Você já deve ter ouvido a frase “Você não vai ser substituído pela IA. Você vai ser substituído por alguém que usa IA”. Vindo das lideranças, o “aviso” que inicialmente seria para acalmar ou incentivar as equipes soa quase como ameaça. Por isso, Mel Robbins acredita que o papel de quem já abraçou a Inteligência Artificial não é convencer ou pressionar. É mostrar. Em sua apresentação na SAS Innovate 2026, a autora de “Deixa Para lá” e “O Poder dos Cinco Segundos” e que integra a lista de Women of the Year da Time, citou pesquisas da neurocientista Tali Sharot, do King’s College de Londres, que explicam por que mandar alguém fazer algo frequentemente tem o efeito oposto.
“Nenhum de nós pode obrigar outras pessoas a fazerem coisas, mas podemos influenciá-las”, disse ela diante do auditório lotado, antes de completar. “Curiosamente, quando você diz a alguém o que fazer, você está agredindo a autonomia dela.”
A influência real vem do exemplo. Mel ilustrou isso com uma história simples: uma colega que todos os dias saía para uma caminhada no horário do almoço. Saía feliz, sem fazer alarde. Semanas depois, a própria Mel – que a observava com uma certa inveja – decidiu por conta própria sair para caminhar. Acreditou que a ideia tinha sido sua. E em certo sentido, foi. O comportamento da colega plantou a semente.
Para muitos trabalhadores, a narrativa sobre IA parece dizer que “AI First significa humanos por último” e essa percepção é alimentada por um medo do que é novo ou diferente. A adoção tecnológica não é uma ameaça existencial para quem age, mas é uma realidade inevitável para quem se recusa a se mover. A autora comparou a IA ao e-mail de 20 anos atrás: recusar-se a usar a nova forma de mensagem seria impensável como estratégia de carreira.
O papel do líder, nesse cenário, é criar condições para que as pessoas se sintam valorizadas, que têm muito a contribuir e com alguma sensação de controle. Não por acaso, os três pilares do engajamento no trabalho, todos ameaçados quando a IA é imposta de cima para baixo sem treinamento ou contexto. “Como líder, em vez de vir de cima para baixo, você precisa chegar junto de todo mundo. É preciso ter empatia, realmente entender qual é a raiz da resistência de uma pessoa e se questionar como eu posso ajudá-la a se sentir empoderada, relevante e valorizada.”
O que diferencia Mel Robbins de tantos outros nomes do universo do autodesenvolvimento é sua abordagem fundamentada em ciência, desprovida de promessas fáceis. Ela não vende motivação: ela se tornou uma das podcasters mais celebradas por trazer dados científicos para que as pessoas entendam porque é difícil mudar o comportamento e como fazer isso de forma racional. São ferramentas práticas, ancoradas em Neurociência e Psicologia comportamental. E que nasceram de sua própria experiência.
Aos 41 anos, a ex-advogada e seu marido estavam à beira da falência. Tinham investido todas as economias da família em um negócio de restaurantes, em plena crise de 2008. Sem emprego e com três filhos pequenos, os boletos não paravam de chegar. A sensação de fracasso era tão grande que paralisava qualquer tentativa. E foi da urgência de quebrar esse ciclo que nasceu a Regra dos 5 Segundos. “Antes de dormir, eu pensei que iria acordar no dia seguinte e me levantar e fazer algo. Quando acordei, em vez de ficar largada na cama, eu contei 5, 4, 3, 2, 1 e levantei. E isso mudou tudo.”
Mel Robbins costuma falar muito para lideranças de empresas, para quem entrega recados bem-humorados sobre o que deveriam estar olhando. Como, por exemplo, seu efeito sobre os colaboradores. “Líderes trazem o clima. Quando você abre a janela e vê um dia ensolarado e um céu azul, vai ser um bom dia. Quando você abre a cortina e vê uma tempestade enorme se aproximando com nuvens escuras, você se protege. Todos nós já trabalhamos para uma tempestade.”
O estado emocional de uma liderança é contagioso. Se o estresse vindo de cima é transmitido para baixo sem filtro, ele se multiplica pela organização, comprometendo a capacidade coletiva de pensar com clareza. Por isso, Mel defende que o maior ativo de um líder num momento de transformação acelerada não é expertise técnica, é o equilíbrio interno. Gerenciar o próprio estresse não é luxo, é estratégia.
“Se tudo na sua organização é importante, nada é. Vou repetir: se tudo é igualmente importante, nada é importante”, reforçou. Ela desafiou os líderes presentes a fazerem uma pergunta simples todos os dias: qual é a única coisa que preciso fazer hoje que é a mais importante? “Se você não consegue responder a isso, sua equipe tampouco consegue”, completou.
Um dos momentos mais interessantes da apresentação foi uma afirmação que provocou silêncio na plateia. “O ritmo de mudança hoje é o mais lento que você jamais vai experimentar.”
A maioria das pessoas sente que o ritmo de mudança já está insuportável. Pesquisas da Escola de Medicina de Harvard indicam que 83% dos adultos nos Estados Unidos estão em estado de estresse crônico. O relatório “State of the Global Workplace”, do Gallup, mostra que as pessoas vivem sob constante estresse. Segundo Mel, isso não é “sentir-se estressado”, é o corpo em estado de alerta permanente, com consequências médicas reais: dificuldade de concentração, procrastinação, pensamento crítico comprometido, irritabilidade, insônia.
“Quando você entra em estado de resposta ao estresse, você compromete a capacidade do seu cérebro de funcionar. Se você está tendo dificuldade de focar, procrastinando mais, sendo mais crítico consigo mesmo ou encontrando-se irritado com a família, esses são todos sintomas médicos de estresse crônico.” Esse contexto explica, em parte, por que apenas 50% das pessoas nos EUA estão usando IA no trabalho e apenas 28% são usuárias frequentes. O medo não é irracional. É uma resposta humana saudável à imposição de mudança. “Quando seres humanos estão em uma situação onde a mudança é imposta a eles, é uma resposta mentalmente saudável congelar. É uma resposta mentalmente saudável questionar.”
Só que o mundo não vai parar de girar. E vai continuar acelerando. A capacidade de se manter centrado, de separar o que é urgente do que é importante, de não se deixar sequestrar pelo caos externo, vai determinar quem lidera e quem fica para trás.
Aqui entram em ação ferramentas para nos ajudar a lidar com essa velocidade constante. A Teoria do “Deixa Rolar” ou “Let Them”, conceito central do seu livro mais recente que já vendeu mais de 10 milhões de cópias. Ela mesma admitiu a ironia de ter levado tanto tempo para descobrir algo tão simples. “É tão simples que fico chocada de ter precisado de 54 anos para descobrir isso.”
A teoria é composta de apenas quatro palavras. Primeiro: let them (“deixa rolar”). Segundo: let me (“e eu”). O “let them” é ativado toda vez que você se vê estressado, irritado ou frustrado com algo que está fora do seu controle, seja a decisão de uma liderança, o comportamento de uma pessoa da família, os rumos de uma tecnologia que você não controla. Em vez de se deixar dominar pela reação automática, você diz internamente: “deixa rolar.”
“Quando você diz ‘deixa rolar’, você não está concordando com nada. Você está reconhecendo que essa coisa que está te estressando, seja o trânsito, seja um e-mail, um problema com cliente, está fora do seu controle”, explicou a autora. O único espaço de liberdade que temos é o da nossa resposta às circunstâncias. Qualquer psicólogo, disse ela, vai confirmar que focar naquilo que está fora do nosso controle só amplifica a sensação de descontrole. O primeiro passo, portanto, é reconhecer o que não é seu.
O segundo passo é o “let me” e aqui você retoma o poder. “Quando você diz ‘e eu’, você se lembra de que na vida existem apenas algumas coisas que você pode controlar: o que você pensa, como você responde às emoções, o que você faz e o que você não faz.” Em um mundo onde o ritmo da mudança tecnológica é acelerado e muitas vezes assustador, a tendência é gastar energia se opondo ao que não pode ser parado. A resposta mais inteligente, segundo ela, é deixar rolar o que está fora do alcance e investir a energia naquilo que se pode controlar: a própria equipe, o próprio processo, o próprio exemplo.
“Você não pode controlar o que as outras pessoas pensam. Você não pode controlar se a liderança da sua empresa vai lidar com isso adequadamente. A única coisa que você pode controlar é como você responde à situação.”
Na SAS Innovate 2026, a autora mostrou como a Teoria do "Deixa Para Lá" pode transformar a maneira como líderes lidam com estresse, resistência à mudança e a pressão de uma aceleração tecnológica que só vai aumentar
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