No “estado das coisas” em relação ao segmento de Sustentabilidade, os profissionais passaram da celebração para a vida real em pouco tempo. Nesse cenário em construção, um estudo recém-publicado pelo Trellis Group indica que os profissionais hoje estão mais resilientes, mas pagam um preço alto com seu bem-estar, reconhecimento e até salário.
O relatório “State of the Sustainability Profession 2026”, que nesta edição recebe o título de “Saying Less But Doing More”, resume a estratégia de sobrevivência adotada por boa parte do setor num ambiente hostil: cabeças baixas, linguagem trocada, progresso silencioso. A análise foi feita com base em uma pesquisa conduzida entre janeiro e fevereiro de 2026, e ouviu 1.073 profissionais de Sustentabilidade, dos quais 548 trabalham em empresas com faturamento acima de US$ 1 bilhão.
A primeira pergunta que o estudo quis responder foi: diante de um cenário mais adverso, as empresas recuaram? A resposta traz mais nuances do que qualquer dos dois extremos sugeriria. Quando o Trellis analisou os padrões de resposta, identificou três clusters de comportamento.
É uma divisão que teria parecido improvável dois anos atrás, quando 74% das empresas aumentavam equipes e apenas 4% as reduziam. Agora, 50% das empresas aumentaram headcount de Sustentabilidade e 26% reduziram, o percentual de cortes mais alto registrado em toda a década de estudos. No orçamento, o quadro é ainda mais sombrio: 33% das empresas cortaram gastos com sustentabilidade, o maior índice desde o início da série histórica em 2010, enquanto 44% aumentaram.
A divisão não é aleatória. Ela se organiza em torno de um fator que o estudo identificou como o preditor mais consistente de praticamente todas as variáveis analisadas: a atitude do CEO.
Quando o engajamento do CEO com Sustentabilidade sobe, os orçamentos sobem. Quando cai, cortam-se gastos. Em 2026, essa correlação se mantém intacta e o engajamento dos CEOs caiu ao seu ponto mais baixo desde que a pergunta foi incluída na pesquisa, em 2016. Hoje, 67% dos profissionais de Sustentabilidade veem seu CEO como pelo menos moderadamente positivo em relação ao tema. É uma maioria, mas representa uma queda substancial em relação ao pico de 86% registrado em 2022. Do outro lado, 20% dos CEOs são vistos como tendo uma visão negativa de Sustentabilidade, igualando o pior índice já registrado, em 2016.
Os dados sobre CEO com postura “muito engajada” (owns it, very engaged) ilustram a queda de forma ainda mais direta: em 2024, 48% dos respondentes descreviam seus CEOs nessa categoria. Em 2026, apenas 32%. O impacto desse declínio é visível em todos os outros indicadores. Em empresas com CEOs engajados, apenas 8% cortaram orçamentos de Sustentabilidade e 53% aumentaram. Em empresas com CEOs que têm visão negativa do tema, 44% cortaram orçamentos e apenas 24% aumentaram. A diferença é de quase seis vezes no percentual de cortes.

O mesmo padrão aparece nas atitudes dos profissionais: em empresas com CEOs engajados, apenas 35% dizem que suas carreiras se tornaram “menos gratificantes” nos últimos dois anos. Em empresas com CEOs que veem a Sustentabilidade de forma negativa, esse percentual chega a 64%.
Se as ações de Sustentabilidade continuam, em grande parte, na mesma direção, a comunicação sobre elas mudou radicalmente. Dois em cada três profissionais (63%) afirmam que suas empresas reduziram ou repensaram como falam sobre sustentabilidade para o público e investidores nos últimos dois anos. Nas empresas com faturamento acima de US$ 10 bilhões (as de maior visibilidade e maior risco político), esse percentual chega a 80%.
Alguns exemplos de “code-switching” coletados pelo estudo revelam a extensão da mudança de linguagem:
Algumas empresas foram além do silêncio estratégico: vários respondentes mencionaram que suas organizações removeram relatórios de Sustentabilidade publicados anteriormente de seus sites. Em universidades e organizações dependentes de contratos federais nos EUA, o medo tem dimensão ainda mais concreta. “O governo está tendo um efeito inibidor em toda a nossa comunicação”, relatou o responsável pela sustentabilidade de uma grande universidade norte-americana. “Se usarmos certas palavras, eles cortarão todo o nosso financiamento de pesquisa.”
A pesquisa distingue essa comunicação reduzida de um abandono de compromissos. De todas as empresas que tinham metas públicas de sustentabilidade dois anos atrás – quase a totalidade: 95% das pesquisadas –, 57% mantiveram esses compromissos inalterados, 24% os fortaleceram e apenas 16% os enfraqueceram ou abandonaram. Apenas 2% descartaram inteiramente suas metas públicas.
O padrão, uma vez mais, difere por tamanho. Empresas de porte médio (receita entre US$ 1 bilhão e US$ 10 bilhões) fortaleceram seus compromissos com mais frequência (30%) e os enfraqueceram com menos (13%). As maiores (acima de US$ 10 bilhões) fizeram o inverso: 21% fortaleceram, 16% enfraqueceram. E foram elas que lideraram o silenciamento: enquanto apenas 30% das empresas médias comunicaram menos sobre sustentabilidade, o percentual sobe para 40% nas gigantes.

A mudança mais significativa nas prioridades estratégicas do setor é a migração do discurso aspiracional para o operacional, ou seja, da ambição para a conformidade. Quando o estudo perguntou como as empresas mudaram a priorização de diferentes temas nos últimos dois anos, compliance foi o item com maior crescimento: 58% das empresas aumentaram a prioridade dada à conformidade regulatória. Construção de casos de negócio para Sustentabilidade foi o segundo mais citado, com 44% aumentando a prioridade. Gestão de risco climático também subiu, para 27%.
Na direção oposta, questões sociais, descritas pela maioria dos respondentes como Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), sofreram o maior recuo: 53% disseram que o tema é menos prioritário hoje. A comunicação sobre Sustentabilidade também caiu na lista de prioridades para 41% dos respondentes.
A redução das emissões de gases de efeito estufa, por sua vez, se manteve relativamente estável: apenas 24% das empresas disseram priorizar menos o tema, enquanto 29% disseram priorizá-lo mais.
Para as empresas que operam globalmente, navegar o cenário regulatório, com regras em constante mutação tornou-se uma atividade cara em tempo e recursos. Mais da metade das empresas pesquisadas (52%) disse estar dedicando mais recursos a relatórios do que há dois anos. Mas o retorno sobre esse investimento não é consensual: enquanto 33% disseram que o esforço de mensuração e reporte os ajuda a tomar melhores decisões de sustentabilidade, quase o mesmo percentual (30%) avalia que ele desvia recursos de trabalho de maior impacto.
A localização da área de Sustentabilidade no organograma corporativo importa. O nível de acesso a lideranças sênior, a influência sobre decisões estratégicas, disponibilidade de orçamento, tudo isso tende a ser maior quando a área reporta diretamente ao CEO. E é justamente essa estrutura está se desfazendo.
Em 2024, 30% das equipes de sustentabilidade reportavam ao CEO. Em 2026, esse percentual caiu para 18%. Em contrapartida, a área de finanças tornou-se mais frequente como linha de reporte: cresceu de 7% para 14% em dois anos. Jurídico também avançou, chegando a 20%, o que reflete, em parte, a crescente ênfase em compliance.
Em algumas empresas, a mudança organizacional reflete uma escolha estratégica de descentralizar a especialidade em Sustentabilidade para onde o trabalho realmente acontece, ou seja, na cadeia de suprimentos, nas operações, nos produtos. Em 2026, 80% de todas as empresas pesquisadas têm pessoas trabalhando em tempo integral em Sustentabilidade fora da equipe central, uma queda em relação a 86% em 2024, mas ainda uma maioria importante. Nas maiores organizações (acima de 10.000 funcionários), 88% têm trabalhadores de Sustentabilidade distribuídos pela empresa, com metade tendo mais de 11 pessoas nessa condição.
Em empresas menores (entre 1.000 e 10.000 funcionários), a concentração ainda está no time central: 65% têm trabalhadores de sustentabilidade fora da área, mas a maioria são apenas entre um e dez.
Os números de orçamento e headcount contam uma parte da história. A outra parte está na maneira como os profissionais se sentem e sua vivência dentro desse cenário todos os dias. Quando o estudo pediu que os respondentes escolhessem palavras que descrevessem como se sentem em relação à profissão, o resultado foi duro. A palavra mais escolhida foi “desanimado” (discouraged), com 41% das escolhas. Mas logo atrás vieram “determinado” (resolved) e “otimista” (optimistic), ambos com 36%. E “confiante” (confident) com 34%.
Quando os respondentes foram além da lista sugerida e acrescentaram palavras próprias, as três mais frequentes foram: “frustrado”, “determinado” e “resiliente”. O estudo agrupou as respostas em padrões: 49% dos respondentes usaram palavras relacionadas a “engajado” (focado, inovador, resolvido), 44% usaram palavras relacionadas a “esgotado” (burnout, estressado, sobrecarregado). Os dois sentimentos coexistem, muitas vezes na mesma pessoa. A divisão entre positivo e negativo é quase perfeitamente equilibrada: 32% dos profissionais de Sustentabilidade expressaram sentimentos exclusivamente positivos, 30% exclusivamente negativos e 38% uma mistura dos dois.
No campo da realização profissional, os números apontam para uma crise real. Pelo menos 44% disseram estar menos realizados em seu trabalho do que estavam há dois anos. Apenas 33% disseram estar mais realizados. E a insatisfação cresce com o tempo de carreira: entre profissionais com menos de seis anos na área, 42% estão mais realizados e 21% menos. Entre veteranos com mais de 16 anos, a proporção se inverte: 28% mais realizados e 48% menos.
Quando se olha para setores, o Financeiro se destaca negativamente: 58% dos profissionais de Sustentabilidade em Finanças dizem que a carreira se tornou menos gratificante. Nas empresas com CEOs engajados, a satisfação é substancialmente maior. Nas maiores empresas (acima de US$ 10 bilhões), 49% dizem que a carreira está menos gratificante contra 38% nas de porte médio. O custo do ambiente hostil também se manifesta na dificuldade de executar o trabalho: 38% dos profissionais dizem que ficou mais difícil atingir suas metas de Sustentabilidade, contra 22% que afirmam ser mais fácil. Nas maiores empresas, a diferença é ainda mais acentuada: três vezes mais profissionais relatam maior dificuldade (44%) do que menor dificuldade (15%).
Uma das perguntas mais reveladoras do estudo é sobre o futuro: nos próximos cinco a dez anos, onde você quer estar trabalhando?
Apenas 47% dos profissionais atualmente em Sustentabilidade Corporativa acham que essa é a trajetória de carreira mais atraente para os próximos anos. Mais da metade (53%) querem sair da Sustentabilidade Corporativa, sendo que 26% querem continuar trabalhando com Sustentabilidade, mas em startups, consultorias, ONGs ou instituições acadêmicas. Pelo menos 11% querem papéis corporativos sem relação com Sustentabilidade e 11% pretendem se aposentar. Outros 21% ainda não sabem.
A tendência de saída é mais forte entre os profissionais mais seniores: apenas 12% dos profissionais em nível de vice-presidente e acima querem permanecer na Sustentabilidade Corporativa. Entre gerentes e diretores, o percentual é de 76%.
Esses dados ganham mais peso quando combinados com a história de 58 profissionais que já deixaram cargos corporativos de Sustentabilidade e também responderam ao estudo este ano, uma amostra inédita, incluída pelo Trellis Group dado o nível de disrupção observado. A maioria havia sido demitida. Alguns pediram demissão. Outros migraram para funções sem relação com Sustentabilidade.
“Os últimos dois anos foram uma montanha-russa: da celebração de compromissos mais ambiciosos ao sentimento de estarmos sob ataque”, descreveu uma ex-profissional de Sustentabilidade de uma empresa de energia, com mais de 15 anos de experiência. “Disseram que nosso time não seria cortado. Mas quando a política mudou, fomos demitidos.” Outro ex-profissional atribuiu sua demissão diretamente à mudança de postura executiva sob o novo governo norte-americano: “Empresas não querem mais falar de Sustentabilidade. Também com a pressão de custos por causa das tarifas, o time foi um alvo fácil de redução de headcount.”
Na América Latina, a agenda ESG deixou de ser tendência e passou a ocupar uma posição estrutural nas estratégias das empresas, principalmente no Brasil. Um estudo da Grant Thornton apontou que o índice está acima de 83%. Quando se olha para o recorte das empresas do middle market, existe uma forte intenção de 94% de manterem ou ampliarem os investimentos em Sustentabilidade, sinalizando que o tema continuará a influenciar a competitividade e o fluxo de capital.
Ainda que o campo de energia renovável seja a principal prioridade de investimento em todas as regiões, com 54,1% na América do Sul, outras áreas com foco em Sustentabilidade também estão crescendo. Redução de resíduos (39,3%) e uso de conteúdo reciclado (33.9%).
Segundo a Sondagem Especial “Meio Ambiente, Social e Governança”, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 43% das indústrias do Brasil contam com uma estrutura voltada ao ESG. A adesão é maior entre as grandes empresas, com 65% das organizações mantendo uma área dedicada ao ESG, percentual que recua para 38% nas médias e 24% nas pequenas organizações. O mesmo levantamento mostra que oito em cada 10 indústrias conhecem, ao menos parcialmente, o que a sigla implica. A boa notícia: 19% têm ampla experiência no assunto. O relatório aponta que no campo ambiental, a gestão de resíduos é o tema mais relevante (81%), seguido por eficiência energética (69%) e uso da água (66%).
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