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ENTRE DADOS E RESULTADOS

José Múcio abriria o portão. Você já sabe onde fica o seu?

Dependência tecnológica virou risco geopolítico — e planos de contingência podem apenas mudar esse risco de endereço.

Gravei, há três ou quatro semanas, um episódio do podcast com o Flávio Basílio, Diretor Executivo da Elopar e ex-Secretário de Defesa, sobre geopolítica e tecnologia. Não fazia ideia do que ia acontecer até a estreia.

Perguntado o que faria caso os Estados Unidos quisessem invadir o Brasil,  o Ministro de Defesa José Múcio disse que, numa invasão americana, o Brasil teria que abrir o portão. Segundo ele, o País não teria capacidade de se defender e tampouco recursos para reparar os danos causados. Foi exatamente na semana dessa fala que o episódio foi ao ar. Eu não escolhi essa coincidência. Ela me caiu no colo.

Aprendi na faculdade o modelo Just in Time: Toyota, eficiência, menor custo – você compra do fornecedor mais barato e segue o jogo. O Flávio me lembrou de uma coisa que acabou no mundo: que a variável virou confiança, ou seja, compro se ele é meu aliado.

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O exemplo que ele deu é militar, mas serve para qualquer Diretoria de Tecnologia.

O Brasil quis construir um submarino de propulsão nuclear, sem nenhuma pretensão de arma atômica. Mesmo assim, fibra de carbono e hexafluoreto de urânio pararam de ser exportados para cá. Todo equipamento militar carrega o que se chama de “end user declarado”: você diz para que vai usar, com quem e de que forma. Sair disso dá multa, dá sanção, às vezes dá cadeia para o responsável.

Vale lembrar que no segundo trimestre deste ano, essa lógica chegou na Inteligência Artificial. Os modelos mais avançados da Anthropic, (o Fable e o Mythos 5) ficaram indisponíveis para estrangeiros, inclusive dentro do EUA. A Anthropic desativou os modelos para todos os clientes porque não conseguia separar usuários estrangeiros de americanos em tempo real. O efeito prático foi apagão global. Sei que isso caiu semanas depois, mas que o ato vigorou, vigorou. A ferramenta ficou poderosa demais para seguir sendo tratada como produto de prateleira e isso bastou para motivar o bloqueio.

Aqui podemos apenas pensar que basta construir um bom Plano de Contingência.

Mas então Flávio trouxe o ponto que mais me incomodou. Ele contou um caso da semana em que gravamos no qual a Amazon caiu e derrubou alguns bancos brasileiros clientes da AWS. Os clientes AWS que não caíram tinham a operação replicada na Virgínia (EUA). Parece a prova de que contingência resolve tudo. Só que essa réplica da Virgínia não está sob jurisdição brasileira. Está sob o Cloud Act, a lei americana que permite ao governo dos Estados Unidos requisitar dado guardado por provedor americano, em qualquer lugar do mundo.

O banco resolveu o risco de ficar fora do ar. E, sem perceber, trocou esse risco por outro: dado circulando fora do alcance da lei brasileira. Toda contingência troca um risco por outro. Fica a sensação de que resolveu, mas o risco só mudou de endereço. O mundo Just in Case não é um checkbox que você marca e esquece. É bem mais complicado do que a gente está acostumado a lidar.

Meu sócio Sergio Larentis Junior estava essa semana no AI4, em Las Vegas, o maior evento de Inteligência Artificial do mundo. No meio do evento, ele me mandou uma mensagem: “O mote forte deste ano é que as empresas precisam ter seus próprios modelos. Não para tudo. Para muitas coisas”.

O Flávio já deixou claro que sistema operacional brasileiro é ilusão e eu concordo com ele. A ideia aqui é mais modesta. Um modelo pequeno, um SLM treinado e rodando numa máquina aqui dentro do Brasil, para as tarefas que a sua empresa não pode deixar reféns de uma decisão tomada em Washington. Resolve uma fração do problema, do tamanho que cabe no orçamento e na operação de cada empresa. Mas resolve.

Quem está na fronteira da inovação, rodando modelo novo toda semana, dependendo de nuvem para tudo, sente esse risco primeiro. O padeiro da esquina sente depois, quando a ferramenta que ele já usa no dia a dia for cortada (sim estou falando do Whastapp).

Continue inovando.

Mas leve geopolítica para dentro da sala onde hoje só se discutem custo e prazo. Pergunte onde o seu dado mora. Pergunte quem pode desligar sua ferramenta amanhã de manhã.

O José Múcio já sabe que pode ter que abrir o portão dele. Eu quero saber se você já sabe onde fica o seu.

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