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Fintechs globais captam US$ 103 bi no 1º semestre de 2026; Américas lideram e Brasil perde ritmo (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

Investimento em fintechs bate US$ 103 bilhões em 2026, mas Brasil destoa da alta

Relatório Pulse of Fintech H1 2026, da KPMG, mostra recuperação do setor puxada por mega-negócios nos EUA, enquanto Brasil e Canadá reduzem os aportes em fintech no primeiro semestre do ano

O mercado global de fintechs somou US$ 103,1 bilhões entre janeiro e junho de 2026, um tremendo salto em relação aos US$ 72,2 bilhões do segundo semestre de 2025. Se o ritmo se mantiver, o setor deve fechar o ano com o maior volume anual de investimentos dos últimos quatro anos. O dado mais chamativo, porém, é o contraste entre valor investido e número de negócios. Enquanto o capital aportado cresceu com força, o volume de transações seguiu em queda: foram 2.100 negócios fechados no primeiro semestre de 2026, ante 2.500 no semestre anterior. Essa combinação de mais dinheiro e menos operações confirma uma tendência que a KPMG já vinha observando havia alguns trimestres: investidores estão concentrando capital em um número menor de empresas, priorizando fintechs maduras, com modelos de negócio comprovados e posição de liderança em seus mercados.

No relatório “Pulse of Fintech H1 2026”, essa concentração fica evidente quando se olha para os dez maiores negócios do semestre: juntos, eles responderam por 62% de todo o investimento em fintechs no período, o equivalente a US$ 64 bilhões. A maior transação do semestre foi a aquisição da processadora de pagamentos Worldpay pela Global Payments, avaliada em US$ 24,3 bilhões. Logo atrás veio a compra do negócio de soluções para emissores da própria Global Payments (também conhecido como Total System Services) pela FIS, por US$ 13,5 bilhões, uma cifra que, somada à primeira, ilustra a onda de consolidação que atravessa o setor de pagamentos.

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Américas concentram mega-negócios e reaquecem o M&A

A recuperação do investimento global teve um motor claro: as Américas. A região atraiu US$ 86,9 bilhões em investimentos para 1.120 negócios no primeiro semestre de 2026, alta expressiva frente aos US$ 47,1 bilhões em 1.315 negócios do semestre anterior. Os Estados Unidos foram responsáveis por US$ 80,8 bilhões desse total, distribuídos em 933 transações, incluindo as dez maiores operações da região no ano até aqui: a aquisição da Worldpay pela Global Payments (US$ 24,3 bilhões); a compra do negócio de soluções para emissores da Global Payments (Total System Services) pela FIS (US$ 13,5 bilhões); a aquisição da plataforma de gestão de investimentos Clearwater Analytics Holdings por um consórcio liderado por Permira e Warburg Pincus (US$ 8,4 bilhões); o take-private da empresa de infraestrutura OneStream (US$ 6,4 bilhões); a operação de M&A envolvendo a Brex, no segmento de finanças corporativas (US$ 5,15 bilhões); a Série D da plataforma de mercados de previsão Polymarket (US$ 1,6 bilhão); a aquisição da insurtech Newfront (US$ 1,3 bilhão); a Série F da também plataforma de mercados de previsão Kalshi (US$ 1,2 bilhão); e o take-private da empresa de pagamentos Cantaloupe (US$ 873 milhões). Com isso, os Estados Unidos reafirmaram o seu papel como termômetro e formador de tendências para o setor de fintechs em escala global.

 Fora dos Estados Unidos, os maiores negócios da região no semestre foram: a aquisição, pela TransUnion, de participação majoritária no negócio de crédito ao consumidor da mexicana Buró de Crédito, por US$ 659,9 milhões; uma rodada de capital de risco de US$ 405 milhões captada pelo banco digital mexicano Banco Plata (também conhecido como Plata Card); e uma rodada de capital de risco de US$ 218,6 milhões captada pela credenciadora hipotecária digital canadense Nesto.

O relatório chama atenção para o contraste entre o desempenho dos Estados Unidos e o de outras jurisdições relevantes da região: enquanto os EUA atraíram mais investimento em fintechs do que em todo o ano de 2024 ou de 2025, tanto o Canadá quanto o Brasil perderam ritmo. O Canadá atraiu US$ 1 bilhão em investimentos no primeiro semestre de 2026, ante US$ 2,7 bilhões ao longo de 2025. O Brasil, por sua vez, registrou apenas US$ 508 milhões no período, comparado a US$ 2,1 bilhões em todo o ano de 2025, uma queda acentuada que a KPMG atribui, de forma mais ampla, à concentração de capital global em um número menor de operações de grande porte, fenômeno que tende a beneficiar desproporcionalmente o mercado norte-americano, onde estão localizados a maioria dos “mega-deals” do período.

Apesar da retração no valor investido, a atividade de fusões e aquisições nas Américas foi um dos pontos mais fortes do semestre: o valor de M&A na região mais que dobrou, saltando de US$ 27,4 bilhões no segundo semestre de 2025 para US$ 64,6 bilhões no primeiro semestre de 2026. Mesmo excluindo as duas maiores operações do período que, juntas, somaram US$ 37,7 bilhões, o valor de M&A seguiu forte, sustentado por empresas estratégicas, sobretudo nos Estados Unidos, que mostraram crescente interesse em vender negócios não essenciais (non-core) e em fazer aquisições voltadas à expansão geográfica ou de portfólio. Depois de um período marcado por diferenças de valuation e outras incertezas, a atividade de private equity também voltou a se abrir na região, principalmente entre empresas de médio porte (mid-market).

A leitura trimestral da região confirma o mesmo padrão de concentração do cenário global: o investimento total em fintechs nas Américas somou US$ 51,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026 e recuou para US$ 35,7 bilhões no segundo, enquanto o M&A saiu de US$ 41,1 bilhões para US$ 23,5 bilhões no mesmo intervalo, ainda assim, patamares elevados frente aos trimestres de 2023 a 2025. Os valuations seguiram trajetória de alta acentuada: a avaliação mediana pré-money em rodadas de venture growth na região saltou para US$ 1,43 bilhão no primeiro semestre de 2026, ante US$ 698,8 milhões em 2025, enquanto o tamanho mediano das operações de M&A na região passou para US$ 126,5 milhões no semestre atual. O capital de risco com participação de investidores corporativos também se manteve relevante, somando US$ 11 bilhões em 208 negócios no período.

Assim como no cenário global, a Inteligência Artificial foi o tema de investimento dominante nas Américas, com investidores enxergando na tecnologia uma oportunidade de gerar eficiência operacional e criar valor em áreas como prevenção de fraude e pagamentos habilitados por IA. O interesse por stablecoins e ativos tokenizados também se manteve elevado, embora o relatório sugira que esse investimento possa ter sido parcialmente ofuscado pelo foco intenso em IA e por incertezas regulatórias, principalmente quanto à tramitação do Digital Asset Market Clarity Act nos Estados Unidos, cuja aprovação até o fim de 2026 era considerada, ao fim do primeiro semestre, uma possibilidade pouco provável.

O levantamento da KPMG também destaca o amadurecimento do modelo de banco digital na região. Nos Estados Unidos e no Canadá, diversos challenger banks deixaram de ser vistos como fintechs concorrendo com outras fintechs, para serem enxergados como bancos digitais que competem diretamente com instituições financeiras tradicionais. Já na América Latina, o movimento de surgimento de neobancos segue em curso: durante o primeiro semestre de 2026, o Banco Plata (Plata Card) iniciou operações como instituição financeira regulada no México. No Brasil, o volume total de investimento em fintechs somou US$ 508 milhões no primeiro semestre de 2026, uma retração significativa frente aos US$ 2,1 bilhões captados ao longo de todo o ano de 2025.

Negócios maiores, mas em menor número: o que revelam os valuations

A leitura do primeiro semestre reforça a tese da concentração de capital. No primeiro trimestre de 2026, o investimento total em fintechs somou US$ 58,7 bilhões, o maior valor trimestral desde o início de 2023. No segundo trimestre, o total recuou para US$ 44,3 bilhões. Ainda assim, destacou-se como o segundo melhor segundo trimestre da série histórica da KPMG, e acompanhado de uma queda mais acentuada no número de negócios, de cerca de 1.200 para pouco menos de 900. Do lado de fusões e aquisições (M&A), o padrão se repete: US$ 43 bilhões no primeiro trimestre e US$ 24,9 bilhões no segundo, com o volume de negócios encolhendo de forma consistente ao longo dos últimos trimestres.

Esse movimento também aparece nos valuations. A avaliação mediana pré-money de rodadas em estágio de venture growth saltou para US$ 845,5 milhões no primeiro semestre de 2026, ante US$ 636 milhões em 2025 e apenas US$ 169,1 milhões em 2023, um crescimento acelerado que reflete o apetite de investidores por poucas empresas já validadas pelo mercado. Nos estágios mais iniciais, o movimento foi bem mais discreto: a avaliação mediana em rodadas early VC passou de US$ 22,3 milhões, em 2023, para US$ 92,2 milhões no semestre atual, enquanto pre-seed e seed seguiram praticamente estáveis, perto de US$ 14,5 milhões. O tamanho mediano das operações de M&A também subiu com força, de US$ 24 milhões em 2023 para US$ 80,9 milhões no primeiro semestre de 2026, outro sinal de que o mercado está migrando para negócios maiores e mais seletivos. Já as fusões e aquisições transfronteiriças (cross-border) somaram US$ 20,2 bilhões em 147 negócios no semestre, patamar de valor elevado mesmo com o número de operações em queda frente aos 379 negócios registrados em 2025.

Pagamentos concentram investimento, ativos digitais e IA seguem em alta

Entre os segmentos de fintech, pagamentos foi disparado o que mais atraiu capital, com US$ 44,2 bilhões no semestre, puxado, mais uma vez, pela aquisição da Worldpay. Mesmo descontando esse efeito, o setor de pagamentos manteve-se como prioridade estratégica de investidores, com fluxo de capital cada vez mais direcionado a plataformas de infraestrutura, escaláveis e lucrativas, em detrimento de apostas early-stage mais especulativas, refletido na queda do número de negócios em pagamentos, de 577 no semestre anterior para 168 no atual.

Além do negócio da Worldpay, outras transações relevantes no setor de pagamentos incluíram a compra da empresa de pagamentos sem atrito Cantaloupe pela 365 Retail Markets, por US$ 873 milhões. O investimento de crescimento de US$ 738,7 milhões liderado pela Centerbridge Partners na plataforma britânica de pagamentos transfronteiriços Ebury, e uma rodada de capital de risco de US$ 450 milhões captada pela americana in Kind. Na região ASPAC, o maior negócio do semestre foi uma rodada de US$ 320 milhões da plataforma global de pagamentos Airwallex, sediada em Cingapura. O relatório também chama atenção para o avanço dos chamados “pagamentos verticais”, soluções voltadas a fluxos de trabalho específicos, como saúde (cobrança de sinistros, faturamento de pacientes, reembolso a provedores), serviços de restaurante, bem-estar e viagens, e para a seletividade crescente dos investidores em pagamentos B2B, hoje concentrados em empresas capazes de resolver problemas reais de fluxo de caixa, câmbio (FX) e tesouraria.

O espaço de ativos digitais também teve desempenho robusto, com US$ 11,1 bilhões investidos em 467 negócios no semestre, número inferior aos US$ 21,9 bilhões de todo o ano de 2025, mas ainda assim superior aos totais anuais completos de 2023 e 2024. Os Estados Unidos concentraram mais da metade desse investimento (US$ 5,9 bilhões), apesar de responderem por menos da metade do volume de negócios (187). Entre os maiores negócios do semestre nesse segmento estiveram uma rodada de US$ 1,2 bilhão captada pela plataforma americana de mercados de previsão Kalshi e uma rodada seed de US$ 635 milhões captada pelo Erebor Bank, novo banco americano com carta federal voltado a nichos como defesa, computação e manufatura avançada. Na Europa, o maior negócio foi uma rodada de US$ 175 milhões da provedora francesa de crédito on-chain Morpho, enquanto na região ASPAC destacou-se uma rodada de US$ 150 milhões da plataforma australiana de futuros perpétuos Synthetix. O relatório destaca uma mudança de foco dentro do setor: o capital está migrando da especulação em torno de criptoativos para a infraestrutura do ecossistema, portanto, stablecoins, tokenização, redes de liquidação, custódia e serviços institucionais.

Insurtech atraiu US$ 3,7 bilhões no semestre (124 negócios), recuo em relação aos US$ 9,8 bilhões de 2025, que haviam sido puxados por poucos negócios de grande porte. O maior negócio do segmento foi a aquisição da corretora de tecnologia de seguros Newfront pela WTW, seguida por rodadas de capital de risco captadas pela seguradora de saúde digital francesa Alan (US$ 554,5 milhões), pela plataforma suíça de comparação de seguros Wefox (US$ 192,7 milhões) e pela plataforma americana de seguros nativa em IA Corgi (US$ 160 milhões). Na região ASPAC, o destaque foi uma rodada de US$ 41,6 milhões da indiana Turtlemint Fintech Solutions. Regtech somou US$ 2,9 bilhões em 133 negócios, também abaixo dos US$ 4,8 bilhões de 2025, com volume de negócios no menor nível desde 2017. As Américas concentraram a maior parte desse investimento, com destaque para as rodadas captadas pela plataforma de poupança fiscalmente compatível Vestwell (US$ 385 milhões) e pela empresa de inteligência de risco em AML/KYC Quantifind (US$ 200 milhões), além da aquisição da brasileira Dimensa pela Evertec, tratada em maior detalhe adiante. Cibersegurança voltada a fintechs somou US$ 550 milhões, estável frente aos US$ 1 bilhão de todo 2025, mas com apenas 44 negócios, o menor número em seis anos. Os três maiores negócios globais do segmento foram rodadas de capital de risco captadas pela americana LeapXpert (US$ 180 milhões), pela britânica Elliptic (US$ 120 milhões) e pela indiana IDfy (US$ 73 milhões). Já wealthtech viveu o semestre mais fraco de todos: apenas US$ 220 milhões em 32 negócios, ante US$ 1,4 bilhão em 74 negócios em 2025, o que pode representar o menor volume desde 2018 caso a tendência se confirme. A maior operação do período foi uma rodada de crescimento de private equity de US$ 42,5 milhões captada pela plataforma americana de gestão de patrimônio GeoWealth.

Um fio condutor atravessou praticamente todos os segmentos: a Inteligência Artificial. Os negócios relacionados a IA atraíram US$ 21,4 bilhões em 800 transações no primeiro semestre de 2026, valor já muito próximo dos US$ 23,6 bilhões de todo o ano de 2025 e superior aos totais anuais de 2023 e 2024. A IA seguirá, segundo a KPMG, como prioridade máxima para investidores e corporações que buscam ganhos de eficiência operacional.

IPOs em queda livre, saídas ficam mais escassas

Depois de um 2025 de recuperação, a atividade de IPOs de fintechs despencou no primeiro semestre de 2026. No lado do VC, o valor associado a saídas via oferta pública inicial somou apenas US$ 5,3 bilhões em 10 IPOs, ante US$ 64,9 bilhões em 30 IPOs ao longo de todo 2025. No lado do PE, o valor de saída foi de apenas US$ 2,0 bilhões em uma única operação, comparado a US$ 16,8 bilhões em sete operações em 2025.

A desaceleração reflete uma combinação de fatores: valuations de fintechs listadas caindo consideravelmente abaixo do preço de estreia, preocupações sobre o impacto da IA em empresas de software levando investidores a reavaliar suas carteiras antes de buscarem a saída, e incerteza quanto à liquidez do mercado público após o IPO recorde da SpaceX e as expectativas em torno das aberturas de capital da Anthropic e da OpenAI. Diversas fintechs voltadas a criptoativos que haviam protocolado pedido de listagem no fim de 2025 optaram por adiar os planos diante da piora nas condições de mercado.

No total, considerando VC e PE, o valor de saídas somou US$ 41,7 bilhões no semestre, bem abaixo da máxima de quatro anos de US$ 118 bilhões registrada em 2025, mas ainda superior aos totais anuais de 2022, 2023 e 2024. Os Estados Unidos concentraram a grande maioria desse valor (US$ 35,5 bilhões), apesar de responderem por menos da metade das saídas do período (99).

O que esperar para a segunda metade de 2026

A KPMG lista cinco tendências centrais para o segundo semestre de 2026: 

  • Fortalecimento de infraestrutura como prioridade de investimento, especialmente ligada a stablecoins e ativos digitais
  • Amadurecimento do interesse por IA, migrando de projetos-piloto para investimentos orientados a valor comprovado
  • Crescimento do “comércio agêntico” (uso de agentes de IA para compras e transações), impulsionando investimentos em segurança cibernética e gestão de identidade digital
  • Intensificação da consolidação, sobretudo no setor de pagamentos, com investidores de PE mais ativos em buscar oportunidades de roll-up
  • Desenvolvimento de capacidades soberanas em áreas como IA e infraestrutura financeira, à medida que governos buscam reduzir a dependência de capital e tecnologia estrangeiros.

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