Viver mais parece ser o sonho de nove entre dez bilionários do Vale do Silício. Mas olhando para as pessoas à nossa volta, também está imbuído no desejo coletivo, acompanhado de saúde, propósito, segurança financeira e relações sociais, um senso de pertencimento. Esse retrato aparece no relatório “The Future of Aging and Longevity: A Decade of Progress, A Decade to Act”, coletânea publicada pelo Milken Institute em outubro de 2026, que reúne ensaios e entrevistas de mais de 50 líderes de saúde, finanças, tecnologia, educação, filantropia e políticas públicas. A publicação retoma um exercício feito dez anos antes para avaliar o que avançou e o que ainda falta acontecer. Ainda que trate de muitos temas, existe a confluência de tecnologia e longevidade. O resultado é organizado em quatro chamados à ação:
O diagnóstico de abertura, assinado por Diane Ty e Paul Irving, mostra de cara que “as ideias andaram mais rápido do que as ações”. O envelhecimento populacional virou força estruturante da saúde, do trabalho, dos mercados e das políticas públicas. O healthspan (os anos vividos com saúde), e não apenas o lifespan (a duração da vida), passou ao centro da pesquisa médica. A Gerociência, o estudo da biologia do envelhecimento, virou um campo dinâmico de descoberta.
Mas os benefícios seguem mal distribuídos. As mulheres vivem mais que os homens, frequentemente cinco anos ou mais, porém passam mais desses anos com pior saúde, carregam mais responsabilidades de cuidado e chegam à velhice com menos dinheiro guardado. Uma pesquisa de 2026 do Milken Center for Advancing the American Dream em parceria com o Gallup indica que quase sete em cada dez norte-americanos acreditam que vão realizar o “sonho americano”, mas menos da metade acredita que todos no país têm a mesma oportunidade. Para os autores, a longevidade corre o risco de repetir esse padrão se a democratização não for um princípio de base, e não apenas uma aspiração.
O estudo olha só para os Estados Unidos, mas o fenômeno é global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2030 uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais. Em 2050, essa população dobrará para 2,1 bilhões, e o grupo com 80 anos ou mais triplicará em relação a 2020, chegando a 426 milhões. A ONU projeta que, em meados da década de 2030, haverá mais pessoas com 80 anos ou mais do que bebês com menos de um ano. No Brasil, a representação de pessoas com 60 anos ou mais subiu de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, de acordo com dados da pesquisa PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A população jovem brasileira, formada por pessoas com menos de 30 anos, caiu de 49,9% em 2012 para 41,4% em 2025, uma redução de mais de 10 milhões de pessoas.
Este texto vai explorar os insights trazidos pelo Milken Institute a partir de seis eixos: a tecnologia para viver mais e melhor, a nova infraestrutura da longevidade, a aprendizagem, o trabalho, o bem-estar e a construção de comunidades, além de confrontar o retrato americano com dados de outros relatórios globais.
O ensaio de Joseph Coughlin, diretor do MIT AgeLab, e Sheng-Hung Lee, da Universidade de Michigan, oferece a chave de leitura mais útil da coletânea. Para eles, na última década o papel da tecnologia nas vidas longas mudou mais profundamente do que a própria tecnologia. A trajetória tem três etapas: ferramenta, infraestrutura e parceira.
Ferramenta. Na primeira fase, a tecnologia resolvia tarefas isoladas, quase sempre ligadas a saúde e segurança. Sensores ficaram menores, mais baratos e confiáveis. A conectividade se tornou quase universal. Milhares de empresas de agetech surgiram para detectar quedas, lembrar o horário dos remédios ou medir sono e atividade. “Um problema. Um dispositivo. Uma solução de cada vez”, resumem os autores.
Infraestrutura. A segunda e a terceira etapas, a infraestrutura e a parceria, são o que muda o jogo agora. A tecnologia vira infraestrutura: permite coordenar muitas tarefas, frequentemente de forma invisível, e muda o que é possível no dia a dia. A pandemia acelerou essa virada, quando a casa deixou de ser apenas o lugar onde se envelhece e passou a funcionar como plataforma de serviços de entrega, mobilidade e saúde. Os autores ilustram com uma geladeira que entende as necessidades nutricionais de uma pessoa idosa, identifica alimentos vencidos ou em falta e aciona a reposição por um serviço confiável antes que alguém chegue em casa. A família nunca vê a transação: vê apenas uma cozinha que funciona. “A inovação não é mais o eletrodoméstico”, escrevem. É o ecossistema que conecta varejo, logística, meios de pagamento, acesso autorizado e a própria casa.
O desafio de design deixa de ser se o aparelho funciona e passa a ser se um ecossistema inteiro merece confiança para operar, de forma invisível, por anos e décadas de necessidades em mudança. É o que Lee chama de Design for Longevity: casas, serviços e tecnologias pensados para evoluir junto com as pessoas, e não para fases estanques da vida.
Parceira. A terceira fase está surgindo agora. A Inteligência Artificial avança justamente quando a vida longa fica mais complexa: decisões sobre saúde, finanças, cuidado, moradia, trabalho e mobilidade se estendem por décadas. O problema já não é encontrar informação, mas dar sentido a ela: saber o que importa, o que vem primeiro e o que fazer em seguida, “não para alguém como eu, mas para mim”. O exemplo do ensaio é o de uma filha que cuida do pai cuja memória começa a falhar. Os papéis do seguro se acumulam e surgem dúvidas sobre se ele ainda pode dirigir. Um parceiro de IA, nesse cenário, organiza as informações em torno da situação do pai, prepara perguntas para o médico, identifica opções de transporte e ajuda a pensar os próximos passos. A tecnologia “não substitui o julgamento, ela ajuda a tornar possível um julgamento melhor”.
A urgência aparece no Índice de Preparação para a Longevidade (LPI), do MIT AgeLab com a Manulife John Hancock. Dos oito domínios medidos, o cuidado teve a pior nota: 45 em 100. As pessoas sabem que o cuidado provavelmente fará parte de suas vidas, mas poucas avaliaram se têm condições de oferecê-lo ou recebê-lo. Wayne Park, CEO da Manulife John Hancock Retirement, chama o cuidado de “o maior ponto cego”.
Abby Levy e Alan Patricof, da Primetime Partners, gestora que fez 38 investimentos em startups de agetech, descrevem em seu ensaio a união entre agetech e biotecnologia da longevidade. Eles citam o reconhecimento, pela FDA, da extensão da vida como desfecho clínico válido e o uso de IA para acelerar a descoberta de biomarcadores. Do lado do consumo, 15% dos norte-americanos já experimentaram medicamentos GLP-1 (no Brasil, 5% dos lares segundo pesquisa NIQ), e anéis e pulseiras como Oura e WHOOP se popularizaram. O investimento privado em ciência da longevidade quase dobrou desde 2024, chegando a US$ 8,5 bilhões em 325 operações.
O monitoramento “sempre ligado” é a grande aposta: detecção precoce leva à prevenção. Monitores de glicose, antes restritos a diabéticos, passaram a ser usados para acompanhar a saúde geral. Há pulseiras que avaliam risco de AVC antes do evento, adesivos de eletrocardiograma com IA que monitoram pressão arterial e empresas que acompanham mudanças no movimento dos olhos e no jeito de andar. Os relógios epigenéticos, que estimam a idade biológica, saíram do terreno do marketing e estão ganhando tração clínica. O próximo passo são os gêmeos digitais do corpo inteiro, capazes de simular riscos e ajustar tratamentos antes que a doença se manifeste.
Hon Pak, que lidera a área de Saúde Digital da Samsung, conta que os wearables viraram plataformas de monitoramento remoto, com foco em saúde cardiovascular, risco de apneia do sono e escores preditivos. A empresa aposta na casa como novo ambiente de cuidado, usando IA para integrar cinco pilares: sono, atividade, nutrição, atenção plena e sinais vitais. Dessa maneira, é possível estabelecer uma linha de base pessoal e detectar mudanças sutis. Pak faz, porém, uma ressalva que vale para todo o setor: entregar dados às pessoas não basta para mudar comportamento. É preciso traduzir a informação em passos pequenos e consistentes. “A última milha da saúde”, diz, “é ajudar as pessoas a fazer mudanças de estilo de vida sustentáveis”.
Levy e Patricof também apontam a “ampliação de habilidades”: óculos inteligentes com legendas ao vivo e reconhecimento facial para quem enfrenta perda de memória ou de visão, aparelhos auditivos com prevenção de quedas, interfaces cérebro-computador e exoesqueletos vestíveis perto da comercialização. Na leitura deles, é no espaço entre “monitorar e conversar” e “ajudar fisicamente” que os inovadores vão construir.
A saúde cerebral é a fronteira mais urgente. Um estudo de 2025 da Nature Medicine, citado pelos investidores, estimou que 42% das pessoas com mais de 55 anos vão desenvolver demência ao longo da vida. Há 158 candidatos a medicamentos contra demência e Alzheimer em ensaios clínicos. Howard Fillit e Miranda Orr lembram que a patologia do Alzheimer pode aparecer 15 a 20 anos antes dos sintomas e que cerca de 75% dos ensaios já miram mecanismos além das proteínas amiloide e tau.
Biomarcadores no sangue, imagem cerebral, genética e ferramentas de IA abrem caminho para uma medicina de precisão do cérebro. “Um futuro verdadeiro do envelhecimento não pode ser medido apenas em anos ganhos”, escrevem. “Deve ser medido em anos vividos com vitalidade cognitiva.”
Sean Curran e Pinchas Cohen, da USC, mostram como a gerociência passou a tratar o envelhecimento como um processo biológico mensurável e, talvez, desacelerável. Os relógios epigenéticos permitem testar se uma intervenção retarda o envelhecimento biológico em pouco tempo, sem esperar décadas. Medicamentos criados para obesidade e diabetes tipo 2 (metformina, inibidores de SGLT2 e sobretudo os agonistas de GLP-1) chamam atenção por benefícios que vão além do controle glicêmico. Rapalogos, senolíticos, peptídeos mitocondriais e a reprogramação celular com os fatores de Yamanaka estão em teste, parte deles impulsionada pelo XPRIZE Healthspan, de US$ 101 milhões.
Os autores, contudo, colocam os pés no chão: a meta não é viver até os 150 anos. É permitir que muito mais gente chegue aos 90 ou 100 anos ativa, lúcida e independente. E os maiores ganhos podem vir menos de terapias de rejuvenescimento e mais da transformação do próprio sistema de saúde, hoje organizado para tratar doenças crônicas.
Em 2016, qualquer especialista em políticas públicas ou pai ambicioso diria que a melhor preparação para a vida adulta era um diploma universitário de quatro anos, idealmente até os 25 anos. A observação é de Mitchell Stevens, codiretor do Stanford Center on Longevity, e William Gaudelli, reitor do College of Lifetime Learning do Georgia Institute of Technology, no ensaio em que tratam de educação para vidas mais longas. Esse consenso, dizem, está bem mais fraco hoje, por três razões.
A primeira é que a geração Baby Boom chegou à idade associada à aposentadoria e está reinventando essa fase com ideias como “carreiras bis” e o “rewiring” no lugar do retiring. A segunda é que a Inteligência Artificial levanta novas perguntas sobre o que significa ser um trabalhador produtivo em praticamente todos os setores, enquanto plataformas digitais facilitam explorar novos campos de conhecimento. A terceira é financeira: a dívida norte-americana ligada à busca de diplomas pós-secundários passa de US$ 1,8 trilhão, e muitos nunca concluem o curso ou acabam em empregos que não exigem níveis mais altos de educação.
O resultado é uma onda de inovação. O Walmart ampliou, em 2015, seu programa interno de treinamento e mobilidade para todos os seus 1,4 milhão de funcionários nos EUA. Plataformas de cursos curtos como Coursera e MasterClass criaram um “Velho Oeste” de certificações. Universidades tradicionais começam a adotar programas de sustentação de carreira: além da Georgia Tech, a Arizona State University (ASU) e a Northeastern construíram estratégias semelhantes.
Michael Crow, presidente da ASU, descreve a universidade como um empreendimento de aprendizagem para “qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer lugar”. Ela mantém recursos digitais abertos, cursos gratuitos e de baixo custo no Osher Lifelong Learning Institute e o programa Operation Comeback, para quem começou a faculdade e não terminou. Com o ambiente CreateAI, alunos, professores e funcionários constroem e testam ferramentas de IA sem precisar de conhecimento técnico profundo; com a plataforma EDU.FYI, os estudantes aprendem a projetar agentes de IA personalizados para orientar seus objetivos de aprendizagem e de vida.
O caso mais simbólico é o Mirabella, residência para aposentados dentro do campus de Tempe, com 400 moradores. Eles frequentam aulas e eventos e atuam como mentores acadêmicos e pessoais dos estudantes, que em troca oferecem conexões e ajuda que aliviam a solidão. Marc Freedman e Eunice Lin Nichols, da CoGenerate, enxergam aí uma saída pragmática: com o “penhasco de matrículas”, muitas instituições estão ficando sem jovens de 18 anos, e dezenas de faculdades fecharam ou se fundiram no último ano. O Goucher College desenvolve modelos que misturam alunos jovens, de meia-idade e mais velhos.
Stevens e Gaudelli veem três caminhos:
Os autores apostam na terceira opção. O século 20 criou uma “sociedade escolarizada”, que concentrava o investimento em talento nas duas primeiras décadas de vida. O desafio agora é uma “sociedade aprendente”, em que aprender seja igualmente essencial no começo, no meio e no fim da vida. O argumento carrega um componente tecnológico: num momento em que as revoluções tecnológicas tornam a sabedoria, a criatividade e a capacidade de cuidado interpessoal algumas das poucas capacidades humanas ainda difíceis de replicar por máquinas, vidas longas passam a ser ativos a aproveitar. Os números globais reforçam a urgência. O relatório “The Future of Jobs Report 2025”, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das habilidades atuais dos trabalhadores serão transformadas ou ficarão obsoletas entre 2025 e 2030. Se a força de trabalho mundial fosse de 100 pessoas, 59 precisariam de treinamento até 2030.
Entre 2004 e 2024, o número de trabalhadores norte-americanos com mais de 55 anos subiu de 23 milhões para 39 milhões. Hoje, quase um em cada quatro trabalhadores tem mais de 55 anos. Os dados estão no ensaio de Nicola Bianchi, da Northwestern, e Andrew Scott, de Oxford, que explicam como o mercado absorveu esse contingente.
Ajudaram a escolaridade mais alta das novas gerações de trabalhadores mais velhos e o crescimento de ocupações “amigas da idade”, mais flexíveis, autônomas e menos exigentes fisicamente, que ganharam 49 milhões de postos entre 1990 e 2020. A tecnologia também teve um papel importante. Na indústria, a adoção de robôs reduziu o esforço físico da produção. De forma mais ampla, as novas tecnologias aumentaram a demanda por funções de julgamento e tomada de decisão, em que os mais velhos têm vantagem comparativa.
É claro que nem todos ganharam. A construção civil ainda segue pouco amigável à idade, e a valorização do julgamento beneficiou acima de tudo profissionais e gestores. Quem perde o emprego aos 50 e poucos anos enfrenta ageísmo na contratação e dificilmente volta a uma função equivalente.
O ponto mais provocador do ensaio está nos jovens. A lógica econômica simples previa que mais oferta de trabalhadores velhos derrubaria seus salários relativos. Aconteceu o oposto: nos EUA, a diferença salarial entre maiores de 55 e menores de 35 cresceu quase dois terços entre 1979 e 2018. Os mais velhos permanecem por mais tempo em postos bem pagos, empurrando parte dos jovens para funções pior remuneradas. E as empresas, em vez de compensar com mais treinamento, reduziram o treinamento pago.
Os autores propõem três mudanças:
“Precisamos que o trabalho e as carreiras funcionem em todas as idades”, escrevem os autores.
A aposentadoria está deixando de ser um ponto final. Uma pesquisa Gallup de abril de 2026, reproduzida na coletânea, mostra que a maioria dos trabalhadores norte-americanos planeja continuar trabalhando em regime de meio período depois de se aposentar, e que os profissionais 55+ são menos propensos que os mais jovens a querer parar de vez.
Catherine Collinson, do Transamerica Institute, e Hal Hershfield, da UCLA, usam a distinção entre soluções individuais (i-frame) e soluções sistêmicas (s-frame) para argumentar que se pede demais ao indivíduo. As organizações podem oferecer arranjos flexíveis e de meio período, incluir deliberadamente profissionais experientes nas equipes e tratar a saída do trabalho em tempo integral “como um processo a ser apoiado, não um evento que simplesmente acontece”. Eles destacam a fase de decumulação (transformar a poupança em renda ao longo da vida) como o problema mais difícil e menos atendido: a acumulação ganhou uma onda de aplicativos, o gasto planejado do patrimônio recebeu bem menos atenção.
Viver mais tempo significa também que o trabalho vai colidir com o cuidado. Kai Walker, do Bank of America, diz que o cuidado de familiares costuma ser invisível nas empresas, apesar de gerar perda financeira, interrupções de carreira e desengajamento, e que as mulheres carregam a maior parte desse peso. Fernando Torres-Gil e Courtney Demko, da UCLA, lembram que esse encargo recai cada vez mais sobre a geração millennial, que concilia trabalho e filhos, com risco de redução de jornada, promoções perdidas ou saída do emprego.
Emilio Umeoka, embaixador do Stanford Center for Longevity e criador do Substack Life Beyond 100, participou do painel do 36° Dia Internacional das Pessoas Idosas na ONU. Com sua experiência em cargos de alta liderança em empresas de tecnologia como Apple e Microsoft, e depois como membro de conselhos e consultor, ele cita que a força de trabalho hoje abrange até cinco gerações e que “as empresas mais inteligentes encaram essa diversidade como uma vantagem”. “Os colaboradores mais jovens costumam trazer fluência no uso de ferramentas de IA; os colegas mais experientes trazem o discernimento necessário para saber quando confiar nelas.” E na preparação das empresas para a longevidade, além das métricas tradicionais, ele apresenta três perguntas:
Uma projeção do Fórum Econômico Mundial aponta que até 2030, as transformações do mercado devem criar 170 milhões de empregos e eliminar 92 milhões, um saldo de 78 milhões. O relatório associa o envelhecimento e a redução da população em idade ativa nas economias de renda mais alta ao crescimento de vagas na saúde, como enfermagem. Ou seja: a longevidade não só prolonga carreiras, como cria demanda por trabalho em cuidado, justamente a área onde os autores apontam escassez de mão de obra.
Quando Surya Kolluri, do TIAA Institute, e Marti DeLiema, da Universidade de Minnesota, perguntam a plateias quem quer viver muito, quase todos levantam a mão. Quando listam as condições para viver bem por muito tempo – ter dinheiro suficiente, planejar o declínio da saúde, evitar o isolamento num período de perda de amigos e parentes –, as mãos vão baixando uma a uma. “Uma vida mais longa não é automaticamente uma vida melhor”, escrevem em seu ensaio.
Os autores identificam quatro riscos que se somam e se alimentam: financeiro, cognitivo, físico e social. A capacidade de administrar os quatro ao mesmo tempo, ao longo de toda a vida, é o que chamam de longevity fitness, a aptidão para a longevidade. Os números mostram o tamanho do desafio. Só um em cada três adultos sabe responder perguntas básicas sobre quanto tempo as pessoas costumam viver depois dos 65 anos. Quem subestima a própria longevidade poupa pouco e planeja para poucos anos. A renda aos 40 anos prevê a idade de morte com margem de 10 a 15 anos, e o “meio esquecido”, famílias entre os percentis 15 e 45 de renda, chega à velhice com pior saúde e menos reservas que as gerações anteriores.
A tecnologia aparece aqui com dupla face. As queixas de fraude envolvendo pessoas com 60 anos ou mais registradas pelo FBI dobraram desde a pandemia, com média de US$ 38.500 roubados por vítima em 2025, quatro vezes o valor do início da pandemia. A IA Generativa age como multiplicadora: num estudo do TIAA, 72% das pessoas de 70 a 79 anos se disseram “muito preocupadas” com golpes turbinados por IA. A resposta proposta é que detecção de fraude assistida por IA, contatos de confiança e planejamento financeiro antecipado deixem de ser opcionais e se tornem tão rotineiros quanto indicar um beneficiário. Os autores também defendem integrar políticas de Saúde e Finanças, porque a equação da longevidade é “multiplicativa, não aditiva”: quando a saúde desaba, o patrimônio vai junto, e vice-versa.
O ensaio de Myechia Minter-Jordan, CEO da AARP, e Ellie Hollander, da Meals on Wheels America, amplia a definição de bem-estar. A maior conquista da última década, dizem, não foi um avanço científico, mas a mudança no próprio conceito de sucesso: envelhecer bem depende de conseguir pagar os remédios, ter comida nutritiva, transporte, moradia adequada e vínculos. A Meals on Wheels, com cerca de 5 mil prestadores locais, atende mais de 2,6 milhões de idosos por ano com nutrição, conexão social e visitas de segurança. A AARP calcula que os norte-americanos com 50 anos ou mais já geram US$ 12,5 trilhões em atividade econômica anual, o que os tornaria a terceira maior economia do mundo.
A perspectiva global confirma a distância entre viver mais e viver bem. Um estudo da Mayo Clinic publicado no JAMA Network Open, com dados de 183 países-membros da OMS entre 2000 e 2019, calculou uma diferença média global de 9,6 anos entre a expectativa de vida e a expectativa de vida saudável. Os Estados Unidos tinham a maior diferença do mundo: 12,4 anos vividos, em média, com doença ou incapacidade. Entre as mulheres, a lacuna era 2,4 anos maior que entre os homens, o mesmo padrão apontado na introdução do relatório do Milken Institute. O dado ajuda a entender por que Curran e Cohen veem na obesidade e na doença metabólica a maior oportunidade imediata de ampliar o healthspan da população, e por que vários autores insistem em levar o sistema de saúde do tratamento para a prevenção.
Se a primeira fase do movimento da longevidade se dedicou a acrescentar anos à vida, a próxima precisa acrescentar “uma vida feliz, próspera e social a esses anos”. A frase é de Cinny Kennard e Christopher Leech, da Wallis Annenberg Legacy Foundation, e resume o bloco mais insistente da coletânea. Para eles, as maiores ameaças ao bem-estar de muitos idosos não são apenas biológicas: solidão, isolamento, perda de propósito e desconexão estão ligados a piores desfechos de saúde, custos maiores, declínio cognitivo e morte prematura.
Os números globais dão peso ao argumento. O relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS, de junho de 2025, estima que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, associada a mais de 871 mil mortes por ano, ou seja, cerca de 100 por hora. O isolamento social atinge até um em cada três idosos. E o problema é mais agudo nos países pobres: cerca de 24% das pessoas em países de baixa renda relatam solidão, contra cerca de 11% nos de alta renda. No estudo do Milken, Kolluri e DeLiema lembram que o isolamento eleva em quase 30% o risco de morte prematura.
Em uma pesquisa que utilizou modelos estatísticos para analisar 11 estudos de longo prazo sobre o envelhecimento, envolvendo 175.070 adultos com 50 anos ou mais, provenientes de 18 países, os pesquisadores descobriram que a sensação de solidão foi associada a um risco de 8% a 9% maior de chances de desenvolver um comprometimento grave na cognição. No Brasil, um estudo que analisou dados de quase 7.000 participantes do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros apontou a mesma correlação.
Dan Buettner, fundador da Blue Zones, estudou as blue zones (lugares onde vivem as pessoas mais longevas do mundo) e resume a lição em uma frase: “o ambiente vence a força de vontade, todas as vezes”. Dezenas de cidades norte-americanas adotaram as alavancas observadas nessas regiões: ruas caminháveis, espaços públicos vivos, laços comunitários, opções mais saudáveis em escolas e locais de trabalho e acesso a alimentos frescos. Em lugares como Albert Lea, em Minnesota, e nas cidades litorâneas da Califórnia, tabagismo, obesidade e custos de saúde caíram de forma mensurável, “não porque as pessoas se esforçaram mais, mas porque a escolha saudável virou a mais fácil”. Para ele, revisar as regras municipais (hortas comunitárias, ruas abertas ao lazer, planos diretores de mobilidade ativa) é a infraestrutura de que vidas longas precisam.
A moradia é o teste mais difícil. Jennifer Molinsky, de Harvard, e Bob Kramer, do NIC, questionam o consenso do “envelhecer no lugar”. A maioria quer ficar onde está, mas a casa costuma ser inadequada, cara e isolada em bairros dependentes de carro. Dychtwald e Kaldes registram que menos de 5% das moradias dos EUA são construídas para envelhecer com conforto e segurança. Molinsky e Kramer defendem “envelhecer em comunidade”: apartamentos menores com serviços no local, empreendimentos intergeracionais onde jovens e velhos trocam ajuda com lição de casa, tecnologia ou caronas, e reformas de casas e bairros para acessibilidade universal. “Independência não é ausência de apoio, mas presença de escolha”, escrevem.
A coletânea do Milken Institute é rica, mas olha para um país rico. Os relatórios globais lembram que o centro de gravidade do envelhecimento está se deslocando: segundo a OMS, a maior parte das pessoas idosas em 2050 viverá em países de renda baixa e média, justamente onde, de acordo com a Comissão sobre Conexão Social, a solidão é mais frequente. Isso torna ainda mais relevante o alerta de Vogtmann e Chin Hansen: sem banda larga, dispositivos, letramento digital e preço acessível, a tecnologia para a longevidade pode ampliar desigualdades em vez de reduzi-las.
O Brasil ilustra a velocidade da transição. O índice de envelhecimento medido pelo Censo saltou de 30,7 em 2010 para 55,2 em 2022: hoje há 55 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 com menos de 15. A idade mediana subiu de 29 para 35 anos no mesmo período. Nos EUA, Barkoff e Goldman lembram que, na próxima década, haverá mais idosos do que crianças; no mundo, a ONU projeta que isso aconteça no fim da década de 2070.
Há também uma lição institucional. Dychtwald e Kaldes observam que Cingapura, Japão e Coreia do Sul criaram órgãos de coordenação em nível ministerial, planos de várias décadas e parcerias explícitas com o setor privado em torno do envelhecimento, e que os EUA não têm nada comparável. Eles defendem uma meta nacional de longevidade, com incentivos fiscais, como aconteceu com o investimento climático. Os números do mercado mostram que os americanos com mais de 50 anos detêm 70% da riqueza pessoal do país, mas recebem apenas 10% dos orçamentos de marketing.
O fio que une os ensaios é que a tecnologia sozinha não entrega longevidade saudável. Coughlin e Lee encerram afirmando que as inovações decisivas da próxima década não serão medidas apenas pela inteligência das máquinas, e que a maior contribuição da tecnologia talvez não seja nos ajudar a viver mais, e sim a viver melhor. Isso exige infraestrutura de cuidado, escolas e universidades abertas a todas as idades, empresas que redesenhem carreiras, sistemas financeiros que tratem a longevidade como risco compartilhado e cidades que tornem a conexão o caminho mais fácil.
Michael Milken, que completa 80 anos junto com os primeiros baby boomers, fecha a coletânea lembrando que a expectativa de vida global mais que dobrou desde o início do século 20 e que “o capital humano não expira aos 65”. Dychtwald e Kaldes colocam um prazo: em 2053, um terço da Europa, um quarto dos EUA e quase 2 bilhões de pessoas no mundo terão mais de 65 anos. Quem fará 65 anos naquele ano já está entre nós. A tecnologia já mostra o que funciona e há muitas cabeças pensantes querendo discutir como tornar o envelhecimento uma experiência igualmente proveitosa para as pessoas e para a sociedade.
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