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Diogo Souto Maior é diretor de políticas públicas da 99 Foto: Divulgação

ENTREVISTA

“Os dados são o diferencial para inovar em políticas públicas”

Diogo Souto Maior, diretor de políticas públicas da 99, trabalhou com políticas públicas clássicas, por sete anos, na ONU. No setor privado, diz ele, a velocidade das mudanças e o acesso aos dados fazem o diferencial para promover impacto social.

Por Silvia Bassi 10/09/2021

Como Diretor de Políticas Públicas da 99, Diogo Souto Maior, que é mestre em política pela Universidade de Londres e doutor em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), vê nos dados o diferencial e a vantagem para avançar com sua missão de co-criar inovação em políticas públicas.  Antes de entrar no setor privado (passou por empresas como Johnson & Johnson e Natura), Diogo trabalhou por sete anos na Organização das Nações Unidas (Etiópia, Turquia, Timor Leste e Estados Unidos), trabalhando com políticas públicas clássicas. “Na 99, por sermos uma empresa de tecnologia, com o DNA de uma startup, temos maior velocidade de execução, e um ingrediente crucial para análise e proposição de políticas públicas, que são os dados”, explica.

“Para uma startup, um horizonte de três anos é quase uma eternidade. Basta ver a quantidade de mudanças e de transformação que tivemos no mundo nesse último ano em termos de dinâmica de vida, hábitos de consumo e inovação em tecnologia”, diz Diogo, em entrevista à The Shift, para falar sobre os resultados de três pesquisas recentes encomendadas pela companhia à FIPE, DataFolha e FGV, para mapear o impacto da economia dos aplicativos na economia geral e as mudanças de comportamento e hábitos dos consumidores, durante a pandemia, que impactam o cenário da mobilidade urbana. Confira a conversa.

Por que uma startup precisa de um diretor de políticas públicas e qual exatamente é o seu papel?

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“A 99 nasceu como uma startup focada em criar soluções para tornar as cidades mais inclusivas e democráticas. Está no nosso DNA criar soluções para desafios em mobilidade, entrega e inclusão financeira, tanto nas principais capitais brasileiras como em cidades do interior de todo o país.

O nosso papel em Políticas Públicas é entender e analisar essa realidade e seu impacto, propor parcerias e uma agenda com o poder público e fomentar inovação e soluções, com base em dados.

Durante toda minha trajetória profissional, que engloba o terceiro setor e empresas privadas, desenvolvi a paixão por co-criar políticas públicas com comunidades, municípios, governo federal, e parceiros, para gerar mudanças positivas. No caso da 99, em particular, o grande diferencial é ter o privilégio de exercer esse trabalho e a vantagem de acesso a dados para gerarmos essa inteligência em políticas públicas, e claro, a velocidade que temos para, através de parcerias, inovar”.

Comparando com todas as suas experiências, você diria que o impacto sobre políticas públicas de uma startup ligada à economia compartilhada é maior e, portanto, a responsabilidade aumenta?

“Sim, sem dúvida. No caso da 99, por sermos uma empresa de tecnologia, com o DNA de uma startup, temos como diferencial positivo maior velocidade de execução, e um ingrediente crucial para análise e proposição de políticas públicas, que são os dados.

Através de parcerias com a USP, CEBRAP, Centro de Liderança Pública (CLP), FGV ou outros grandes nomes, temos o potencial de criar soluções em conjunto e seguir para sua rápida implementação. Essa velocidade cria mais oportunidades de transformação e impacto positivo. Um dos motivos da minha decisão de deixar a ONU e migrar para o setor privado foi para ter a oportunidade de gerar impacto em maior velocidade, e com soluções que de fato respondam aos desafios do presente e futuro de todos nós. E eu encontrei isso na 99.

Para uma startup, um horizonte de três anos é quase uma eternidade. Basta ver a quantidade de mudanças e de transformação que tivemos no mundo nesse último ano em termos de dinâmica de vida, hábitos de consumo e inovação em tecnologia”.

Qual o maior desafio, no caso das startups de economia compartilhada, para conseguirem se manter disruptivas e, ao mesmo tempo, garantirem que geram impacto positivo e inclusivo para a economia?

“O desafio é cuidar para sempre operarmos no presente, mas com um olhar no futuro. Precisamos entender muito bem os diferentes ângulos das dinâmicas atuais, seja em mobilidade, entrega ou inclusão financeira, para criar soluções através de um diálogo aberto com governo, sociedade, academia e parceiros. Na 99, isso é praticamente um mantra.

Empresas digitais são velozes, o que exige um compromisso para criar pontes, escutar os diferentes stakeholders e entender os diferenciais do percurso.

Por isso a 99 investe tanto em pesquisas e faz questão de participar de debates e construções em diferentes organizações como Instituto Ethos, Associação Brasileira de Mobilidade (AMOBITEC), FECOMÉRCIO, Movimento Brasil Empreendedor (MBC), CEBRAP, Centro de Liderança Pública (CLP), entre outros.

Apenas em 2021, publicamos uma pesquisa sobre o impacto financeiro positivo do Aplicativo na Economia em parceria com a FIPE (Fundação Instituto de Políticas Econômicas), uma pesquisa com o DataFolha para entender hábitos de uso dos aplicativos de transporte e a mudança do perfil e uso pela classe C – para entendermos se nosso objetivo de inclusão é real, o que a pesquisa confirmou -, e uma pesquisa com a FGV para entender o retorno financeiro e de conveniência que é gerado para uma pessoa, quando ela utilizar mais de um serviço do ecossistema da 99 (Mobilidade, Entrega, Delivery de Comida ou Carteira Digital)”.

Esse é o segundo ano em que a pesquisa da FIPE é feita, e este ano a geração de renda já é 16% maior que o do primeiro ano, no meio de uma pandemia. O que há de mais relevante nos resultados, especialmente se olharmos pelos aspectos regionais?

“A pesquisa foi muito importante, porque confirma a relevância da nossa atividade para a economia do país e, claro, nos aponta caminhos para cidades mais democráticas e inclusivas.
Segundo a pesquisa, apesar dos desafios impostos pela pandemia, a plataforma foi responsável pela injeção de R$ 15 bilhões na economia, o que representou 0,121% do PIB em 2020, além da geração de 331 mil empregos indiretos. Os resultados da pesquisa reafirmam a contribuição e o compromisso para reativação da economia, a geração de renda e a construção de cidades mais inclusivas em um período tão desafiador.

Em nível nacional, o grande diferencial é ter gerado mais contribuição para o país pelo segundo ano consecutivo em todas as regiões do Brasil.

Além disso, pudemos constatar que temos grande capilaridade: estamos presentes em mais de 1600 cidades. Quando comparamos os resultados regionais com o ano anterior vemos que o crescimento se deu em todos os estados. Em São Paulo, injetamos R$ 5,5 bilhões na economia e foram gerados 97 mil empregos indiretos, o que representa 0,25% do PIB estadual. Mais ao Sul, temos Santa Catarina, onde geramos renda de R$ 476 milhões, referente a 0.14% do PIB do estado, com a geração de 11 mil empregos indiretos. Dois casos que também vale destacar estão no Norte e Nordeste: se considerarmos nossa atuação na Bahia, a 99 foi responsável por injetar R$ 444 milhões na economia do estado e gerar 12 mil empregos indiretos. E em Manaus, 99 destacou ainda mais seu compromisso, injetando R$ 455 milhões (0.43% do PIB do estado), além de 11 mil empregos indiretos gerados”.

Como cada pesquisa impactou ou mudou tomadas de decisão de negócio?

“As avaliações alimentam nosso planejamento com insights para ajustes de rota, ou até mesmo a criação de novas soluções e serviços. É um círculo virtuoso positivo, que faz parte do processo de inovação da 99. As pesquisas sinalizam, por exemplo, a importância de pensar soluções para regiões periféricas de São Paulo, onde a maioria das pessoas que moram nessas localidades não tiveram o privilégio de fazer “home-office” e temem o uso do transporte coletivo durante a pandemia de Covid-19. Nesse período, a 99 investiu R$ 157 milhões para desenvolver novos produtos e soluções, itens de segurança e proteção sanitária. O resultado foi um avanço significativo do uso da plataforma por usuários das classes C e D, que viram na plataforma um serviço confiável e acessível. Essa é a cidade inclusiva e democrática que buscamos construir a cada dia”.

Na pesquisa do DataFolha, o que ficou visível foi que as pessoas procuraram no aplicativo uma forma de chegar no trabalho um pouco mais seguras, e aí o uso pela classe C aumentou, confere?

“A pesquisa foi aplicada entre abril e maio deste ano, com 1.542 pessoas com idades entre 18 e 75 anos. Ela envolveu as classes A, B e C em seis grandes cidades do Brasil. O grande mote da pesquisa foi a percepção de mudança de hábitos durante a pandemia e, para nós, ficou claro que a 99 cumpriu e segue cumprindo o papel de oferecer um serviço inclusivo e seguro.

Segundo a pesquisa, 37% dos brasileiros aumentaram a frequência de uso do aplicativo para mobilidade, sendo que 25% passaram a usar por causa da crise sanitária. A maioria dos usuários nesse período são mulheres (73%). Além disso, uma quantidade significativa de usuários experimentou o aplicativo durante a pandemia pela primeira vez, e 82% afirmaram que pretendem manter ou aumentar essa frequência de uso. É uma porcentagem muito alta e que reflete a qualidade da experiência que tiveram com a 99.

Na classe C, os números também são positivos: 40% dos usuários aumentaram o uso do aplicativo, 31% passaram a utilizar o serviço na pandemia e 75% pretendem manter ou ampliar o uso. É um impacto muito grande e justo nas regiões periféricas, que está aliado ao nosso propósito de promover cidades mais inclusivas. O serviço de mobilidade da 99, portanto, foi e continua sendo uma solução importante para muitos brasileiros durante a pandemia”.

Vamos falar sobre a pesquisa da FGV. Ela mede todo o ecossistema da 99 que inclui a mobilidade, a carteira digital 99 pay e o 99Food, para delivery de comida e a conclusão é que o uso do conjunto traz vantagens econômicas para quem usa. Pode explicar melhor?

“A pesquisa da FGV traz uma nuance diferente, porque ela analisa o ecossistema da 99, entendendo a plataforma como um super app. A conveniência em diferentes serviços traz mais valor e retorno financeiro para o usuário ao utilizar mais de um serviço da plataforma.

A pesquisa indicou, por exemplo, que para cada real utilizado na plataforma, o usuário recebe R$1,45. É uma economia de 31%. Ela mostrou ainda que a 99, como plataforma, vai além da conveniência, oferecendo também otimização de recursos, geração de economia e benefícios para os usuários.

Esse retorno se dá pela proposta de valor da 99, de oferecer um portfólio de serviços e facilidades integradas. Ao utilizar a plataforma, o usuário recebe cupons, evita custos transacionais e operacionais, além de ter uma conveniência única literalmente na palma da mão, seja para solicitar uma corrida e pagá-la com 99Pay, ou utilizar o 99Food para a entrega de comida do seu restaurante favorito. Os benefícios ao se utilizar a plataforma incluem desde vouchers, como comentei, até opções de cashback”.

Os motoristas parceiros, são um pedaço da equação e um pedaço do desafio, já que de complementação de renda, que era o plano original, os aplicativos da economia compartilhada passaram a ser para muitos a única fonte de renda no meio da crise econômica. Como entra no circuito a regulamentação dessa prática?

“É importante fazermos um “zoom-out” histórico do momento presente. Em períodos de revoluções industriais e tecnológicas, a inovação chega primeiro para, em seguida, serem definidos os marcos regulatórios. E esse processo se deu e se dá em todos os mercados, não apenas na economia compartilhada. Estamos falando do mercado de hospitalidade, energia, telecomunicações, e muitos outros.

Por entender sua urgência e importância do tema do futuro do trabalho, a 99 integra e lidera debates com o Instituto Ethos, com a Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), e com a Associação Brasileira do Offline to Online (ABO2O), que hoje conta com mais de 140 associadas de todos os setores da economia digital.

Estamos na fase de definições e próximos passos dessa transformação que, em diferentes graus de maturidade, nos atingem na mobilidade, entrega e em outros tipos de serviços digitais. Mantemos uma escuta ativa, com diálogo com os motoristas parceiros, entregadores, o governo e outros players da economia digital”.

No cenário que vem agora, pós-pandemia, o que está no seu Road Map?

“Quando falamos de políticas públicas e relações com o governo hoje, vamos fortalecer cada vez mais o compromisso da 99 com o Brasil. Na prática, estamos trabalhando para reforçar serviços e parcerias com municípios, desenvolvendo pesquisas e firmando acordos com organizações que representam e entreguem nosso valor para a sociedade nos temas de cidades inteligentes e inclusivas, futuro do trabalho, segurança e mobilidade.

Para o futuro, daremos um passo ainda mais forte para destacar nosso papel em gerar valor para as cidades e para o debate público nos temas que façam parte do nosso negócio.

Hoje já temos tanto parcerias com municípios – como Porto Alegre e São José dos Campos, por exemplo, para inteligência em políticas públicas com base em dados -, quanto com organizações, como o Centro de Liderança Pública (CLP), onde estamos apoiando o curso de Formação de 80 Líderes Públicos de todo o Brasil e desenvolvendo um índice de Mobilidade. Além disso, somos parceiros do CEBRAP no incentivo à pesquisa sobre o papel dos aplicativos para mobilidade, e também de grandes instituições como FGV e FIPE para o desenvolvimento de pesquisas como as que eu citei anteriormente”.

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