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Mesmo com alta adoção de IA, equipes seguem presas a agendas fatiadas, stacks digitais caóticos e jornadas extensas que reduzem foco e aumentam risco de burnout (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

A crise silenciosa do trabalho: por que as empresas estão perdendo foco, não horas

Dados globais indicam que apenas 2 a 3 horas do dia são realmente produtivas, enquanto o “trabalho sobre trabalho” e a fragmentação da agenda corroem a eficiência

Por Soraia Yoshida 06/02/2026

A discussão sobre se o trabalho deve ser remoto, híbrido ou presencial ficou pequena. Em 2026, o gargalo global do trabalho não é a localização e sim o foco. Manter atenção de forma contínua está se tornando algo cada vez mais raro nas equipes, cujo tempo de concentração e consequente produtividade são esvaziados por reuniões, mensagens, excesso de uso alternado de ferramentas e jornadas fragmentadas. Tudo isso transforma o foco em KPI de produtividade, como aponta um relatório recém-publicado pela Hubstaff.

Os profissionais passam, em média, apenas 39% do tempo de trabalho em foco profundo, segundo dados do “The 2026 Global Trends and Benchmarks Report: How Work Gets Done”. Isso equivale a 2 a 3 horas reais de concentração por dia. Esse percentual varia um pouco quando se considera o modelo de trabalho:

  • Equipes presenciais: 45% do tempo em foco
  • Equipes remotas: 41%
  • Equipes híbridas: apenas 31%, o pior desempenho entre os três modelos

Por função, a disparidade é ainda maior:

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  • Papéis altamente colaborativos (Product Managers, líderes de Marketing, fundadores): o foco frequentemente cai para a faixa dos 20% do tempo.
  • Papéis de alta concentração (Engenharia, Design, Dados, Finanças, escrita): 40% a 44% da semana em foco profundo.

O estudo conclui que não existe produtividade sustentável sem atenção contínua, e que medir apenas horas, presença ou volume de entregas ignora a variável que realmente determina a qualidade do trabalho gerado.

Segundo a Hubstaff, mais de 20% do tempo das equipes é gasto com “work about work”, ou seja, reuniões de status, mensagens, alinhamentos, buscas por informação e coordenação. O problema não é apenas a quantidade de reuniões, mas sua distribuição ao longo do dia:

  • Dentro da janela 9h–17h, cada hora concentra entre 4% e 10% dos minutos totais de reunião.
  • Um dia típico tem cerca de 4 reuniões e 185 minutos em reuniões.
  • Não há blocos claros de silêncio: o dia é fatiado em pequenos intervalos que inviabilizam janelas longas de foco.

O efeito acumulado é que mesmo reuniões individualmente razoáveis criam, juntas, um ambiente que não incentiva a concentração profunda.

 

Ritmos de trabalho variam por função e ignorar isso destrói a eficiência

O estudo aponta que colaboradores e gestores trabalham sob calendários muito diferentes. Gestores e lideranças em geral passam uma parte maior do tempo em reuniões, o que torna a comunicação e boas práticas de gestão de pessoas ainda mais importantes.

  • Colaboradores
    • 10% do tempo em média gastos em reuniões
    • 4 horas de reuniões por semana
    • cerca de 5 reuniões semanais
  • Gestores e líderes
    • 25% do tempo em média gastos em reuniões
    • 9 horas semanais
    • cerca de 13 reuniões por semana

Em apenas dois anos:

  • O número de reuniões por pessoa mais do que dobrou.
  • O número de reuniões por organização cresceu quase seis vezes.

O estudo mostra que impor metas uniformes de agenda para funções distintas é contraproducente. Organizações mais maduras estão migrando de regras rígidas para faixas de referência por papel, usando benchmarks como sinal de alerta, não como instrumento de controle.

 

 

Sobrecarga de ferramentas fragmenta atenção

Outro vetor silencioso da perda de foco é a explosão do chamado stack digital, ou seja, o uso de ferramentas digitais para que o trabalho seja feito. Em muitas organizações, as plataformas e recursos usados são integrados para que o trabalho possa fluir melhor, mas na maioria das vezes, os novos recursos foram “colados” uns aos outros, o que costuma gerar uma experiência ruim para o funcionários e perda de tempo e concentração. 

Segundo o relatório:

  • Profissionais usam, em média, 18 aplicativos diferentes por dia
  • Em alguns casos:
    • Equipes presenciais: 23 apps/dia
    • Marketing: 24 apps/dia
    • Especialistas em SEO: até 36 apps/dia

O estudo conecta diretamente o alto número de aplicativos a

  • mais tempo gastos em mensagens
  • mais necessidade de coordenação
  • menos foco profundo aplicado ao trabalho

A recomendação não é “menos ferramentas a qualquer custo”, mas a criação de uma “espinha digital” coerente, com

  • Ferramentas essenciais para trabalho, comunicação e conhecimento
  • Regras claras de “qual ferramenta usar para qual finalidade”
  • Integração e automação para reduzir alternância manual

 

Adoção de IA é ampla, mas uso profundo ainda é exceção

O relatório mostra que a maioria das equipes já usa ferramentas de Inteligência Artificial no seu trabalho, mas poucas fizeram a integração da IA de forma estrutural:

  • Equipes híbridas
    • adoção: 84% (ante 72%)
    • tempo em IA: 11% do dia (ante 5%)
  • Equipes remotas e presenciais
    • adoção: cerca de 80%
    • tempo em IA: apenas 1% a 2% do dia

Por função:

  • Engenheiros lideram, com 87% de adoção e cerca de 8% do tempo em IA
  • Outras áreas usam IA de forma pontual, para rascunhos ou resumos

Quando a IA é integrada aos fluxos de trabalho, os ganhos aparecem

  • 23% relatam menos tempo improdutivo
  • 77% citam mais rapidez no cumprimento de tarefas
  • 70% relatam mais foco e menos distrações

 

A “tripla jornada” e a sobrecarga de trabalho são reais

É importante lembrar que embora a IA prometa mais agilidade e menos tempo gasto com tarefas repetitivas, esse tempo seria melhor empregado no trabalho criativo, aproveitando as qualidades e o conhecimento humano. A maioria das organizações adotando IA, porém, estão puxando seus funcionários para “produzir mais”, o que gera uma sobrecarga de trabalho.

Cerca de 20% dos dias úteis analisados na pesquisa da Hubstaff apresentam o chamado “triple-peak workday”, uma jornada que envolve um pico de trabalho pela manhã, outro após o almoço e um terceiro à noite. Comparado a um dia típico, o dia de trabalho de pico triplo ou tripla jornada

  • quase dobra o tempo total trabalhado
  • aumenta sessões de foco de 5 para 14
  • reduz reuniões
  • eleva o tempo improdutivo (3% frente a 2%)

Segundo a análise da Hubstaff, o dia de trabalho de pico triplo pode ser um instrumento legítimo de flexibilidade, quando escolhido deliberadamente. Mas quando se torna implícito ou esperado, cria uma jornada infinita, aumenta risco de burnout e dissolve limites entre trabalho e vida pessoal. Em outras palavras, as organizações que valorizam seus talentos devem adotar essa possibilidade como opcional e não como parte da jornada diária.

Por fim, o relatório redefine a leitura sobre a carga de trabalho. Semanas de mais de 50 horas trabalhadas aparecem com frequência relevante entre os profissionais de diferentes áreas e cargos.

  • Profissionais com pelo menos uma semana acima de 50h:
    • Gestores – 28%
    • Suporte – 21%
    • Vendas/Marketing – 18%
    • Engenheiros: 16%
  • Proporção das semanas totais acima de 50h:
    • Gestores – 13%
    • Vendas/Marketing – 11%
    • Suporte – 9,2%
    • Engenheiros – 4,8%

A Hubstaff trata essas semanas como sinal de alerta operacional, não de comprometimento. O relatório reforça que jornadas excessivas degradam desempenho, aumentam retrabalho e aceleram desgaste, principalmente em funções de coordenação e contato com clientes.

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