A IA Agêntica já opera dentro das empresas, com acesso a sistemas e dados, tomando decisões e executando ações. A governança que deveria controlar os agentes de IA está fragmentada. De acordo com o relatório “Global CISO Insights 2026: Identity security in the age of AI”, levantamento global com 306 CISOs, chefes de cibersegurança e outros executivos seniores de segurança, agentes de IA criaram uma crise de governança no centro da segurança corporativa, e a infraestrutura de identidade é, ao mesmo tempo, o problema e a solução.
Apesar de uma ansiedade quase universal em relação às ameaças ligadas à IA, menos da metade dos Chief Information Security Officers entrevistados consegue afirmar com confiança que sabe onde seus agentes estão, a que eles têm acesso ou quais ações estão autorizados a executar. As organizações aplicam políticas de identidade humana a agentes não humanos, dependem de credenciais compartilhadas com permissões amplas e gerenciam o acesso de agentes de forma pontual. Esse mosaico de abordagens deixa pontos cegos espalhados pela empresa agêntica.
A pesquisa também aponta um desalinhamento na diretoria como fator agravante: apenas 31% dos CISOs sentem que estão totalmente alinhados com a alta liderança e o conselho sobre o nível de risco de IA considerado aceitável, e menos da metade diz que seu conselho vê a segurança de IA como facilitador de negócio, e não apenas como exigência de conformidade. Sem esse alinhamento, os CISOs têm dificuldade para garantir o apoio necessário à adoção responsável de IA.
A boa notícia, segundo a Okta, é que existe um caminho: quando as organizações investem em amadurecer sua governança de identidade de IA, relatam menos Shadow AI, menos preocupação com violações e conseguem conter “agentes desonestos” (“rogue agents”) mais rapidamente. O caminho para chegar nesse patamar começa com três perguntas:
As lideranças de segurança vivem pela máxima de que “não se protege o que não se vê”. Para muitas organizações, o medo da Shadow IT já era uma dor de cabeça constante. Essa lacuna de visibilidade só piorou com a enxurrada de agentes de IA introduzidos por aplicativos de terceiros ou construídos internamente pelas próprias equipes.
Como base da pesquisa, a Okta pediu aos CISOs que avaliassem três afirmações: “Eu sei onde meus agentes estão”, “Eu sei ao quê meus agentes podem se conectar” e “Eu sei o que meus agentes podem fazer”. Menos da metade dos executivos se sente confiante para identificar todos os agentes em seu ambiente (47%), controlar a que eles têm acesso (46%) ou autorizar chamadas individuais de ferramentas com base em contexto e intenção (45%). O percentual cai para menos de 30% se forem consideradas apenas as respostas “concordo totalmente”.
Um dado adicional reforça que visibilidade, sozinha, não basta: a pesquisa revela o que a Okta chama de contradição entre visibilidade e segurança. Mesmo entre os CISOs totalmente confiantes de que sabem onde seus agentes estão, cerca de 80% continuam altamente preocupados com excesso de acesso e permissões. Saber a localização ou as conexões de um agente reduz moderadamente a preocupação com uma violação, mas nunca a elimina.
Nem todas as empresas e nem todos os países estão no mesmo ponto da jornada de segurança agêntica. A Okta pediu que os entrevistados classificassem a maturidade de governança de seus agentes em quatro estágios: reativo (“apenas começando a descobrir o uso de IA, sem políticas ou controles formalizados”); em desenvolvimento (“políticas básicas para IA sancionada, mas sem visibilidade abrangente nem controles automatizados”); definido (“controles de identidade padronizados, como SSO e MFA, aplicados a ferramentas conhecidas, mas com dificuldades com Shadow AI ou permissões de agentes secundários”); e avançado (“controles de acesso automatizados e em tempo real, monitoramento contínuo e governança dinâmica para todas as identidades humanas e de IA”). A distribuição global é: 9% reativo, 31% em desenvolvimento, 34% definido e 26% avançado, ou seja, 40% das organizações ainda têm maturidade reativa ou em desenvolvimento. O Reino Unido está mais avançado: 36% das organizações britânicas relatam governança avançada e totalmente automatizada, a maior proporção entre os países pesquisados. Esse progresso não veio da complacência, já que 46% dos líderes britânicos dizem estar “muito preocupados” com o acesso excessivo de IA não revisado, atrás apenas dos Estados Unidos.
As organizações mais maduras se preocupam menos com violações habilitadas por IA, enquanto as reativas são as mais propensas a estar extremamente preocupadas (32%), ainda que quase dois terços delas (61%) priorizem inovação em vez de segurança, 13 pontos acima da média entre todos os níveis de maturidade (48%).
Os números por maturidade mostram que as empresas reativas relatam a maior exposição a Shadow AI (25% de uso extensivo, contra média geral de 13%) e têm muito mais dificuldade para conter agentes fora de controle: 18% delas não conseguem sequer identificar ou interromper um agente desonesto, contra apenas 5% na média geral. Já entre as empresas avançadas, 50% conseguem revogar o acesso de um agente em minutos, contra 26% na média do total pesquisado. Nenhuma empresa do nível avançado relatou dificuldade para identificar e interromper esses agentes. No total, 55% das empresas conseguem revogar o acesso de um agente em algumas horas em caso de violação, mas a Okta reforça que responder em horas é tempo demais, já que sistemas de IA podem executar ações prejudiciais instantaneamente.
Diante disso, ganhar controle total sobre identidades de IA virou prioridade declarada: manter controle sobre quem tem acesso a agentes a qualquer momento foi classificado como o recurso de segurança mais crucial por 29% dos entrevistados, seguido por descoberta de agentes e gestão de credenciais, cada um citado por 20%.
O Japão é o país com maior proporção de CISOs “extremamente preocupados” com violações causadas por IA (29%), e os CISOs japoneses são duas vezes mais propensos (12%) a relatar que não têm nenhuma abordagem consistente de governança, ante a média global de 6%. Fechar essa lacuna exige apoio do conselho, mas os conselhos japoneses estão entre os mais propensos, globalmente, a tratar a segurança de IA como obstáculo de conformidade, e não como facilitador de negócio.
O medo de violações causadas por IA é especialmente agudo nos Estados Unidos: 84% dos CISOs norte-americanos se dizem “extremamente” ou “muito preocupados”, contra 57% globalmente. Além das violações em si, 81% dos líderes de segurança no mundo estão “profundamente preocupados” com o acesso excessivo de IA não ser devidamente revisado.
Sobre o que alimenta essa ansiedade, os líderes apontaram ameaças específicas:
A Alemanha se destaca: os CISOs alemães relatam a maior confiança na supervisão de agentes, mas têm uma das maturidades de governança mais baixas do estudo (58% em desenvolvimento ou reativos) e a maior preocupação isolada com phishing por IA de todo o estudo (quase 81%).
Mais de dois terços dos CISOs (68%) percebem pelo menos algum uso não sancionado de IA e de IA Agêntica. A resposta mais comum quando uma Shadow AI é detectada é bloquear o acesso (35%) ou trazer a ferramenta para dentro da governança formal e aplicar controles de acesso (29%). A França ilustra como essa resposta pode falhar: o país ocupa a última posição em confiança de supervisão. Apesar de crença e ansiedade elevadas de que funcionários usam Shadow AI (88% relatam pelo menos algum uso não sancionado), as organizações francesas dependem de remediação passiva, portanto, quase 24% apenas notificam usuários e contam com adesão voluntária à política, o que as deixa singularmente expostas.
O relatório detalha como o acesso de agentes de IA é governado hoje e o quadro ajuda a explicar a baixa confiança. Segundo o gráfico de distribuição apresentado, 28% das organizações gerenciam agentes por meio de um framework separado, criado especificamente para identidades não humanas. Um contingente descrito no relatório como “um em cada quatro” CISOs aplica aos agentes exatamente o mesmo ciclo de vida e as mesmas políticas usadas para identidades humanas
A Okta chama atenção para o risco embutido nesse quadro: os sistemas de identidade atuais foram construídos para humanos e software tradicional, com ciclos de vida previsíveis e caminhos de execução fixos. A natureza não determinística dos agentes de IA (que permite produzir resultados diferentes a cada execução ou observação, mesmo partindo exatamente das mesmas condições iniciais) cria lacunas que essas ferramentas não foram desenhadas para fechar. Segundo Matt Immler, CSO regional da Okta, “quando falamos de governança, estamos falando de tratar essas identidades de IA como identidades de primeira classe, tê-las no diretório da empresa, com um processo de governança em que exista um responsável humano por definir a quais dados elas têm acesso, em quais escopos podem agir ou quais decisões podem tomar”.
O relatório fecha com quatro recomendações.
Obter visibilidade total sobre a população de agentes antes de qualquer outra coisa, mapeando onde operam, a que se conectam e o que podem fazer.
Substituir credenciais compartilhadas por controles granulares: governar agentes por credenciais compartilhadas ou contas de serviço com permissões amplas cria um raio de impacto desnecessário quando um agente é comprometido. A recomendação é tratar cada agente como identidade de primeira classe, com ciclo de vida próprio, permissões delimitadas e política de acesso específica.
Trazer a Shadow AI para dentro da governança. Bloquear isoladamente as ferramentas não autorizadas empurra o uso para ainda mais longe da visibilidade da empresa, em vez de resolver a demanda que existe para tais recursos. A recomendação é construir um processo repetível para avaliar, integrar e governar novas ferramentas rapidamente.
Fechar a lacuna de alinhamento com a diretoria antes que vire um problema de recursos, trazendo proativamente parâmetros de risco baseados em dados para as conversas com a liderança e posicionando os controles de identidade como algo que permite ao negócio avançar mais rápido, não como algo que o desacelera.
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