Em 2020, uma equipe de pesquisadores da Monash que avaliava os futuros possíveis descreveu a Inteligência Artificial (IA) como o sistema subjacente que habilitava tecnologias “inteligentes”, o back-end invisível de termostatos e assistentes de voz. Em 2026, a IA é a tecnologia “paradigmática”, capaz de remodelar fundamentalmente como as pessoas trabalham, compram, criam e interagem no cotidiano. O relatório “Scenarios for Future Living: Emerging Technology Innovation and Development” traça as mudanças trazidas pela convergência de tecnologias e do envelhecimento populacional.
O estudo indica que agentes de IA estão sendo desenvolvidos para assumir tarefas como otimizar o uso de eletrodomésticos, negociar energia em mercados peer-to-peer e gerenciar serviços domésticos de forma autônoma. A IA embarcada (on-device AI ou Edge AI) está sendo integrada a dispositivos de saúde, sistemas de monitoramento e eletrodomésticos, reduzindo a dependência de servidores remotos, mas aumentando o consumo de energia local.
O contraste entre as tecnologias que prometem autonomia e criam novas dependências é um dos fios condutores do relatório Monash. A barreira principal à adoção da IA, segundo os pesquisadores, não é mais técnica: é social. Confiança – em como os sistemas se comportam, quais dados coletam, quem os controla – emerge como o ativo mais escasso do ecossistema digital.
O estudo é baseado na análise de 93 relatórios, entrevistas com 20 especialistas e etnografia em nove conferências e feiras de tecnologia e se mostra como pano de fundo de uma transformação que vai muito além da adoção de gadgets.
Por trás das telas e dos assistentes de voz, uma nova infraestrutura está sendo construída. O 6G, previsto para testes laboratoriais nos anos 2030, promete não apenas mais velocidade, mas a transição de um mundo de “coisas conectadas” para um mundo de “inteligência conectada”, no qual sensores, dispositivos e sistemas tomam decisões coordenadas em tempo real, sem intervenção humana constante. Projetado desde o início com sustentabilidade como princípio (alguns já o chamam de “green G”), o 6G pode reduzir a latência e o custo de transmissão, enquanto multiplica a capacidade dos ecossistemas autônomos residenciais.
Os gêmeos digitais – réplicas virtuais de edifícios, bairros, infraestruturas e até pessoas – estão se aproximando de um ponto de inflexão: adoção ampla em 5 a 10 anos, segundo o relatório “Logistics Trend Radar 7.0”, da DHL. Los Angeles já usa gêmeos digitais urbanos para testar estratégias de descarbonização antes de implementá-las. Uma projeção do levantamento “Technology Vision 2025”, da Accenture, vai mais longe: “As pessoas terão gêmeos digitais para participar de reuniões e tomar decisões em seu lugar.”
A Computação Quântica fecha esse tripé de infraestrutura. Descrita como “um salto disruptivo”, ela deve atingir valor de mercado global de US$ 1 trilhão até 2035, segundo o Future Today Strategy Group. Suas aplicações mais imediatas para o modo de vida: acelerar descobertas em Ciência de Materiais e Química de Baterias, melhorar modelos de previsão climática e otimizar o gerenciamento de redes de energia distribuída. O Gartner projeta que, até 2029, avanços em Computação Quântica tornarão a maior parte da criptografia assimétrica convencional insegura, uma ameaça direta a toda a infraestrutura de casas inteligentes que depende de chaves de criptografia para proteger dados de saúde, energia e comportamento.
O envelhecimento populacional é uma das forças demográficas mais intensas que está moldando essa convergência. Em 2030, aproximadamente 16,5% da população mundial ou 1 em cada 6 pessoas terá 60 anos ou mais, de acordo com dados das Nações Unidas. Isso representará um grupo de 1,4 bilhão de pessoas em todo o mundo.
Considerando que o ritmo do envelhecimento até 2050 será mais acelerado do que vinha acontecendo até pouco tempo, será preciso uma resposta. Entre as alternativas, está o que o relatório da Monash chama de “hospital sem paredes”: saúde que migra da clínica para o domicílio. Monitoramento remoto, diagnósticos domiciliares, planos de bem-estar hiperpersonalizados e modelos de assistência baseados em wearables (dispositivos vestíveis) compõem um novo ecossistema de cuidado que transforma o lar em unidade de saúde. Robôs assistivos, exoesqueletos, cobots e óculos de Realidade Aumentada estão sendo incorporados tanto a ambientes domésticos quanto a locais de trabalho, permitindo que trabalhadores mais velhos permaneçam economicamente ativos por mais tempo, com menor esforço físico e carga cognitiva.
O levantamento alerta, entretanto, que a convergência entre cuidado e trabalho pode criar tensões frequentemente subestimadas por estudos sobre longevidade. Os sistemas virtuais de saúde funcionam apenas enquanto há energia e conectividade estáveis. Em eventos climáticos extremos, que estão se tornando mais frequentes, os apagões podem desligar os dispositivos médicos dos quais dependem os pacientes mais vulneráveis. E como o relatório observa, são as comunidades regionais, com infraestrutura de energia mais frágil e maior proporção de população idosa, que correm maior risco de ver os benefícios da saúde digital chegarem exatamente onde menos há capacidade de sustentá-los.
O estudo da Monash University sintetiza as tendências identificadas em cinco visões especulativas. Não estamos falando de previsões, mas sim de análises que consideram as interdependências e os conflitos entre forças tecnológicas, econômicas e ambientais.
1. O lar se torna um santuário analógico. Em resposta à fadiga digital e à proliferação de conteúdo gerado por IA, as pessoas irão priorizar experiências táteis, ou seja, cerâmica, jardinagem, livros físicos etc. A tendência será gerenciar ativamente o consumo de energia em vez de delegá-lo a sistemas automáticos. O escritório, por sua vez, vai se “hotelizar” e se transformar em um hub de bem-estar de luxo, com saunas infravermelhas, pods de relaxamento em Realidade Virtual e robôs para fazer massagem, elementos que farão parte de um pacote para competir por talentos e aumentar o consumo de eletricidade nos horários de trabalho.
2. O envelhecimento redesenha radicalmente o espaço doméstico. Casas inteligentes vão integrar robôs companheiros, sistemas de segurança automatizados, climatização otimizada por IA e lembretes cognitivos. Serviços de nutrição, entretenimento e cuidado irão se tornar mais e mais personalizados para cobrir necessidades individuais. Exoesqueletos e cobots permitirão que trabalhadores mais velhos permaneçam produtivos em funções físicas. As empresas deverão oferecer incentivos de saúde vinculados a monitoramento biométrico contínuo, abrindo questões sobre vigilância e autonomia.
3. A Realidade Estendida transforma o lar em hub total. Sobreposições de Realidade Aumentada, Realidade Virtual e Realidade Mista irão converter ambientes em escritórios, espaços de entretenimento ou simulações de viagem. Famílias viverão experiências de “parque temático em casa”, combinando dispositivos XR, haptics, cozinhas inteligentes e impressoras 3D. A IA ajustará a iluminação, música e conteúdo às respostas fisiológicas dos moradores em tempo real. A sombra dessa visão será o crescimento do cibercrime hiperpersonalizado: os mesmos dados que habilitam a personalização serão explorados por sistemas generativos de fraude.
4. Habitação e mobilidade convergem em sistemas modulares e móveis. As casas serão construídas com materiais recicláveis, componentes impressos em 3D e estrutura que poderá ser reconfigurada ao longo da vida. Envelopes construtivos adaptativos responderão automaticamente às condições climáticas. Veículos autônomos funcionarão como extensões do lar, com direito a assistentes de voz, sistemas de entretenimento imersivo, impressoras 3D embarcadas e entrega de serviços de saúde em movimento. E as estradas eletrificadas possibilitarão o carregamento contínuo.
5. Comunidade inteligente e sustentável integra renováveis descentralizadas, gestão automatizada de demanda e modelos de moradia coletiva. Robôs e agentes autônomos assumirão tarefas domésticas; eletrodomésticos poderão antecipar necessidades e coordenar com a rede elétrica e previsões climáticas; alimentos serão cultivados em fazendas verticais internas com energia renovável local. Mas essa visão também expõe a mais dura das contradições: o acesso a ar filtrado e climatizado, a sistemas eficientes de HVAC e a energia de backup vão se tornar marcadores de desigualdade. Em um cenário de aquecimento do planeta, com ondas de calor e fumaça gerada por incêndios, os mais vulneráveis serão os que menos poderão pagar pela proteção que a tecnologia promete.
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