s
TRANSFORMAÇÃO DIGITAL SEM TRAVAS

E o ChatGPT, a que veio?

Com uma ascensão meteórica, o ChatGPT entrou na pauta das discussões de tecnologia e negócios, mas as empresas precisam empreender uma boa investigação antes de aderir ao hype

Por Sergio Lozinsky 02/04/2023

Toda novidade que traz algum tipo de ruptura é uma oportunidade para as empresas. Com o ChatGPT, a ferramenta aberta de inteligência artificial que virou o buzz de 2023, não é diferente. Só que, antes de capitalizar em cima da ferramenta, é preciso conhecer suas capacidades e limitações, e isso é algo que poucos estão se dedicando a fazer, aparentemente.

Cada organização precisa estudar como uma inovação agregará valor ao seu negócio. Sucumbir ao hype antes desse entendimento é problemático. Temos exemplos recentes de rupturas que foram exaustivamente pensadas, testadas e validadas antes de serem usadas em larga escala, como o e-commerce ou o uso corporativo das redes sociais. Se hoje estão plenamente incorporados às estratégias e rotinas dos negócios, é porque esse processo foi feito de forma diligente. Não tem por que ser diferente com o ChatGPT e demais ferramentas de composição de texto.

Inicialmente, a percepção é de que estamos falando de uma ferramenta de busca sofisticada, capaz de fazer correlações entre dados e opiniões de diferentes fontes. Mas ainda não se realizou uma POC (Proof of Concept) realmente extensiva — pelo menos, não que tenha sido de conhecimento do público. Enquanto isso não acontece, experimentações são válidas, mas há que observar a extensão e a exposição que elas terão.

Os riscos mais imediatos de aderir a um uso impensado são fáceis de prever: ver as intenções sabotadas pelas próprias limitações da ferramenta, ou tomar decisões que vão incorrer em pseudo soluções que não são adequadas para o negócio. Por isso, as empresas deveriam adotá-la inicialmente em áreas sobre as quais têm maior controle e que não exercem grande impacto sobre os resultados. Ou seja, algo operacional, que não afete aspectos sensíveis como faturamento ou relacionamento com o cliente. É cedo demais para aplicar o ChatGPT em uma área com maior exposição financeira ou de imagem.

Confiabilidade questionável

Existe, ainda, uma questão que diz respeito à inteligência artificial em si. Na verdade, o que chamamos de IA é estatística aplicada. Quando temos controle absoluto sobre o input de dados, aumentamos o nível de confiabilidade dos resultados trazidos por essa tecnologia.

Porém, a internet é terra de ninguém — ou melhor, é terra de todos. Como qualquer pessoa pode fornecer qualquer tipo de informação ou publicar opiniões de toda a natureza, a ferramenta está sujeita a encontrar respostas que serão enviesadas ou mesmo tendenciosas. A matéria em que o jornalista Alex Mitchell, do New York Post, questiona a isenção do ChatGPT já se tornou famosa por mostrar que essa tecnologia tem pendores éticos questionáveis.

Existe, ainda, a questão do entendimento da linguagem e suas sutilezas, algo que a ferramenta não consegue emular. Se isso não exerce tanto impacto no caráter de ferramenta de busca, certamente traz um resultado bastante incipiente no conteúdo que entrega, o que faz com que ela não substitua a inteligência textual dos melhores redatores. Como resumiu o jornalista especializado em tecnologia Cory Doctorow, “o primeiro esboço de um autor humano é, com frequência, uma ideia original, mal expressada, enquanto o melhor que o ChatGPT pode almejar é uma ideia sem originalidade expressa competentemente”.

Claro, se a ideia é simplesmente produtividade, a ferramenta parece ser promissora. Ela consegue entregar um texto válido para se adequar aos mecanismos de SEO, por exemplo. Mas esse não é seu potencial mais interessante a ser explorado e investigado. É preciso lembrar que o propósito essencial da inteligência artificial sempre foi oferecer correlação de dados com profundidade e velocidade, para que decisões possam ser tomadas de forma mais rápida e assertiva.

Tomemos um exemplo hipotético: uma empresa pode “pedir” ao ChatGPT que analise seu histórico de vendas nos últimos anos, considerando certos fatores macroeconômicos e sociais, como a pandemia do coronavírus, a guerra na Ucrânia e outros. A ferramenta pode chegar a conclusões interessantes, apontando os produtos que tiveram maior margem de lucro, mudanças no perfil social ou etário dos compradores, distribuição geográfica das vendas, etc. Porém, se a empresa começar a incluir aspectos mais imponderáveis, igualmente importantes (uma análise de turnover, clima organizacional, mudanças hierárquicas, etc), tenho dúvidas se a ferramenta daria conta de considerar as sutilezas.

Avaliar antes de aderir

Já vimos vários modismos passarem por inovação. Existe, sim, o risco de que o ChatGPT e assemelhados seja mais um. Não há por que aderir irrestritamente, e passar a crer que essas ferramentas precisam se tornar o assunto da timeline organizacional. Antes de evidenciar o tema, é preciso investigá-lo.

Para isso, uma equipe multidisciplinar é necessária. Esse time (ou squad, para quem preferir outra palavra da moda) deve ter pessoas do negócio, que tenham um viés mais estratégico, pensando em como trazer benefícios de competitividade e lucratividade. Precisa, também, de pessoas que conheçam bem as operações, capazes de dimensionar o real impacto que essas ferramentas podem gerar. E, por fim, deve contar com profissionais de TI, pois essa tecnologia precisa ser explorada do ponto de vista de segurança e integração. Talvez, até as consultorias que aconselham seus clientes sobre transformação de negócios tenham que lidar com isso enquanto aprimoram os próprios serviços.

Seja como for, ignorar o assunto é um erro. A investigação bem-feita compensa: se for um modismo, a empresa não terá empregado recursos desnecessários nem assumido riscos muito significativos. Se for algo que veio para ficar, o caminho estará bem pavimentado para criar uma jornada proveitosa.

Este é um conteúdo exclusivo para assinantes.

Cadastre-se grátis para ler agora
e acesse 5 conteúdos por mês.

É assinante ou já tem senha? Faça login. Já recebe a newsletter? Ative seu acesso.

Como a tecnologia deve pautar as decisões de M&A em 2024?

Transformação Digital sem Travas

Como a tecnologia deve pautar as decisões de M&A em 2024?

O mercado de fusões e aquisições dá sinais de aquecimento - e, com ele, a TI se estabelece como pilar crítico da etapa de due diligence

A agenda da agenda do CEO em 2024

Transformação Digital sem Travas

A agenda da agenda do CEO em 2024

Relatórios apontam urgência na adoção da IA como prioridade para o principal líder da organização. Mas, no plano no qual os desafios de negócio acontecem, quais são as reais prioridades?

Pontos cegos da gestão orçamentária da TI

Transformação Digital sem Travas

Pontos cegos da gestão orçamentária da TI

Definir e gerenciar orçamentos de tecnologia da informação envolve grandes (e nem sempre óbvios) desafios. Como tornar a gestão orçamentária um componente do posicionamento estratégico da TI?

E se os tempos de retração ameaçarem a transformação da TI e dos negócios?

Transformação Digital sem Travas

E se os tempos de retração ameaçarem a transformação da TI e dos...

Em momentos desafiadores, pode ser necessário reduzir custos e adiar projetos. Mas até quando deve-se segurar os investimentos diante de incertezas que, talvez, continuem por aí?

As urgências consomem. Como planejar o futuro?

Transformação Digital sem Travas

As urgências consomem. Como planejar o futuro?

O envolvimento direto com problemas operacionais é um impasse comum na rotina de CIOs e líderes de diversas áreas. Então, é possível mudar essa realidade?

E o ChatGPT, a que veio?

Transformação Digital sem Travas

E o ChatGPT, a que veio?

Com uma ascensão meteórica, o ChatGPT entrou na pauta das discussões de tecnologia e negócios, mas as empresas precisam empreender uma boa investigação antes de aderir ao hype