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O professor de Yale Daniel Markovits: "A desigualdade meritocrática não serve bem a ninguém, escapar da armadilha da meritocracia beneficiaria virtualmente a todos." Crédito: Divulgação
ENTREVISTA

A meritocracia é uma farsa (mas não precisa ser)

Daniel Markovits aponta o que está errado no sistema meritocrático e diz que a meritocracia pode ser revista para deixar de ser uma ferramenta de exclusão

Por Soraia Yoshida 29/10/2021

Como professor de Direito na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas instituições de ensino e parte da Ivy League, o grupo das escolas de elite dos Estados Unidos, Daniel Markovits enfureceu algumas pessoas ao afirmar que o sistema meritocrático exclui todos que não são parte de uma pequena elite. E a elite, por sua vez, mesmo com tantas vantagens na vida – educação, conexões, possibilidades dos melhores empregos – sentia que não “tinha vida pessoal” e era infeliz.

“A meritocracia é uma farsa” é a frase que abre o livro “A Cilada da Meritocracia”, lançado no Brasil pela Intrínseca. Nele, Markovits reúne história e muitos dados para mostrar que de fato há uma exclusão estrutural daqueles que vêm das camadas socioeconômicas mais baixas. Nos Estados Unidos, se calcularmos a diferença entre o que uma família da elite investe na educação dos filhos, em comparação com uma família de classe média e aplicando o valor extra a cada ano no mercado de ações, o total chegaria a mais de US$ 10 milhões por filho, diz ele. Nos tempos da aristocracia, essa seria a herança. Com essa formação de elite, esses filhos de famílias ricas com diplomas das melhores universidades acabam ficando com os melhores empregos, que lhes dão muitas vantagens, que mais tarde serão reaplicadas na educação da próxima geração. E assim o ciclo se perpetua e essa elite controla as vantagens.

Só que aí tem uma pegadinha: esses filhos que tiveram uma educação de elite têm mais oportunidades, mas não mais um carimbo no passaporte para a “vida feita”. Essa visão do sistema falho no qual a meritocracia se transformou “enlaça os ricos com a mesma certeza que exclui o resto, pois aqueles que conseguem chegar ao topo devem trabalhar com intensidade esmagadora, explorando implacavelmente sua educação cara para obter um retorno”, escreveu o autor no artigo “How Life Became an Endless, Terrible Competition” para a The Atlantic. Com isso, o sistema se torna autossustentável porque “os melhores salários são exatamente os que exigem as habilidades que só a educação mais cara proporciona”.

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No fundo, a meritocracia que deveria servir a todos dotados de esforço e talento, acaba não servindo a ninguém. “Mesmo os beneficiários da meritocracia agora sofrem por causa de suas demandas”, escreveu. Para ele, “diagnosticar como a meritocracia fere as elites desperta a esperança de uma cura”. “Estamos acostumados a pensar que reduzir a desigualdade exige sobrecarregar os ricos. Mas porque a desigualdade meritocrática não serve bem a ninguém, escapar da armadilha da meritocracia beneficiaria virtualmente a todos”.

Markovits admite ser também afetado pelo sistema da meritocracia. Filho de dois professores de Direito, ele cresceu falando alemão como sua primeira língua, e após uma adolescência mais tranquila, entrou para Yale, fez mestrado em Economia Matemática na London School of Economics (LSE), Doutorado em Filosofia em Oxford e assumiu o cargo de professor de Yale um ano após sua formatura. Lá ele trabalha nos fundamentos filosóficos do direito privado, filosofia moral e política e economia comportamental. Com um custo anual em torno de US$ 76 mil, cada aluno de Yale tem consciência de que é um privilegiado só por estar ali. O mesmo se aplica ao corpo docente. “Não sou mais virtuoso ou honrado do que qualquer outra pessoa. Eu também estou preso neste sistema”, afirmou ao New York Times.

“A meritocracia produz uma elite que diz servir ao interesse público, mas que, na verdade, serve a si mesma”, disse em entrevista à BBC Brasil. “Uma sociedade justa e eficiente não faz suas regras e políticas básicas com a exceção em mente, e sim com a maioria das pessoas em mente”.

Daniel Markovits conversou com The Shift sobre essa visão da meritocracia que temos hoje e, apesar das críticas, deixou claro que ela pode mudar e seguir seus preceitos originais. “. A ideia de que devemos conectar como estimamos as pessoas por seu esforço e sua virtude e de que as pessoas são responsáveis ​​por suas vidas. Todos esses são princípios sociais e morais atraentes. E não acho que queremos nos livrar deles”.

Disrupção é…

O que tenho em mente com uma disrupção na educação é uma mudança estrutural no sistema pelo qual a educação é oferecida. Portanto, abrir escolas e universidades de elite para um pequeno número de alunos excepcionais de origens menos favorecidas não é uma disrupção. Simplesmente abre a hierarquia meritocrática para alguns estranhos.

Uma ruptura real seria, por exemplo, aumentar maciçamente as matrículas em escolas e faculdades de elite, a fim de diminuir drasticamente a lacuna entre os investimentos educacionais feitos por essas instituições e pelas escolas e faculdades de classe média. A ideia não é simplesmente abrir um clube exclusivo para alguns estranhos cuidadosamente escolhidos, mas sim tornar a elite, em geral, simplesmente menos exclusiva. Como já escrevi em um artigo para a Time, as melhores escolas e faculdades ‘enfrentam uma escolha dura entre igualdade e elegância. Eles devem escolher a igualdade’.

Meu primeiro contato com a meritocracia foi aos 11 ou 12 anos. Toda criança na escola quer se sair bem nas provas e a minha primeira percepção da meritocracia como sistema foi uma forma de exclusão. Eu estudava em uma escola na Inglaterra naquela época e o meu melhor amigo era um menino cujo pai era encanador. Ele era um garoto muito inteligente e sempre tirava boas notas. Mas ele acabou largando a escola aos 16 anos simplesmente porque seu pai não tinha ido à universidade. Nós nunca conversamos sobre isso, mas na casa dele parecia haver uma expectativa de que ele começaria a trabalhar assim que terminasse o sixth form. E quando chegou a hora, a escola não fez qualquer esforço para que ele seguisse com os estudos, simplesmente deixou que ele desistisse. Acho que havia um pensamento de que se o pai dele não tinha feito universidade, não havia razão para que ele fizesse e tivesse uma carreira diferente.

Então, desde muito jovem, eu tinha essa sensação de que meritocracia não é igualdade de oportunidades, ao contrário, é a vantagem que é distribuída com base na realização anterior.

Certas famílias investem mais na educação de suas crianças do que outras. Assim, uma vez que a educação funciona, quanto mais se investe em sua educação, mais você conseguirá realizar e avançar. Esse tipo de história – minha e desse amigo – realmente mostrou que ele não iria investir tanto em sua educação quanto eu por motivos que não tinham nada a ver conosco.

Para quem frequentou uma das grandes universidades, as chances de ter um desses empregos que paga muito bem são muito maiores. Se você olhar para os escritórios de advocacia mais lucrativos dos Estados Unidos, quase todos os sócios frequentaram um número muito pequeno de faculdades de direito de elite. O mesmo acontece com os bancos de investimento mais lucrativos e que pagam os melhores salários: quase todos os profissionais de finanças que trabalham lá se formaram em um número restrito de universidades. Portanto, sem essa educação folheada a ouro, suas chances de chegar ao topo do mercado de trabalho são muito, muito baixas.

Por outro lado, ainda que você se forme em uma dessas universidades, suas chances não são garantidas. Sua vida será competir o tempo todo. Mesmo entre as pessoas que recebem essa educação privilegiada, nem todo mundo realmente sai na frente.

As pessoas que têm a vantagem de estudar em uma escola de elite podem não vencer na vida tão claramente quanto pensam que estão vencendo. Conquistar o prêmio exige muito, muito esforço, muitas vezes em um trabalho que não faz o menor sentido para você.

Toda semana, você gasta 80, 90, 100 horas trabalhando em algo que, se tivesse que se perguntar esse trabalho que faço está tornando o mundo um lugar melhor? Ou as tarefas que estou fazendo são fascinantes e significativas? A resposta é não. Você está trabalhando todas essas horas e está ficando incrivelmente rico, mas não está bem. E assim, o sistema falha com quem teve uma boa educação.

Se a culpa é nossa por aceitar o jogo do sistema? Sim e não. A culpa é nossa no sentido de que, certamente, pessoas excluídas pelo sistema da meritocracia não têm razão para terem empatia pelos nossos problemas. A elite é incrivelmente saudável, rica, mas não é feliz.

Há um segundo sentido em que todos estão no sistema. E ninguém está realmente escolhendo isso livremente. Quando se está em um sistema que é estruturado para recompensar determinado comportamento, é da natureza humana aprender esse comportamento. E é difícil aprender outras maneiras de fazer as coisas.

Eu vejo isso o tempo todo com meus alunos [na Universidade de Yale]. Constantemente, alguns estudantes me perguntam: ‘Como faço para ficar na frente?’ E minha resposta é sempre: com o que você se importa? O que é importante para você? Só depois de responder a essa pergunta, vale a pena se preocupar em como conseguir o que você acha importante.

A primeira pergunta – com o que você se importa? – é muito mais difícil de responder. É preciso muita prática, o apoio de uma comunidade, professores e instituições para que os jovens se façam as perguntas certas. E todas as comunidades, professores e instituições que temos em uma sociedade meritocrática, com muita desigualdade, são projetadas para obscurecer essa questão, ao invés de ajudar os estudantes a respondê-la.

Há duas maneiras pelas quais o trabalho pode valer a pena. Uma é que o trabalho em si é valioso. Você é um cuidador ou está ajudando as pessoas a garantir que a justiça seja feita, ou está fazendo coisas que são valiosas e importantes, como construir edifícios que são bonitos e bons para o convívio das pessoas. Nem todo trabalho será assim.

Em qualquer sociedade, existem todos os tipos de trabalhos que não são atraentes. Mas há outra maneira pela qual o trabalho pode ser recompensador, que é o processo de trabalhar em conjunto com outras pessoas, mesmo que o resultado final não seja particularmente significativo, ainda pode ser gratificante.

É aqui que a organização do local de trabalho realmente importa. Se você tem uma organização do ambiente de trabalho que é relativamente democrática, na qual ninguém fica em cima controlando tudo o que você faz, as pessoas planejam juntas, organizam seu trabalho juntas e têm tempo fora do trabalho para fazer outras coisas, quase todo trabalho pode ser um bom trabalho.

Até mesmo uma tarefa como colar caixas pode ser gratificante. Ninguém nasce pensando ‘eu quero colar caixas’, mas as pessoas precisam de caixas. E se todos na fábrica estiverem pensando em como fazer isso melhor – de uma forma que torne as caixas melhores, a produção mais eficiente e com uma preocupação sustentável – e não há um chefe que está mandando em todo mundo, mas todos os trabalhadores têm uma opinião sobre como eles fazem isso, essa é uma maneira significativa de gastar seu tempo.

O sistema de meritocracia que temos hoje, com alguém sendo o chefe e todos os outros só cumprindo ordens, que produz desigualdade no ambiente de trabalho, está passando por uma reimaginação.

[Em relação ao que está acontecendo agora com essas mudanças em relação à maneira como trabalhamos] vou dizer que sou um pouco cético em relação a essas mudanças. Se você olhar historicamente, enfrentamos epidemias no passado e depois de algum tempo, as coisas voltaram a ser como eram antes. Acho que esse é o padrão histórico. Uma boa aposta é que as coisas voltarão a ser como eram, mesmo que não possamos ver agora que isso vai acontecer.

Por outro lado, eu tenho algumas intuições. Pelo menos nos Estados Unidos, e eu suspeito que isso seja verdade até certo ponto no Brasil, um monte de pessoas que antes eram consideradas trabalhadores não qualificados foram reconhecidos como trabalhadores essenciais quando veio a pandemia. Essas pessoas tiveram enormes contribuições para o bem-estar da sociedade, mesmo que previamente elas fossem desrespeitadas ou pouco valorizadas. As demais pessoas passaram a entender o quão importante e produtivo são trabalhos de entrega, empregos de auxiliar de saúde em casa, cuidadores em lares de idosos, trabalhadores em depósitos. Esses empregos sempre foram importantes, mas especialmente as pessoas da elite não percebiam o quanto eram absolutamente essenciais para o funcionamento da civilização. Então, houve um momento em que as pessoas reconheceram amplamente a importância desses trabalhadores e o respeito que deveriam ter.

Em segundo lugar, o estado concedeu, em face do desemprego em massa, benefícios mais generosos a um grupo inteiro de trabalhadores cujos empregos não pagavam bem e cujas condições tornavam esses empregos pouco atraentes. E muitos deles não querem mais ter esses empregos. Portanto, nos Estados Unidos, agora há mais vagas de empregos em aberto do que pessoas procurando por uma posição. E o motivo é bastante simples: muitos dos trabalhos são realmente desagradáveis ​​de fazer. E as pessoas começaram a pensar ‘Não preciso mais disso na minha vida’.

Pode haver uma espécie de reequilíbrio, no qual as empresas e os empregadores terão que tornar os empregos mais atraentes.

Esse é um fenômeno muito importante, se persistir, porque existem muitos empregos desagradáveis no mercado de trabalho, mais do que deveria haver. E a terceira coisa é que, nos empregos altamente qualificados, mais buscados pela elite, houve uma espécie de reequilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional. Não sei como é o Brasil, mas há muitos de nós, profissionais norte-americanos, que praticamente não temos uma vida pessoal – ou tiveram antes. E durante a pandemia, eles voltaram a ter contato com essa vida pessoal e percebem que é isso que querem – e não estão dispostos a abrir mão disso.

E assim, de todas as três maneiras, parece que a pandemia produziu mudanças realmente grandes no comportamento e na compreensão das pessoas. É difícil entender como as coisas voltariam a ser como eram antes. Mas, claro, com a ressalva de que se você olhar para a história, as coisas tendem a voltar a ser como eram antes.

Há uma quantidade enorme de racismo puro e simples. E discriminação aberta baseada em raça, que mantém as pessoas longe dos melhores empregos e oportunidades. E isso é um problema enorme na minha sociedade e na sua. É diferente do problema da meritocracia.

A meritocracia é, em parte, uma resposta ao problema racial. A meritocracia diz que não importa qual seja sua raça, se você se esforçou e alcançou um determinado ponto, você deve seguir na frente. E o racismo diz que se você é negro ou pardo, mesmo que você consiga atingir esse ponto, você não deve progredir na vida. O racismo tem que acabar.

Outra questão tem a ver com classe socioeconômica e o que fazer sobre o fato de que os ricos investem muito mais na educação dos filhos do que a classe média e a classe trabalhadora. Por isso, os filhos de famílias ricas vão mais longe. Quando chega o momento de escolher quem vai para qual universidade ou quem consegue qual emprego, se você usar a meritocracia direta, as crianças que gastaram mais em sua educação sairão ganhando.

Em relação à educação em universidades de elite, existem duas abordagens, uma das quais eu acho que é errada e outra que é certa. A abordagem errada é procurar pessoas excepcionais de fora da elite e admiti-las em instituições de elite. Essa abordagem é errada não porque essas pessoas não devam entrar em instituições de elite – sim, elas deveriam –, mas porque isso não resolve o problema estrutural. A abordagem certa é tornar as instituições de elite menos elitistas e abri-las para mais pessoas, para que muito mais gente possa ter acesso a essa educação de primeira linha e a outras universidades em geral.

Com isso, poderemos aumentar o número de gerentes nas empresas e ter menos supergerentes, ter uma saúde de qualidade usando mais enfermeiras e menos médicos.

Isso não é uma questão de elevar ou baixar a barra. Abaixar a barra é a ideia errada. A questão é que, neste momento, nós criamos uma fantasia em torno da competição. As pessoas estão competindo em coisas que não têm valor real – e, portanto, não valem a pena. São apenas formas artificiais de competição que nos permitem distinguir quem sai na frente e quem não.

Nos EUA, é assim com o SAT, o teste de admissão padronizado para universidades. Se você for bem no SAT, não significa que você é bom naquilo que é realmente importante; você é bom em SAT, só isso.

O que precisamos fazer é reestruturar nosso sistema educacional e nosso sistema de trabalho para que valorizemos as pessoas que são boas em coisas que valem a pena serem feitas. E quando fizermos isso, descobriremos que há mais e mais pessoas que são boas em alguma coisa.

Pelo SAT, vemos que algumas pessoas fazem parte do 1% de famílias mais ricas dos EUA. Porém, muito mais de 1% da população pode ser um excelente médico ou um excelente professor ou um excelente enfermeiro, se receber a educação e o treinamento corretos.

Se nos livrarmos do SAT e dermos treinamento a todos para que possam fazer seu trabalho com excelência, não estaremos baixando a barra, estaremos redefinindo o que vamos medir, de modo que mediremos coisas que são realmente importantes. Em vez de medir coisas cujo único propósito é excluir pessoas.

Voltemos ao meu amigo da escola cujo pai era encanador. Há duas maneiras pelas quais um país pode fornecer encanamento para as pessoas que vivem nele. Uma é ter encanadores experientes, que podem trabalhar em casas velhas, ajustar canos de maneiras incomuns porque a casa foi construída de forma incomum. Outra maneira de fazer isso é padronizar tudo, fazer com que uma hiper-elite de designers desenhe tudo de um jeito que se algo se quebrar, basta substituir e pronto. Nesse mundo, todo mundo é pouco qualificado. O primeiro regime é aquele em que você tem um grande número de encanadores muito qualificados, que estão fazendo trabalhos interessantes e importantes e trabalhando com casas que precisam de suas habilidades. E é um regime muito mais igualitário, tem um grupo muito maior de pessoas que estão fazendo trabalhos que são significativos e valem a pena e sendo bem pagos para fazê-los.

O que precisamos fazer é reestruturar a forma como educamos as pessoas e a forma como trabalhamos para criar não apenas encanamento, mas também ensino, finanças, direito, medicina, construção, muitos empregos para trabalhadores especializados e de excelência, mas não para o trabalhador supercompetitivo e de super elite.

Neste momento, a tecnologia está ajudando as pessoas no topo da pirâmide e prejudicando todos os demais. Mas não precisa ser assim. Vou dar um exemplo concreto. Eu vi no noticiário que cientistas realizaram o primeiro transplante de um rim de porco em um ser humano. Essa tecnologia favorece médicos superqualificados. Mas aqui está outra coisa que poderíamos nos perguntar: que tipo de intervenções na dieta das pessoas, em seu nível de estresse, em seu regime de exercícios fariam com que menos pessoas tivessem doenças renais? Algumas pessoas contraem doenças renais de uma forma que nenhuma força humana poderia prevenir, mas muitas delas desenvolvem essas doenças porque suas vidas contribuíram com fatores de risco. E se pudéssemos encontrar uma maneira como sociedade para reduzir esses fatores de risco? Provavelmente salvaríamos muito mais pessoas do que jamais faríamos com o transplante de rins de porco.

As pessoas que ajudariam a reduzir os fatores de risco não são médicos superqualificados. São nutricionistas, terapeutas de exercícios, terapeutas cognitivo-comportamentais, professores, inspetores de construção, todo tipo de pessoas que, em conjunto, contribuem para tornar o estilo de vida das pessoas mais saudável. E não estamos investindo muito nessas pessoas porque não temos a tecnologia de que precisam para fazer bem o seu trabalho. Não sabemos como fazer as pessoas se exercitarem de maneira mais eficaz ou como fazer com que as pessoas comam de maneira mais saudável ou mesmo como garantir que as toxinas não estejam presentes nos edifícios. Essas são coisas em que poderíamos investir. Seriam avanços tecnológicos, se descobríssemos as respostas a essas perguntas. E esses avanços tecnológicos produziriam um mercado de trabalho muito mais igualitário.

Antes da meritocracia, tivemos a aristocracia, o patriarcado, várias formas de sistemas de castas, exclusão religiosa. Todos esses sistemas não eram muito bons em dar vantagens à maioria das pessoas.

Há partes da meritocracia que são muito boas. A ideia de que todos, em princípio, podem progredir na vida. A ideia de que estimamos as pessoas por seu esforço e sua virtude. A ideia de que as pessoas são responsáveis ​​por suas vidas. Todos esses são princípios sociais e morais atraentes. E não acho que queremos nos livrar deles.

Quando falo sobre curar, renovar ou melhorar a meritocracia, o que quero dizer é se apegar a esses princípios que são a base da meritocracia. E se livrar das coisas que prejudicam o conceito – de que tudo é uma competição e só quem sai na frente é o vencedor, em vez de o que importa é que você é bom em alguma coisa.

Vivemos em um mundo em que o importante é ser melhor em alguma coisa – e não se você é bom em alguma coisa.

A ideia de que os ricos investem muito mais em seus filhos do que as famílias de classe média e trabalhadoras, para que esses filhos tenham muito mais chance de sair na frente é algo de que precisamos nos livrar. Mas podemos manter a ideia básica de que cada pessoa é valiosa, que as pessoas devem estudar, trabalhar, aprender, tudo isso parece ser uma parte importante da meritocracia que representa um avanço em relação ao regime anterior.

Tudo o que falamos sobre meritocracia é um problema. Agora, o motivo pelo qual ela se tornou tão popular é que representava uma cura para outros problemas. E não devemos nos esquecer disso.

 

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