s
Geração do "talvez mais tarde": o que 22 mil jovens revelam sobre trabalho, dinheiro e ambição em 2026 (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

O retrato da Geração Z e millennials no trabalho: só 6% querem liderar

Pesquisa anual da Deloitte mostra gerações pressionadas pelo custo de vida que adiaram decisões importantes, adotaram IA mais rápido que suas empresas e redefinem liderança, propósito e saúde mental no trabalho

Por Soraia Yoshida 17/05/2026

Eles são ambiciosos, adaptáveis e tecnologicamente fluentes — mas estão adiando a vida. O custo de vida é a principal preocupação de 38% dos jovens da Geração Z e 42% dos millennials, à frente de violência, desemprego e instabilidade política. Os números ilustram bem a dimensão do problema: 47% dos profissionais das duas gerações vivem de salário em salário, 34% têm dificuldade para pagar despesas básicas mensais e 51% dos “zoomers” (ou “genzeers”, como são chamados os jovens da Geração Z) e 40% dos millennials afirmam não conseguir comprar uma casa. A crise habitacional molda inclusive as escolhas profissionais: 69% dos “zoomers” e 64% dos millennials dizem que a disponibilidade ou o custo de moradia influencia diretamente suas decisões de carreira.

O resultado é o adiamento sistemático de marcos da vida adulta, como aponta o relatório “Gen Z and Millennial Survey 2026”, da Deloitte. O estudo ouviu 22.595 pessoas entre 18 e 43 anos em 44 países, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. Pela 15ª edição consecutiva, o levantamento acompanha como a Gen Z (nascidos entre 1995 e 2007) e os millennials (nascidos entre 1983 e 1994) enxergam o trabalho, a vida e o futuro. O que salta na análise é o que a Deloitte chama de “talvez mais tarde”: pessoas engajadas e motivadas, mas forçadas a deixar seus sonhos para depois diante da pressão financeira.

Mais da metade dos entrevistados – 55% dos jovens da Geração Z e 52% dos millennials – admite ter postergado decisões importantes como casamento, filhos, abertura de negócio ou pós-graduação por causa da situação financeira. Ainda assim, o pessimismo não é total: 53% dos “zoomers” e 45% dos millennials esperam melhorar sua situação financeira nos próximos 12 meses, percentuais superiores aos do ano anterior.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

Liderança sim, mas nas condições certas

A relação dos profissionais da Geração Z e dos Millennials com a ambição de liderança aparece da seguinte maneira: apenas 6% dos respondentes dizem que alcançar um cargo de chefia é sua meta profissional principal. Os motivos revelam o que está em jogo: entre os que não priorizam a liderança agora

  • 50% dos “zoomers” e 49% dos millennials citam risco de estresse e burnout
  • 50% dos jovens da Geração Z e 48% dos millennials falam em excesso de responsabilidade
  • 41% dos “zoomers” e 46% dos millennials mencionam o desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.

É importante ressaltar que não se trata de rejeição e sim de adiamento estratégico. Quando perguntados sobre o longo prazo, 76% dos “zoomers” e 67% dos millennials afirmam querer ocupar algum dia cargos executivos de alto nível. O que tornaria a liderança mais atraente no curto prazo? Remuneração maior (53% dos “zoomers” e 57% dos millennials), flexibilidade (42% da Geração Z e 44% dos millennials) e clareza sobre os caminhos possíveis até posições de chefia (36% e 35%). Enquanto isso, 69% das duas gerações dizem acreditar que podem gerar mudanças dentro de suas organizações, mesmo sem título de liderança.

Saúde mental: melhora real, estresse que não vai embora

Em um dos poucos movimentos bem positivos desta edição, a saúde mental mostra melhora importante. Hoje, 63% dos “genzeers” e 66% dos millennials avaliam sua saúde mental como boa ou excelente, ante 52% e 58% em 2025. A percepção sobre o suporte das empresas também evoluiu: 69% dos respondentes dizem que seus empregadores levam o bem-estar mental a sério, 14 a 15 pontos percentuais a mais do que em 2024.

Mas a melhora convive com um estresse que não vai embora. Pelo menos 34% dos jovens da Geração Z e 30% dos millennials relatam sentir ansiedade ou estresse na maior parte do tempo. Quase metade dos “zoomers” (48%) e dos millennials (45%) diz se sentir “esgotada”. A isso se soma a fadiga digital: 58% dos “zoomers” e 54% dos millennials se dizem sobrecarregados por alertas constantes, múltiplas plataformas e a fragmentação do dia de trabalho em dezenas de ferramentas.

 

Propósito e amizade como pilares de retenção

Nenhum dado desta edição do estudo é mais contundente do que este: 96% dos profissionais da Geração Z e 97% dos millennials dizem que ter senso de propósito no trabalho é importante para sua satisfação e bem-estar, um aumento de 8 a 10 pontos nos últimos três anos. E essa convicção se traduz em comportamento: cerca de 40% dos respondentes já recusaram uma tarefa, projeto ou potencial emprego em uma organização por conflito com seus valores pessoais. Entre os que trabalham atualmente, 68% dos “zoomers” e 72% dos millennials dizem que seu emprego permite contribuir de forma importante para a sociedade.

A conexão social emerge como fator crítico de retenção. Cerca de dois terços dos respondentes – 69% dos jovens da Geração Z e 67% dos millennials – dizem ter pelo menos um amigo próximo no trabalho. E os dados mostram que essa amizade importa muito mais do que se imagina: entre os Gen Zs com amigos no trabalho, 48% planejam ficar na empresa por mais de cinco anos, contra 33% dos que não têm essas conexões. Entre millennials, a diferença é ainda maior: 61% com amigos próximos planejam ficar mais de cinco anos, ante 43% dos demais.

 

IA: uso acelerado, empresas atrasadas

O uso de Inteligência Artificial no trabalho deu um salto expressivo em um ano. Nesta edição, 74% dos jovens da Geração Z e 74% dos millennials relatam usar IA no dia a dia profissional, frente a 57% e 56%, respectivamente, na pesquisa anterior. A ferramenta deixou de ser novidade para se tornar rotina. E o uso vai além da produtividade: 

  • 79% das duas gerações recorrem à IA para identificar oportunidades de aprendizado.
  • 72% dos “zoomers” e 69% dos millennials utilizam IA para buscar orientação de carreira.
  • 67% dos “zoomers” e 65% dos millennials usam a tecnologia para lidar com estresse relacionado ao trabalho.

O problema é que a adoção individual está muito à frente da prontidão das organizações. Cerca de 30% dos respondentes dizem que suas empresas não estão preparadas para as mudanças que a IA vai trazer, em comparação com 20% registrados no levantamento anterior. Outros 36% dos profissionais da Geração Z e 38% dos millennials afirmam que seus empregadores não oferecem treinamento suficiente sobre o tema. O dado é corroborado pelo relatório “State of AI in the Enterprise: 84% das empresas ainda não redesenharam cargos e funções para integrar as capacidades da IA.

 

A virada geracional que se aproxima

Até 2030, todos os baby boomers terão 65 anos ou mais. A saída em massa de trabalhadores experientes levanta a questão sobre quem preservará o conhecimento institucional. A resposta ainda é incerta. Apenas 54% dos “zoomers” e 60% dos millennials acreditam que suas equipes manteriam o desempenho, caso um especialista-chave saísse amanhã. No horizonte seguinte, os jovens da Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2025) devem entrar no mercado de trabalho entre 2028 e 2030. Líderes ouvidos pela pesquisa os descrevem como eficientes e tecnologicamente fluentes, mas expressam preocupação com possíveis lacunas em habilidades humanas como pensamento crítico, empatia e comunicação.

A pesquisa da Deloitte não responde a todas as perguntas. Mas traz insights para lideranças de organizações e de RH, que têm a chance de trabalhar com esses dados para atrair talentos e fazer a turma ficar. Enquanto o contrato entre trabalhadores e organizações está sendo reescrito, vale refletir sobre o que é preciso mudar, adaptar ou até deixar de lado quando se trata do futuro do trabalho.

A lacuna entre ambição e prontidão: o que seis estudos revelam sobre pessoas, liderança e IA

Tendências

A lacuna entre ambição e prontidão: o que seis estudos revelam sobr...

Protiviti, Careerminds, The Conference Board, Kyndryl, McKinsey e Metley chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes: a tecnologia está pronta antes das pessoas e o RH que deveria liderar essa preparação é, com frequência, quem...

Só 47% dos CISOs sabem onde estão seus agentes de IA

Inteligência Artificial

Só 47% dos CISOs sabem onde estão seus agentes de IA

Pesquisa da Okta com 306 CISOs mostra que a infraestrutura de identidade é, ao mesmo tempo, o problema e a solução para controlar agentes de IA dentro das empresas

A IA começou a escrever genomas

Inteligência Artificial

A IA começou a escrever genomas

Modelos de linguagem genômica já conseguem projetar genomas virais funcionais. O avanço promete novas terapias e muda a escala do debate sobre biossegurança.

Cultura organizacional: como fechar o gap entre o que sua empresa promete e o que os funcionários vivem

Tendências

Cultura organizacional: como fechar o gap entre o que sua empresa prom...

Uma pesquisa com 300 profissionais de cultura e RH mostra que o problema não é falta de discurso — é a distância entre o que a liderança diz e o que ela recompensa, tolera e reforça todos os dias

Robôs para companhia emocional colocam IA Física dentro da sua casa

Inovação

Robôs para companhia emocional colocam IA Física dentro da sua casa

As vendas anuais de humanoides fabricados na China devem mais que dobrar em 2026, para cerca de 28.000 unidades

Carga cognitiva, o próximo KPI da gestão

Tendências

Carga cognitiva, o próximo KPI da gestão

Uma linha emergente de pesquisas começa a tratar "mental load" como recurso organizacional, com efeito direto sobre a qualidade das decisões.