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Entre a queda no custo por quilo e a disputa por capacidade de lançamento, o setor espacial caminha para uma reestruturação que deve redefinir preços, prazos e poder de mercado até o fim da década (Crédito: Reprodução/NASA)
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Crise no lançamento de satélites: por que o mercado nunca lançou tanto e nunca esteve tão apertado

Operadores como AST SpaceMobile, Telesat e Amazon já sentem a escassez de vagas de lançamento, enquanto a SpaceX prioriza Starlink e Starship em detrimento de contratos comerciais

Nos últimos três anos, uma média de 270 foguetes orbitais decolou da Terra por ano, mais que o triplo do volume de uma década atrás. Os preços por lançamento nunca estiveram tão competitivos. Ainda assim, operadores de satélites descrevem o mercado como “em pânico”. A razão é a crescente incerteza sobre a disponibilidade futura de lançamentos, num momento em que a demanda por capacidade orbital dispara: a Telesat, que reservou 11 lançamentos do Falcon 9 para sua constelação, vem recebendo pedidos de outras empresas para dividir vagas, e recusando. A Amazon teve de desacelerar a produção de satélites de sua constelação Leo por falta de lançamentos disponíveis. E a AST SpaceMobile afirmou, em teleconferência recente, que a disponibilidade de lançamento (não a fabricação de satélites) passou a ser o fator limitante de sua expansão. A Commercial Space Federation projeta demanda por milhares de lançamentos por ano dentro de uma década, e a Analysys Mason estima mais de 37 mil satélites a lançar entre 2023 e 2033.

O quadro geral é o de um mercado que nunca lançou tanto nem cobrou tão pouco por quilo em rotas padronizadas, mas que caminha para um gargalo de capacidade entre 2027 e 2028, conforme a SpaceX redireciona recursos ao Starship e à Starlink e os concorrentes ainda amadurecem seus próprios veículos.

O centro do problema é a própria SpaceX, responsável por quase todo o aumento de capacidade da década, mas que sinalizou a intenção de reduzir a operação do Falcon 9 em favor do Starship, priorizando cargas próprias (os satélites Starlink V3 e futuros data centers orbitais) por serem mais lucrativas. Os números sustentam a leitura: no segundo trimestre de 2026, US$ 4,3 bilhões dos US$ 7,8 bilhões em receita da SpaceX vieram do Starlink, enquanto menos de 12% vieram de serviços espaciais, categoria que inclui o lançamento comercial. O Falcon 9 já passou do pico operacional: voou 165 vezes em 2025 e deve completar cerca de 20 missões a menos em 2026. A SpaceX teria comunicado ao governo norte-americano a intenção de encerrar lançamentos comerciais após 2028, mantendo o foguete apenas para missões federais, mesmo que a presidente da empresa, Gwynne Shotwell, já tenha falado em 2030-2032 como horizonte de aposentadoria do veículo.

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Essa dependência remonta à invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, que tirou os foguetes Soyuz e Proton do mercado ocidental (a OneWeb, por exemplo, teve de recorrer à SpaceX). No mesmo período, o Ariane 6 europeu e o Vulcan da United Launch Alliance ainda não estavam prontos, e os programas japonês (H3) e indiano (LVM3) mal saíam do zero. Resultado: o Falcon 9, que voou 31 vezes em 2021, quase triplicou para 91 voos em 2023, sustentando praticamente sozinho a demanda ocidental.

Quatro anos e meio depois, o quadro mudou pouco. O Ariane 6 estreou em julho de 2024, mas sua meta de produção é de só dez unidades por ano. O Vulcan, contratado pela Força Espacial dos EUA desde 2020, completou apenas duas missões militares até hoje, prejudicado por falhas nos propulsores sólidos da Northrop Grumman. Já o New Glenn, da Blue Origin, pousou seu primeiro estágio no segundo voo (novembro de 2025), mas explodiu num teste estático em maio de 2026, ficando fora de operação até ao menos o início de 2027.

Uma nova geração de foguetes médios, que inclui Nova (Stoke Space, até 7 toneladas), Neutron (Rocket Lab, 13-15 toneladas), Terran R (Relativity Space, 23,5-33,5 toneladas) e Eclipse (Firefly/Northrop, 16 toneladas), ainda não voou. Os executivos do setor avaliam que a crise deve piorar antes de melhorar, com pico esperado em 2028. HawkEye 360 e Spire Global já garantiram capacidade até 2028. A AST SpaceMobile, com 12 satélites em órbita hoje, teve seu cronograma adiado de três a seis meses após a explosão do New Glenn.

Estrutura do mercado de lançamentos orbitais

Um estudo da Contrary Research, “Breaking Down the Orbital Launch Market”, ajuda a explicar por que esse aperto é tão concentrado: o mercado está longe de ser homogêneo, e a SpaceX domina o segmento mais padronizado. Segundo o levantamento, 68% dos lançamentos globais de satélites fazem parte de constelações em órbita baixa (LEO) e 88% dos satélites ativos estão em LEO. Em julho de 2025, a SpaceX respondia por 84% da massa anual levada à órbita e 55% dos lançamentos globais em volume. Já em 2025, mais de 80% da massa entregue em órbita. A Starlink, com cerca de 9.600 satélites ativos em março de 2026, respondeu por mais de 80% da massa global lançada desde 2023, um “cliente interno” que garante cadência mesmo quando a demanda externa varia.

Historicamente, o custo por quilograma caiu de forma expressiva: a NASA usava como referência histórica cerca de US$ 18,5 mil/kg. A primeira versão do Falcon 9 reduziu isso para US$ 2,7 mil/kg, e o Falcon Heavy, para US$ 1,4 mil/kg. A SpaceX afirma que o Starship pode reduzir o custo em 99% ou mais, o que implicaria algo perto de US$ 185/kg. Ainda assim, o relatório argumenta que “custo por quilo” é métrica limitada: um exemplo é o Falcon 9 em rideshare, que cobra a partir de US$ 350 mil por até 50 kg rumo à órbita sol-síncrona (US$ 7 mil por quilo adicional), mas uma carga de 10 kg pagando a mesma taxa mínima chega a US$ 35 mil/kg efetivos. O lançamento dedicado do Falcon 9 custa US$ 74 milhões para até 8.300 kg em órbita de transferência geoestacionária. A Rocket Lab, com o Electron (300 kg para LEO), registrou receita média de US$ 8,5 milhões e custo médio de US$ 4,8 milhões por lançamento em 2025 (21 missões). A Firefly Aerospace cobra US$ 19 milhões tanto para 1.030 kg em LEO quanto para 630 kg em órbita sol-síncrona, o que eleva o preço normalizado de US$ 18,4 mil/kg para US$ 30,2 mil/kg apenas pela mudança de órbita, com o preço total inalterado.

Esses números explicam por que a Contrary rejeita a tese de “comoditização” do lançamento: o mercado tende a se fragmentar em pelo menos três frentes: transporte padronizado para LEO e SSO (vantagem estrutural clara da SpaceX), lançamento dedicado e responsivo (nicho de Rocket Lab, Firefly, ULA e Blue Origin) e entregas de alta energia para MEO, GEO e além, onde desempenho do veículo pesa mais que preço por quilo.

Crescimento de mercado e nova geração de satélites

Apesar do aperto de oferta, a demanda segue em expansão. Segundo a TrendForce, o mercado global de lançamento de satélites deve crescer de US$ 29,3 bilhões em 2026 para US$ 40,4 bilhões em 2028, impulsionado pelo 6G e por satélites de nova geração. A própria SpaceX validou, com o Starship, sua primeira missão de implantação dos satélites Starlink V3 (20 unidades levadas por um foguete com 33 motores Raptor), reduzindo a altitude orbital para 350 km e alcançando latência inferior a 20 milissegundos, com até 1-2 Gbps de download. Diferentemente do Falcon 9, que recupera só o primeiro estágio, o Starship recupera os dois, o que a empresa afirma reduzir o custo por lançamento de dezenas de milhões de dólares para a casa de um dígito de milhões.

Enquanto isso, a concorrência se movimenta: a Rocket Lab anunciou subsidiária na Alemanha para produção de satélites e lançamentos via Electron e Neutron, encerrou o segundo trimestre de 2026 com US$ 2,13 bilhões em caixa, mais que o dobro dos € 902,2 milhões destinados pela Agência Espacial Europeia (ESA) a cinco novas empresas de lançamento, e apresentou o sistema modular GHOST, que permite montar infraestrutura de lançamento a partir de containers.

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