Eles são ambiciosos, adaptáveis e tecnologicamente fluentes — mas estão adiando a vida. O custo de vida é a principal preocupação de 38% dos jovens da Geração Z e 42% dos millennials, à frente de violência, desemprego e instabilidade política. Os números ilustram bem a dimensão do problema: 47% dos profissionais das duas gerações vivem de salário em salário, 34% têm dificuldade para pagar despesas básicas mensais e 51% dos “zoomers” (ou “genzeers” como são chamados os jovens da Geração Z) e 40% dos millennials afirmam não conseguir comprar uma casa. A crise habitacional molda inclusive as escolhas profissionais: 69% dos “zoomers” e 64% dos millennials dizem que a disponibilidade ou o custo de moradia influencia diretamente suas decisões de carreira.
O resultado é o adiamento sistemático de marcos da vida adulta, como aponta o relatório “Gen Z and Millennial Survey 2026”, da Deloitte. O estudo ouviu 22.595 pessoas entre 18 e 43 anos em 44 países, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Pela 15ª edição consecutiva, o levantamento acompanha como Gen Z (nascidos entre 1995 e 2007) e millennials (nascidos entre 1983 e 1994) enxergam o trabalho, a vida e o futuro. O que salta na análise é o que a Deloitte chama de “talvez mais tarde”: pessoas engajadas e motivadas, mas forçadas a deixar seus sonhos para depois diante da pressão financeira.
Mais da metade dos entrevistados – 55% dos jovens da Geração Z e 52% dos millennials – admitem ter postergado decisões importantes como casamento, filhos, abertura de negócio ou pós-graduação por causa da situação financeira. Ainda assim, o pessimismo não é total: 53% dos “zoomers” e 45% dos millennials esperam melhorar sua situação financeira nos próximos 12 meses, percentuais superiores aos do ano anterior.
A relação dos profissionais da Geração Z e dos Millennials com a ambição de liderança aparece da seguinte maneira: apenas 6% dos respondentes dizem que alcançar um cargo de chefia é sua meta profissional principal. Os motivos revelam o que está em jogo: entre os que não priorizam a liderança agora
É importante ressaltar que não se trata de rejeição e sim de adiamento estratégico. Quando perguntados sobre o longo prazo, 76% dos “zoomers” e 67% dos millennials afirmam querer ocupar algum dia cargos executivos de alto nível. O que tornaria a liderança mais atraente no curto prazo? Remuneração maior (53% dos “zoomers” e 57% dos millennials), flexibilidade (42% da Geração Z e 44% dos millennials) e clareza sobre os caminhos possíveis até posições de chefia (36% e 35%). Enquanto isso, 69% das duas gerações dizem acreditar que podem gerar mudanças dentro de suas organizações, mesmo sem título de liderança.

Em um dos poucos movimentos bem positivos desta edição, a saúde mental mostra melhora importante. Hoje, 63% dos “genzeers” e 66% dos millennials avaliam sua saúde mental como boa ou excelente, ante 52% e 58% em 2025. A percepção sobre o suporte das empresas também evoluiu: 69% dos respondentes dizem que seus empregadores levam o bem-estar mental a sério, 14 a 15 pontos percentuais a mais do que em 2024.
Mas a melhora convive com um estresse que não vai embora. Pelo menos 34% dos jovens da Geração Z e 30% dos millennials relatam sentir ansiedade ou estresse na maior parte do tempo. Quase metade dos “zoomers” (48%) e dos millennials (45%) diz se sentir “esgotada”. A isso se soma a fadiga digital: 58% dos “zoomers” e 54% dos millennials se dizem sobrecarregados por alertas constantes, múltiplas plataformas e a fragmentação do dia de trabalho em dezenas de ferramentas.
Nenhum dado desta edição do estudo é mais contundente do que este: 96% dos profissionais da Geração Z e 97% dos millennials dizem que ter senso de propósito no trabalho é importante para sua satisfação e bem-estar, um aumento de 8 a 10 pontos nos últimos três anos. E essa convicção se traduz em comportamento: cerca de 40% dos respondentes já recusaram uma tarefa, projeto ou potencial emprego em uma organização por conflito com seus valores pessoais. Entre os que trabalham atualmente, 68% dos “zoomers” e 72% dos millennials dizem que seu emprego permite contribuir de forma importante para a sociedade.
A conexão social emerge como fator crítico de retenção. Cerca de dois terços dos respondentes – 69% dos jovens da Geração Z e 67% dos millennials – dizem ter pelo menos um amigo próximo no trabalho. E os dados mostram que essa amizade importa muito mais do que se imagina: entre os Gen Zs com amigos no trabalho, 48% planejam ficar na empresa por mais de cinco anos, contra 33% dos que não têm essas conexões. Entre millennials, a diferença é ainda maior: 61% com amigos próximos planejam ficar mais de cinco anos, ante 43% dos demais.
O uso de Inteligência Artificial no trabalho deu um salto expressivo em um ano. Nesta edição, 74% dos jovens da Geração Z e 74% dos millennials relatam usar IA no dia a dia profissional, frente a 57% e 56%, respectivamente, na pesquisa anterior. A ferramenta deixou de ser novidade para se tornar rotina. E o uso vai além da produtividade:
O problema é que a adoção individual está muito à frente da prontidão das organizações. Cerca de 30% dos respondentes dizem que suas empresas não estão preparadas para as mudanças que a IA vai trazer, em comparação com 20% registrados no levantamento anterior. Outros 36% dos profissionais da Geração Z e 38% dos millennials afirmam que seus empregadores não oferecem treinamento suficiente sobre o tema. O dado é corroborado pelo relatório “State of AI in the Enterprise”: 84% das empresas ainda não redesenharam cargos e funções para integrar as capacidades da IA.
Até 2030, todos os baby boomers terão 65 anos ou mais. A saída em massa de trabalhadores experientes levanta a questão sobre quem preservará o conhecimento institucional. A resposta ainda é incerta. Apenas 54% dos “zoomers” e 60% dos millennials acreditam que suas equipes manteriam o desempenho, caso um especialista-chave saísse amanhã. No horizonte seguinte, os jovens da Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2025) devem entrar no mercado de trabalho entre 2028 e 2030. Líderes ouvidos pela pesquisa os descrevem como eficientes e tecnologicamente fluentes, mas expressam preocupação com possíveis lacunas em habilidades humanas como pensamento crítico, empatia e comunicação.
A pesquisa da Deloitte não responde todas as perguntas. Mas traz insights para lideranças de organizações e de RH, que têm a chance de trabalhar com esses dados para atrair talentos e fazer a turma ficar. Enquanto o contrato entre trabalhadores e organizações está sendo reescrito, vale refletir sobre o que é preciso mudar, adaptar ou até deixar de lado quando se trata do futuro do trabalho.
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