s
Enquanto trabalhadores acumulam horas extras não remuneradas e temem demissões, empresas enfrentam um problema crescente: profissionais que chegam ao mercado sem as habilidades necessárias (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

O desencontro do trabalho: profissionais inseguros, empresas sem talentos prontos

Pesquisas mostram que os profissionais se sentem pouco seguros no emprego, enquanto empresas dizem que novos profissionais não chegam preparados para o trabalho

Por Soraia Yoshida 29/03/2026

No Brasil, 19% dos trabalhadores realizam entre 6 e 15 horas semanais extras sem pagamento adicional. Pelo menos 8% cumprem 16 horas ou mais por semana fora do horário sem remuneração. Esse índice está muito perto da média de outros países latino-americanos, como Argentina (21% para 6-15 horas) e Chile (18% para 6-15 horas), como aponta um novo estudo da ADP Research. O relatório, que analisou dados de mais de 39 mil trabalhadores em 36 países, mostra que o Brasil compartilha muitas das tendências globais do mundo do trabalho: além do trabalho extra não remunerado, engajamento moderado e insegurança profissional elevada.

A pesquisa da ADP mostra que o engajamento cresceu no último ano entre os trabalhadores brasileiros. O indicador foi de 27% em 2024 para 29% em 2025, indicando que a maioria dos profissionais não se sente muito conectada ao trabalho. Para efeito de comparação, a pesquisa indica que nos Estados Unidos, 23% dos trabalhadores se dizem altamente engajados. Na Alemanha, o número cai para 21%. 

Os dados, embora diferentes, seguem na mesma linha do levantamento “Engaja S/A”, pesquisa da Flash em parceria com a FGV EAESP publicada no final do ano passado, em que 39% dos profissionais brasileiros se diziam engajados ou altamente engajados. Já entre as lideranças, o engajamento caiu de 72% para 65% em um ano, a maior retração. Na faixa da gerência média, o recuo foi de 54% para 49%. Além de preocupante, custa muito caro para as empresas: o custo médio anual de um executivo desengajado é estimado em R$ 72,4 mil, contra R$ 8,9 mil por gerente e R$ 561 por colaborador. 

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

O engajamento está fortemente associado ao investimento das empresas em capacitação (reskilling/upskilling), confiança nas lideranças e redução do estresse no trabalho. Entre os trabalhadores que acreditam que seus empregadores investem em suas habilidades, 53% estão totalmente engajados, contra 12% quando esse suporte não existe, aponta a ADP Research.

 

Segurança está ligada a engajamento e produtividade

Apenas 23% dos trabalhadores brasileiros se sentem seguros em seus empregos contra uma possível demissão. Esse índice está pouco acima da Argentina (22%) e abaixo do Chile (27%) e do México (27%). É uma “segurança limitada”, que reflete o clima global de incerteza no mercado de trabalho.

Mesmo em economias desenvolvidas, os números são semelhantes. Segundo o relatório, globalmente apenas 22% dos trabalhadores dizem com certeza que seus empregos estão seguros, evidenciando um clima generalizado de insegurança profissional. A insegurança é maior entre os trabalhadores que ocupam posições hierárquicas mais baixas, ganham menos e realizam tarefas repetitivas.

A percepção de segurança profissional varia bastante de acordo com o tipo de trabalho. De forma global, o percentual que afirma que seu emprego está “protegido”:

  • Knowledge workers: 30%
  • Trabalhadores especializados: 18%
  • Trabalhadores com tarefas repetitivas: 16%

Setores com maior sensação de segurança incluem:

  • Finanças e Seguros
  • Saúde e Assistência Social
  • Serviços de Tecnologia
  • Educação

Já setores como Transporte, Agricultura, Manufatura e Hotelaria apresentam menor percepção de estabilidade. Outro fator relevante é o nível hierárquico: executivos e alta liderança apresentam níveis muito maiores de segurança percebida do que gestores intermediários ou colaboradores individuais.

O estudo mostra uma forte correlação entre segurança no emprego e desempenho no trabalho. Os trabalhadores que afirmam que seus empregos são seguros são:

  • 6 vezes mais propensos a estar totalmente engajados no trabalho
  • 6,3 vezes mais propensos a se sentirem motivados e comprometidos
  • 3,3 vezes mais propensos a se considerar altamente produtivos
  • 2 vezes mais propensos a permanecer na empresa
  • 2,5 vezes menos propensos a sofrer estresse negativo

Eles também apresentam melhor percepção de saúde física e estabilidade financeira. Entre os trabalhadores do conhecimento, 51% dos que se sentem seguros dizem ter boa saúde física, contra 21% entre os que não se sentem seguros.

 

Insegurança dos trabalhadores está ligada à prontidão

A sensação de segurança no trabalho está diretamente ligada com o momento de mudança, em que a adoção da IA nas empresas altera a estrutura do trabalho e impacta fluxos, processos e até a maneira de trabalhar. A falta de prontidão dos profissionais afeta os processos de contratação e, em última análise, impacta a economia global. O Fórum Econômico Mundial (WEF) estima que o desalinhamento de competências custa cerca de US$ 8,5 trilhões por ano em perda de produtividade no mundo.

Sob a ótica das empresas, o buraco é mais embaixo. Segundo uma análise da CEOWorld Magazine, as organizações estão sentindo um desalinhamento entre as expectativas com relação aos profissionais que querem contratar e as habilidades com que chegam ao mercado de trabalho, o chamado “readiness gap” ou lacuna de prontidão.  Para 72% dos executivos globais, a maioria das novas contratações não está “pronta para o trabalho”, enquanto 68% dos candidatos acreditam estar totalmente preparados para suas funções. A diferença entre percepção e realidade chega a cerca de 40 pontos percentuais, a maior registrada em uma década.

O fenômeno revela uma mudança nas competências exigidas no mercado de trabalho, especialmente em um cenário cada vez mais moldado pela Inteligência Artificial. De acordo com a análise da CEOWorld, as empresas passaram a priorizar três tipos de habilidades:

  • Agilidade de aprendizagem
  • Alfabetização em IA
  • Competências humanas, como comunicação e colaboração

Esse deslocamento reflete a transformação dos ambientes corporativos. Hoje, tarefas são cada vez mais realizadas em parceria com sistemas de IA, exigindo profissionais capazes de interpretar dados, formular perguntas e adaptar decisões rapidamente. Não por acaso, os dados mostram que:

  • A proporção de empresas que priorizam a alfabetização em IA nos processos de contratação saltou de 22% em 2024 para 57% em 2026.
  • O número de executivos que identificam lacunas críticas em habilidades socioemocionais subiu de 48% para 71% no mesmo período.

A consequência direta desse desalinhamento aparece também nos indicadores de desempenho corporativo. A satisfação das empresas com novas contratações caiu de 54% em 2024 para 42% em 2026.

Os dados reunidos pela CEOWorld mostram que esse impacto aparece de diversas formas:

  • 47% dos CEOs nos Estados Unidos afirmam ter adiado projetos de inovação devido à falta de talentos preparados
  • O crescimento da produtividade do trabalho na União Europeia permanece abaixo de 1% há três anos consecutivos
  • No Japão, mais de 60% das empresas criaram programas internos de reskilling em IA

Diante desse cenário, empresas começaram a investir agressivamente em programas de requalificação. Os dados da análise indicam que:

  • O gasto global corporativo em treinamento subiu de US$ 365 bilhões para US$ 472 bilhões, crescimento de 29%
  • A proporção de empresas oferecendo programas de capacitação em IA passou de 18% para 62%
  • O número de startups focadas em tecnologia de empregabilidade aumentou de 1.900 para 2.580

Esse movimento sugere uma mudança estrutural no papel das empresas na formação profissional. Em vez de depender exclusivamente do sistema educacional, as organizações estão criando seus próprios ecossistemas de aprendizado.

 

Os desafios para empresas e governos

Resolver a lacuna de prontidão não depende apenas das empresas. Para os especialistas, há três grandes obstáculos pela frente

  1. Inércia institucional. As universidades e programas educacionais costumam levar anos para atualizar currículos.
  2. Desigualdade de acesso à capacitação. Os programas de requalificação tendem a beneficiar primeiro profissionais de áreas de maior renda.
  3. Falta de infraestrutura de dados sobre trabalho. Segundo economistas da Universidade de Stanford, governos ainda carecem de sistemas que permitam acompanhar mudanças no mercado de trabalho em tempo real.

Sem esse alinhamento entre educação, empresas e políticas públicas, a lacuna de habilidades tende a se ampliar. E, no fim das contas, o “readiness gap” pode se tornar um dos principais fatores de competitividade econômica. As empresas que conseguirem desenvolver mecanismos eficientes de diagnóstico de habilidades, aprendizado contínuo e adaptação tecnológica terão uma vantagem competitiva. Como resume a análise da CEOWorld: “As empresas que fecharem primeiro essa lacuna não estarão apenas contratando melhor – estarão redefinindo o que significa ser empregável.”

O desencontro do trabalho: profissionais inseguros, empresas sem talentos prontos

Tendências

O desencontro do trabalho: profissionais inseguros, empresas sem talen...

Pesquisas mostram que os profissionais se sentem pouco seguros no emprego, enquanto empresas dizem que novos profissionais não chegam preparados para o trabalho

O novo mandato dos CHROs: liderar a transformação do trabalho na era da IA

Tendências

O novo mandato dos CHROs: liderar a transformação do trabalho na era...

Estudos globais mostram que a Inteligência Artificial está redefinindo o papel do RH. Para responder a esse cenário, líderes de recursos humanos precisam conectar estratégia, tecnologia e habilidades para criar valor para o negócio

A economia do crime digital: mais grupos, mais ataques e novos riscos para empresas

Tendências

A economia do crime digital: mais grupos, mais ataques e novos riscos...

Estudos de segurança revelam como ransomware, roubo de dados e ataques à cadeia de software estão profissionalizando o ecossistema global de cibercrime

Startups rápidas, times menores: o impacto da IA no Product-Market Fit

Inteligência Artificial

Startups rápidas, times menores: o impacto da IA no Product-Market Fi...

Ferramentas de inteligência artificial estão mudando a forma como startups testam hipóteses, constroem produtos e chegam ao mercado

A IA já funciona. O problema agora são as empresas

Inteligência Artificial

A IA já funciona. O problema agora são as empresas

Apenas uma pequena parcela das organizações conseguiu redesenhar trabalho, liderança e gestão de talentos para capturar o potencial real da Inteligência Artificial

Quatro erros que levam empresas ao fracasso

Liderança

Quatro erros que levam empresas ao fracasso

Segundo o BCG, ignorância estratégica, inércia organizacional, silos e conflitos entre executivos estão por trás do declínio de muitas companhias — mesmo em mercados favoráveis