele ambiente.

“Se as pessoas estão rindo, é um sinal de que o grupo está em um bom lugar”, afirma a neurocientista Sophie Scott, professora da University College London, que tem uma pesquisa extensa sobre a ciência do riso. “Se você puder olhar para trás e ver uma vida em que compartilhou muitas risadas com as pessoas ao seu redor, com as pessoas de quem você gosta, não é um tempo perdido. Esses são os bons momentos, aqueles que realmente importam”, contou ela no podcast Hidden Brain. “E se permitir valorizar isso, ao invés de pensar que é uma bobagem. Vale a pena levar o riso a sério”.

O pesquisadores da Psicologia Positiva levantaram indicações de que emoções positivas – diversão, felicidade, alegria – podem instigar a resiliência e ampliar o pensamento criativo, levando inclusive a uma apreciação do que significa estar vivo.

Ainda que seja uma reação natural que os seres compartilham com os outros, do ponto de vista cognitivo isso pode ser feito também através de plataformas digitais. Promover momentos de descontração dentro das equipes, como aconteceria no ambiente do escritório, é o ideal para manter a conexão do grupo. Na Boomit, startup que trabalha soluções de mentoria para empresas, o Slack é usado para compartilhar memes, piadas e fotos engraçadas, conforme os interesses dos grupos. Além de ferramenta de engajamento, permite uma conexão muito semelhante a que aconteceria presencialmente.

Na Vittude, os funcionários se divertem com jogos, como adivinhar o que o colega está desenhando, bingo ou fotos da infância em situações divertidas. “São iniciativas que promovem interação e um riso natural. As pessoas se soltam e temos uma interação natural que provê tanto a questão da sociabilização, quanto do riso mesmo. Fica claro como é possível usar algumas técnicas simples e promover no ambiente de trabalho atividades que quebrem o gelo daquela rotina de que toda reunião tem que ser focada em assuntos sérios”, diz Fabio Camilo.

Trabalho X riso: questão cultural

Na busca pelo profissionalismo e pela construção de uma boa reputação empresarial, o ambiente de trabalho foi construído como um lugar em que o riso só acontecia da porta para fora. “Com o trabalho em equipe e a complexidade das tarefas aumentando constantemente, ter e mostrar senso de humor é uma forma de demonstrar autenticidade e parecer mais humano. E durante uma pandemia global, rir parece uma ferramenta essencial (e potencialmente a única) para conciliar trabalho cotidiano e vida privada com sucesso”, escrevem Teresa Almeida e Cecily Josten, pesquisadoras de ciência comportamental em artigo no site na London School of Economics (LSE).

“Esse ponto remete à visão que nós temos do trabalho”, confirma Camilo, da Vittude. Segundo ele, existe um tabu de associar o trabalho com o riso, mas é importante quebrar o paradigma com pesquisas que mostram o quanto aspectos como produtividade ou um bom ambiente de trabalho estão ligados ao sorriso e como as pessoas sentem que podem ser elas mesmas no trabalho. “As pessoas estão tão acostumadas a entender que o trabalho tem que ser algo sério que parece que rir é o oposto de seriedade. A gente entende rir como um aspecto de descontração, que está mais relacionado à convivência, do que como um aspecto de organização do ponto de vista de trabalho”.

Com uma boa parte da comunicação transferida para ferramentas e plataformas digitais, é importante lembrar que o sorriso funciona mais do que nunca como um condutor – desarmando as pessoas e criando uma atmosfera mais empática. “Quando você inicia uma reunião seja presencialmente ou de forma remota com um sorriso, com uma postura empática, com aquela atitude de que eu estou disposta para aquela reunião, isso ajuda muito no enfrentamento de uma situação como esta que estamos vivendo”, afirma a professora do curso de Psicologia da Universidade São Judas, Juliana Leonel.

Em suas aulas, ela percebeu que o sorriso e o fato de estar aberta a ouvir colaboraram muito para o grupo avançar nos estudos. Outro fator foi o fato de incluir, sempre que possível, um pouco de humor em suas explicações. O engajamento da turma aumentou e os alunos passaram a memorizar melhor os conteúdos. Da mesma forma, o humor pode ajudar a liberar mais a criatividade. “Tenta ser criativo com dor”, desafia. “Quando você tem esse momento em que acontece a liberação das substâncias do bem-estar, do prazer, você se torna muito mais criativo do que quando você tem a liberação de substância para o enfrentamento da dor. A sua memória fica ligada a algo que foi prazeroso”.

Esses momentos têm muito menos a ver com piadas e muito mais com leveza: são os momentos compartilhados de levez que impulsionam os relacionamentos e equilibram a seriedade do trabalho. As lideranças têm muito a aprender com o riso, de acordo com duas pesquisadores da Universidade de Stanford, Jennifer Aaker e Naomi Bagdonas, autoras do livro “Humor Seriously: Why Humor is a Secret Weapon in Business and Life”. Elas ministram um curso chamado “Humor: Serious Business”, que mostra a aspirantes a executivos e empreendedores como alavancar o riso para melhores relacionamentos e resultados de negócios.

 

A leveza tende a desaparecer de nossas vidas à medida que nos enfronhamos no estresse diário, principalmente em ambientes profissionais. A leveza é um poderoso agente de ligação. Um local de trabalho que acolhe o riso é provavelmente aquele que também incentiva o tipo de criatividade, autenticidade e segurança psicológica que permite às pessoas dar o seu melhor, argumentam Jennifer e Naomi.

“Uma cultura organizacional que abraça a inovação com um sorriso pode melhorar a abertura a ideias, assumir riscos e desempenho. E para entender melhor o impacto do humor no local de trabalho, mais pesquisas experimentais são necessárias para testar os benefícios e as desvantagens das intervenções do humor e como melhor aproveitar o humor para obter resultados positivos no trabalho”, de acordo com as pesquisadoras da LSE.

 

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