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O futuro do trabalho passa pela colaboração humano-IA, com foco em upskilling, mentoria e preservação do conhecimento institucional (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

Do upskilling à mentoria: o papel da IA no redesenho do trabalho

IA Agêntica e envelhecimento populacional desafiam empresas a criar equipes híbridas, onde humanos e tecnologia compartilham tarefas e aprendizados

Por Soraia Yoshida 31/08/2025

A colisão de duas forças está causando uma nova onda de transformação no mundo do trabalho. O avanço da Inteligência Artificial (IA), principalmente em sua vertente IA Agêntica, está se encontrando com a redução da força de trabalho mais jovem em economias maduras e o envelhecimento da população. O número de novos trabalhadores está em queda. Segundo uma análise da Deloitte, a redução da taxa de participação da força de trabalho é uma tendência nas Américas, o que inclui o Brasil. Nos EUA, a projeção é de queda de 63% em 2023 para 61% em 2033. No Brasil, o IBGE projeta que o número de pessoas com 65 anos ou mais vai dobrar até 2050, passando de 10% para mais de 20% da população.

Há duas leituras que podem vir desses dados: o pânico pela lacuna de profissionais que vai crescer ainda mais ou a possibilidade de aproveitar o momento e a tecnologia para criar uma força de trabalho mais inclusiva. A Deloitte aponta para a segunda alternativa, em que muitas organizações estão explorando maneiras de aumentar a colaboração entre humanos e máquinas no local de trabalho. A IA pode ser usada para preencher lacunas de conhecimento e experiência, qualificar trabalhadores e habilitar novas capacidades de valor agregado.

A nova equipe: humanos + IA

Até 2027, metade das empresas que usam IA Generativa (GenAI) estará testando tecnologias agênticas, capazes de executar tarefas complexas com supervisão limitada. A pesquisa – que ouviu mais de 11 mil trabalhadores em 17 países – mostra que a maioria dos trabalhadores prefere colaborar tanto com colegas humanos quanto com ferramentas de IA. A preferência por essa combinação é majoritária em todas as faixas etárias, ainda que os mais jovens (18 a 44 anos) se sintam mais confortáveis com IA do que os mais velhos. 

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As empresas que desejam aproveitar ao máximo esse modelo híbrido devem:

  • Definir diretrizes claras sobre quais tarefas são da IA e quais são humanas.
  • Estruturar times com a IA como um membro ativo.
  • Reavaliar processos de treinamento e formação de equipes multifuncionais.

Apesar da empolgação com IA, os trabalhadores ainda valorizam a qualidade proporcionada pelas trocas com colegas humanos. Em tarefas como brainstorming, treinamento ou resolução de problemas, os mais jovens (18 a 24 anos) reconhecem que a IA é mais rápida, mas ainda inferior em profundidade e nuance. Isso reforça a necessidade de manter humanos “on the loop” (supervisionando a IA), e não apenas “in the loop” (executando as tarefas), especialmente para atividades com impacto crítico, como compliance, decisões estratégicas ou relacionamento com clientes.

 

Upskilling: da eficiência ao desenvolvimento

Enquanto a IA automatiza tarefas antes executadas por iniciantes – como tomar notas de reuniões – ela também pode estar dificultando o desenvolvimento desses profissionais. Dois terços dos executivos ouvidos na pesquisa acreditam que os recém-contratados estão despreparados, justamente pela falta de experiência prática.

Por outro lado, a IA também pode ser aliada no desenvolvimento de talentos. Cerca de 61% acreditam que ela pode ajudar a capacitar trabalhadores iniciantes, especialmente por meio de feedback em tempo real, aprendizado assistido e coaching automatizado. Estudos como o do National Bureau of Economic Research mostram que a IA Generativa beneficia principalmente trabalhadores menos qualificados, acelerando sua curva de aprendizado e reduzindo desigualdades no local de trabalho.

Embora 67% dos trabalhadores com mais de 65 anos prefiram trabalhar com humanos e IA, apenas 42% dizem estar preparados para usar a tecnologia, contra 54% na média geral. Programas específicos de capacitação para trabalhadores mais experientes podem ser fundamentais. Os trabalhadores mais velhos contam com a vantagem de terem passado por treinamentos anteriormente, o que pode ajudar no processo de upskilling.

Trabalhadores que se sentem preparados para usar IA tendem a avaliá-la melhor em velocidade e qualidade. Isso mostra a importância de programas de alfabetização em IA. O investimento em capacitação pode não só aumentar a produtividade como atrair talentos que valorizam tecnologias de ponta.

Transferência de conhecimento: IA como catalisadora de sabedoria

Cerca de 60% dos gestores acreditam que a IA pode ajudar trabalhadores experientes a compartilhar conhecimentos. Esse percentual chega a 76% entre executivos do C-level. No entanto, cai para menos da metade entre operários e trabalhadores braçais, o que sugere necessidade de ampliar o acesso e adaptação das ferramentas para diferentes funções.

Pesquisas mostram que esse tipo de aprendizado cruzado gera não apenas melhores resultados, mas mais engajamento e propósito, principalmente entre os mais velhos. Um estudo com cirurgiões, por exemplo, revelou que o uso de robôs em conjunto com residentes aumentou o senso de colaboração e aprendizado mútuo.

Com a aposentadoria de trabalhadores sêniores, o risco de perda de conhecimento institucional aumenta. A IA pode ser usada para capturar e disseminar essa sabedoria. O HSBC, por exemplo, criou uma plataforma digital que conecta trabalhadores com base em suas habilidades e lacunas de aprendizado. Um funcionário veterano pode ser pareado com um iniciante, promovendo aprendizado mútuo em projetos reais.

Na Salesforce, o Career Connect usa IA para sugerir mudanças de carreira internas com base nas habilidades transferíveis dos funcionários, como coaching ou gestão de mudanças, mesmo que eles nunca tenham trabalhado na área sugerida. Na Zendesk, uma plataforma baseada em IA cria um marketplace em que as pessoas podem disponibilizar seu conhecimento e se colocarem à disposição como mentores ou mentorados. A ideia é criar comunidades em que as pessoas aprendem umas com as outras, além do conteúdo disponibilizado pela companhia.

Um novo design para o trabalho

A evolução da força de trabalho exige uma abordagem holística. A IA pode ser uma alavanca estratégica para preencher lacunas de experiência, mas não substitui o valor humano. As empresas que entendem como a combinação de inteligência humana e artificial pode destacá-las da concorrência devem:

  • Redesenhar funções para incluir a IA como colaboradora.
  • Criar diretrizes claras sobre tarefas automatizáveis.
  • Equilibrar automação com aprendizado prático.
  • Investir em upskilling contínuo para todas as idades.
  • Usar IA para facilitar mentoria, redes de conhecimento e transição de carreira.

 

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