A fotografia do trabalho na América Latina mostra uma força de trabalho relativamente mais engajada e mais “próspera” do que a média global, o que não significa ausência de pressão emocional. Segundo o recente relatório “State of the Global Workplace 2026”, do Gallup, 30% dos trabalhadores latino-americanos e caribenhos estão engajados no trabalho, um número 10 pontos percentuais acima da média global (20%). O Brasil vai ligeiramente além: 32% dos trabalhadores brasileiros são engajados, superando tanto a média regional quanto a global.
O dado parece animador até que se olhe para o outro lado: 57% dos trabalhadores brasileiros não estão engajados – e outros 11% estão ativamente desengajados, ou seja, trabalham ativamente contra os objetivos da organização. Na região da América Latina e Caribe como um todo, 59% estão no limbo do “não engajamento” e 11%, no campo do desengajamento ativo, bem abaixo dos 16% globais nessa categoria mais crítica.
Em linguagem de negócios: a maioria absoluta da força de trabalho na região e no Brasil está presente fisicamente, mas ausente emocionalmente. Para os CEOs, isso representa custos invisíveis bilionários. O Gallup estima globalmente que trabalhadores desengajados custam ao mundo cerca de US$ 8,9 trilhões em produtividade perdida, equivalente a 9% do PIB global.
Vale notar, porém, que a trajetória histórica do Brasil é de alta: saindo de 26% de engajamento em 2012, o país chegou a um pico de 34% em 2024 antes da leve retração para 32% em 2025.
Aqui está o dado mais surpreendente do relatório: 56% dos trabalhadores da América Latina e do Caribe se classificam como “thriving”, ou seja, em situação próspera na avaliação de vida da escada de Cantril, quase o dobro da média global (34%). O Brasil supera até mesmo a média regional: 58% dos trabalhadores brasileiros se avaliam como prósperos, com alta de 4 pontos percentuais em relação à média das três pesquisas anteriores.
Para colocar em perspectiva: a proporção de brasileiros “em sofrimento” (“suffering”) é de apenas 2%, contra 9% na média global. Olhando para a região da América Latina como um todo, apenas 2% se dizem “em sofrimento” e 42% “em dificuldade”, enquanto globalmente 56% estão em dificuldade e 9% em sofrimento. São números que desafiam a narrativa comum de uma região economicamente instável.
Essa resiliência subjetiva tem implicações práticas. Pesquisas do Gallup mostram consistentemente que trabalhadores que se avaliam como prósperos têm menor absenteísmo, menos custos com saúde para os empregadores e maior probabilidade de permanecer na empresa (retenção). Para organizações que operam no Brasil e na região, é um ativo estratégico subestimado.
A outra face da moeda é o estresse. Na região latino-americana, 43% dos trabalhadores relataram ter sentido muito estresse durante o dia anterior à pesquisa, acima da média global de 40%. No Brasil, o número é de 45%, também acima da média regional. A trajetória histórica do estresse no Brasil é de ascensão: saindo de 28% em 2010, o indicador subiu progressivamente até atingir 46% no auge da pandemia (2020–2021) e permanece em patamares elevados, sem recuperação consistente. Isso significa que quase metade da força de trabalho brasileira opera sob pressão emocional cotidiana, um sinal de alerta para líderes de RH e saúde corporativa.
O perfil de estresse também revela desigualdades internas: mulheres (49% na América Latina) sofrem mais do que homens (39%); jovens abaixo de 35 anos (47%) mais do que os mais velhos (40%); e gestores (46%) mais do que colaboradores individuais (42%). Os dados indicam que as pessoas que as empresas mais precisam desenvolver e reter são exatamente as mais pressionadas.
No índice de raiva diária, a América Latina registra 14%, bem abaixo da média global de 22%. O Brasil vai na mesma direção, com 17%, o que coloca os trabalhadores brasileiros acima da média regional, mas ainda bem abaixo do indicador mundial. A tristeza cotidiana também é menor na região: 18% na América Latina e Caribe e 19% no Brasil, contra 23% globalmente.
Esses números sugerem que, apesar das pressões econômicas, os trabalhadores latino-americanos mantêm um equilíbrio emocional relativo que não se encontra em outras regiões do mundo. Para multinacionais que comparam ambientes de trabalho globalmente, esse é um diferencial competitivo concreto da força de trabalho regional.
O dado mais impressionante do relatório para a região é o da solidão. Apenas 12% dos trabalhadores da América Latina e do Caribe relataram ter sentido solidão muito durante o dia anterior, menos da metade da média global de 22%. O Brasil vai ainda mais longe: apenas 10% dos trabalhadores brasileiros relatam solidão cotidiana, entre os menores índices do planeta.
Esse número tem peso estratégico para o debate sobre trabalho remoto e híbrido. Em mercados como EUA e Europa, onde a solidão no trabalho atinge 22% ou mais, a gestão do isolamento é uma crise corporativa. Na América Latina e no Brasil, o tecido social mais denso parece funcionar como fator protetor, mas também indica que políticas de trabalho remoto puro podem ter impactos distintos aqui do que em outros mercados.
O relatório do Gallup explora a visão dos trabalhadores em relação ao mercado de trabalho. No Brasil, 66% dos trabalhadores acreditam que é um bom momento para encontrar emprego, 5 pontos percentuais acima da média das pesquisas anteriores e bem acima da média global de 52%. No recorte dos países da América Latina e Caribe, o índice é de 60%, empatado com o segundo lugar entre todas as regiões do mundo.
Para executivos de RH e gestores de talentos, esse otimismo pode ser lido em duas direções: indica aquecimento do mercado e, portanto, maior competição por profissionais qualificados. Por outro lado, em ambientes de baixo desemprego percebido, a retenção fica mais custosa e a proposta de valor ao empregado precisa ser revisada continuamente.
Os números do Gallup 2026 traçam um retrato de uma região e de um país que surpreendem pela resiliência emocional e pelo otimismo, mas que carregam contradições. O engajamento no trabalho, embora acima da média global, ainda deixa a maioria dos trabalhadores em modo automático. O estresse é alto e crescente. E o mercado de trabalho aquecido pressiona as organizações a competirem mais ativamente por talentos.
Para conselhos e lideranças executivas, três perguntas emergem diretamente dos dados:
A pesquisa do Gallup ouviu 128 mil trabalhadores em mais de 160 países e territórios. Para ter uma visão global do trabalho e de como os trabalhadores se sentem, leia o artigo na The Shift sobre os setes sinais de resiliência organizacional.
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