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TRANSFORMAÇÃO DIGITAL SEM TRAVAS

Resiliência digital: como sobreviver e evoluir em um mundo de disrupções

Em tempos de instabilidade, CIOs e gestores precisam estruturar ambientes tecnológicos mais adaptáveis, robustos e preparados para a incerteza.

Por Sergio Lozinsky 01/05/2026

Estabilidade operacional sempre foi um desafio para qualquer TI, mas ele se intensificou nos tempos recentes. Infraestruturas distribuídas, dependência de plataformas digitais, ataques cibernéticos cada vez mais sofisticados e eventos globais imprevisíveis dificultam cada vez mais operar de forma estável. Por isso, é preciso constituir uma verdadeira resiliência digital – conceito que vem se tornando mais disseminado, assim como um objetivo cada vez mais cobiçado.

Essa resiliência está fortemente ligada a uma visão mais realista da empresa, e para alcançá-la é necessário dissecar o desempenho do negócio e inferir os desafios que podem estar adiante, de forma que sejam trabalhados preventivamente. Isso exige ter dados de qualidade e elevado grau de automação – quanto mais automatizada estiver a operação, mais dados serão gerados. Contudo, essa não pode ser uma relação meramente quantitativa.

Por mais que esteja vinculada à operação, a resiliência digital depende da estratégia tanto quanto do dia a dia. Trata-se de uma confluência entre a continuidade do negócio e as visões de médio e longo prazo. Para isso, as pessoas da organização responsáveis por estruturar essa resiliência precisam ter inteligência e experiência.

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“Mesmo sendo um elemento crítico, os dados não são suficientes. Os profissionais de TI precisam ser decodificadores desses dados dentro do contexto do negócio”

O antifrágil

A resiliência digital dialoga com outro conceito que ganhou força recentemente: o do antifrágil, termo cunhado pelo professor líbano-americano e autor Nissam Nicholas Taleb. Em linhas gerais, ele propõe abraçar o imprevisível, já que ele é inevitável, e assim construir resiliência. Em outras palavras, estar preparado para absorver os possíveis golpes que os imprevistos trazem, fazer mudanças e emergir mais forte.

Para além da premissa motivacional, o antifrágil é uma proposição onde o problema acaba se transformando em oportunidade, graças a uma constante preparação para se antecipar às intempéries. Rer um PCN (Plano de Continuidade de Negócios) faz parte desse conceito, mas a ideia vai mais longe, propondo uma mudança de mentalidade e cultura nas organizações.

Cá entre nós, sabemos que isso não é fácil. Há lideranças que desdenham do longo prazo em seus planos porque sua postura é carreirista: para que se antecipar a algo que vai acontecer quando ele não estiver mais ali naquela posição, naquela empresa? Além disso, existe o pensamento otimista, quase mágico, de que “o panorama geral não está bom, mas minha empresa vai bem”, ou “isso é passageiro, logo tudo se acalma”.

Sim, turbulências são passageiras, muitas delas até efêmeras. Isso não quer dizer que elas não deixam estragos. A questão é que, mesmo entre os líderes mais conscientes, poucos estão dispostos a separar uma porção considerável de seu tempo para pensar em cenários que “talvez um dia” aconteçam. As necessidades do dia a dia se impõem à construção da resiliência.

A situação fica ainda mais delicada quando nos damos conta de que o imediatismo é uma postura presente não só entre executivos, mas também entre acionistas. Se a intenção é fazer a empresa aumentar rapidamente de valor de mercado para ser vendida em pouco tempo, como construir qualquer plano ou cultura que vise a perenidade? Chegamos a um ponto onde até as empresas se tornam “líquidas”, conforme o conceito de liquidez criado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman.

Pilares de sustentação

O oposto dessa “liquidez” é a resiliência. Para que ela aconteça, é necessário que esteja apoiada nos pilares abaixo, e podemos olhar para eles da seguinte forma:

  • Arquitetura tecnológica: ela precisa apoiar o negócio com o maior grau de automação possível, pois é o que garante melhores dados e facilita a tomada de decisões. Esse pilar precisa evoluir constantemente para acompanhar a dinâmica do mercado e da organização, ou provavelmente se tornará fonte de muitos débitos técnicos. Aqui, a infraestrutura é um ponto de atenção, para garantir que essa evolução aconteça com a maior eficiência possível na relação performance versus custo;
  • Segurança da informação: é a “joia da coroa” da resiliência digital. Demanda um grau de blindagem que nunca vai ser suficientemente satisfatório – no sentido de que os responsáveis por ela precisam constantemente estudar todas as maneiras pelas quais o negócio pode ser atacado;
  • Governança de dados: a governança é um item contraditório em certa medida, pois ela tem se mantido atualizada conceitualmente, ainda que quase sempre insuficiente na prática. A governança 5.0 (leia também Governança 5.0: como se reinventar sem burocratizar) tem se mostrado uma ideia promissora, e vale zelar para que ela seja aplicada de forma efetiva. O básico da governança é sempre o mesmo: ter padrões de conformidade alinhados ao negócio, definir com clareza os papéis e perfis de acesso, e estabelecer uma estrutura que proporcione controle e visibilidade. A “versão” 5.0, porém, lança bases para a perenidade da empresa, com fortalecimento do vínculo com seus diversos públicos – o que a faz ser importante para a construção da resiliência;
  • Cultura organizacional: se existe, como escrevi antes, a dependência de pessoas para se garantir a devida leitura e análise dos dados, essas pessoas precisam estar inseridas em uma cultura que se importa com a perenidade do negócio e que trata as responsabilidades não como algo particular de cada área, mas integrado a um sistema maior. Uma empresa cuja cultura permite a formação de “feudos” ou áreas isoladas nunca será resiliente;
  • Liderança: é o regente dos demais pilares, não apenas definindo o foco dos investimentos e práticas para arquitetura e segurança, mas também dando o exemplo para que governança e cultura sejam a realidade diária, e não um conjunto vazio de normas escritas.

Como escrevi acima, a resiliência é o antídoto à “liquidez” que se anuncia no mundo corporativo atualmente. Urge colocá-la em prática, porque tudo que é “líquido” se esparrama e se dilui. E é preciso encarar as organizações como algo sólido, que atende a interesses mais nobres que algumas poucas vaidades e ambições individuais.

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