The Shift

A IA está em todo lugar: o problema agora é estratégia

O estudo AI at Work, do BCG, ouviu quase 12 mil profissionais em 14 países e uma das principais conclusões é que as empresas ficam presas a ferramentas, quando deveriam olhar para a estratégia (Crédito: Freepik)

A Inteligência Artificial (IA) é a inovação mais influente no ambiente de trabalho na visão dos CEOs globais. Mais de 36% das lideranças organizacionais classificaram a IA em primeiro lugar entre as inovações dos últimos 300 anos, à frente dos notebooks e tablets (35%), videochamadas e videoconferências (31%), Wi-Fi (29%), Internet (27%) e trabalho híbrido (26%), de acordo com pesquisa do International Workplace Group (IWG). 

Faz sentido. Mais do que qualquer uma das tecnologias listadas que passaram de “novidade” a “instrumento” de trabalho no dia a dia, a IA está remodelando empregos mais rápido do que as organizações estão remodelando seus modelos operacionais. Para não perder a transformação (e nem os concorrentes) de vista, as empresas precisam ter clareza estratégica para converter esse uso em valor real e sustentável, como aponta o relatório “AI at Work 2026”. Em outras palavras, saber por quê e para onde importa mais do que saber com quê.

Intitulada “Strategy Matters More Than Tools”, a quarta edição do estudo recém-publicado pelo Boston Consulting Group (BCG) ouviu 11.749 profissionais em 14 mercados globais – incluindo Brasil, Estados Unidos, Índia, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Austrália, África do Sul e Oriente Médio – distribuídos em três níveis hierárquicos: profissionais de linha de frente sem responsabilidades gerenciais, gestores de médio escalão e líderes seniores. Essa divisão é muito importante porque, durante décadas, a adoção de tecnologias emergentes foi predominantemente um fenômeno de topo: líderes e gestores abraçavam as ferramentas com entusiasmo, enquanto os profissionais operacionais ficavam à margem. Esse padrão mudou em 2026.

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Pelo menos 74% dos profissionais de linha de frente se descrevem hoje como usuários regulares de IA, definidos como pessoas que utilizam a tecnologia diariamente ou várias vezes por semana. Isso representa um salto de 23 pontos percentuais em relação a 2025, quando o índice era de 51%. Para contextualizar: em 2023, apenas 20% dos profissionais de linha de frente eram usuários regulares. Em três anos, a taxa quase quadruplicou. Entre os gestores, o índice chegou a 88% (alta de 10 pontos percentuais em relação a 2025), e entre líderes seniores atingiu 93%. A adoção na alta liderança não é nova (já era de 80% em 2023), mas o salto entre os profissionais operacionais é o dado mais expressivo do ciclo.

Geograficamente, Índia (95%), Oriente Médio (93%) e Austrália (86%) lideram a adoção entre profissionais de linha de frente, enquanto Estados Unidos (62%), França (62%) e Itália (62%) ficam abaixo da média global de 74%. O Brasil aparece na 4ª posição, com 82%, acima de Alemanha (75%), Reino Unido (75%) e Espanha (72%).

Por área funcional, as funções de suporte são as mais avançadas: TI (88%), Marketing (85%), Finanças (83%) e Dados e Analytics (83%) lideram. Vendas (68%) e Operações e Produção (61%) ficam abaixo da média. A distribuição sugere que a transformação ainda está chegando às funções diretamente ligadas à geração de receita e à produção.

O relatório batiza esse fenômeno de fim do “silicon ceiling”, a barreira invisível que até pouco tempo impedia que a IA descesse dos andares executivos para o escritório onde a maioria dos profissionais carrega o dia a dia. Na prática, o que se vê é que com a adoção disseminada da IA, o próximo desafio não é mais convencer as pessoas a usar a tecnologia. É o que fazer com ela, principalmente para extrair e gerar valor.

 

Tempo economizado, valor perdido

Um dos achados mais relevantes (e ao mesmo tempo mais perturbadores) da edição de 2026 é a constatação de que economizar tempo com IA não equivale automaticamente a criar valor para a organização. Entre os profissionais de linha de frente que são usuários regulares, 42% reportam economizar pelo menos 8 horas por semana, o equivalente a um dia completo de trabalho. Entre os gestores, esse índice sobe para 52%, e entre líderes, para 60%. Considerando todos os respondentes que são usuários regulares, 52% economizam ao menos uma jornada semanal. Nas funções com maior ganho de tempo, a liderança fica com o Marketing (60% dos profissionais de linha de frente economizam 8 horas ou mais por semana), seguido por TI (53%), Recursos Humanos (50%), Finanças (49%) e Dados e Analytics (48%).

O problema começa quando a pergunta muda de “Quanto tempo você economiza?” para “O que você faz com esse tempo?”. O relatório revela que 66% dos profissionais de linha de frente (e 61% do total de respondentes) afirmam que suas organizações oferecem orientação limitada ou nenhuma orientação sobre o que fazer com o “tempo liberado pela IA”. Esse índice é de 52% entre líderes, o que aponta para uma brecha de percepção ao longo da hierarquia: quanto mais alto o cargo, mais a pessoa acredita que a orientação é clara; quanto mais baixo, mais sente a ausência de direção. O resultado? Mais da metade dos profissionais de linha de frente não reinveste o tempo economizado em trabalho de maior valor estratégico. Entre os gestores, o índice é de 43%, e entre líderes, de 36%, o que nos mostra que, mesmo no topo, o problema não está resolvido.

O BCG descreve essa ocorrência como um “vazamento de valor”: a IA libera a capacidade humana, mas a falta de direção organizacional faz com que essa capacidade se dissipe em vez de ser canalizada. Tempo economizado individualmente não se transforma em ganho coletivo sem um design deliberado.

 

A transformação real é organizacional

Se a adoção individual está consolidada, o relatório do BCG é claro ao indicar que o próximo (e mais difícil) estágio da transformação é organizacional e gerencial. 

Esses números descrevem uma reconfiguração profunda das funções e as organizações, segundo o estudo, ainda não refletiram essa mudança em seus modelos de gestão e estruturas organizacionais. Os sistemas de avaliação de desempenho, os critérios de promoção, as hierarquias de decisão e os processos de trabalho coletivo seguem, em grande medida, desenhados para um mundo pré-IA.

O BCG identifica essa desconexão como o principal gargalo da transformação em 2026: não falta tecnologia, não falta vontade de usar, o que falta é o redesenho organizacional para capturar o valor que a adoção individual está gerando.

 

Deploy, Reshape, Invent: a hierarquia da ambição

Para entender como as organizações estão usando a IA, o BCG classifica as iniciativas em três categorias, em ordem crescente de sofisticação e impacto potencial.

Em 2026, 78% das organizações estão em alguma iniciativa de Deploy, 57% em Reshape e 42% em Invent. Comparado a 2025, o crescimento mais expressivo foi nas iniciativas de Invent, que quase dobraram de 22% para 42% (alta de 20 pontos percentuais). O Reshape cresceu de 50% para 57%.

Os dados sobre resultados falam alto para quem presta atenção. Comparando organizações que estão apenas em Deploy com aquelas que avançaram para Reshape ou Invent:

O que explica essa diferença de desempenho? O relatório aponta dois fatores centrais:

Nas organizações que operam em Reshape ou Invent, a estratégia de IA é percebida como clara por 52% dos funcionários (versus 31% nas organizações apenas em Deploy). Pelo menos 43% dos colaboradores participam do redesenho de processos (versus 12%). Ao menos 59% percebem diretrizes adequadas de governança (versus 41%), enquanto 52% veem o valor gerado pela IA sendo devidamente rastreado (versus 27%). E 65% passam por iniciativas importantes de requalificação (versus 47%).

A conclusão: o como a IA é implementada, e não quais ferramentas são usadas, é o fator determinante do resultado.