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A Amazon pagou US$ 11,6 bilhões pela Globalstar para entrar no mercado de satélites e rivalizar com a Starlink, de Elon Musk (Crédito: Freepik)
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O mercado de satélites nunca mais será o mesmo

A corrida pelo domínio dos satélites entra em nova fase: como Amazon, Starlink e Hawkeye 360 estão redesenhando um mercado de US$ 22 bilhões

Por Soraia Yoshida 14/04/2026

Na mesma semana em que a Hawkeye 360, empresa de defesa e inteligência que utiliza uma constelação de satélites para fornecer dados e análises para geolocalização, registrou pedido de IPO na Bolsa de Nova York, a Amazon anunciou a aquisição da Globalstar por cerca de US$ 11,57 bilhões para competir diretamente com a Starlink, de Elon Musk. É a maior aposta da Big Tech no mercado de satélites e um sinal inequívoco de que a corrida pela baixa órbita da Terra entrou em uma nova fase. 

O que está em jogo é o controle de uma infraestrutura que promete conectar os últimos bilhões de pessoas sem acesso à internet, substituir torres de celular em regiões remotas e servir de nervo central para comunicações militares, aviação, navegação marítima e serviços de emergência. Segundo a Grand View Research, o mercado global de internet via satélite estava avaliado em US$ 10,4 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 22,6 bilhões até 2030, crescendo a uma taxa composta anual (CAGR) de 13,9%. Estimativas mais agressivas, como as da MarketsandMarkets, projetam o setor saltando de US$ 14,56 bilhões em 2025 para US$ 33,44 bilhões em 2030, crescimento de 18,1%.

A Amazon vem tentando transformar seu projeto de constelação de satélites – rebatizado de Amazon Leo após ser chamado durante anos de Project Kuiper – em uma alternativa real à Starlink. Mas o progresso tem sido lento. Com apenas cerca de 200 satélites em órbita realizando testes comerciais limitados, a empresa está longe da meta de operar mais de 7.700 satélites. No início de 2026, a Amazon chegou a pedir à Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) uma prorrogação do prazo para ter 1.600 satélites em órbita até julho, um prazo regulatório que a empresa simplesmente não conseguia cumprir.

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A Globalstar resolve vários problemas de uma vez. A empresa opera uma constelação de satélites de órbita baixa (LEO) já funcional, detém ativos de espectro e infraestrutura de solo valiosos. E mais: por enquanto, a Globalstar é que faz funcionar os serviços de satélite dos smartphones da Apple (iPhone 14 em diante) e do Apple Watch Ultra 3. A parceria com a Apple permite que usuários enviem mensagens, acessem serviços de emergência, solicitem assistência rodoviária e compartilhem localização sem cobertura de celular. Com a aquisição, esses serviços migrarão para o Amazon Leo até 2028.

Com a aquisição da Globalstar, a Amazon entra oficialmente na disputa a partir de 2028. A empresa herda não apenas a infraestrutura e o espectro da Globalstar, mas também o relacionamento consolidado com a Apple, a marca de consumo mais valiosa do mundo. 

 

A complicação da fatia da Apple

A transação não foi simples. A Apple detinha 20% da Globalstar, o que tornou necessária uma negociação triangular entre Amazon, Globalstar e Apple. O desfecho foi favorável para todos: a Apple garantiu a continuidade dos serviços de satélite para seus dispositivos, agora fornecidos pela Amazon Leo. A Apple se orgulha de dizer o seu serviço de Emergência SOS via satélites já ajudou a “salvar muitas vidas ao redor do mundo”, incluindo escoteiros presos em trilhas na Colúmbia Britânica a uma mulher resgatada de helicóptero após seu carro cair de um penhasco de 75 metros no Colorado.

A reação do mercado foi imediata. As ações da Globalstar subiram até 11% após o anúncio. As da Amazon avançaram até 3%. Quem sofreu foi a AST SpaceMobile, uma das maiores concorrentes no segmento de conectividade direta a dispositivos (D2D, na sigla em inglês), cujos papéis despencaram até 10%.

 

O mercado D2D: a próxima fronteira

O termo “direct-to-device” (D2D) descreve a capacidade de satélites se conectarem diretamente a smartphones comuns, sem a necessidade de hardware especial. Em princípio, é a promessa de transformar qualquer celular em um dispositivo com cobertura global. Até antes do anúncio da Amazon, os dois principais protagonistas desse mercado nascente eram a SpaceX (que conta com a Starlink) e a AST SpaceMobile.

A SpaceX fechou parceria com a T-Mobile para levar conectividade via Starlink a regiões sem cobertura de rede terrestre. A AST, por sua vez, tem acordos com operadoras como AT&T e Verizon, mas ainda está nos estágios iniciais do lançamento de sua constelação. Em dezembro de 2025, a AST lançou um dos maiores satélites já colocados em órbita no segmento comercial.

Segundo levantamento da consultoria Analysys Mason, até 27% dos consumidores pesquisados estão dispostos a pagar a mais por serviços D2D, o que representaria um incremento de 1% nas receitas anuais das operadoras móveis. É um mercado pequeno hoje, mas de altíssimo potencial de crescimento.

 

A máquina da Starlink que financia o resto da SpaceX

Enquanto a Amazon ainda tenta decolar no setor de satélites, a Starlink já chegou à “altitude de cruzeiro”. Em 2025, a divisão de internet via satélite da SpaceX gerou US$ 11,4 bilhões em receita e impressionantes US$ 7,2 bilhões em EBITDA ajustado, uma margem de 63% raramente vista em qualquer segmento de tecnologia, segundo reportagem do The Information

É a Starlink que banca o restante da SpaceX: o negócio de lançamentos de foguetes gerou US$ 4,1 bilhões em receita e apenas US$ 700 milhões de EBITDA, enquanto a divisão de Inteligência Artificial xAI, recentemente incorporada à SpaceX, faturou US$ 3,2 bilhões mas queimou US$ 1,2 bilhão em EBITDA.

Em outras palavras: a Starlink não é apenas a divisão mais lucrativa da SpaceX. Ela é praticamente a única fonte de lucro real de toda a empresa. Para 2026, a receita da Starlink é projetada em mais de US$ 9 bilhões.

Com o IPO da SpaceX e mirando algo em torno de US$ 75 bilhões de valuation, cresce a possibilidade de que Elon Musk lidere uma fusão com a Tesla. Com esse movimento, ele resolveria pelo menos dois problemas de uma vez: fazer a Tesla voltar a crescer e provavelmente escalar a produção do robô humanoide Optimus. Transformando as empresas em uma superpotência tecnológica, ele conseguiria também mais dinheiro para o negócio de satélites e abriria uma vantagem ainda maior sobre a concorrência.

Mas no tabuleiro de xadrez das Big Techs, é importante lembrar que enquanto Amaz, SpaceX & cia fazem ondas, a China corre por fora com grandes chances de chegar em segundo. Se não, em primeiro lugar.

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