Investir no desenvolvimento de competências nunca foi tão necessário, mas nunca foi tão arriscado fazê-lo da forma errada. O risco não é mais “treinar pouco”. É treinar para um conjunto de habilidades que pode perder relevância antes mesmo de o programa terminar. Um novo estudo da TalentLMS corrobora o que relatórios anteriores vêm apresentando: o dilema das organizações é como fazer isso com a agilidade que a IA exige. Porque, sem agilidade, as próprias skills recém-construídas correm o risco de já nascerem obsoletas.
O relatório “Speed-to-skill: The race against skill decay” adota essa terminologia que significa a velocidade com que uma organização identifica uma necessidade de competência, a desenvolve e a coloca em uso. A pesquisa, baseada em 1.500 profissionais nos Estados Unidos (964 gestores e 536 colaboradores individuais), mostra que 47% dos respondentes afirmam que algumas de suas habilidades já se tornaram obsoletas nos últimos cinco anos. Apenas 36% dizem que suas competências continuam totalmente relevantes, e 16% não têm certeza disso.
Como costuma aparecer em outros relatórios, há uma diferença de percepção entre gestores e colaboradores. Somente no último ano, 21% dos gestores relatam que suas próprias habilidades ficaram obsoletas, contra 10% dos colaboradores. Pelo menos 12% dos gestores dizem que isso aconteceu nos últimos seis meses, contra apenas 5% dos colaboradores. Ao mesmo tempo, 26% dos colaboradores afirmam não saber se suas habilidades ainda são relevantes, contra 10% dos gestores. Quem está mais perto da operação enxerga a obsolescência chegando antes, enquanto uma parcela relevante da força de trabalho está, na prática, “no escuro” sobre o próprio valor. Se um quarto dos colaboradores não sabe se suas competências ainda servem, é improvável que tomem a iniciativa de se atualizar a tempo.
A segunda dimensão do problema é que mesmo sabendo que precisa mudar, está cada vez mais difícil saber para onde mudar. Aproximadamente 38% dos gestores concordam que é difícil prever quais competências sua equipe vai precisar nos próximos 12 meses. E a Inteligência Artificial aparece como a principal força por trás dessa imprevisibilidade: 36% dos gestores dizem ter dificuldade em acompanhar a velocidade com que a IA está alterando as necessidades de competências de suas equipes.
Pelo menos 82% das lideranças afirmam que suas organizações já oferecem algum treinamento em IA, mas 59% reconhecem que existe uma lacuna de competências em IA na empresa. Oferecer treinamento, portanto, não está sendo suficiente para fechar o gap, sinal de que o problema ultrapassa a oferta de conteúdo e bate na velocidade com que esse conteúdo vira capacidade aplicada. O relatório cita ainda projeções de mercado segundo as quais, até o final de 2026, mais de 90% das organizações no mundo devem enfrentar algum tipo de escassez de competências. Nesse contexto, o planejamento de skills deixa de ser um roteiro fixo e passa a se parecer com perseguir um alvo em movimento.
Mesmo quando a organização identifica corretamente as competências necessárias, isso não garante que elas sejam aplicadas a tempo. Mais de 70% dos respondentes concordam que os colaboradores precisam de formas mais rápidas de praticar habilidades para acompanhar a evolução das mudanças demandadas. Entre os gestores, essa percepção é ainda mais forte: 75% concordam, contra 61% dos colaboradores. Na análise da TalentLMS, isso acontece porque os gestores estão mais perto dos resultados e percebem onde, exatamente, o desenvolvimento de competências trava: não na etapa de aprendizagem, mas na transição entre aprender e fazer. Esse atraso custa caro: com a mudança de necessidades, o valor de uma habilidade recém-aprendida começa a se deteriorar antes mesmo de ser aplicada. O desafio deixou de ser apenas identificar lacunas: é fechar o gap antes que as habilidades mudem de novo.
Apenas 16% dos respondentes dizem que o desenvolvimento de competências acontece rapidamente sempre que surgem novas necessidades em sua empresa. Os principais gargalos são:
1. As prioridades do trabalho cotidiano atropelam o aprendizado. Pelo menos 44% dos gestores e colaboradores dizem que as prioridades de trabalho empurram o aprendizado para segundo plano, e 27% afirmam que o aprendizado não está integrado ao trabalho do dia a dia.
2. O treinamento frequentemente não corresponde às necessidades reais. Cerca de 28% apontam essa desconexão como a segunda barreira mais comum, 25% dizem que os treinamentos demoram demais para serem desenvolvidos e lançados, e 24% afirmam que não está claro quais competências deveriam ser priorizadas. Trata-se de um efeito cumulativo em que, quando o treinamento fica pronto, a necessidade que o originou já mudou.
3. Falta espaço seguro para praticar. Mais de 24% dos respondentes dizem que a ausência de um ambiente seguro para testar novas competências antes de aplicá-las no trabalho real está atrasando o desenvolvimento em sua empresa, o que gera hesitação, inconsistência ou evitação.
4. Há um problema de governança. Pelo menos 21% dizem que não existe um responsável claro pela identificação e pelo fechamento de lacunas de competências, o que torna o desenvolvimento, na teoria, “responsabilidade de todos” e, na prática, de ninguém.
Sem tempo para esperar que as lideranças decidam qual rumo tomar, os colaboradores se adaptam por conta própria, de forma informal. Mais da metade (53%) de todos os respondentes afirmam aprender novas competências “fazendo” e descobrindo por conta própria como executar as tarefas. A forma mais comum de aprendizado e uma reação a um ambiente em rápida mudança, já que permite testar, ajustar e melhorar o desempenho sem depender de um treinamento formal que ainda não existe. A aprendizagem entre pares também aparece: 42% recorrem a alguém que já tem a competência, criando redes informais de conhecimento que circulam pelas equipes em tempo real.
O aprendizado formal não perdeu importância, mas seu papel mudou: um terço (33%) dos entrevistados usa a plataforma de aprendizagem da própria empresa para buscar cursos ou recursos, e 32% recorrem a treinamentos formais. Essas estruturas continuam importantes porque oferecem consistência e uma base para desenvolver competências alinhadas aos objetivos do negócio em escala, algo que o aprendizado informal não garante sozinho.
Há ainda uma diferença marcante entre gestores e colaboradores: embora “aprender fazendo” predomine para ambos, os gestores combinam isso com métodos estruturados com mais frequência:
Ao mesmo tempo que refletem a natureza do papel dos gestores, esses dados funcionam como alerta: se o uso de IA Generativa como ferramenta de aprendizagem está concentrado na liderança, a organização corre o risco de ampliar, em vez de reduzir, o fosso de prontidão entre gestores e equipes.
O estudo “An Adaptive Workforce: The Secret to Success in the Age of AI”, da Cornerstone/Lighthouse complementa o quadro da TalentLMS mostrando o que acontece quando as organizações sabem quais competências têm e precisam, mas não conseguem agir com base nisso. A pesquisa, que ouviu 591 executivos de aprendizagem e talentos, além de 500 trabalhadores, parte de uma analogia simples: inteligência sobre a força de trabalho é como dinheiro guardado no banco – tem valor no papel, mas só gera impacto quando é colocado para circular.
Aliás, que impacto: as organizações que combinam inteligência sobre competências com maturidade de execução têm 11 vezes mais chances de se descreverem como altamente adaptáveis a mudanças, de 7 a 8 vezes mais chances de relatar forte desempenho financeiro e 6 vezes mais chances de relatar alta produtividade. Considerando os 16 critérios avaliados em conjunto, as organizações de alto desempenho pontuam, em média, cerca de 40% acima das de baixo desempenho.
Essa diferença está em como a inteligência sobre competências se conecta à ação. Apenas 22% das empresas conseguem montar rapidamente equipes multifuncionais quando não têm visibilidade sobre as competências disponíveis, mas esse número sobe para 71% entre os que rastreiam competências de forma consistente e as usam nas decisões. As organizações de alto desempenho são quatro vezes mais propensas a relatar que as competências estratégicas estão claramente definidas e alinhadas à estratégia, e de três a quatro vezes mais propensas a depender de sistemas de visibilidade em vez de conhecimento informal. Os colaboradores que dizem ter clareza sobre suas próprias competências têm seis vezes mais chances de considerar eficazes as decisões de alocação de pessoal.
Aqui aparece, de novo, um fosso de percepção entre liderança e força de trabalho. Enquanto 37% das empresas relatam alinhamento entre competências e direção estratégica, e 40% afirmam ter boa visibilidade sobre as competências de seus colaboradores, apenas 19% dos trabalhadores enxergam esse alinhamento claramente, e apenas 28% dizem que suas competências são consistentemente visíveis e usadas para orientar decisões. É praticamente o dobro de diferença entre o que a liderança acredita fazer e o que a força de trabalho percebe.
A capacidade de mobilizar talento internamente também separa os dois grupos. Entre as organizações de alta performance com forte adaptabilidade, 57% conseguem realocar internamente, de forma intencional, capacidade para apoiar novas iniciativas contra apenas 22% das de baixa performance. As de alto desempenho têm nove vezes mais chances de preencher novas iniciativas com talento interno em vez de contratação externa, e de três a quatro vezes mais chances de realocar talentos rapidamente quando as prioridades mudam.
Um dado conecta diretamente com a obsolescência de skills: oito em cada dez empresas afirmam que as competências que seus colaboradores precisam hoje já mudaram desde a contratação. A competência não é mais um ativo adquirido uma vez: é um alvo móvel, e empresas com forte desempenho financeiro têm o dobro de chances de priorizar conversas frequentes sobre competências entre gestores e equipes.
Desenvolver competências continua sendo necessário: quase metade da força de trabalho já sente suas competências envelhecerem, e a demanda por aprendizagem mais rápida (70% dos respondentes) é generalizada. Mas o gargalo real não está na falta de conteúdo de treinamento e sim na distância entre identificar uma necessidade, desenvolvê-la e aplicá-la, antes que essa necessidade mude de novo.
A própria TalentLMS propõe seis frentes de atuação que funcionam como um checklist para lideranças:
O estudo da Cornerstone acrescenta uma camada que a liderança não pode ignorar: nada disso funciona sem ativação, e ativação depende, em grande medida, do comportamento dos gestores intermediários. É preciso transformar visibilidade em decisões de alocação, mobilidade e desenvolvimento, o que exige que o apoio à mobilidade interna seja uma expectativa explícita e mensurável de desempenho gerencial. A diferença entre uma organização onde menos de 3% conseguem mobilizar talento internamente e outra onde 75% conseguem está em como os gestores são incentivados, capacitados e cobrados. E isso não tem a ver com tecnologia.
Por fim, estudos do BCG e da Deloitte oferecem o pano de fundo estratégico que explica por que essa agilidade não é mais opcional. A velocidade de transformação das funções, evidenciada pelo BCG, e a perda de validade da própria estrutura de cargos como unidade de planejamento, discutida pela Deloitte, mostram que o problema de competências que envelhecem em poucos anos (ou mesmo meses) tem a ver com a estrutura do ambiente de trabalho e deve se agravar daqui para frente. As lideranças não podem mais tratar o desenvolvimento de competências como um projeto pontual, com início, meio e fim. Quem fizer isso, vai ficar para trás.
Olhar para frente implica transformar o desenvolvimento em um processo contínuo, integrado ao fluxo de trabalho, com prática rápida e segura, governança clara e gestores engajados na mobilidade interna. Como o relatório da TalentLMS cita: a vantagem real não está em saber o que aprender; está em quão rápido a organização consegue transformar esse aprendizado em capacidade aplicada, antes que a próxima mudança torne tudo, de novo, obsoleto.
Dados de TalentLMS, Cornerstone, BCG e Deloitte revelam por que o desenvolvimento de skills precisa virar processo contínuo, e não projeto pontual
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