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Crédito: Divulgação

ENTREVISTA

Que tal deixar as crianças escolherem o que querem aprender?

Com mais de 40 anos de experiência em sala de aula, Esther Wojcicki agora está levando seu conhecimento para uma startup em que estudantes criam conteúdo para crianças

Por Soraia Yoshida 12/03/2021

“Você já tentou fazer isso sozinho?” não é bem o tipo de resposta que um aluno espera ouvir da professora. Mas até aí nem todos os alunos tiveram a chance de ter a norte-americana Esther Wojcicki como professora.

Com mais de 40 anos de experiência em chão de sala de aula, a professora norte-americana Esther Wojcicki é uma mulher sem firulas. Ela é assertiva, vai direto ao ponto e pode passar a impressão de ser um pouco brava. Mas é só falar na aprendizagem das crianças que ela começa a sorrir. “Deem às crianças a chance de controlar seu próprio aprendizado”, diz ela.

Apelidada de “madrinha do Vale do Silício”, Esther tem três filhas. Duas se tornaram CEOs de empresas de tecnologia: Susan é CEO do YouTube e Anne é fundadora do 23andMe, uma companhia de biotecnologia que ajudou a popularizar os testes de DNA. A terceira filha, Janet, é antropóloga e professora de Pediatria na Universidade da Califórnia. Com uma prole de fazer inveja, Esther fala de sua experiência com as filhas e com as milhares de crianças a quem deu aula na Palo Alto High School no livro “How to Raise Successful People: Simple Lessons for Radical Results”.

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O livro explica a metodologia TRICK para criar pessoas bem-sucedidas: confiança (trust), respeito (respect), independência (independence), colaboração (collaboration) e gentileza (kindness). No ano passado, Anne Wojcicki disse em uma entrevista que os pais tratavam as filhas como se fossem “pequenos adultos”. “O que meus pais realmente fizeram foi nos dar um gostinho de liberdade. Eles nos encorajaram a descobrir nossas paixões, não ficavam nos controlando”, afirmou.

“O papel do professor mudou, não é mais ficar falando o tempo inteiro”, defende ela nesta entrevista exclusiva para The Shift. “Ao seguir somente o currículo, os educadores deixam de fora a história da cultura dessas crianças ou informações sobre o mundo dessas crianças hoje. Eles deixam de fora coisas que são importantes para esses alunos”.

É por acreditar que o ensino não estava mudando na velocidade que gostaria que Esther Wojcicki decidiu criar uma startup com um grupo de ex-alunos. Na plataforma Tract.app, o conteúdo é feito por adolescentes para crianças. Eles escolhem os temas baseados no que as crianças gostariam de aprender – e que passa longe de livros escritos no século passado, por melhores que sejam. “As crianças deveriam ser respeitadas e aprender as coisas nas quais estão interessadas”, defende. “Ao criar esse conteúdo, esses jovens o tornam interessante porque eles sabem o que as crianças querem saber porque pertencem à mesma geração”.

“O que você aprende quando criança afeta suas habilidades como um adulto. É por isso que é tão importante cuidar muito bem das crianças”.

 

Disrupção é…

“Mudar o modelo de educação baseado em palestras para baseado em colaboração. É uma grande mudança de mentalidade para o professor e o aluno porque, durante séculos, a educação foi sinônimo de sentar em uma sala de aula ouvindo um professor falar o tempo todo. Hoje podemos colocar nossas informações online e, em seguida, colaborar e usar essas informações para fazer projetos que resultam em um aprendizado muito mais eficaz.

O papel do professor mudou para o de coach e guia.

Eu me aposentei como professora da Palo Alto High School [na Califórnia] em junho de 2020. E então abri uma empresa, com meus ex-alunos, a Tract. Quer dizer, eu me aposentei da sala de aula para expandir meu alcance e fazer do mundo inteiro a minha sala de aula.

O objetivo da nossa startup é fazer muito do que eu estava fazendo em sala de aula, que é capacitar os alunos, para que eles possam se realizar, se sintam bem consigo mesmos e possam seguir seus sonhos.

Acho que crianças em todos os lugares têm o mesmo problema. Eles não são ouvidas, suas ideias não são respeitadas. Não são tratadas como eu acho que deveriam ser. Se uma criança tem uma ideia, frequentemente as pessoas riem dela. Isso não é legal.

O conteúdo da nossa plataforma é produzido para crianças de 8 a 14 anos, por adolescentes de 15, 16 até 20 anos. Portanto, é conteúdo feito por adolescentes para crianças. E o foco principal é o que você sempre quis aprender na escola e nunca pôde. Há um garoto que ensina como se tornar um youtuber de sucesso, outro fala sobre buracos negros como aspiradores de pó do universo e um vídeo sobre como se expressar através de sua máscara facial e ainda como ensinar seu cão a fazer um truque que vai viralizar nas redes.

O que acontece com as crianças na escola, infelizmente, é que elas não têm a oportunidade de aprender o que realmente querem, só fazem o que lhes é mandado. E eu tento deixar claro que as crianças deveriam ser respeitadas e aprender as coisas nas quais estão interessadas, não uma porção de textos para cobrir o currículo escritos por pessoas do século passado.

A CEO da nossa empresa, Ari Memar, foi minha aluna, assim como outros ex-estudantes [da Palo Alto High School] que formam praticamente metade da equipe. A outra metade são alunos que tirei de lugares onde também trabalhei e ainda trabalho, como a Universidade de Stanford. E também estou trabalhando com jovens líderes da Ashoka [organização que forma lideranças para promover mudanças positivas na sociedade]. Qualquer aluno que seja realmente apaixonado por ensinar algo para crianças mais novas, nós os aceitamos também. E assim eles se tornam criadores e líderes e desenvolvem uma presença online.

A nossa plataforma é semelhante ao YouTube, só que apenas para adolescentes.

Temos reuniões de pauta com a redação, em que eles têm ideias que acham que podem ser boas. E então eles colocam em prática. Temos um criador, que é o chefe do grupo de alunos, e trabalha para ajudá-los a melhorar o conteúdo, se for o caso. O importante é que as ideias partem deles e o que tentamos fazer é apoiá-los e fazer com que mais pessoas possam apreciar esse conteúdo.

Ao criar esse conteúdo, esses jovens o tornam interessante porque eles sabem o que as crianças querem saber porque estão bem próximos deles em idade – pertencem à mesma geração para a qual estão criando este conteúdo.

As crianças são forçadas a ler livros que podem ser bons, como “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens, só que esse livro foi escrito no século passado. Ao seguir somente o currículo, os educadores deixam de fora a história da cultura dessas crianças ou informações sobre o mundo dessas crianças hoje. Eles deixam de fora coisas que são importantes para esses alunos. E eles não têm escolha, são forçados a memorizar isso na escola.

As crianças e os jovens ficam sete horas por dia sentados, memorizando coisas que outra pessoa disse que eram importantes. É por isso que há uma grande evasão de estudantes nas escolas públicas gratuitas. Aproximadamente 4% das crianças e jovens norte-americanos abandonam a escola. Por que eles desistem? A razão número um é que eles são forçados a fazer coisas que não significam nada para eles.

Sim, estamos tentando fazer uma grande mudança.

Nossa plataforma permite que crianças e jovens estejam livres para explorar, criar e trabalhar com outras crianças. E os pais não precisam se preocupar com a possibilidade de encontrarem conteúdo impróprio porque limpamos tudo: nudez, violência, ódio. Não queremos nada disso no Tract.

Já ouvi muitas pessoas dizendo que toda a violência que se vê na TV e nos games não afeta as crianças. Eu acho que eles estão errados. Acho terrível. Então, no nosso site, eles não vão encontrar nada disso, se quiserem vão ter de buscar em outro lugar.

Nosso site tem que ser um lugar em que as crianças encontrem sua vocação.

A principal coisa da qual as crianças sentem falta na pandemia é dos amigos. Temos na plataforma o que chamamos de aprendizado socializado em casa. Isso significa que a criança pode fazer uma atividade com um amigo. Além de ficar muito mais feliz com essa interação, a criança trabalha suas habilidades sociais e emocionais. Temos também aulas sob demanda, transmissões ao vivo, tópicos abrangentes, desenvolvimento de habilidades direcionadas aos alunos. E tudo a um preço acessível de US$ 20.

A questão é: por que cobrar pelo serviço? Porque senão as pessoas não dão valor. Se é de graça, elas acham que não vai ter qualidade. Fui presidente e vice-presidente do conselho do Creative Commons por muito tempo, uma organização que alcança 140 países. Doamos recursos educacionais, livros, conteúdos abertos para compartilhar que todas as escolas podiam usar. As escolas estão usando? Não.

As escolas compram livros de editoras como a Pearson, que têm os mesmos conteúdos que estão abertos no Creative Commons. Elas compram o mesmo livro. É loucura. Por que as escolas fazem isso? Porque não se dá valor ao que é gratuito. Quando você paga por algo, você valoriza. Então, os pais e as escolas têm que pagar pelo serviço, porque eu quero ter certeza de que as crianças valorizam as aulas.

Uma das instituições mais difíceis, talvez impossível de mudar é a Igreja. A segunda, não tão difícil, é a Escola. As escolas não querem mudar. As pessoas querem fazer a mesma coisa, repetidamente, seja ruim ou não. Só que aí veio a tecnologia. Veio o computador, o celular e os professores falavam coisas como “Todos sentados na sala de aula”, “Escola tem que ter livro, tem que ter papel, tem que ter caneta”. “Quer mexer com o computador? Faça isso na sua casa”. “Quer mexer no celular, só se for fora daqui”. Os professores confiscavam os celulares dos alunos durante as aulas, para que eles não pudessem usá-los.

Uma coisa boa da pandemia é que forçou o sistema educacional a mudar.

Quando eu era criança, para ler um livro eu tinha que ir à biblioteca. Hoje, o livro está no meu celular. E se não está no celular, está no meu computador. Faz anos que não vou à biblioteca porque posso obter tudo o que preciso no meu computador ou celular.

Se você quer que os alunos obtenham mais informações sobre um assunto, qualquer que seja o tema que estiver ensinando, eles podem fazer a pesquisa por conta própria em seu dispositivo eletrônico e trazer os resultados dessa pesquisa para a escola. E isso vai ajudá-los a aprender mais rápido.

Todos os professores deveriam ensinar seus alunos a usar o smartphone de forma inteligente, para pesquisar assuntos na internet. Usar o celular para educar, em vez e confiscá-lo. Se não estão fazendo isso, eles estão dando aula como se estivessem no século passado.

Veja o que está acontecendo com as comunidades de baixa renda. As crianças usam o celular para brincar, ouvir música, entrar no TikTok – mas não sabem como encontrar informações confiáveis. Seus pais também não sabem. E é responsabilidade das escolas fazer essa aprendizagem básica. Nas famílias ricas, os filhos aprendem com os pais a pesquisar na internet.

Quais são as profissões mais demandas hoje em dia? Engenheiros de tecnologia, engenheiros de software, engenheiros de hardware, engenheiros de cibersegurança. Se você não sabe nada sobre tecnologia, é como Rip Van Winkle, que acorda após 100 anos e está tudo mudado!

Como professores, precisamos ensinar as crianças a usar o celular para conseguir uma informação, como avaliar os resultados de sua pesquisa na internet e também como distinguir entre fato e opinião.

Meu Deus, olhe para a América, que bagunça! Todas aquelas pessoas que invadiram o Capitólio acreditavam em coisas que pensavam ser fatos e que não passavam de opinião – não eram a verdade. A Fox News deveria ser renomeada para Fox Fiction. Eles inventam tudo! A frase número um da emissora é “algumas pessoas dizem que” e então repetem algo que você deve acreditar como um fato. E as pessoas perdem essa pequena frase. “A eleição foi roubada, houve corrupção”, eles disseram. E aí aquelas milhares de pessoas aparecem em Washington, DC e ficaram chocadas ao saber que suas informações estavam erradas.

É possível aprender e mudar de mentalidade. A melhor maneira de fazer isso é por meio de histórias. As histórias são muito poderosas. Quando você lé a história de alguém que conseguiu fazer algo incrível, você pensa: é possível. Mas quando você lê estatísticas, o impacto não é o mesmo porque as pessoas comuns não são educadas para entender as estatísticas, elas sentem muita dificuldade em interpretar aqueles números.

A história do que aconteceu no dia 6 de março em Washington é mais poderosa do que qualquer outro fato para mostrar quão corrupta foi a administração de Donald Trump. Se fosse um artigo do New York Times com estatísticas e análises, nunca teria o mesmo poder. É por isso que todos nós gostamos de cinema. E por isso as pessoas ouvem tanto podcasts, são pessoas contando histórias.

Com certeza, todos nós deveríamos ser capazes de ler dados. Mas é o sistema escolar que decide o que as crianças têm que aprender. Ninguém pergunta: você prefere aprender a ler dados ou ler “Crime e Castigo”? Podemos mudar o currículo para torná-lo relevante para o mundo real hoje? Sim, que tal fazermos isso então? Olha que ideia chocante.

Se mudarmos agora essa forma de ensinar, vamos ver os resultados imediatamente.

Estou trabalhando em outro programa com a UC Berkeley School of Engineering para tentar ensinar competências tecnológicas para as pessoas no mundo inteiro. Com isso, elas terão empregos, uma boa vida. E também participo de um programa voltado inicialmente para os países caribenhos, mas que vai alcançar também Índia, Indonésia e Bangladesh. Começamos pela Jamaica, em que muita gente trabalha no turismo, em hotéis, translado, restaurantes. São pessoas inteligentes, que precisam apenas de oportunidades para receber um treinamento e se qualificar em uma função diferente. A ideia é começar com um grupo de aproximadamente 200 pessoas, mas abrir espaço para que possam inclusive competir no mercado profissional em outros países. Por que não? É possível.

É muito difícil para as grandes instituições virarem a chave. Elas já treinaram milhares de pessoas em uma determinada plataforma, e é difícil mudar. Mas acho que todos estão tentando mudar lentamente. Eu faço parte do grupo docente da Universidade de Stanford e lá há muitos programas em que a aprendizagem é mais baseada em projetos, com aprendizagem autodirigida em que o aluno tem mais decisão. Eu sei que Harvard e UC Berkeley estão tentando ir nessa direção – eu tenho trabalhado com engenheiros de Berkeley nesse sentido. Mas como disse antes, as instituições mais difíceis de mudar são a Igreja e a Escola. Eu estou focando nas escolas.

Uma das minhas filhas [Susan Wojcicki, CEO do YouTube] estudou História e Literatura na Universidade de Harvard. Mas depois ela foi estudar Economia Matemática [ela possui um mestrado pela Universidade da Califórnia e em Administração pela UCLA]. Ela percebeu que é muito emocionante saber sobre História, mas talvez devesse estudar um pouco mais sobre Economia para obter algumas das habilidades de que precisa hoje.

O que você aprende quando criança afeta suas habilidades como um adulto. É por isso que é tão importante cuidar muito bem das crianças.

Meu livro “How to Raise Successful People: Simple Lessons for Radical Results” se concentra na infância. Mesmo quando a criança faz cinco anos e chega à escola, você já pode ver os problemas que os pais criaram, por causa de seus padrões de comportamento. Os pais precisam parar com algumas atitudes do tipo “Pare de ser tão medroso”. Se seu filho tem medo, é porque ele aprendeu com você. Portanto, pare de se projetar em seu filho.

E outra coisa que é muito importante: as crianças não são animais de estimação. Você não os veste para desfilar na rua e dizer “Olhe para o meu filho lindo!”. Isso não é concurso de pets, eles são seres humanos, têm sentimentos e devem ser capazes de fazer o que querem. E você precisa desenvolvê-los desde o início para acreditar em si mesmos.

 

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