O conselho já não pergunta “quanto investimos em IA”, mas se a empresa converte esse investimento em vantagem competitiva mais rápido que os concorrentes. Comitês de auditoria cobram controles ligados a IA, comitês de remuneração vinculam metas executivas à produtividade gerada por IA, e comitês de indicação buscam conselheiros com fluência no tema. Essa mudança na atitude faz com que muitos CEOs tenham de navegar de maneira diferente as expectativas do board, como mostra o estudo “What Boards Are Really Expecting from AI Transformation”, da Draup. Os CEOs sentem que precisam chegar para a reunião com três pontos em mente:
Apresentar apenas o primeiro ponto é hoje o motivo mais comum de resistência dos conselhos. O levantamento traz cinco questões que hoje concentram as discussões do board, substituindo métricas de atividade por evidências de resultado.
Onde o valor está de fato aparecendo? Os conselhos já superaram a fase de contar pilotos. Querem redução de custo, aumento de receita, redução de ciclos atrelados a fluxos de trabalho específicos, com um método de atribuição comprovado.
A empresa tem a força de trabalho para executar? A estratégia está limitada pelas habilidades disponíveis. Os conselhos querem ver como a força de trabalho está sendo redesenhada, onde está o talento crítico e com que velocidade a organização consegue requalificar pessoas em escala.
Como nos comparamos aos concorrentes? Os conselheiros chegam cada vez mais às reuniões com benchmarks externos em mãos e esperam que a gestão saiba exatamente onde a empresa está em adoção, profundidade de talentos e maturidade de casos de uso (e que saiba explicar a diferença).
Qual é o alcance do risco? Risco de modelo, exposição de propriedade intelectual, concentração de fornecedores e, de forma crítica, risco reputacional decorrente de decisões sobre a força de trabalho. Os conselhos não querem surpresas na imprensa.
Estamos alocando capital de acordo com a própria estratégia? Se a IA é a tese central, o plano de capital, o pipeline de fusões e aquisições e o plano de talentos devem refletir isso. Os conselhos verificam a coerência entre os três.
O principal insight do estudo é que a transformação da força de trabalho e não a adoção tecnológica tornou-se o principal fator limitante da geração de valor com IA. As organizações incapazes de redesenhar funções, redistribuir talentos e desenvolver habilidades em escala não conseguem transformar investimento em IA em vantagem competitiva.
Há três mudanças identificadas e que precisam ser discutidas.
1.A passagem de cortes de quadro de pessoal para o redesenho de funções
Os conselhos desconfiam de gestões que apresentam a redução de trabalhadores como a própria “tese de IA”. Uma pesquisa da Careerminds mostra que quase 92% das empresas que realizaram cortes ligados à IA se arrependeram e fariam algo diferente, sendo que 68,3% recontrataram parte dos funcionários e 35,6% mais da metade dos dispensados. O ponto importante não é admitir que empregos serão eliminados (isso qualquer executivo já diz), mas o compromisso com planos concretos de realocação, hoje tratado pelos conselhos como padrão mínimo aceitável.
2.De treinamentos genéricos para inteligência de oferta de habilidades
O número mais repetido no mercado, cerca de 80% da força de trabalho global precisará de novas habilidades até 2027, é só pano de fundo. A pergunta que interessa ao conselho é quais 5.000 dos 50.000 funcionários são críticos para o plano de IA, onde estão hoje e onde buscar o restante.
3.Do planejamento anual para o monitoramento contínuo de sinais externos
Contratações da concorrência, atrito, novos clusters de habilidades, deslocamentos geográficos devem acompanhar o mesmo ritmo dos indicadores financeiros.
O estudo detalha cinco elementos que devem substituir o tradicional relatório de RH:
O documento da Draup destaca ainda que os conselhos estão cada vez mais céticos em relação a dados envolvendo os funcionários que sejam puramente internos. As empresas que se destacam atraindo e retendo talentos em IA combinam inventários internos de habilidades com inteligência externa para gerar visibilidade sobre onde está se concentrando o talento em IA, quanto os concorrentes estão pagando e quais funções que estão surgindo podem se tornar relevantes ou mesmo fundamentais para o negócio. Sem essa lente externa, todo plano que envolve a força de trabalho está sendo construído no escuro.
Outro eixo é o “AI Dividend at Constant Headcount”: em vez de perguntar quanto se gasta em IA, os conselhos mais avançados perguntam o que a IA compra em capacidade, com o quadro de pessoal estável. São três testes cumulativos:
O estudo propõe um placar com seis dimensões – valor, força de trabalho, habilidades, competitividade, risco e capital –, cada uma com um sinal de saúde: mais da metade das iniciativas de IA com responsável de resultado (P&L) nomeado, preenchimento interno de vagas críticas acima de 40%, e gastos de IA revisados a cada trimestre e alinhados à tese estratégica. Para os próximos 90 dias, recomenda nomear um responsável pela realização de valor com autoridade para redirecionar orçamento; publicar uma linha de base interna de habilidades por função crítica; e encomendar um mapeamento externo de concorrentes, atualizado ao menos duas vezes ao ano.
Os conselhos de 2026 não pedem que a gestão preveja o futuro da IA, conclui o estudo, mas que demonstre capacidade de adaptação mais rápida que a concorrência.
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