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TENDÊNCIAS

O futuro do dinheiro entra em fase operacional

Pagamentos agênticos e dinheiro programável deixam de ser conceito e passam a redefinir eficiência operacional e risco no sistema financeiro.

As tensões que começam a emergir no sistema global de pagamentos entre eficiência e risco, autonomia e controle, inovação e regulação já não se limitam a pilotos ou discursos prospectivos. Elas estão se materializando na operação diária de empresas e instituições financeiras, com impactos diretos sobre modelo de negócios, infraestrutura e governança.

É nesse contexto que se insere o estudo global “The Future of Money“, da Accenture, baseado em entrevistas com mais de 400 executivos de bancos, provedores de pagamento e grandes clientes corporativos. Os dados mostram que moedas digitais e pagamentos agênticos deixaram de ser temas exploratórios e passaram a influenciar decisões concretas de investimento, priorização tecnológica e gestão de risco.

O que emerge não é apenas uma nova geração de instrumentos de pagamento, mas uma mudança estrutural na forma como o dinheiro circula. Pagamentos tornam-se programáveis, iniciados por agentes de software e integrados a fluxos automáticos de decisão, reduzindo intervenção humana e aumentando velocidade, frequência e complexidade operacional.

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A demanda corporativa avança mais rápido que a prontidão dos bancos

Um dos achados centrais do estudo é o desalinhamento entre o que empresas esperam e o que bancos estão preparados para entregar. Sessenta e nove por cento das empresas afirmam esperar que instituições financeiras ofereçam carteiras de moeda digital nos próximos três anos. Entre os bancos, apenas 37% avaliam essa demanda como efetiva nesse horizonte.

Esse descompasso se estende ao comércio internacional. Cresce o interesse corporativo por métodos alternativos de pagamento cross-border, incluindo carteiras digitais, provedores não bancários e moedas digitais como stablecoins, criptomoedas e CBDCs. Ainda assim, quase 8 em cada 10 bancos indicam que suportar esses métodos exigirá esforço substancial, envolvendo upgrades de middleware, APIs, automação de compliance e, em alguns casos, modernização profunda do core bancário.

Caso essa migração se consolide, até US$ 5 trilhões em volume transacional podem sair dos trilhos tradicionais até 2028, colocando cerca de US$ 5 bilhões em receitas de fees sob pressão. Mais do que perda de volume, está em jogo a capacidade de orquestrar fluxos financeiros e manter relevância na relação com o cliente corporativo.

Pagamentos agênticos deixam a fase conceitual

Os pagamentos agênticos já avançaram para um estágio operacional inicial. Setenta e nove por cento das instituições financeiras afirmam estar testando ou pilotando soluções de pagamentos autônomos, enquanto 57% das empresas esperam que esse modelo se torne comum em até três anos.

Os casos de uso citados são recorrentes e sensíveis: faturamento automatizado, pagamentos a fornecedores, contas de utilidades, estornos, chargebacks e detecção preventiva de fraude. Para lidar com esse novo padrão, metade das organizações já atualiza seus sistemas para absorver picos de transações iniciadas por agentes.

Autonomia amplia eficiência e risco

A aceleração da autonomia expõe um paradoxo operacional. Oitenta e sete por cento das instituições financeiras apontam a confiança como principal barreira à adoção de pagamentos agênticos, e 78% acreditam que a fraude aumentará significativamente nesse modelo. Apesar disso, 60% dos bancos não possuem um plano de resposta forense dedicado para investigar fraudes envolvendo agentes.

As empresas afirmam confiar quase no mesmo nível em bancos (67%) e big techs (64%) para fornecer pagamentos agênticos seguros. A confiança deixa de ser implícita e passa a depender de controles explícitos, transparência operacional e capacidade de resposta em ambientes altamente automatizados.

Moedas digitais, tokenização e regulação

Criptomoedas e stablecoins já estão em produção em parte relevante do mercado, enquanto CBDCs permanecem majoritariamente em fase de testes. Nesse cenário, os depósitos tokenizados emergem como uma escolha pragmática: permitem ganhos de eficiência e programabilidade sem romper com o arcabouço regulatório existente. O estudo indica que 87% das instituições financeiras já exploram tokenização como ferramenta complementar.

Essa cautela também é reforçada pelo ambiente regulatório ainda instável em torno das stablecoins. Nos Estados Unidos, disputas recentes sobre quem captura os rendimentos gerados por esses ativos e sob qual arcabouço regulatório, passaram a ameaçar iniciativas legislativas como a CLARITY Act, evidenciando o conflito entre plataformas de criptoativos, reguladores e o sistema bancário tradicional. Um impasse que ajuda a explicar por que muitos bancos optam por avançar em depósitos tokenizados: um caminho que permite ganhos de eficiência e programabilidade sem renunciar a clareza regulatória, controle de balanço e governança prudencial.

A dinâmica em curso se manifesta no nível da infraestrutura, onde decisões afetam diretamente captura de valor, controle dos fluxos financeiros e risco operacional. Em um cenário no qual volumes relevantes de pagamentos internacionais tendem a migrar para trilhos alternativos, a relevância institucional passa a depender da capacidade de operar pagamentos como sistemas programáveis, resilientes e governáveis.

Nesse contexto, a convergência entre IA, automação e dinheiro digital começa a se materializar de forma incremental. O primeiro estágio dessa evolução é o chamado dinheiro programável, em que pagamentos deixam de depender de acionamento manual para serem executados automaticamente quando condições específicas forem atendidas, como a confirmação da entrega de uma carga, a digitalização de documentos em um porto ou a validação de uma fatura. Execução condicionada a regras de negócio, dados operacionais e controles de conformidade.

No comércio e nas cadeias de suprimentos, o dinheiro programável viabiliza maior eficiência no uso do capital de giro e maior previsibilidade do fluxo de caixa. Para bancos e empresas, esse movimento desloca o debate de inovação para execução: menos exceções manuais, menor atrito operacional e maior controle sobre risco, liquidez e governança.

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