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Por que a ideia da semana de 4 dias é disruptiva?

Um novo estudo aponta que uma semana mais curta de trabalho pode ser mais produtiva para a empresa e assegurar o bem-estar do trabalhador

Por Soraia Yoshida 10/07/2021

Porque ela quebra com vários modelos em uma só tacada. Primeiro porque ela obriga as pessoas e as empresas a pensar de maneira diferente. Segundo porque ao quebrar com esses modelos, ela apresenta um paradoxo: trabalhando menos dias na semana, as pessoas produzem mais.

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Em “The Case for a Four-Day Week”, de autoria de pesquisadores do think tank New Economic Foundation, uma semana de trabalho mais curta deve ser o cerne de uma recuperação pós-pandemia. Eles argumentam que ao encurtar os dias de labuta, os trabalhadores teriam tempo para serem melhores pais e cuidadores, com homens e mulheres dividindo as tarefas não remuneradas de casa de forma mais igualitária. Além da possibilidade de criação de novos empregos, entre os efeitos benéficos estariam níveis mais baixos de estresse e de doenças associadas ao excesso de trabalho.

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Quer mais? Redução na emissão de gases de efeito estufa, economia de energia. Um estudo recente no Reino Unido apontou uma redução de mais de 20% na pegada de carbono com a semana de quatro dias em 2025 – o equivalente a 127 milhões de toneladas. Seria o mesmo que tirar da estrada toda a frota de carros particulares do país.

A ideia de uma semana de trabalho mais curta não é nova. Já em 2007, o escritor e empresário norte-americano Tim Ferris lançou o livro “The 4-Hour Workweek: Escape 9-5, Live Anywhere, and Join the New Rich“, que ficou anos na lista dos best sellers do New York Times por trazer o que o autor chamou de “design de estilo de vida”. Ferris criticava o modelo em que se trabalha muito, com poucas férias, apenas sonhando com a aposentadoria. Segundo ele, seria possível trabalhar quatro horas na semana, mas aparentemente nem ele conseguiu a façanha.

Existe até um movimento em favor, 4 Day Week Global, uma plataforma criada pelo empresário e filantropo Andrew Barnes e por Charlotte Lockhart com essa visão para o futuro do trabalho. Eles lançaram o projeto em 2018, ao implementar a semana de quatro dias no Perpetual Guardian, empresa fundada por Barnes. Foi um arraso. “O que a pandemia fez foi nos mostrar que o modelo tradicional não é necessário para o funcionamento dos negócios. Ela desafiou a falácia de o tempo no escritório ser equiparado à produtividade”, disse o empresário em entrevista.

Nos últimos dois anos, principalmente, empresas e até governos se mostram favoráveis à ideia de que poderia representar um win-win para todos os envolvidos. Antes da pandemia, a Microsoft Japão e a rede de hambúrgueres Shake Shack testaram o programa com alguns funcionários, com resultados positivos. A Unilever na Nova Zelândia está no meio de um experimento de quatro dias que deve durar um ano, com resultados que poderão afetar os mais de 155 mil funcionários da companhia global (vários políticos neo-zelandeses querem semana curta para todo o país). Os governos da Escócia e da Espanha (que vai colocar US$ 60 milhões no programa piloto) planejam um dia de folga remunerada a mais. Até o Japão está pensando em aderir. A lista só faz crescer.

O caso mais recente de sucesso é da Islândia. Pesquisadores realizaram vários testes em grande escala com o modelo de quatro dias de trabalho com “sucesso esmagador”. A produtividade permaneceu a mesma ou melhorou na maioria dos locais de trabalho, disseram os pesquisadores. A pesquisa foi feita entre 2015 e 2019 e, de acordo com os cientistas, resultaram em “evidências inovadoras para a eficácia de redução do tempo de trabalho”. Para os trabalhadores, a semana mais curta se traduziu em aumento de bem-estar, queda no estresse e melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Assim como ficou claro que a flexibilidade tem espaço no mundo corporativo, outros modelos de jornadas merecem ser revistos. Há discussões sobre uma jornada diária de 4 a 6 horas diárias por cinco dias. Poderia ser uma alternativa para quem tem filhos pequenos ou cuida de idosos. O trabalhador teria que ser pontual, trabalhar focado sem perder tempo na internet e produzir para atingir as expectativas. Na Finlândia, esse é o sonho da primeira-ministra Sanna Marin. Na França, a semana é de 35 horas.

Em seu artigo para o Washington Post, Christine Emba diz que deveríamos estar olhando a questão por outro ângulo. “A semana de trabalho de quatro dias não deve ser apenas para sermos mais produtivos – o verdadeiro benefício é que nos permitiria ser pessoas mais completas”, escreve.

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