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Crédito: Pixabay
O SHIFT DA QUESTÃO

Por que a ideia da semana de 4 dias é tão disruptiva?

Um novo estudo aponta que uma semana mais curta de trabalho pode ser mais produtiva para a empresa e assegurar o bem-estar do trabalhador

Por Cristina De Luca, João Ortega, Marina Hortélio, Silvia Bassi e Soraia Yoshida 10/07/2021
Conteúdo

 

Porque ela quebra com vários modelos em uma só tacada. Primeiro porque ela obriga as pessoas e as empresas a pensar de maneira diferente. Segundo porque ao quebrar com esses modelos, ela apresenta um paradoxo: trabalhando menos dias na semana, as pessoas produzem mais.

Em “The Case for a Four-Day Week”, de autoria de pesquisadores do think tank New Economic Foundation, uma semana de trabalho mais curta deve ser o cerne de uma recuperação pós-pandemia. Eles argumentam que ao encurtar os dias de labuta, os trabalhadores teriam tempo para serem melhores pais e cuidadores, com homens e mulheres dividindo as tarefas não remuneradas de casa de forma mais igualitária. Além da possibilidade de criação de novos empregos, entre os efeitos benéficos estariam níveis mais baixos de estresse e de doenças associadas ao excesso de trabalho.

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Quer mais? Redução na emissão de gases de efeito estufa, economia de energia. Um estudo recente no Reino Unido apontou uma redução de mais de 20% na pegada de carbono com a semana de quatro dias em 2025 – o equivalente a 127 milhões de toneladas. Seria o mesmo que tirar da estrada toda a frota de carros particulares do país.

A ideia de uma semana de trabalho mais curta não é nova. Já em 2007, o escritor e empresário norte-americano Tim Ferris lançou o livro “The 4-Hour Workweek: Escape 9-5, Live Anywhere, and Join the New Rich“, que ficou anos na lista dos best sellers do New York Times por trazer o que o autor chamou de “design de estilo de vida”. Ferris criticava o modelo em que se trabalha muito, com poucas férias, apenas sonhando com a aposentadoria. Segundo ele, seria possível trabalhar quatro horas na semana, mas aparentemente nem ele conseguiu a façanha.

Existe até um movimento em favor, 4 Day Week Global, uma plataforma criada pelo empresário e filantropo Andrew Barnes e por Charlotte Lockhart com essa visão para o futuro do trabalho. Eles lançaram o projeto em 2018, ao implementar a semana de quatro dias no Perpetual Guardian, empresa fundada por Barnes. Foi um arraso. “O que a pandemia fez foi nos mostrar que o modelo tradicional não é necessário para o funcionamento dos negócios. Ela desafiou a falácia de o tempo no escritório ser equiparado à produtividade”, disse o empresário em entrevista.

Nos últimos dois anos, principalmente, empresas e até governos se mostram favoráveis à ideia de que poderia representar um win-win para todos os envolvidos. Antes da pandemia, a Microsoft Japão e a rede de hambúrgueres Shake Shack testaram o programa com alguns funcionários, com resultados positivos. A Unilever na Nova Zelândia está no meio de um experimento de quatro dias que deve durar um ano, com resultados que poderão afetar os mais de 155 mil funcionários da companhia global (vários políticos neo-zelandeses querem semana curta para todo o país). Os governos da Escócia e da Espanha (que vai colocar US$ 60 milhões no programa piloto) planejam um dia de folga remunerada a mais. Até o Japão está pensando em aderir. A lista só faz crescer.

O caso mais recente de sucesso é da Islândia. Pesquisadores realizaram vários testes em grande escala com o modelo de quatro dias de trabalho com “sucesso esmagador”. A produtividade permaneceu a mesma ou melhorou na maioria dos locais de trabalho, disseram os pesquisadores. A pesquisa foi feita entre 2015 e 2019 e, de acordo com os cientistas, resultaram em “evidências inovadoras para a eficácia de redução do tempo de trabalho”. Para os trabalhadores, a semana mais curta se traduziu em aumento de bem-estar, queda no estresse e melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Assim como ficou claro que a flexibilidade tem espaço no mundo corporativo, outros modelos de jornadas merecem ser revistos. Há discussões sobre uma jornada diária de 4 a 6 horas diárias por cinco dias. Poderia ser uma alternativa para quem tem filhos pequenos ou cuida de idosos. O trabalhador teria que ser pontual, trabalhar focado sem perder tempo na internet e produzir para atingir as expectativas. Na Finlândia, esse é o sonho da primeira-ministra Sanna Marin. Na França, a semana é de 35 horas.

Em seu artigo para o Washington Post, Christine Emba diz que deveríamos estar olhando a questão por outro ângulo. “A semana de trabalho de quatro dias não deve ser apenas para sermos mais produtivos – o verdadeiro benefício é que nos permitiria ser pessoas mais completas”, escreve.

 


 

homem jovem diante do computador com mais notebook e tela

Estudos apontam que é possível ter mais produtividade em menos dias ou horas de trabalho

Mais horas, mais produtividade?

Conhece a Lei de Parkinson? Ela foi descrita pela primeira vez em 1955 pelo historiador naval inglês Cyril Northcote Parkinson, em um ensaio escrito para a revista The Economist. Parkinson usou uma série de dados da Marinha Real Inglesa para demonstrar que o volume de trabalho, por menor que seja, tende a ocupar na totalidade o tempo dado para que ele se complete. Por exemplo, uma tarefa que levaria duas horas para ser feita, mas que tem um prazo de 12 horas para ser entregue, ocuparia, sem dúvida, as 12 horas.

Um dos fatores que influenciam a Lei de Parkinson, observa um artigo publicado no blog da Atlassian, é a famosa procrastinação, o hábito de deixar as coisas para o último minuto enquanto enchemos o tempo disponível com bobagens. O artigo da Atlassian, que desenvolve softwares de produtividade, foca no trabalho dos programadores, aquele cuja data final de compleição sempre se estica porque a tarefa ganha cada vez mais complexidade. Por sinal, acrescentar complicadores a tarefas simples é mais uma das peças da Lei de Parkinson.

A Lei de Parkinson não é uma “lei de verdade”, mas ela e todas as suas derivadas, reunidas no livro “Parkinson’s Law: The Pursuit of Progress“, provocam há muito tempo especialistas e empresas a repensarem a organização do trabalho na busca por produtividade. E está cada vez mais claro, especialmente depois de 18 meses de pandemia e exaustivas horas de trabalho remoto, que o número de horas trabalhadas não é igual a mais produtividade.

Seja a semana de quatro dias, seja o dia de 6 ou 5 horas de trabalho, o foco nessa reorganização passa por dar às pessoas instrumentos para realizar o trabalho e serem mais produtivas dentro de prazos coerentes e metas realistas. Não são as horas trabalhadas, mas o que resulta delas que vai impactar o resultado da empresa. Mas isso exige mudança radical na forma como a própria empresa encara o trabalho e o uso produtivo das horas das pessoas que lá trabalham.

“É perigoso para um líder combinar horas trabalhadas com produtividade”, escreve Adrian Gostick, em artigo na Forbes. A pressão por mudanças vem das legiões de millennials e jovens profissionais e já atingiu até o banco Goldman Sachs, colocando seu CEO em uma “saia justa” por conta da insustentável rotina de 95 horas de trabalho imposta pelo banco em nome de cuidar bem dos clientes.

O jornalista brasileiro Gustavo Miller, que trabalha remoto para a empresa canadense Shopify, resume bem o desafio: “Na Shopify, por exemplo, é proibido ter reuniões às quartas-feiras. É o ‘get your shit done day‘”, escreve. A Shopify adota, há dois anos, a semana de quatro dias para o período de verão (mais ou menos quatro meses por ano).

Na Alemanha, 15 milhões de pessoas trabalham meio período, 30 horas por semana, em turnos. Depois de seis meses no emprego, o funcionário pode pedir essa mudança. E isso não quer dizer que a pessoa abriu mão da sua carreira, quer dizer que decidiu por um melhor equilíbrio trabalho/vida pessoal, escrevem as especialistas em RH da empresa alemã OTR.

Os exemplos começam a se empilhar:

 


 

saúde mental ansiedade

Os benefícios para a saúde mental da semana de 4 dias

Você sente que o trabalho afeta sua saúde mental? Uma semana de trabalho de 4 dias pode ser a resposta para os seus problemas, pelo menos é isso que indica um estudo feito na Islândia. Testes realizados no país nórdico entre 2015 e 2019 apontam que a adoção de uma jornada reduzida aumentou o bem-estar e trouxe mais equilíbrio entre a vida profissional e pessoal dos participantes da pesquisa. Com a mudança, muitos funcionários afirmaram se sentir melhor, mais energizados e menos estressados.

Na Nova Zelândia, a experiência da Perpetual Guardian também aponta benefícios da semana de 4 dias de trabalho para a saúde mental dos funcionários. Um White Paper sobre o teste indica que os níveis de estresse caíram de 45% para 38% com a redução da jornada, enquanto o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal saltou de 54% para 78%.

Convidado para analisar o teste realizado pela empresa, o professor Gestão de Recursos Humanos da Auckland University of Technology (AUT), Jarrod Haar, afirma que houve uma queda nos casos reportados de estresse e burnout no trabalho e que os funcionários se sentiram mais satisfeitos com o emprego.

O fundador da Perpetual Guardian, Andrew Barnes, recomenda a mudança: “Ao focar na produtividade e na produção, em vez de focar no tempo gasto no local de trabalho, a semana de quatro dias permite um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal, a maior satisfação do funcionário, a retenção e melhorias da saúde mental”.

No geral, trabalhar menos significa ter menos ansiedade e estresse, além de permitir a criação de melhores relações interpessoais. Ao ter mais tempo disponível, é possível se encontrar mais com as pessoas amadas e dar mais atenção a elas durante esses encontros. Uma semana menor de trabalho também permite que as pessoas simplesmente façam nada, o que também é benéfico.

“Trabalhar menos nos dá a oportunidade de viver autenticamente seguindo nossos próprios interesses inatos, de modo que passemos mais tempo no estado positivo que os psicólogos chamam de “flow” (quando estamos intensamente absorvidos em atividades prazerosas). Temos mais tempo e energia para nutrir nossa criatividade, o que também nos leva a uma vida mais significativa e com mais propósito”, afirma Steve Taylor, professor de psicologia na Leeds Beckett University, em um artigo publicado na The Conversation.

Segundo uma pesquisa da The German Socio-Economic Panel, os efeitos negativos para a saúde mental nem sempre estão ligados a um número excessivo de horas trabalhadas, mas a quando se trabalha mais do que cada indivíduo gostaria. Piores níveis de saúde mental estão interligados com a impossibilidade de ter tempo suficiente longe de estressores e não desligar mentalmente da atividade laboral.

O tempo livre fora do trabalho também tem efeitos de longo prazo, podendo prevenir problemas mais severos como exaustão e burnout, como aponta o report “Burnout Britain: overwork in an age of unemployment”, da 4 Day Week Campaign, Compass e Autonomy. O estudo pontua que o burnout pode envolver a exaustão emocional e aumenta o número de dias fora do trabalho por atestado médico.

Os testes na Islândia apontam alguns impactos positivos da jornada reduzida para a vida do funcionário. Os benefícios incluem:

  • Menos estresse em casa devido a maior quantidade de tempo passada com os companheiros e em atividades domésticas
  • Mais tempo com a família e os amigos
  • Mais tempo para si, o que pode ser aplicado em hobbies, paixões, outros interesses ou apenas descanso
  • Mais tempo para as tarefas domésticas durante a semana, o que libera o final de semana dessas atividades aumentando a qualidade do sábado e domingo
  • Os homens em relações heterosexuais realizam mais atividades domésticas, dividindo as responsabilidades do lar de forma mais igual.
  • Efeitos positivos para os pais solteiros, que podem ter mais tempo para os filhos e para si
  • Efeitos positivos para as pessoas ao redor do trabalhador, como a família e os amigos, que passam a ter mais contato com o integrante do estudo

Vale ressaltar que ter um trabalho também está associado ao bem-estar, mas um estudo de pesquisadores das universidades de Cambrigde e Salford aponta que apenas 8 horas semanais de atividade paga são necessárias para sentir os benefícios do emprego para o bem-estar. A quantidade de horas semanais que cada funcionário pode trabalhar sem afetar a saúde mental depende do gênero. Segundo um estudo de pesquisadoras da Australian National University, o limite é de 34horas semanais para as mulheres e 47 horas para os homens. A diferença acontece porque as trabalhadoras passam mais tempo cuidado de tarefas domésticas e de outras pessoas.

Ao cruzar os dados da do relatório mundial de felicidade de 2019 com informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) descobriu que os cinco países mais felizes da OCDE trabalham mais de 100 horas a menos que a média do grupo. Apesar disso, o WEF aponta que a maior parte das nações mais felizes são nórdicas, onde existem menores níveis de corrupção e uma maior rede de apoio social. Já nos locais mais infelizes, além da maior jornada de trabalho, existem mais problemas financeiros. No final das contas, a alegria é multifacetada.

Atenção para as horas diárias

Apesar das melhorias, nem sempre a saúde mental sai ganhando com a redução da semana de trabalho. Tudo depende de como as tarefas se encaixam na nova organização. Na pesquisa que analisou o caso da Perpetual Guardian, alguns trabalhadores reportaram um aumento do sentimento de estresse e de pressão para completar as tarefas em um menor prazo. Esse sentimento teve uma recorrência maior em pessoas ou times que possuem uma quantidade de trabalho maior.

“Certos times e divisões não puderam participar integralmente ou parcialmente do teste. Outros se encontram tendo que comprimir mais horas de trabalho nos dias de expediente, ao contrário da redução das horas de trabalho. Gerentes, de todos os níveis, acharam particularmente difícil reduzir as horas, como um funcionário ouvido disse: ‘o trabalho não para’. Alguns integrantes da pesquisa questionaram se essa dificuldade é resultado da necessidade de delegar mais trabalho e/ou mudar hábitos e premissas”, pontua o estudo.

A compressão de 40 horas em apenas 4 dias simplesmente não funciona – e não é o objetivo, mas pode acabar ocorrendo. Em um artigo na The Conversation, o professor de saúde pública na Ohio State University, Allard Dembe, pontua que trabalhar mais horas para compensar o dia livre resulta em um acúmulo de estresse e cansaço, o que pode ser perigoso.

Um estudo realizado pelo professor demonstra que o risco de sofrer um acidente na indústria aumenta 37% quando se trabalha mais do que 12 horas por dia. Além disso, trabalhar mais do que 60 horas por semana está associado a um risco 23% maior de sofrer acidentes. “Conforme as horas trabalhadas aumentam, cresce também o risco de acidentes. A maioria dos estudos que eu realizei sugere que há mais probabilidade de perigos quando pessoas trabalham de forma regular por mais de 12 horas por dia ou 60 horas por semana”, afirma Dembe.

O report “Burnout Britain: overwork in an age of unemployment” ainda aponta algumas condições chave para que a redução da jornada de trabalho maximize os benefícios para o bem-estar:

  • As reduções do tempo de trabalho devem assumir a forma de uma redução da semana de trabalho para permitir tempo regular para descansar e se recuperar
  • As reduções no tempo de trabalho não devem aumentar excessivamente a intensidade do trabalho, o que significa que a contratação de mais funcionários pode ser necessária
  • Os trabalhadores devem ser consultados sobre a organização dos novos horários e padrões de trabalho
  • As reduções do tempo de trabalho devem ser feitas por acordo coletivo e fazer parte de um pacote mais amplo de intervenções visa melhorar o bem-estar do trabalhador

 


 

Trabalhar menos gera benefícios ambientais

.A semana de trabalho de quatro dias que passou de uma ideia marginal a uma consideração política pragmática. O Japão está recomendando em suas diretrizes de política econômica. A Islândia instituiu um programa experimental que deu certo . E a Espanha está trabalhando em seu próprio plano. A Escócia também está planejando um piloto nacional que ajudará a subsidiar dezenas de empresas que desejam testar a abordagem. Grandes empresas, como a Microsoft e a gigante de bens de consumo Unilever, estão testando a ideia em alguns mercados.

A pressão por uma semana de trabalho mais curta já estava ganhando força antes da pandemia. Mas os impactos da Covid-19 nos ambientes de trabalhado a tornou mais plausível do que nunca – talvez até necessária. As empresas perceberam que suas políticas de trabalho flexíveis adotadas apressadamente podem ajudar a atrair e reter funcionários, e os trabalhadores provaram que podem se ajustar a mudanças radicais em suas vidas profissionais. De quebra, também pode fazer bem para o planeta. Consequentemente, para suas estratégias ESG.

Na última década, uma série de estudos passaram a alertar para isso. Um deles, de 2012,  descobriu que, se gastássemos 10% menos tempo trabalhando, nossa pegada de carbono seria reduzida em 14,6%. Se reduzirmos as horas de trabalho em 25% – ou um dia e um quarto por semana – nossa pegada de carbono diminuiria em 36,6%. Outro estudo descobriu que se as pessoas nos EUA (que trabalham notoriamente por muitas horas) trabalhassem horas semelhantes às dos europeus (que trabalham muito menos), consumiriam cerca de 20% menos energia. Uma análise mais recente, dos EUA, encontrou uma forte relação positiva entre o número de horas que as pessoas trabalharam e suas emissões de carbono. Quanto mais trabalhavam, mais poluíam. Trabalhar quatro dias por semana, em vez de, digamos, tirar mais férias ou trabalhar menos horas por dia, foi uma ótima maneira de reduzir o impacto ambiental.

Ao trabalhar menos, produzimos menos bens e serviços que exigem recursos preciosos para serem produzidos. Também consumimos menos no processo de realização de nosso trabalho. Menos trabalho significa menos deslocamento com uso intensivo de carbono, menos espaço de escritório que consome energia e menos tempo em sistemas de computador que consomem muita energia. Além disso, trabalhar menos ajudaria a quebrar o ciclo trabalho-gasto. Menos horas de trabalho significam que temos mais tempo para fazer outras coisas, como viajar, preparar comida ou consertar utensílios domésticos quebrados. Também estamos menos propensos a depender de poupadores de tempo ambientalmente caros, como viagens em alta velocidade ou comida para viagem entregue em recipientes de plástico por alguém que anda de motocicleta.

É um ciclo potencialmente virtuoso, pois um ambiente melhor com menos poluentes pode melhorar os níveis de produtividade. Portanto, os benefícios ambientais de uma semana de quatro dias também podem ser vistos como um investimento em capital humano.

Um teste conduzido pelo estado americano de Utah para funcionários do governo mostrou um impacto ecológico significativo com a redução da semana média de trabalho de cinco para quatro dias usando um horário de trabalho comprimido. Durante os primeiros dez meses, o projeto economizou mais de US $ 1,8 milhão (£ 1,36 milhão) em custos de energia e uma redução de pelo menos 6.000 toneladas métricas de emissões de dióxido de carbono com o fechamento do grande prédio de escritórios às sextas-feiras. Se os deslocamentos dos funcionários também forem incluídos, Utah estimou que poderia economizar 12.000 toneladas métricas de CO2, o equivalente a remover 2.300 carros das estradas por um ano, simplesmente trabalhando um dia a menos por semana!

Um estudo recente do Reino Unido, de maio deste ano, concluiu que uma semana de trabalho de 32 horas poderia ajudar a combater as mudanças climáticas, reduzindo as emissões em mais de 20%. Usando dados de várias fontes governamentais e acadêmicas, o relatório produzido pela 4DayWeek ilustra que mudar para uma semana de trabalho de quatro dias até 2025 poderia reduzir a pegada de carbono anual do Reino Unido em 127 toneladas de emissões de GEE, abordando algumas das emissões mais difíceis de descarbonizar do transporte internacional e da manufatura e reduzir a terceirização da poluição para os países mais pobres.

Ao mesmo tempo, esse estudo aponta riscos potenciais associados a uma semana de trabalho mais curta. Por exemplo, a redução do horário de trabalho pode levar a um maior consumo de bens e serviços com maior intensidade de carbono, visto que os consumidores têm mais tempo de lazer. Além disso, se as horas de trabalho forem reduzidas para funcionários individuais, mas não houver mudança nas horas e dias gerais de abertura dos escritórios ou lojas, a redução das horas de trabalho provavelmente levará à contratação de mais funcionários pelas empresas para garantir que outros trabalhos sejam feitos. Um relatório recente concluiu que a mudança poderia evitar um aumento acentuado no desemprego pós-pandemia de Covid.

Dependendo de como as horas de trabalho são estruturadas, isso pode levar a níveis mais elevados de deslocamento geral. Por fim, dependendo do setor, é possível que a redução da jornada de trabalho possa levar os empregadores a compensar o estreitamento da disponibilidade de mão de obra com o aumento do uso de equipamentos automatizados.

Para garantir que o impacto positivo de uma semana de trabalho mais curta seja real, o estudo sugere a adoção de várias políticas governamentais:

  • Fornecer espaços verdes, especialmente em áreas desfavorecidas, incluindo novos plantios de matas e florestas próximas aos centros urbanos.
  • Oferecer mais atividades de lazer gratuitas e de baixo carbono em nível local para apoiar uma mudança em direção a estilos de vida mais focados na vizinhança, com menos deslocamento e mais socialização e construção da comunidade.
  • Promover as condições culturais para a observância voluntária da jornada extra, como regulamentação do horário comercial ou planejamento de festas e eventos públicos culturais, esportivos e comunitários.
  • Aumentar o financiamento para teatros e artes para estimular a participação do público.
  • Expandir o funcionamento de bibliotecas, centros comunitários e campos esportivos para oferecer mais atividades com emissão zero de carbono nos bairros locais. Um maior apoio às possibilidades educacionais e de treinamento para adultos pode ser combinado com mais tempo livre para aumentar as habilidades.
  • Introduzir políticas que limitem a publicidade ecologicamente prejudicial, para apoiar uma mudança cultural do consumo intensivo de carbono.

Para garantir que as pessoas escolham atividades com baixo impacto ambiental, precisamos fornecer uma “infraestrutura de convívio” . Isso significa instalações públicas de boa qualidade que permitem que as pessoas usem seu tempo de maneiras divertidas e que não sejam fatais para o planeta. Exemplos de infraestrutura de convívio incluem parques, bibliotecas, loteamentos, trilhas para caminhada e ciclismo, salões comunitários e campos esportivos.

Felizmente, há cada vez mais evidências de que, quando as pessoas têm folga, elas tendem a gravitar em torno de atividades de baixo impacto ambiental. Quando a França instituiu uma semana de trabalho de 35 horas em 2000, as pessoas desenvolveram valores menos materialistas e tendiam a usar seu tempo livre com suas famílias, descansando ou participando de eventos esportivos ou culturais.

Por que isso é importante?

Para alcançar uma economia mais ecologicamente sustentável, mudar mentalidades não será suficiente, precisamos mudar comportamentos. Uma mudança de comportamento que terá um impacto positivo no meio ambiente é uma semana de trabalho de quatro dias.

Enquanto lutamos para encontrar maneiras de tornar nosso mundo mais sustentável, precisamos identificar inovações que nos proporcionem ganhos tangíveis no curto prazo, mas também sejam boas para o planeta no longo prazo. Com muita frequência, as medidas para enfrentar a crise climática parecem muito abstratas, muito distantes e muito dolorosas. “Trabalhar menos é diferente. Dá às pessoas uma recompensa palpável de curto prazo de tempo livre, enquanto beneficia o meio ambiente a longo prazo”, opina Andre Spicer, professor de comportamento organizacional na Cass Business School at City, University of London.

Sem contar que, nas próximas décadas, uma nova onda de mecanização do trabalho na qual intervirão a robótica avançada e os sistemas de aprendizagem automática, substituirá 47% dos atuais postos de trabalho nos Estados Unidos e 54% na Europa. Nessas circunstâncias, nas quais se terá significativamente menos acesso ao emprego, adotar medidas como os fins de semana de três dias se torna algo essencial para que a vida seja viável em condições econômicas diferentes.

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