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TENDÊNCIAS

Metodologias e ferramentas para pensar como um futurista

Da análise de sinais pouco perceptíveis à criação de cenários em meio à incerteza, entenda como profissionais realizam estudos de futuro

Por João Ortega 30/01/2021

Futurismo não é uma ciência exata, mas é uma ciência. Logo, requer método. 

Modelos de estudos de futuro são difundidos pelo mundo especialmente desde o início do século XXI. De acordo com o Millennium Project, uma iniciativa global de fomento ao futurismo, “o propósito das metodologias de futuros é explorar, criar e testar sistematicamente os futuros possíveis e desejáveis para tomar decisões melhores”. Neste sentido, o estudo de futuros é voltado a prospectar diversos cenários viáveis de futuro diante dos dados do presente. 

Para Jaqueline Weigel, especialista brasileira em Foresight & Futures Studies, há um processo em curso de democratização deste campo de pesquisa. “A formação estava restrita às universidades. Em geral, são cursos de 18 meses. Estão surgindo mais futuristas professores, que dominam a metodologia, ensinando em programas mais curtos”, diz a pesquisadora em entrevista exclusiva. “Claro que um workshop de três dias não substitui uma pesquisa de um ano e meio, mas oferece uma base do framework”. 

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Jaqueline é fundadora da WFuturismo, consultoria que oferece cursos de estudos de futuro com uma metodologia autoral, elaborada com práticas das metodologias que ela estudou na Singularity U, Universidade de Turku (Finlândia), Universidade de Houston (EUA), entre outras instituições da área. “Frameworks vêm de diversas escolas, mas futuristas podem criar a própria metodologia com conceitos e ferramentas de cada uma”, explica. “Futuristas têm uma visão plural: são diversos futuros possíveis. Alguns você não controla, outros você pode construir”, completa. 

Todos os frameworks, em linhas gerais, têm etapas de coleta e análise de dados (ou sinais); elaboração de hipóteses e cenários; e definição de estratégias para direcionar aos cenários mais positivos. 

 A metodologia da Universidade de Houston, por exemplo, é definida como “inerentemente seletiva”. Ela prioriza, neste sentido, a qualidade sobre a quantidade de sinais. Na prática, este framework começa por descrever o domínio, que é estabelecer quais informações são relevantes para tal estudo e quais estão fora dos limites. O próximo passo é levantar dados do passado recente e do presente. “Em seguida, identifica as forças de mudança e as usa como base para desenvolver a um futuro provável e futuros alternativos. Então, ele explora as implicações desses futuros e identifica oportunidades”, explica o documento. 

Um framework que não está associado a uma universidade específica, mas que também é referência entre futuristas, é o elaborado pelo Instituto Future Today, da futurista Amy Webb. A metodologia é apresentada em formato de funil, desde a concepção e delimitação do estudo até a tomada de ação estratégica pelo cliente. Entre os diferenciais deste método está a priorização por “sinais quase imperceptíveis” e divisão do futuro em espaços de tempo mais curtos com diferentes níveis de incerteza. 

Além da metodologia em si, o Instituto oferece uma série de ferramentas para etapas específicas do framework. Há, por exemplo, um guia para elaborar cenários; um modelo para abordar e trabalhar com incertezas; e um manual para dividir o futuro em etapas mais curtas

Para a futurista brasileira Daniela Klaiman, a etapa de análise dos sinais em qualquer metodologia é o diferencial de um profissional qualificado. “Muita gente acha que os futuristas são munidos de dados exclusivos, de pesquisas inéditas e tudo mais. Na verdade, olhamos para todas as informações que estão disponíveis: na mídia tradicional, em sites, revistas, livros, eventos, palestras, artigos científicos – coisas que todo mundo tem acesso. O grande segredo é interpretar de maneira diferente. Fazer conexões entre tudo que a gente vê. São essas análises que diferenciam o futurista”, revela em entrevista à The Shift. 

Na mesma linha, Jaqueline Weigel afirma que, com experiência, o futurista aprende a enxergar sinais que podem estar ocultos para a maioria das pessoas. “Por exemplo, essa semana tivemos um alagamento histórico aqui na minha cidade no Rio Grande do Sul. Nunca houve antes algo assim. É um sinal importante.  O papel do futurista é levantar hipóteses sobre o que aquele sinal está indicando no horizonte. Pode ser um sinal da mudança climática? É uma hipótese plausível, que precisa de mais pesquisa”, diz. 

Daniela explica que ter uma visão diversa e desprovida de conceitos pré-fabricados é essencial para projetar futuros.  “Se eu não olhar as coisas por muitas perspectivas diferentes, eu não estou fazendo o trabalho de um futurista”, diz. Isso significa buscar dados de fontes e origens diversas, trabalhar com equipes de opiniões diferentes e abandonar vieses pessoais.

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