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ECONOMIA DIGITAL

Conectividade no Brasil às portas de 2026

Quando acesso deixa de ser o problema, mas a qualidade vira risco

O Brasil entrou na era da Internet quase universal ao mesmo tempo em que a qualidade da conectividade se tornou um novo fator de risco estrutural. Em 2025, 86% dos domicílios brasileiros estavam conectados, e a fibra óptica consolidou-se como a principal tecnologia de acesso fixo. Em paralelo, o número de empresas provedoras de Internet se estabilizou em torno de 11,8 mil, encerrando um ciclo de expansão acelerada que marcou a última década.

Isso indica que o desafio da conectividade no Brasil deixou de ser quantitativo e passou a ser qualitativo.

Essa inflexão ajuda a explicar por que o debate sobre conectividade mudou de natureza. O país avançou de forma decisiva no acesso, mas passou a enfrentar limites mais complexos: uso intermitente, pacotes móveis subdimensionados, assimetrias regionais e dependência crescente de plataformas digitais críticas, como o Gov.br. A questão central deixou de ser quem está conectado e passou a ser quem consegue usar a Internet de forma contínua, segura e funcional, por conta da qualidade do serviço prestado.

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Os dados mais recentes das pesquisas TIC Provedores 2024 e TIC Domicílios 2025, ambas do Cetic.br/NIC.br, mostram um setor atravessado por essa tensão estrutural. De um lado, empresas que investem em fibra, IPv6, segurança e diversificação de serviços. De outro lado, milhões de usuários que, apesar de conectados, ainda enfrentam restrições severas de qualidade, custo e estabilidade. Na prática, esses números revelam que estar conectado não é o mesmo que conseguir usar a Internet de forma contínua e funcional.

É nesse descompasso — entre uma oferta tecnicamente mais sofisticada e uma demanda socialmente desigual — que se desenha o retrato da conectividade brasileira às portas de 2026. Não se trata de uma crise aberta, mas de uma mudança profunda de patamar: a conectividade deixou de ser apenas infraestrutura econômica e passou a funcionar como infraestrutura cívica, indispensável para o exercício de direitos, o acesso à renda e o funcionamento cotidiano do Estado digital.

Da expansão à maturidade: competição por qualidade

Depois de mais de uma década de expansão acelerada, o mercado de provedores de Internet no Brasil entrou em uma fase de maturidade. A estabilização do número de empresas em 11,9 mil sugere limites de um modelo baseado apenas em ampliar cobertura, deslocando a competição para qualidade, confiabilidade e experiência do usuário.

Essa mudança eleva o custo operacional do setor. Investimentos contínuos em infraestrutura, pessoal qualificado e processos tornaram-se condição de sobrevivência — uma barreira mais alta do que aquela enfrentada na fase de expansão territorial.

Da conexão ao ecossistema de serviços

A TIC Provedores 2024 mostra que o acesso puro à Internet deixou de sustentar diferenciação. Provedores regionais ampliaram seus portfólios com VoIP, IPTV, serviços de segurança digital, IoT e soluções de hosting. O objetivo é aumentar o valor agregado, elevar o ticket médio e reduzir a dependência de um único serviço.

Esse movimento reposiciona o provedor regional como fornecedor local de serviços digitais, especialmente em municípios onde grandes operadoras não oferecem soluções personalizadas. A questão ainda pouco explorada é o impacto disso para o consumidor: esses serviços adicionais entregam qualidade comparável à de grandes players ou funcionam sobretudo como diferenciais comerciais?

Provedores regionais e o Brasil hiperlocal

Cerca de 42% dos provedores atuam em apenas um município, e outros 40% operam em até cinco cidades. Essa hiperlocalidade explica por que os ISPs regionais seguem centrais para a conectividade fora dos grandes centros.

Dois terços dos provedores atendem áreas rurais, e mais de um terço possui clientes ligados ao agronegócio. Em regiões onde grandes operadoras não veem escala, provedores locais sustentam cadeias produtivas inteiras — ainda que com margens mais apertadas e maior exposição a riscos.

Nesse contexto, a conectividade no campo deixa de ser apenas inclusão social e passa a ser fator direto de produtividade econômica, sustentando operações que dependem de monitoramento, automação, logística e serviços financeiros.

Fibra, 5G e o limite do acesso móvel

A expansão do 5G não ocorre de forma autônoma. Estações rádio-base dependem de backhaul em fibra para entregar velocidade, baixa latência e estabilidade. Onde a fibra chega, o 5G funciona melhor; onde ela não chega, o acesso móvel rapidamente encontra seus limites.

No interior do país, o 4G e o 5G passaram a funcionar como última milha possível, conectando usuários finais a uma infraestrutura que, até a torre, é fixa. Para o usuário, porém, o acesso continua condicionado a pacotes móveis restritos.

Segundo a TIC Domicílios 2025, 65% dos usuários brasileiros acessam a Internet principal ou exclusivamente pelo celular — mais de 100 milhões de pessoas. Em 2025, 39% relataram ter esgotado o pacote de dados ao menos uma vez nos três meses anteriores; nas classes DE, esse percentual se aproxima de 50%. Isso mostra que o avanço do acesso não eliminou restrições severas de uso no cotidiano digital.

Esses números indicam que os planos móveis disponíveis estão subdimensionados para padrões contemporâneos de uso. O acesso existe, mas é intermitente, condicionado e desigual.

Infraestrutura invisível e assimetrias técnicas

A TIC Provedores 2024 mostra que a adoção do IPv6 chegou a 72% das empresas, um salto relevante frente aos anos anteriores e um sinal claro de amadurecimento técnico. A participação no IX.br também avança, com provedores apontando melhoria de qualidade e eficiência no acesso a conteúdo como principais benefícios.

Ao mesmo tempo, persistem entraves importantes. Custos de investimento, falta de equipamentos adequados, escassez de pessoal capacitado e dificuldades de planejamento fazem com que a transição ocorra de forma desigual, reforçando assimetrias estruturais entre provedores de diferentes portes.

Consolidação, escala e profissionalização

Os dados de porte das empresas indicam uma consolidação sem desaparecimento. A participação de microempresas diminui, enquanto pequenas e médias operações ganham espaço. O movimento aponta menos para concentração extrema e mais para profissionalização forçada.

Compartilhamento de infraestrutura, uso de redes neutras e ganhos de eficiência operacional passam a ser estratégias centrais para sustentar competitividade em um mercado mais exigente.

Conectividade significativa e o Estado digital

O cruzamento entre TIC Provedores e TIC Domicílios ganha densidade quando o acesso à Internet passa a ser condição para o exercício de direitos. O Gov.br consolida-se como plataforma central desse novo arranjo.

Com cerca de 172 milhões de usuários e quase 13 mil serviços digitais, o Gov.br viu as contas de nível ouro crescerem 142% entre 2022 e 2025, alcançando 77,8 milhões. A TIC Domicílios 2025 indica que 71% dos usuários utilizaram serviços de governo eletrônico no último ano, especialmente em áreas como previdência, benefícios sociais, documentos e finanças. Significa que falhas de conectividade passam a afetar diretamente o acesso a direitos básicos.

Nesse contexto, falhas de conectividade deixam de ser inconvenientes técnicos e passam a representar barreiras concretas ao exercício de direitos. A conectividade precária deixa de ser um incômodo técnico e passa a se tornar um fator limitante direto da competitividade econômica, da inclusão produtiva e do funcionamento do Estado digital.

Esse deslocamento fica ainda mais evidente quando se observa a rápida incorporação da Inteligência Artificial ao cotidiano digital dos brasileiros. A IA já é um fenômeno social relevante no Brasil, mas com benefícios concentrados entre quem dispõe de melhor infraestrutura e maior capacidade de uso.

IA expõe ainda mais os limites da conectividade

O uso de ferramentas de IA já faz parte do cotidiano digital de uma parcela expressiva da população conectada no Brasil. Segundo a TIC Domicílios 2025, 32% dos usuários de Internet no país — o equivalente a cerca de 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais — já utilizam aplicações baseadas em IA, especialmente para busca de informações, produção de textos, estudos e apoio a atividades profissionais.

Esse avanço, no entanto, não se distribui de forma homogênea. Os potenciais benefícios da IA permanecem concentrados entre usuários de maior renda e escolaridade, refletindo um padrão estrutural da conectividade brasileira: tecnologias mais intensivas em dados e capacidade cognitiva tendem a se difundir primeiro entre quem dispõe de acesso mais estável, contínuo e de melhor qualidade.

Modelos de IA generativa tornam essa assimetria ainda mais visível. Eles:

  • consomem mais dados;
  • exigem sessões longas e contínuas;
  • penalizam latência e instabilidade;
  • tornam o upload tão crítico quanto o download;
  • aumentam a relevância de edge computing, cache local e backhaul robusto.

Nesse cenário, o acesso principal ou exclusivamente móvel — já descrito neste texto como “última milha possível” — revela seus limites estruturais. Ele passa a ser:

  • tecnicamente insuficiente para usos mais avançados de IA;
  • um novo gargalo de competitividade regional, especialmente para estudantes, trabalhadores e pequenos negócios no interior do país.

A disseminação da IA desloca, mais uma vez, o eixo da desigualdade digital. Não se trata apenas de estar conectado, mas de conseguir acessar capacidades cognitivas ampliadas para aprender, produzir, competir e interagir com o Estado. Se antes a conectividade precária era um incômodo operacional, com a IA ela se torna um fator impeditivo direto.

Para os provedores regionais, isso altera o jogo competitivo. A expansão do uso de IA amplia a demanda por:

  • fibra óptica,
  • baixa latência,
  • infraestrutura de edge local,
  • serviços gerenciados,
  • segurança e resiliência de rede.

Provedores mais estruturados passam a ter a oportunidade de oferecer infraestrutura “IA-ready”, suporte local e serviços de maior valor agregado — deslocando a competição para além do preço e reforçando seu papel como infraestrutura crítica regional.

Pressões operacionais e o novo papel dos ISPs

Ataques de negação de serviço, adequação desigual à LGPD e custos crescentes reforçam que maturidade também traz novos riscos. O setor não enfrenta colapso, mas pressão estrutural.

A virada é silenciosa, mas profunda. O provedor regional deixa de ser pioneiro improvisado e assume o papel de operador de infraestrutura crítica local.


Nota editorial

Parte da literatura setorial privilegia leituras otimistas baseadas em crescimento e oportunidades. Este texto não nega esses avanços, mas propõe outra lente: quando acesso deixa de ser o problema, qualidade vira risco — econômico, social e institucional.

À medida que serviços públicos, atividades produtivas e ferramentas de inteligência artificial passam a depender de acesso contínuo, estável e seguro, a qualidade da conectividade se consolida como condição para competir, produzir e exercer direitos.

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