s
Foto: Getty Images - Canva
ECONOMIA

Só faltou mesmo combinar com os chineses

O presidente dos EUA, Joe Biden, restringiu ainda mais as regras de exportação de semicondutores dos EUA para a China. A medida pode respingar em Taiwan

Se a invasão de Taiwan pela China vier realmente a acontecer nos próximos anos, um dos motivos para esse eventual conflito estará — sem dúvida nenhuma — nos acontecimentos da semana passada.
Dando sequência a decisões tomadas por Obama Trump, Joe Biden apertou ainda mais o cerco nas restrições de exportação de tecnologia americana de mciroprocessadores para a China. De fato, esse tipo de restrição não é uma novidade — mas parece que agora os EUA atravessaram o Rubicão.
Situação: Basicamente, os EUA proibiram as empresas americanas de exportar tecnologia de ponta para a China e ainda proibiram ‘US persons’ (cidadãos e imigrantes com green card) de ajudarem a China desenvolver esse tipo de tecnologia.
Repare bem. Bem no meio do congresso do Partido Comunista Chinês, um evento em que o presidente Xi Jinping foi, de forma inédita, reconduzido ao poder pela terceira vez, e no qual não faltaram demonstrações de força e autoritarismo, os EUA mandaram avisar que os planos que estavam sendo apresentados para o futuro da China não serão mais possíveis.
O plano de se tornar a grande fábrica do mundo já foi realizado. Isso é passado. O objetivo da China agora é se tornar uma potência global em tecnologia de ponta — especialmente em inteligência artificial — e deixar de ser dependente do resto do mundo. Melhor ainda, fazer com que o resto do mundo dependa da sua tecnologia.
Só faltou combinar com os russos. Quero dizer, com os americanos. A China vinha fazendo bem o seu dever de casa, mas para que o plano do partido comunista se realize, o país ainda depende muito dos EUA — tanto em termos de capital humano quanto de equipamentos (gráfico abaixo).
A ascensão a patamares cada vez maiores de potência global é a grande ambição da China. Desse modo, assuntos ligados à competência nos mercados do futuro foram o grande tema deste congresso — e aliás, de todo o governo Xi Jinping:
“Precisamos aderir à ciência e tecnologia como a força produtiva número 1; ao talento, como o recurso número 1, à inovação como a força motriz primária."
Não é fácil avaliar até que ponto essa política vai ser bem-sucedida ou até que ponto a China não vai conseguir obter parte dessas tecnologias por outros meios, mas é fato que os EUA vinham alimentando um inimigo, tendo contribuído até mesmo para o programa chinês de mísseis.
A China está em uma situação em que não existem alternativas simples de retaliação.
O que vem a seguir: Fora de um cenário de guerra, as retaliações costumam ser feitas por meios comerciais, mas com exceção de situações muito específicas é difícil ver a China sendo capaz de criar uma política de restrição comercial que não seja um problema para ela mesma.
Na verdade, a China sempre impediu a entrada de empresas que não sejam do seu interesse. Lembre-se que as americanas Meta Twitter nunca puderam entrar naquele país. Apple Tesla possuem grandes operações, mas sempre dentro de formatos que fazem muito sentido para o país oriental.
Mas por que essa mudança na política americana poderá ser um elemento a mais dentro de um eventual plano de invasão de Taiwan?
A taiwanesa TSMC não é a única, mas é uma das empresas mais importantes dentro de xadrez tecnológico geopolítico e eles não poderão mais vender tecnologia americana de ponta para a China.
O que torna a TSMC tão especial é a sua capacidade de fabricação — única no mundo — mas não a sua capacidade de criar projetos, que em geral vêm de empresas americanas como Apple Nvidia.
Não podendo acessar os produtos fabricados pela TSMC, a invasão de Taiwan pela China ganha uma configuração de menor custo e maior benefício.
Se tudo der errado, e o trabalho da TSMC tiver que ser interrompido, eles vão criar um problema para os EUA, mas não vão perder nada.
Do lado do benefício, a China passaria a ter acesso à melhor fabricante mundial de microprocessadores, da qual todo o mundo depende — criando, globalmente, a dependência de tecnologia chinesa que sempre esteve nos planos do partido.

Rodrigo Fernandes também é colunista da newsletter Daily Muffin, da Pingback. Esse artigo foi publicado originalmente na edição 168.

Este é um conteúdo exclusivo para assinantes.

Cadastre-se grátis para ler agora
e acesse 5 conteúdos por mês.

É assinante ou já tem senha? Faça login. Já recebe a newsletter? Ative seu acesso.

Comida do futuro a perigo

Economia

Comida do futuro a perigo

Os investimentos de risco na agricultura celular (proteínas animais cultivadas em laboratório) caíram 78% entre 2022 e 2023, colocando as startups a perigo.

A ambição profissional mudou

Mercado

A ambição profissional mudou

Workmonitor 2024 mostra que os trabalhadores valorizam mais o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, horários flexíveis e apoio à saúde mental em detrimento das aspirações de carreira.

Filantropia movida a tecnologia

Economia

Filantropia movida a tecnologia

A filantropia virou de cabeça para baixo depois que a ex-mulher de Jeff Bezos, MacKenzie Scott doou mais de US$ 16 bilhões em cinco anos para 2 mil organizações no mundo todo, incluindo no Brasil.

É preciso focar na qualidade do crescimento

Economia

É preciso focar na qualidade do crescimento

Estudo do WEF, em parceria com a FDC, avaliou 107 países, incluindo o Brasil, e descobriu que o ritmo da inovação está "devagar, quase parando". Além disso, o crescimento não é sustentável.

O relatório 'The CMO Survey' mapeia a transformação digital no marketing

Economia Digital

O relatório 'The CMO Survey' mapeia a transformação digital no mark...

E, surpresa... ela progride lentamente. Poucas empresas têm uma jornada digital de marketing institucionalizada. Mais da metade ainda a consideram em fase emergente

e-Commerce aposta em recuperação

Economia Digital

e-Commerce aposta em recuperação

O comércio eletrônico brasileiro vem tendo o pior início de ano da sua história, mas os indicadores econômicos e o comportamento do consumidor apontam para um segundo semestre melhor