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Imagm: Canva.com
POR TRÁS DOS NÚMEROS

A fila anda, e a Tesla perde a pose

No fim das contas, o Twitter não tem nada a ver com a queda das ações da Tesla. O problema, mais prosaico, é que o mercado de EVs cresceu, e a empresa de Elon Musk agora tem muita concorrência

Há alguns meses têm aparecido especulações no mercado sobre um possível problema de demanda da Tesla. O corte de preços e os rumores de redução da produção geram o receio de que a demanda da empresa possa estar diminuindo, especialmente na China.

[Update] Nesta sexta-feira (06/01) a empresa anunciou pela segunda vez, em menos de três meses, cortes nos preços do Model Y e Model 3 na China, Japão, Coreia do Sul e Austrália, para estimular a demanda por produção da fábrica em Xangai, seu maior centro de produção.

Todas essas questões acontecendo em um momento desafiador, do ponto de vista macroeconômico, levaram as ações da Tesla a fechar o ano de 2022 em queda de 65%, o pior ano da sua história, e a ter um início de 2023 que também não aponta para uma reversão da tendência.

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Na semana passada, a empresa divulgou números que confirmaram as especulações. O mercado esperava que a Tesla entregasse 431 mil veículos no 4Q de 2022, mas, na verdade, a empresa entregou 405 mil, uma diferença nada desprezível.

Os mais otimistas elogiaram o número, por ser um recorde de produção da empresa, mas o fato é que ele não só ficou abaixo da expectativa do mercado, com também ficou menor do que a própria empresa tinha prometido.

Na call de outubro com investidores, tanto o CFO da Tesla, quanto o próprio Elon Musk, disseram que o crescimento deveria ficar pouco abaixo dos 50%. Na realidade, o crescimento realizado não ficou muito acima de 40%.

No entanto, logo após as declarações, Musk se contradisse, afirmando que o crescimento anual projetado seria de 30% e não de 50%.

“Na verdade, eu quero fazer uma ressalva: devo dizer [que esperamos] crescimento da produção em 30% a cada ano, porque estamos tentando equilibrar as entregas e não ter esta forma louca de entrega no final de cada trimestre”.

Por mais que, logo depois, ele tenha voltado a falar em 50%, é inevitável a impressão de que eles estão trabalhando dentro dessa faixa, mas sem muita certeza de projeções confiáveis para o curto prazo.

No 4Q21, o crescimento anual da Tesla foi de 88%. De lá para cá, a taxa de crescimento foi caindo a cada período, até chegar nos atuais 40%. O aumento da sua escala de produção fez com que o crescimento relativo se tornasse mais desafiador, mas essa escala ainda não é nada quando comparada a grande fabricantes como Toyota e GM.

Ainda é cedo para afirmar que a Tesla tem efetivamente um problema de demanda. Considerando como os problemas macro têm impactado praticamente todas as empresas, não é de se estranhar algum nível de fraqueza nas vendas.

Elon Musk é conhecido por fazer afirmações grandiosas. Por exemplo, ele costumava falar que a Tesla teria 1 milhão de veículos autônomos para viagens compartilhadas até 2020. No entanto, a Tesla ainda está longe de alcançar essa meta. Para dizer a verdade, a autonomia total parece cada vez mais distante.

Além disso, a Tesla tem o hábito de não cumprir suas projeções de produção e vendas. Por exemplo, a empresa prometia produzir 500.000 veículos em 2018, mas o número real foi metade disso. Atualmente, a Tesla está ficando abaixo das suas promessas de entrega trimestral de veículos em cerca de 20%.

Essas afirmações exageradas podem não ser um problema quando há realizações notáveis que as compensam. Musk provavelmente argumentaria que seus cronogramas e previsões agressivas eram necessários para superar o pessimismo enfrentado pela Tesla.

No entanto, agora que os carros autônomos já viraram uma possibilidade remota para um futuro distante, e que a concorrência está cada vez mais próxima, a empresa não tem outra opção senão entregar os resultados prometidos para poder ter a confiança de fornecedores e investidores

Uma das preocupações de longo prazo com a Tesla, e com vários outros fabricantes de veículos elétricos, é o distanciamento entre a empresa e os modelos de baixo custo. A Tesla começou com veículos mais caros, mas com a promessa de um Tesla de $30.000.

A promessa de um carro nessa faixa de preço já não existe mais, mas um cybertruck de $60.000 ou mais está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Muito longe de uma tendência, os recentes descontos concedidos pela Tesla dão a impressão de serem apenas uma iniciativa pontual para ajustar a demanda aos estoques.

De fato, existem limites para o número de consumidores que podem pagar por esses veículos. Sem nenhum tipo de reversão nessa tendência, a Tesla ficará inevitavelmente restrita ao reduzido nicho de carros de luxo.

Mais Rodrigo Fernandes