Energia, mão de obra, velocidade de transmissão de dados e resiliência física.
Apesar de atrair capital em volumes inéditos, o segmento de data centers enfrenta gargalos igualmente volumosos, principalmente nos Estados Unidos. Cinco análises recentes – do J.P. Morgan, da McKinsey & Company, da BloombergNEF (BNEF), do The Wall Street Journal e da seguradora Allianz Commercial – abordam essas questões de ângulos distintos: financiamento, risco de sobreconstrução de energia, previsão de capacidade instalada, gargalo de conectividade entre chips e risco de infraestrutura/seguros. Juntas, elas oferecem uma visão de como o segmento está afetando a infraestrutura de energia, além do desenvolvimento da IA.
Segundo o J.P. Morgan, os cinco maiores hyperscalers norte-americanos devem investir US$ 697 bilhões em Capex em 2026, alta de US$ 173 bilhões em relação ao início do ano. O caso mais visível dessa escala é o Project Stargate, iniciativa de infraestrutura de IA anunciada pelo governo Trump em janeiro de 2025, com plano de investir até US$ 500 bilhões em data centers e infraestrutura energética ao longo de quatro anos. O J.P. Morgan originou US$ 9,6 bilhões em dois empréstimos de construção para o campus de Abilene, no Texas, ligado a essa iniciativa, atuando como lead left, underwriter exclusivo e agente estruturador exclusivo em ambas as operações.
O relatório do banco descreve dois tipos de operações de dívida usadas para financiar essa infraestrutura. A dívida corporativa (no balanço da empresa) oferece velocidade e flexibilidade, permitindo financiar Capex em múltiplas frentes (construção, energia, rede, computação) sem atrelar o crédito ao desempenho de um projeto específico. Já a dívida de nível de projeto é estruturada em torno de fluxos de caixa de um ativo específico, geralmente amparados por contratos de longo prazo, o que reduz a flexibilidade mas aumenta a proteção do credor.
O relatório do J.P. Morgan também detalha os critérios que definem se um terreno é viável para um data center de IA. Segundo dados da IBM, um data center on-site típico tem entre 2.000 e 5.000 servidores, ocupando uma área de até 9,3 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de 38 quadras de tênis. Além da metragem, os desenvolvedores precisam avaliar proximidade com redes de transmissão de energia e fibra óptica, riscos ambientais (terremotos, enchentes) e, cada vez mais, questões comunitárias: audiências públicas e negociação com stakeholders locais tornaram-se etapa obrigatória para obter licenças de zoneamento, construção e direitos de uso da água.
O documento também identifica três riscos centrais que travam o financiamento: disponibilidade de energia, pressão na cadeia de suprimentos (semicondutores, equipamentos elétricos, mão de obra qualificada) e inflação de insumos, com destaque para a alta nos preços de memória RAM. O “tempo até a energia” (time to power) é o fator limitante mais crítico atualmente. Há também um risco emergente de concentração de dívida, já que a fatia de IA no mercado de financiamento cresce rapidamente, ainda que o comportamento atual dos investidores aponte para um mercado saudável e não de euforia especulativa.
A previsão de capacidade instalada nos EUA até 2030 sofreu uma revisão de 52% para cima, de acordo com levantamento publicado em julho pela BloombergNEF. O principal motivador é o crescimento do pipeline anunciado, que aumentou em mais 101 GW desde dezembro de 2025. Pela primeira vez, a BNEF incorporou um cenário baseado nas projeções de vendas de chips de IA da Bloomberg Intelligence: nesse cenário, poderia haver até 325 GW de capacidade de energia para data centers adicionados globalmente entre 2023 e 2033, dos quais 207 GW iriam para os Estados Unidos, implicando uma lacuna de 63 GW entre o que os embarques de chips sugerem e o que a BNEF projeta que será efetivamente construído, em razão de restrições de energia.
No horizonte do estudo, a capacidade dos hyperscalers (Microsoft, Meta, Alphabet e Amazon Web Services) triplica na próxima década, mas a capacidade dos não-hyperscalers quase quintuplica. Até 2035, hyperscalers devem chegar a 57 GW, contra 138 GW dos não-hyperscalers. Entre os 100 maiores projetos do país, 52 foram anunciados por empresas que nunca construíram um data center antes, somando 87 GW. O “fator de escala do desenvolvedor” mediano subiu de 2,1 no 1° trimestre de 2015 para 8,7 no 4°trimestre de 2025. Hyperscalers levam hoje 5,3 anos para desenvolver um projeto, contra 8,4 anos dos não-hyperscalers. Por fim, há 124 GW de capacidade de plantas de gás on-site anunciadas, mas apenas 56% mapeada a uma data-alvo de entrada em operação; se o ritmo histórico de conexão à rede (10 GW/ano, o maior já registrado) não acelerar, serão necessários 48 GW de gás on-site construídos até 2035 para que o cenário-base da BNEF se concretize.
Diferentemente do excesso de construção de fibra óptica no início dos anos 2000, que só servia a um propósito, a infraestrutura elétrica atende uma base de demanda ampla e crescente, o que reduz o risco de ativos ociosos mesmo que a demanda de IA desacelere. O carvão ainda responde por 15% da geração elétrica americana, e boa parte dessas usinas deve sair de operação até 2030 ao completar 65 anos de vida útil: no total, aposentadorias de usinas a carvão e térmicas envelhecidas podem retirar entre 50 e 75 GW de capacidade do sistema até 2030.
Para lidar com a lacuna no curto prazo, desenvolvedores de data centers têm recorrido a soluções de energia on-site: motores e turbinas a gás, células de combustível e armazenamento em baterias. Segundo a Pesquisa de Inteligência de Mercado de Energia Elétrica e Gás Natural da América do Norte 2025, da McKinsey (145 líderes do setor consultados, 46 com foco em data centers), 65% dos respondentes esperam implantar alguma forma de energia on-site. Quase 60% esperam ter geração on-site permanente até 2030, mesmo depois que a conexão à rede estiver disponível. Entre os que planejam ter energia on-site, 64% esperam depender de gás natural. A fonte primária de energia preferida para data centers norte-americanos se divide assim: 20% geração on-site, 45% modelo híbrido (rede + solução on-site) e 35% conectados apenas à rede.
Ainda que a energia seja o ponto central do debate sobre a construção dos data centers, a corrida pela inovação segue em paralelo. As startups estão em busca de formas para acelerar a velocidade de conexão entre os próprios chips de IA dentro dos data centers. A startup Lumilens, fundada há dois anos e sediada em San Jose, na Califórnia, levantou mais de US$ 700 milhões em uma rodada que a avaliou em US$ 5,5 bilhões, com a captação liderada em conjunto por Atreides Management, Bain Capital Ventures, Meritech, Seligman Ventures e Spark Capital. A empresa já arrecadou mais de US$ 900 milhões desde a fundação e começou recentemente a fornecer equipamentos para um grande provedor de nuvem hyperscale não mencionado pela empresa. O que se sabe é que o acordo vale bilhões de dólares ao longo dos próximos anos.
A tecnologia da Lumilens usa luz, em vez de sinais elétricos transmitidos por fios de cobre, para mover dados entre processadores gráficos (GPUs). O cobre é barato e confiável, mas perde eficiência ao transportar grandes volumes de dados por distâncias maiores, um problema que se intensifica conforme as empresas concentram chips mais poderosos dentro dos data centers. A startup desenvolve dois tipos de produtos ópticos: um conecta racks de servidores separados dentro do data center (chamado “scale out”), e outro conecta chips dentro de um único rack (“scale up”). Seu primeiro produto é um transceptor óptico que converte sinais elétricos em luz para que os dados viajem por cabos de fibra óptica.
A Lumilens não está sozinha nessa disputa:
Apesar do interesse crescente, o principal obstáculo do setor continua sendo o custo: equipamentos ópticos podem custar várias vezes mais que o cobre, o que torna difícil justificar a troca a menos que os ganhos de desempenho sejam significativos, motivo pelo qual a empresa tem investido tanto em manufatura quanto no design dos próprios chips ópticos. Segundo Umesh Padval, sócio-gerente da Seligman Ventures, “” em escala, algo que o boom de IA pode finalmente mudar.
O relatório “Powering AI: How real is the risk of overbuilding?”, da McKinsey, questiona se tanto investimento e construção ainda estão dentro da demanda ou se vai sobrar capacidade. A consultoria aponta um risco inverso no curto prazo: os EUA correm mais risco de subconstrução de energia do que de excesso. Aproximadamente 75% do crescimento esperado da demanda elétrica norte-americana na próxima década deve vir de data centers, que estão sendo construídos a um ritmo equivalente a quase 30 gigawatts (GW) de potência por ano.
Em sua pesquisa “The State of AI in 2025”, publicada no final do ano passado, cerca de um terço dos entrevistados afirmaram estar escalando o uso de IA, 39% relatando impacto mensurável no EBIT e 64% citando benefícios de inovação. O Capex dos hyperscalers cresceu cerca de 50% ao ano entre 2022 e 2026, mantendo margens e geração de caixa sólidas. Ainda assim, o relatório reconhece sinais de comportamento tipo “bolha” em partes do ecossistema: mais da metade dos novos unicórnios de 2025 eram focados em IA, incluindo várias empresas multibilionárias sem produtos comercializados, e 71% das organizações relatam resultados negativos na implementação de IA.
Para mapear o intervalo de futuros possíveis, a McKinsey modelou três cenários de demanda de data centers até 2035: “momentum acelerado”, “momentum contínuo” e “crescimento restrito por construção”. Segundo o modelo, a demanda de energia de data centers deve crescer cerca de 27% ao ano até 2030, atingindo 121 GW de demanda de carga de TI. No cenário de “momentum contínuo”, a consultoria projeta um crescimento de sete vezes na demanda de TI de data centers entre 2025 e 2035.
A McKinsey faz um alerta sobre os pedidos de interconexão à rede elétrica, que muitos leem como evidência de uma bolha de demanda. Boa parte desses pedidos é especulativa e duplicada. Como resultado, as filas de interconexão de grandes cargas são nove vezes maiores que a demanda projetada para 2030 no cenário de “momentum contínuo”, cerca de 84 GW de nova carga de TI, ou aproximadamente 120 GW de nova demanda total de energia, sem contar projetos fora da rede. Mesmo considerando apenas projetos contratados e de alta confiança (início esperado dentro de 12 meses), o volume ainda representa o dobro da demanda projetada.
O boom de construção dos data centers envolve ainda o risco físico e climático, e o que isso significa para o mercado de seguros. No relatório “The data center construction boom: risks and claims trends”, a Allianz projeta que o investimento anual global em data centers deve dobrar, saindo de cerca de US$ 500 bilhões em 2024 para mais de US$ 1 trilhão já em 2027. Estados Unidos e China devem responder por cerca de 62% de toda a nova capacidade global adicionada até 2030, mas a próxima onda de investimentos está se tornando mais global: na Europa, Alemanha, Reino Unido e Irlanda seguem como mercados relevantes, mas a expansão mais rápida é esperada em Espanha, Finlândia e Dinamarca, onde a disponibilidade de energia e as condições de licenciamento tendem a ser mais favoráveis. Na região Ásia-Pacífico, excluindo a China, a capacidade instalada deve saltar de cerca de 9 GW hoje para mais de 28 GW até 2030, com a Malásia crescendo mais de dez vezes.
Os maiores limitadores do setor deixam de ser financeiros e passam a ser físicos: acesso à eletricidade, conexões à rede, licenciamento, equipamentos especializados e mão de obra qualificada. Só nos Estados Unidos, a indústria da construção enfrenta uma escassez estimada de cerca de 439 mil trabalhadores qualificados, com necessidade adicional de dezenas de milhares de profissionais nos próximos anos, segundo estimativas da Allianz Research.
O relatório também traz um alerta climático relevante: cerca de 79% de toda a capacidade global de data centers já está localizada em áreas expostas a risco elevado de catástrofes naturais, e 54% está exposta a calor crônico e seca. Alguns dos mercados de infraestrutura de IA que mais crescem estão também entre os mais expostos climaticamente, incluindo o norte da Virgínia (EUA), Johor (Malásia) e Marselha (França). A exposição aguda a enchentes, incêndios florestais e ventos é maior nas Américas, afetando 86% da capacidade, enquanto o estresse crônico de calor e seca é maior na Ásia-Pacífico, atingindo 89% da capacidade.
Como reflexo direto desse novo perfil de risco, o mercado global de seguros para data centers deve mais que dobrar de valor, saindo de cerca de US$ 11 bilhões atualmente para mais de US$ 24 bilhões até 2030. Os custos de construção de um único campus de IA já podem superar US$ 20 bilhões, com os valores segurados subindo ainda mais depois da instalação dos equipamentos de computação de alta performance. Segundo a Allianz, cobertura de seguro abrangente já se tornou pré-requisito para o financiamento de muitos grandes projetos de infraestrutura de IA. A análise da seguradora sobre sinistros do setor mostra que incêndios são o principal
responsável pela severidade das perdas, respondendo por mais da metade de cerca de € 700 milhões (US$ 800 milhões) em perdas registradas. As catástrofes naturais aparecem em segundo lugar, seguidas por atos dolosos (que incluem crimes e incidentes cibernéticos) e falhas de energia. Já em frequência, danos por água são a causa mais comum de sinistros em data centers, seguidos por atos dolosos, incêndio e quebra de equipamentos, com interrupção de negócios sendo o principal fator de severidade financeira entre as linhas de seguro. Em casos reais citados pela Allianz, danos a sistemas externos de resfriamento, incêndios ligados a trabalhos a quente e atrasos na entrada em operação causados por distúrbios de energia resultaram, cada um, em perdas na faixa de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões.
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