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Para o BCG, a maior ameaça às organizações raramente vem de fora. Estratégias desatualizadas, cultura de inércia, silos e disputas internas costumam corroer a competitividade (Crédito: Freepik)
LIDERANÇA

Quatro erros que levam empresas ao fracasso

Segundo o BCG, ignorância estratégica, inércia organizacional, silos e conflitos entre executivos estão por trás do declínio de muitas companhias — mesmo em mercados favoráveis

Por Soraia Yoshida 22/03/2026

Olhe para dentro da sua empresa. Talvez esse seja o melhor conselho hoje para CEOs que enfrentam desafios de incerteza econômica e disrupções tecnológicas. Não porque a transformação pede passagem, mas porque, na maioria das vezes, o verdadeiro problema da estratégia organizacional está “dentro de casa”. E quando ela falha, as empresas começam a entrar em colapso.

Não é boato, é fato. Uma análise do Boston Consulting Group (BCG) indica que a longevidade das empresas está diminuindo rapidamente. A permanência média de companhias no índice S&P 500 caiu pela metade desde o fim dos anos 1970, enquanto a taxa de empresas que deixam a lista da Fortune 100 aumentou cerca de 60% nos últimos 50 anos. Esses números indicam que o sucesso corporativo se tornou cada vez mais efêmero. Marcas que dominaram seus setores por décadas desapareceram, foram absorvidas por concorrentes ou perderam relevância lentamente. E, segundo os analistas, o motivo raramente é apenas a pressão externa.

Em vez de perguntar por que algumas empresas têm sucesso, o BCG sugere inverter a lógica: por que tantas empresas se tornam medianas ou fracassam? A resposta aparece na forma de quatro padrões organizacionais recorrentes que os autores chamam de “os quatro cavaleiros do apocalipse corporativo”, forças internas que aos poucos corroem a capacidade competitiva de uma companhia.

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Esses quatro fatores são:

  1. Ignorância estratégica
  2. Inércia organizacional
  3. Individualismo corporativo
  4. Conflitos internos entre lideranças

 

1.Ignorância estratégica: quando a empresa perde o radar do futuro

O primeiro problema identificado pelo BCG é a ausência de uma estratégia clara ou atualizada para lidar com um ambiente competitivo em transformação. Segundo o estudo, muitas empresas operam com modelos de negócio que funcionaram no passado, mas deixam de revisá-los diante de mudanças estruturais no mercado. O resultado é uma espécie de “miopia estratégica”, na qual executivos só percebem a ameaça quando ela já se materializou. As mudanças tecnológicas, por exemplo, raramente surgem de forma inesperada; na maioria das vezes, são visíveis anos antes. O que falta é disposição para questionar o modelo vigente.

De acordo com análises complementares McKinsey, essa dificuldade em revisar premissas estratégicas é comum: cerca de 45% das empresas globais revisam formalmente sua estratégia apenas uma vez por ano, ritmo insuficiente para acompanhar ciclos de inovação cada vez mais rápidos.

 

2.Inércia organizacional: quando a estratégia não sai do papel

Mesmo quando as empresas conseguem identificar mudanças no ambiente competitivo, nem sempre são capazes de transformar a estratégia em ação. O motivo pode ser resistência cultural, sobrecarga operacional ou simplesmente a dificuldade de mudar comportamentos estabelecidos. Essa inércia pode surgir tanto na liderança quanto na própria organização.

Uma cultura corporativa de inércia profundamente enraizada é um tremendo obstáculo. Durante processos de transformação digital e agora com implementação da IA, por falta de comunicação clara e transparência, a alta liderança percebe que seus esforços de mudança não avançam porque as pessoas não adotam as novas abordagens, seja porque estão sobrecarregados com as tarefas do dia a dia ou porque não acreditam nas novas medidas. E, como bem nota o estudo, mesmo a melhor estratégia não vai funcionar se não rodar no mundo real. 

Implementar uma nova estratégia ou qualquer plano de ação significa mudar a forma como as pessoas pensam e agem, lidar com a incerteza. E, em última análise, vencer o medo de fracassar.

 

3.Individualismo corporativo: o problema dos silos

O terceiro fator identificado pelo BCG é a falta de colaboração dentro das empresas. Embora corporações modernas sejam organizações complexas que dependem da integração entre diferentes áreas, muitos executivos ainda operam com mentalidade de feudos internos, priorizando o desempenho de suas próprias unidades em detrimento da organização como um todo.

Essa dinâmica cria silos organizacionais, nos quais divisões, regiões ou funções deixam de compartilhar conhecimento e coordenar decisões. Além de reduzir a eficiência, o fenômeno dificulta a inovação, que cada vez mais depende da integração entre diferentes competências – tecnologia, dados, produto, marketing e operações.

 

4.Conflitos internos: quando rivalidades corroem a empresa

O quarto e último fator apontado pelo BCG é o “infighting”, ou conflito interno entre executivos. Competição entre lideranças pode ser saudável quando estimula desempenho e inovação. Mas, quando rivalidades se tornam pessoais ou políticas, elas podem paralisar decisões estratégicas e destruir valor. Esses conflitos podem se manifestar de diversas formas:

  • Executivos que sabotam projetos de colegas
  • Diretrizes contraditórias dentro da organização
  • Disputas públicas que prejudicam a reputação da empresa

 

O papel do CEO: enfrentar o inimigo interno

Se os principais riscos estão dentro da organização, o papel do CEO também muda. Segundo o BCG, liderar uma empresa hoje exige combinar duas funções simultâneas: estrategista e coach organizacional. O líder precisa não apenas definir a direção da empresa, mas também desenvolver a cultura e os mecanismos internos capazes de sustentar essa estratégia.

Os autores propõem um checklist com quatro práticas para enfrentar o “inimigo interno”.

 

1.Manter a estratégia viva

Estratégia não deve ser tratada como um documento anual produzido durante o ciclo de planejamento. Em vez disso, precisa funcionar como uma conversa contínua entre empresa e mercado, atualizada constantemente com base em novas informações.

Grandes CEOs cultivam o que o BCG chama de “curiosidade estratégica”:

  • monitoram tendências emergentes
  • incentivam visões divergentes
  • escutam clientes e parceiros
  • questionam premissas estabelecidas

 

2.Transformar visão em execução

Ambição estratégica só se torna realidade quando acompanhada de disciplina operacional. Executivos eficazes traduzem objetivos de longo prazo em metas claras de curto prazo, com prioridades bem definidas, entregas trimestrais e mecanismos de accountability visíveis. Além disso, criam um ambiente que permite experimentação — mas não tolera passividade.

 

3.Construir organizações que vencem juntas

O estudo argumenta que o desempenho sustentável depende de colaboração organizacional. Os CEOs eficazes alinham incentivos para recompensar resultados coletivos, não apenas conquistas individuais. Também estimulam a rotação de executivos entre áreas e regiões para desenvolver visão sistêmica da empresa.

Quando as equipes trabalham de forma integrada, as decisões se tornam mais rápidas, a experiência do cliente melhora e a inovação acelera.

 

4.Gerenciar conflitos antes que se tornem crises

Conflito não precisa ser eliminado, ele pode até estimular melhores decisões. Mas as lideranças precisam criar mecanismos para que divergências apareçam cedo e sejam resolvidas antes de se transformarem em disputas destrutivas. Isso inclui definir claramente direitos de decisão, estabelecer fóruns de debate e agir rapidamente quando rivalidades pessoais ameaçam a organização.

 

No final do artigo, os autores do BCG apontam um desafio central da liderança corporativa: a capacidade de olhar para dentro da própria organização. Quando as empresas enfrentam dificuldades, a reação mais fácil é culpar o ambiente externo – mudanças tecnológicas, concorrência ou regulações.

Mas, na visão da consultoria, o verdadeiro diferencial das empresas que prosperam é a disposição de confrontar seus próprios problemas. Grandes líderes institucionalizam esse exercício de autocrítica. Eles incentivam feedback honesto, realizam auditorias culturais e começam reuniões perguntando “O que não está funcionando?”, em vez de focar apenas em resultados positivos.

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