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Julian Thomas é presidente do Grupo Maersk no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai Crédito: Divulgação
ENTREVISTA

Nosso objetivo é tornar uma operação de logística global tão fácil quanto é o e-commerce para o consumidor

Com mais de 20 anos de experiência na liderança de empresas marítimas, Julian Thomas está à frente do processo de transformação digital da A.P. Møller – Mærsk no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai

Por Soraia Yoshida 14/01/2022

É justo dizer que entre todos os setores que passam por transformação digital, o de navegação marítima e transporte de cargas está entre os que abraçaram o processo mais lentamente. “Outras indústrias foram afetadas pela digitalização de suas operações muito mais cedo do que a indústria naval, devido à complexidade inerente da indústria marítima. Mas as coisas estão mudando e, incomum para o setor marítimo, muito rapidamente”, apontou Michael Papageorgiou, Gerente Sênior da KPMG em artigo para a revista NAFS.

A afirmação resume bem o cenário da A.P. Møller – Mærsk A/S, também conhecida simplesmente como Maersk, empresa de navegação dinamarquesa e um dos players mais importantes no transporte marítimo e terrestre. Fundada em 1904, a companhia marítima passou por várias encarnações, atualizando sua tecnologia com o passar dos anos – dos navios a vapor até o mega cargueiros de hoje. Mais do que isso, a Maersk evoluiu em sua atuação. “A agenda digital faz parte da nossa transformação. Ao invés de sermos apenas armadora, somos uma empresa de logística integrada”, afirma Julian Thomas, presidente do Grupo Maersk no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Thomas assumiu o cargo em setembro de 2020. Anteriormente, ele havia atuado como Diretor Geral das empresas de navegação Hamburg Süd e Aliança Navegação e Logística, no Brasil. Com mais de 20 anos de experiência na liderança de empresas marítimas, ele está à frente do processo de transformação digital da companhia, que além de digitalizar processos procura adotar uma abordagem semelhante do digital da experiência do cliente que empresas de varejo tanto perseguem hoje.

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“A pandemia mudou os padrões do consumidor e a logística global deve seguir o mesmo exemplo”, diz Julian Thomas. Para ele, o fechamento dos negócios e operações no pior período da pandemia significou uma mudança clara para o online. “O consumidor final muda cada vez mais das lojas físicas para o e-commerce que, por sua vez, impacta as cadeias de suprimentos”.

“O objetivo da Maersk é tornar uma operação de logística global tão fácil quanto é para o consumidor entrar em serviços de e-commerce e fazer compras”, diz ele em entrevista exclusiva para a The Shift.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Wärtsilä Marine Business, dois terços das empresas de navegação iniciaram sua jornada digital, sendo este apenas o começo, pois 69% delas estão atualmente explorando soluções digitais. As apostas no digital parecem estar alavancando bastante os negócios. A projeção é que as dez principais linhas de transporte de contêineres listadas publicamente fechariam 2021 com um lucro recorde de US$ 115 bilhões a US$ 120 bilhões, de acordo com o provedor de inteligência de transporte Alphaliner.

Com serviços como gerenciamento da cadeia de suprimentos e operação portuária, a Maersk foi a maior empresa de transporte de contêineres e operadora de navios do mundo de 1996 a 2021 – foi ultrapassada pela suíça MSC em 5 de janeiro, que agora é a maior linha de transporte de contêineres do mundo. Mas as águas estão agitadas com as mudanças de modelos de negócio e a entrada de tecnologias como Internet das Coisas (IoT), Big Data, Inteligência Artificial (IA), APIs e sensores, que otimizam operações, aprimoram eficiência, reduzem custos e aumentam o tempo de atividade das embarcações, como aponta levantamento da KPMG.

Em agosto de 2021, a AP Moller – Maersk (Maersk) anunciou a aquisição da Visible Supply Chain Management (Visible SCM), uma empresa de logística voltada para o consumidor, com foco na entrega de encomendas e serviços de atendimento B2C nos Estados Unidos e com sede em Salt Lake City. Além disso completamos a aquisição da B2C Europe Holding B.V. (B2C Europe), uma empresa de logística de negócios para o consumidor focada em serviços de entrega de encomendas na Europa, sediada na Holanda. Ambas as empresas são bem estabelecidas e reconhecidas no setor de logística de comércio eletrônico.

“Estamos na vanguarda do desenvolvimento de soluções inovadoras de cadeia de suprimentos, unindo nossa rede global e profunda experiência com inovações digitais para permitir que nossos clientes fiquem à frente da curva”, diz Thomas. A visão da Maersk é construída em quatro elementos, já incluindo soluções digitais:

  • Armazenamento e distribuição: temos locais de armazenamento estratégicos, combinados com ferramentas de design, processos e sistemas, para garantir uma distribuição eficiente.
  • Gestão: visibilidade, consistência e otimização do fluxo de produtos, documentos e informações ao longo da cadeia de suprimentos.
  • Maersk Flow: com nossa plataforma digital, podemos ajudar a otimizar a cadeia de suprimentos.
  • Logística de e-commerce: a Maersk escalou para garantir que as mercadorias possam ser entregues aos consumidores em sua porta, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Julian Thomas conta como foi a reação da companhia à chegada da pandemia e mais sobre a transformação digital da Maersk.

 

Disrupção é…

“Sempre buscar a nossa melhor versão. Isso significa desestabilizar, reconstruir, recriar e repensar sobre tudo o que fazemos e o que representamos para o mundo. Disrupção é acreditar que podemos fazer coisas incríveis para a humanidade, e que há possibilidades infinitas diante de nós.

Na cadeia logística, o comércio mundial é altamente dependente de contêineres. Mais de 80% dessa movimentação ocorre por via marítima em alguma parte da cadeia internacional.

O atual cenário de oferta e demanda tem aumentado as taxas de frete, também impulsionado pelo aumento dos custos de rede devido a operações menos eficientes de transporte, aumentos acentuados em taxas de fretamento e preços de contêineres e soluções alternativas para apoiar as cadeias de suprimentos dos clientes.

A pandemia mudou os padrões do consumidor e a logística global deve seguir o mesmo exemplo. O lockdown significa que estar presencialmente em determinados lugares não é mais viável em muitas regiões. Em vez disso, nossos clientes recorrem a soluções online. O consumidor final muda cada vez mais das lojas físicas para o e-commerce que, por sua vez, impacta as cadeias de suprimento.

Se por um lado a pandemia nos trouxe desafios globais, sobretudo no setor em que atuamos, também vimos um avanço na digitalização de vários processos.

O comércio internacional já havia desacelerado antes da pandemia, assim como o investimento em novos navios. A chegada do coronavírus levou a uma recessão brutal no comércio mundial, primeiro quando a China fechou e depois os demais países, em uma reação em cadeia, atingindo seu nível mais baixo em abril de 2020, com uma contração do volume da movimentação de contêineres de mais de 30%.

Embora impulsionados por fatores externos, a Maersk tem trabalhado sem parar para mitigar essa situação, utilizando todos os navios e todos os contêineres disponíveis enquanto trabalhamos com clientes e fornecedores para melhorar o tempo de entrega de equipamentos vazios.

Para mitigar a situação, compramos ou alugamos todos os contêineres disponíveis para oferecer aos clientes contêineres alternativos. Não eliminamos a frota de nenhum contêiner, nem devido à idade, nem às vendas, e reparamos contêineres, mesmo com custos mais elevados.

Em maio de 2020, a Maersk começou a ver uma recuperação. As exportações do Brasil e da região nunca caíram muito. O que diminuiu foram as importações. As medidas globais para conter a pandemia da Covid-19 têm causado grande pressão na cadeia de suprimentos, devido à falta de navios, contêineres e capacidade de transporte, bem como redução significativa da produtividade em portos, armazéns e terminais terrestres.

Em novembro de 2020, nós dobramos a capacidade em nosso serviço ferroviário semanal na rota Ásia — Europa. Mantemos um diálogo próximo com autoridades para resolver a questão de substituir, com segurança, as tripulações das embarcações e aumentar o pessoal nos portos e terminais/armazéns terrestres.

A pandemia criou gargalos significativos e problemas de capacidade em todos os níveis da cadeia de abastecimento de transporte e logística, causados por uma interação de fatores além do controle de qualquer organização. A partir disso, percebemos que a falta de resiliência da cadeia de abastecimento agravou as consequências causadas pela crise sanitária.

Criar resiliência não é apenas garantir que, se algo semelhante acontecer, as consequências não serão tão ruins como foram durante o pior período da pandemia, mas também criar resiliência para atender a interrupções menores na cadeia de abastecimento, que continuarão a acontecer.

Interrupções na forma de mudanças na política comercial, gargalos de infraestrutura e muitos outros fatores são uma característica comum nos últimos anos. Considerando também as mudanças climáticas, vemos um clima cada vez mais frequente e volátil que pode anular os melhores planos de transporte.

Enquanto lidávamos com essas interrupções, debatemos a necessidade crescente de diversificar as cadeias de suprimentos que se tornaram muito enxutas e vulneráveis. A questão central, então, foi: como podemos reduzir o aumento da resiliência e reduzir a volatilidade? Sob esta perspectiva, entendemos que é possível fazer isso das seguintes maneiras.

A primeira é oferecendo soluções integradas de ponta a ponta que criarão melhor controle operacional, transparência, resiliência e, em última análise, economia para os clientes. Outra maneira é ter um modelo de logística verdadeiramente integrado, que permite que os clientes conectem sua cadeia de suprimentos com facilidade, velocidade, previsibilidade e flexibilidade. E ter liberdade para oferecer e alocar a disponibilidade de produtos, serviços e pacotes de uma forma que crie melhores soluções para os clientes e tenha maior impacto nas cadeias de suprimentos do cliente.

Por fim, compreendemos que é importante apoiar as metas de sustentabilidade e reconhecer a importância da digitalização no setor logístico, visando agilidade, excelência operacional e tecnologia, fatores que tiveram sua relevância reafirmada neste período. Deste modo, acreditamos que a tecnologia oferece a chave para eliminar a complexidade de maneiras que não poderíamos fazer antes.

A Maersk embarcou em uma jornada de transformação digital em 2017. Contudo, a pandemia de Covid-19 nos levou a alcançar em 9 meses o que esperávamos fazer em três anos.

Atualmente, temos mais de 6.000 pessoas em todo o mundo trabalhando em TI e desenvolvimento digital. E todas as unidades de negócios participam desse processo. O objetivo da Maersk é tornar uma operação de logística global tão fácil quanto é para o consumidor entrar em serviços de e-commerce e fazer compras. Alguns cliques e pronto.

A agenda digital faz parte da nossa transformação. Ao invés de sermos apenas armadora, somos uma empresa de logística integrada.

Entre os nossos cases temos o Maersk Shipment App, uma plataforma de rastreamento de carga que permite aos clientes acompanhar o andamento de sua remessa em tempo real. O aplicativo teve um aumento surpreendente de 460% em suas atividades no período de janeiro a junho de 2020.

O processo de cotação e fechamento de carga foi digitalizado. O Maersk Spot/Instant é um processo que já existe há alguns anos, e que antes era 100% baseado em papel, por e-mail e por telefone. Essas ferramentas que lançamos há três anos fazem tudo isso digitalmente e não precisam ser negociadas, pois colocamos nosso melhor preço do dia online.

O cliente tem segurança no preço do produto e temos certeza de que ele acompanhará a carga. Ainda temos muitos cancelamentos de última hora na cadeia logística que levam ao chamado overbooking, um vício inerente ao sistema. Essa ferramenta busca mais o autosserviço e visa reduzir o excesso de reservas.

Na gestão da cadeia de suprimentos temos uma série de produtos, entre eles o NeoNav, uma solução de Inteligência Artificial (IA) para ajudar as empresas a otimizar as cadeias de suprimentos, reduzir custos e gerenciar melhor os estoques.

Os padrões de compra do consumidor e as plataformas digitais estão acelerando o consumo online, redefinindo os modelos de negócios em todo o mundo.

Muitos clientes da Maersk estão observando um forte crescimento nas vendas de e-commerce, à medida que implementam estratégias digitais pioneiras e estão procurando suporte para o crescimento de sua cadeia de suprimentos entre empresas e consumidores. As duas aquisições realizadas no ano passado – a Visible Supply Chain Management (Visible SCM) e B2C Europe Holding B.V. (B2C Europe) – estão conectadas a essa tendência e vão fortalecer o conjunto de produtos de logística de e-commerce da Maersk, alinhado à sua transformação estratégica de negócios.

A Visible SCM opera em nove centros de distribuição nos EUA, complementando a quantidade de depósitos da Maersk na América do Norte. A companhia recebe 200 mil pedidos por dia e possui um saldo de 200 milhões de encomendas por ano, através de suas soluções de tecnologia, com 99,8% de precisão no pedido.

Essa rede nacional de centros de atendimento de e-commerce de múltiplos clientes, combinada com um sistema de gerenciamento de pedidos, permite que os clientes da Visible SCM acessem uma solução de rede em vez de uma opção de atendimento apenas em um único local. Essa opção cria níveis superiores de serviço ao consumidor ao encurtar a distância dos pedidos, reduzindo o tempo em trânsito e reduzindo o custo de entrega final.

Como parte do nosso processo para incluir a digitalização na agenda de logística, a Maersk e a IBM desenvolveram, em conjunto, o TradeLens, uma plataforma de mercado aberta e neutra sustentada pela tecnologia blockchain, com suporte dos principais participantes da indústria de transporte global. Essa plataforma promove a troca eficiente de informações, de maneira transparente e segura, para fomentar maior colaboração e confiança em toda a cadeia de fornecimento global.

Agora, a pergunta é: o que esperar dos próximos anos? Com a aceleração digital mais presente em nossos processos, em um futuro não tão distante poderemos presenciar como a Inteligência Artificial, combinada a outras tecnologias, irá beneficiar o nosso trabalho.

 

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