Dois retratos do estado atual da gestão de pessoas. No relatório da McKinsey mostra uma função tecnicamente em transição, planejando demais no curto prazo, automatizando de menos, subestimando a velocidade da mudança de competências e tentando equilibrar uma força de trabalho cautelosa cujo foco voltou-se para salário e segurança. A análise do Talent Strategy Group desvenda uma função humanamente dividida, incerta sobre seu propósito, fraturada entre quem acredita no negócio e quem o vê com ceticismo, mais brilhante no topo e mais estagnada no meio.
A pergunta que une os dois documentos é a mesma: o RH conseguirá liderar a maior transformação organizacional em décadas se ainda não resolveu quem é?
Mas vamos por partes. No “HR Monitor 2026”, a McKinsey afirma que o RH atravessa “um momento de definição”. Pressões econômicas, disrupções trazidas pela adoção da IA e expectativas de mais mudanças estão redefinindo o que significa “gerir pessoas com eficácia”. Segundo o relatório, persistem lacunas estruturais entre planejamento operacional e visão estratégica, treinamento e crescimento de competências, expectativas dos colaboradores e respostas das organizações, e entre a experimentação com IA e impacto em escala.
O relatório, que mediu o desempenho operacional da função em dez países, ouvindo cerca de 1.300 profissionais de RH e 5.500 funcionários, identificou cinco mudanças prioritárias que lideranças organizacionais precisam abraçar na era da colaboração humano-IA.
É preciso ir além do planejamento operacional de capacidade para o planejamento estratégico de capacidades. O dado que sustenta esse alerta: apenas 11% das organizações adotam uma perspectiva de longo prazo no planejamento de pessoal, ou seja, projetam suas necessidades de força de trabalho para três anos ou mais à frente. Quase dois terços trabalham com um horizonte de até 12 meses.
Segundo análises do McKinsey Global Institute, se a IA for adotada em ritmo moderado até 2030, até 30% das horas de trabalho atuais na Europa e nos Estados Unidos poderiam ser automatizadas. Mais de 70% das competências de hoje devem permanecer relevantes, mas praticamente toda ocupação passará por mudanças nas habilidades exigidas, com tarefas sendo realocadas entre humanos e sistemas inteligentes.
A consultoria também destaca uma estatística que dá dimensão à importância do tema: empresas do S&P 500 que se destacam por maximizar o “retorno sobre talento” geram 300% mais receita por empregado em comparação com a empresa mediana. Em outras palavras, tratar o talento com o mesmo rigor estratégico que se dá ao capital financeiro é diferencial de resultado.
O segundo grande tema é o de aquisição de talentos. Mesmo num cenário mais favorável às empresas, a eficácia na contratação tornou-se vantagem estratégica. A taxa de aceitação de ofertas subiu para 59% globalmente, ante 56% no ano anterior. O grande gargalo continua sendo a velocidade. O tempo mediano para contratar – da aprovação da vaga à aceitação da oferta – é de 70 dias, com média superior a 90 dias. As organizações que estão na frente completam o mesmo processo em pouco mais de um mês e meio (49 dias). A diferença faz com que as empresas com ciclos mais longos registrem taxas de aceitação mais baixas, perdendo candidatos preferenciais para concorrentes mais ágeis.
Quanto ao que leva as pessoas a trocar de emprego, remuneração e benefícios lideram, citados por 47% dos profissionais. A segurança no emprego saltou para o terceiro lugar (36%), uma mudança expressiva frente a 2025, quando era o fator menos importante, sinalizando uma força de trabalho mais avessa ao risco. A importância percebida das oportunidades de treinamento e desenvolvimento, por outro lado, caiu 12 pontos percentuais.
A gestão de desempenho voltou ao topo da agenda dos líderes, mas a ambição ainda não se traduz em prática. A participação em iniciativas de aprendizagem permanece limitada: 24% dos colaboradores relatam participação zero em treinamento no último ano, uma proporção que sobe para 35% na Holanda e na Alemanha. Aqui aparece uma distorção de percepção: os funcionários relatam, em média, 3,4 dias de treinamento por ano, enquanto os profissionais de RH estimam quase o dobro, 6,2 dias. Basicamente, o RH superestima tanto a participação em treinamentos quanto a importância que os colaboradores atribuem às oportunidades de desenvolvimento.
A frequência de feedback é outro ponto de contenção. Mais da metade dos colaboradores recebem feedback formal apenas uma ou duas vezes por ano, e um em cada cinco não teve nenhuma reunião de desenvolvimento ou sessão de feedback nos últimos 12 meses. As estruturas de feedback permanecem altamente hierárquicas: o feedback formal vem principalmente de gerentes de linha (68%) e gerentes seniores (50%), enquanto o feedback estruturado entre pares é relatado por apenas 15%.
No campo da IA, 71% dos profissionais esperam que a tecnologia afete seu trabalho, mas o treinamento formal varia muito entre regiões. Na Europa, apenas 25% dos funcionários relatam ter recebido treinamento em IA Generativa, contra 31% nos Estados Unidos e 49% na China. A frequência de uso reflete o mesmo abismo: 36% dos europeus usam ferramentas de IA diariamente ou várias vezes por semana, ante 47% nos EUA e impressionantes 77% na China.
Em meio à instabilidade econômica, a mobilidade no mercado de trabalho está em queda. O atrito voluntário caiu dois pontos percentuais ano a ano, situando-se em 4% globalmente, mesmo com níveis de satisfação dos funcionários amplamente estáveis. Apenas 17% dos colaboradores planejam mudar de empresa nos próximos seis meses, uma queda em relação aos 23% de um ano antes. A remuneração tornou-se o principal motor de retenção, citada por 52% dos funcionários, uma alta impressionante de 24 pontos percentuais, subindo do quinto para o primeiro lugar. Em seguida vêm o equilíbrio entre vida pessoal e profissional (46%, alta de 12 pontos) e a segurança no emprego (45%, alta de seis pontos).
A McKinsey faz uma ressalva importante, ancorada em pesquisas anteriores: a remuneração funciona primordialmente como “condição básica do trabalho”. Se os colaboradores se sentem mal pagos, tendem a ficar insatisfeitos e a sair. Mas quando consideram seu salário competitivo, outros fatores como flexibilidade tornam-se mais decisivos para ficar na empresa. O problema é que 57% dos funcionários relatam não ter qualquer mudança salarial nos últimos 12 meses, uma proporção que chega a cerca de três em cada quatro trabalhadores na Itália. E o futuro é cauteloso: apenas 40% dos profissionais de RH esperam aumentos salariais em suas organizações nos próximos 12 meses.
Contrariando as narrativas geracionais, o relatório indica que remuneração e benefícios figuram em primeiro lugar para todas as gerações; equilíbrio de vida e segurança no emprego vêm logo atrás. O “significado do trabalho”, ou seja, o propósito ou uma razão maior para o trabalho aparece apenas em sexto na maioria das gerações, desafiando o mito de que a Geração Z seria a mais movida por propósito. Sobre o trabalho remoto ou híbrido, os dados sugerem um novo equilíbrio: empresas que oferecem essa possibilidade permitem, em média, 2,8 dias por semana, mas os colaboradores usam apenas 1,9 dia. A diferença é de 0,6 dia a menos que em 2025. Apenas 30% dos funcionários preferiam trabalhar mais remotamente (queda de oito pontos), e 46% estão satisfeitos com o modelo atual (alta de 12 pontos).
O quinto tema levantado pela McKinsey talvez seja o mais estratégico: o modelo operacional do próprio RH. O tradicional modelo Ulrich, composto por business partners, centros de serviços compartilhados e centros de excelência, está cedendo gradualmente a configurações mais ágeis e habilitadas por tecnologia, mas a maioria das organizações permanece em transição híbrida. Entre os profissionais ouvidos, 32% ainda operam primariamente sob o modelo Ulrich, 18% sob um modelo pré-Ulrich baseado em generalistas, e 34% afirmam operar sob um modelo de RH ao menos parcialmente ágil. Apenas 15% relatam operar um modelo fortemente “machine-powered”, um número modesto, mas que representa um aumento importante frente aos 6% de pesquisas anteriores da McKinsey.
O potencial de automação é amplamente reconhecido, mas a adoção patina. As empresas têm soluções de IA operacionais em apenas 28% dos processos de RH globalmente, enquanto 37% permanecem em fase piloto. O avanço foi de zero a seis pontos percentuais, dependendo do domínio. A própria percepção dos profissionais de RH sobre o potencial de automação mudou: eles estimam que 20% das funções centrais de RH podem ser automatizadas, contra mais de 30% no ano anterior. Um sinal de que o setor passou da euforia inicial para uma avaliação mais realista da complexidade de implementar IA nos processos de RH.
A China lidera a adoção, com IA operacional em 43% dos processos de RH, seguida por Reino Unido (39%) e Estados Unidos (37%). A Europa continental fica para trás, com apenas 23% das soluções em uso operacional.
A McKinsey defende que o RH precisa assumir um “mandato duplo”: ser ao mesmo tempo o copiloto da empresa no que se refere a IA, ajudando a redesenhar o trabalho, repensar o planejamento da força de trabalho e construir fluência em IA em escala, e que ao mesmo tempo funcione como um farol (“lighthouse”), liderando pelo exemplo ao reimaginar seus próprios processos. A conclusão do relatório diz o seguinte: “A mudança rumo a organizações habilitadas por IA e agênticas representa a maior oportunidade que a função de RH teve em décadas.” Mas adverte que dois caminhos se abrem: em um deles, o RH assume a liderança da transformação, e no outro, vê suas responsabilidades absorvidas por TI e outras funções digitais, perdendo relevância dentro da organização.
Como praticamente todos os relatórios sobre IA e trabalho apontam, estamos passando por uma transformação no mapa de habilidades. A Resolução de Problemas continua sendo a competência futura mais citada, mencionada por 44% dos profissionais de RH entre suas cinco principais. A criatividade saltou para o segundo lugar (no ano anterior figurava em quinto). A Análise de Dados e IA permanece entre as três mais citadas.
O movimento mais revelador, porém, está nas extremidades. A importância do desenvolvimento de software e de outras competências técnicas altamente especializadas vem caindo, refletindo que sistemas de IA assumem cada vez mais essas tarefas. Em contrapartida, competências necessárias para guiar, interpretar e aplicar os resultados da IA ganham protagonismo. A Alfabetização Digital foi a habilidade que mais subiu, passando do 20º lugar para a 6ª posição em um único ano. A Capacidade de Raciocínio subiu da 12ª colocação para a 9ª posição.
Curiosamente, os profissionais de RH parecem subestimar a magnitude dessa mudança. Segundo o relatório, 23% dos funcionários carecem de pelo menos algumas das competências exigidas para sua função atual. É um número que, embora tenha caído nove pontos percentuais em relação ao ano anterior, ainda é elevado. As maiores lacunas estão nos setores Químico (30%), Público e Social, e Eletrônica (28%). A McKinsey observa que esses números podem estar abaixo da realidade futura, já que o McKinsey Global Institute projeta que quase toda ocupação experimentará mudanças de habilidades nos próximos anos.
O relatório “2026 Global Human Resources Report” traz estampado em letras superlativas: “Who are We?”, ou “Quem somos Nós?”. Diz muito sobre o estado das coisas em Recursos Humanos, um setor que está passando por transformações internas e externas. Baseado em mais de 500 respondentes a uma pesquisa realizada no primeiro semestre de 2026, à primeira vista, a resposta parece uma charada: “O RH não é uma profissão. São várias.”
O relatório organiza a categoria em quatro “campos” distintos, cruzando dois eixos: otimista versus pessimista, e comercial versus não comercial. A estatística que abre o documento: 50% dos profissionais de RH não concordam que as empresas são, de modo geral, uma força para o bem no mundo. Detalhando: 32% se declararam neutros, 15% discordaram e 3% discordaram fortemente.
Os quatro quadrantes revelam tensões profundas:
Otimista Comercial (35%) é descrito como a identidade profissional mais coerente do levantamento e a que mais se aproxima do perfil de quem chega ao topo. Acredita que as empresas são uma força para o bem e está no RH primordialmente para ajudar a organização a prosperar financeiramente. Tem o maior engajamento (4,06, ou 77%), o menor estresse (2,92) e a maior disposição ao sacrifício. Nessa categoria, 62% aspiram ao cargo de CHRO e 83% recomendariam o RH a um jovem.
Otimista Não Comercial (15%) compartilha a crença na bondade das empresas, mas está no RH para desenvolver pessoas, não para impulsionar desempenho financeiro. É o perfil mais propenso a aspirar ao cargo de CEO (17%, três vezes a taxa de qualquer outro quadrante).
Pessimista Comercial (24%) combina ambição comercial sustentada, mas sem confiança institucional. É o grupo mais sênior: 19% têm o título de CHRO, a maior proporção. As pessoas desse perfil trabalham longas horas, são motivadas financeiramente, muitas chegaram (ou estão se aproximando) ao topo, mas não acreditam que empresas sejam, em geral, forças para o bem. Apenas 60% recomendariam o RH a um jovem, a menor taxa de todos.
Pessimista Não Comercial (25%) carrega a menor disposição ao sacrifício (3,24 de 7) e está empatado na menor pontuação de engajamento (3,53, ou 58%). É o grupo mais jovem e júnior, com maior representação feminina (62%) e o mais concentrado em gestão de talentos e em treinamento e desenvolvimento. Apenas 29% aspiram ao cargo de CHRO.
O relatório levanta a provocação que dá título a um de seus capítulos: “Existe uma ala anticorporativa no RH?”. Os dados alimentam a pergunta: 41% afirmam que ajudar o negócio a ter sucesso financeiro não é uma razão primária para estarem no RH, e 40% concordam que “os trabalhadores deveriam ter mais poder de negociação por salários e condições”, um sentimento pró-trabalho que, observa o relatório, é frequentemente contrário à postura das empresas que esses profissionais representam. E quando “conhece profundamente o negócio” aparece como a competência pior avaliada entre sete opções, o levantamento sugere ao menos uma antipatia em relação ao mundo dos negócios.
A intensidade do trabalho é outro ponto de destaque no estudo do Talent Strategy Group. Os respondentes trabalham, em média, 49,4 horas por semana; mais de 80% trabalham mais de 40 horas e quase 40% ultrapassam 50 horas semanais. O engajamento médio é de 3,73, com 65% se classificando como altamente ou extremamente engajados, um número que, embora pareça positivo, está em queda: era 72% em 2019 e 70% em 2024, uma redução de 10% em sete anos.
Mais horas não reduzem o engajamento, ao menos até certo ponto. O pico de engajamento aparece entre quem trabalha de 51 a 60 horas semanais (3,90). E, consistente com a Lei de Yerkes-Dodson, que diz que quem relata sentir estresse “às vezes” tem o maior engajamento de qualquer grupo (3,91, ou 73%). Há, porém, um precipício depois disso: o engajamento despenca para 3,54 (59%) entre os que sentem estresse “frequentemente” e para 3,14 (36%) entre os que o sentem estresse “muito frequentemente”.
O grupo mais desengajado da profissão é o de profissionais com 9 a 15 anos de experiência situados três níveis abaixo do CHRO, que registram engajamento de 44% (3,17), 21 pontos abaixo da média. São pessoas com experiência suficiente para saber o que estão perdendo, mas sem senioridade para provocar mudança. O relatório descreve uma “lacuna entre capacidade e poder”, vivida ao longo de anos, que corrói a motivação. A aspiração ao cargo de CHRO despenca de 58% entre os diretos do CHRO para 18% entre os que estão quatro ou mais níveis abaixo.
O RH é melhor no nível do CHRO. Os CHROs comportam-se de forma muito diferente dos demais profissionais do setor: 82% se dizem altamente ou extremamente engajados. Nenhum se declara desengajado. O engajamento médio chega a 4,18 (82%), o estresse é menor (2,92) apesar de trabalharem mais horas (54,2 por semana), e a disposição ao sacrifício é excepcional (5,19 de 7, mais de dois pontos acima da média amostral de 3,73).
A visão de mundo, porém, separa os CHROs do restante: apenas 20% dos CHROs concordam que os funcionários deveriam ter mais poder de negociação, contra 58% dos analistas e 51% dos gerentes seniores. Ainda assim, nem mesmo no topo o otimismo é universal: 55% dos CHROs concordam que empresas são uma força para o bem, e 45% dos líderes seniores não compartilham dessa crença. Mas há um detalhe curioso: os CHROs se avaliam com altíssimo conhecimento de RH (72% dizem que isso os descreve completamente), mas o conhecimento profundo do negócio é seu ponto fraco autodeclarado (apenas 28% afirmam que descreve completamente).
Vale registrar a transparência metodológica do relatório do Talent Strategy Group: ele reconhece possível viés para profissionais de RH de longa data e predominância de respondentes dos EUA, declarando-se uma “pesquisa, não ciência”. A própria firma admite ter usado IA intensivamente – basicamente o Claude, da Anthropic – na análise e produção do documento, com reescrita humana posterior.
Para incentivar as reflexões sobre o novo papel do RH, é importante entender o alcance da IA na transformação do trabalho, o papel humano dentro da mudança e o que deve vir pela frente. Listamos a seguir alguns estudos que podem ajudar na discussão.
Dois grandes relatórios de 2026 — da McKinsey e do Talent Strategy Group — revelam uma função de RH tecnicamente em transição e humanamente fraturada: só 11% das empresas planejam talento no longo prazo, a adoção de IA patina em...
Dados de TalentLMS, Cornerstone, BCG e Deloitte revelam por que o desenvolvimento de skills precisa virar processo contínuo, e não projeto pontual
Na véspera da abertura da Copa do Mundo no Brasil, o Google reuniu executivos, parceiros e convidados em São Paulo para anunciar lançamentos que vão de IA aplicada ao futebol e à saúde até novos recursos do Gemini, do YouTube e da Bu...
Pesquisas com milhares de trabalhadores nos EUA e no Reino Unido revelam que 72,8% dos executivos C-level usam ferramentas de IA não autorizadas — e a maioria não pretende parar, mesmo sabendo dos riscos
De deepfakes de executivos a agentes de IA manipulados por instruções ocultas, os ataques de identidade digital evoluíram, mas os programas de defesa da maioria das organizações ainda operam no passado
Pesquisa global com quase 12 mil profissionais mostra que 74% dos trabalhadores já usam IA regularmente — mas a maioria das organizações ainda não sabe como converter esse uso em valor real
Aproveite nossas promoções de renovação
Clique aquiPara continuar navegando como visitante, vá por aqui.
Cadastre-se grátis, leia até 5 conteúdos por mês,
e receba nossa newsletter diária.
Já recebe a newsletter? Ative seu acesso
