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ENTRE DADOS E RESULTADOS

Banco peruano veio a São Paulo quatro vezes, nos copiar, e achamos que estamos atrasados

O Brasil se acostumou a se enxergar como atrasado. Em serviços financeiros, porém, já virou referência para quem tenta avançar.

Fiquei de fone em um ouvido só, sentado atrás da câmera, gravando um episódio do podcast DoTheMATH sobre meios de pagamento na América Latina. Cedi minha cadeira para o Bruno Dihl Prolo sentar na mesa com a Fabiana Amaral, que conduz o programa comigo. Não porque eu não tivesse uma pergunta. Só queria, pela primeira vez em muito tempo, ouvir sem precisar pensar no que ia dizer depois.

Quem estava do outro lado era Carlos Andrés Salazar, gerente de Meios de Pagamento do EfectiBank, o primeiro banco digital do Peru. E o que ele contou, sem querer, me incomodou de um jeito que eu não esperava.

Ele veio aqui quatro vezes. Não a passeio.

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Carlos contou que, para construir o banco digital dele, veio a São Paulo quatro vezes em quatro anos. Sentou com instituições financeiras brasileiras, perguntou o que funcionou e o que não funcionou, e levou a resposta pra Lima. Não veio buscar case de congresso. Veio copiar a rota de sucesso, nas palavras dele, porque entendeu que o caminho que o Brasil já tinha percorrido era o caminho que o Peru precisava percorrer.

Isso devia me deixar orgulhoso. Não deixou. Fiquei desconfortável. Porque eu, brasileiro, cresci ouvindo que a gente chega atrasado em tudo. Que o país que dá certo é lá fora. E ali estava um executivo peruano atravessando os Andes de avião quatro vezes pra aprender com a gente o que a gente trata como óbvio.

A vantagem que a gente nem lista como vantagem.

Carlos falou de um número que eu não esperava: o Itaú sozinho tem cerca de 17 mil desenvolvedores, quase 20% do quadro em tecnologia. No Peru, essa capacidade simplesmente não existe. Nenhum banco peruano vai montar um time de desenvolvimento do tamanho de um banco brasileiro. Então a estratégia deles não pode ser a nossa. Eles têm que ir pela rota da Inteligência Artificial e do low code justamente porque não têm gente para escrever código na escala que a gente tem.

Reparei que eu trato essa quantidade de desenvolvedores como um dado de fundo, quase irrelevante. Para quem não tem, é o gargalo que decide o rumo inteiro de um banco. A gente tem gente. Isso é vantagem competitiva de verdade, não frase de abertura de painel. E a gente raramente fala dela porque nunca precisou sentir a falta.

PIX ganhou mais confiança do que a igreja e o cônjuge.

Teve um outro dado que o Carlos trouxe de uma pesquisa da Febraban, e que também ficou na minha cabeça. O PIX tem 80% de confiança da população. Mais confiança do que a Igreja Católica. Mais confiança do que o próprio cônjuge. Uma piada boa, mas um dado sério: construímos, em poucos anos, uma infraestrutura de pagamento que ficou mais confiável do que instituições, que levaram séculos para construir a confiança, têm.

O Peru está começando agora o equivalente ao PIX, que eles chamam de TAP, e Carlos falou disso com o mesmo respeito com que a gente fala de coisa que deu certo em outro lugar e a gente ainda está tentando entender como replicar. Só que, dessa vez, o outro lugar é aqui, no Brasil.

E o pano de fundo peruano explica por que essa confiança importa tanto. Setenta por cento da força de trabalho do Peru é informal. Só 4 milhões de 33 milhões de peruanos têm acesso a crédito formal. O Open Finance que o Carlos está construindo não é modernização de app. É a diferença entre alguém continuar fora do sistema financeiro ou finalmente ter um rastro de dados que prova que paga o que deve. A gente discute Open Finance em termos de monetização de API. Lá, é sobre quem consegue provar que existe.

O que eu levo daqui.

O EfectiBank tem cinco anos de operação como banco digital, 235 mil clientes, e vai passar de 250 mil até a metade de setembro. Cresce 30 mil clientes por mês num país que tem um décimo da população do Brasil. Não é escala brasileira. Mas é uma curva que qualquer banco digital daqui reconheceria como boa.

Eu passei os últimos anos ouvindo diagnósticos de que o Brasil está atrás em inovação. Atrás de quem, mesmo? Sentado naquela gravação, percebi que a resposta certa não é “atrás de ninguém”. É que a gente virou o parâmetro que os outros usam pra saber se estão indo bem. E continuamos nos comportando como quem ainda precisa provar alguma coisa.

Não escrevi essa coluna pra dizer que está tudo resolvido por aqui. Erro que a gente comete sobra, e o Carlos foi honesto sobre os dele também: subestimaram o QA no início do EfectiBank, tiveram que parar o backlog para corrigir e o bot generativo deles cresceu 200% em interação e 200% em custo ao mesmo tempo, o que não é vitória, é lição cara. Mas errar rápido enquanto o vizinho ainda está decidindo se entra no jogo é uma posição privilegiada. E privilégio que a gente não reconhece é privilégio que a gente desperdiça.

Da próxima vez que alguém no seu comitê disser que o Brasil está atrasado em alguma coisa, pergunta de volta: “Atrasado comparado a quem, com que dado na mesa?”. Se a resposta for silêncio ou uma sensação vaga, você está diante da mesma síndrome que eu carreguei até sentar naquela cadeira e ouvir um peruano descrever São Paulo como o lugar onde as respostas estavam.

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