No horizonte das megatendências, a passagem da Inteligência Artificial de ferramenta para infraestrutura é a convergência mais explícita. A tecnologia que pode acrescentar US$ 4,4 trilhões por ano à economia global, como aponta o McKinsey Global Institute, ou gerar um impacto econômico acumulado de US$ 19,9 trilhões até 2030 e alta de 3,5% no PIB global, na projeção do IDC, está puxando as previsões para horizontes cada vez mais curtos. Tanto que, ao olhar para três relatórios de megatendência, a sensação que se tem, muitas vezes, é que estamos olhando para o que já foi ou para o que é. Não para o que ainda vai ser.
A premissa do Copenhagen Institute for Future Studies (CIFS), ao revisar suas megatendências, é que não dá para prever o futuro, mas nem tudo nele é igualmente imprevisível. As forças estruturais que definem o pano de fundo em que sociedades, pessoas e organizações tomam decisões de longo prazo apresentam um cenário de autoridade distribuída, em rede e sobreposta, em que funções sociais, econômicas e de segurança dependem cada vez mais de infraestruturas digitais transnacionais que nenhum Estado controla sozinho. E em que existe uma concentração de riqueza que traz riscos existenciais e até para a democracia.
A seguir, destacamos mais algumas convergências entre as megatendências que devem nortear como nações, sociedades e empresas vão guiar suas iniciativas.
A IA ganha corpo: robótica e aumento humano
O relatório “2030 Technology Megatrends”, do IEEE, incluiu a “IA Física” (robótica e hiperautomação) entre suas cinco megatendências e concluiu que ela tem a maior chance de avanço técnico nos próximos quatro anos, seguida de perto pela IA. Os humanoides de fábrica com retorno tátil estarão circulando por aí entre dois a cinco anos. O cronograma do relatório vai de pilotos em manufatura, agricultura e saúde até cinco anos à hiperautomação em escala entre cinco e dez anos.
No estudo “Megatrends 2026 and Beyond”, a EY trata o tema como “híbrido humano-máquina”. O mercado global de tecnologias de aumento humano deve chegar a US$ 1,39 trilhão em 2034, e o de exoesqueletos, crescer de US$ 1,4 bilhão em 2025 para US$ 19,7 bilhões em 2035. A Ford instalou 75 exoesqueletos em 15 fábricas e registrou redução de 83% nas lesões. Um experimento de campo do MIT e da Johns Hopkins, com 2.310 participantes, encontrou produtividade 73% maior em equipes humano-IA. O CIFS fornece o motivo estrutural: o encolhimento da força de trabalho cria um imperativo de investir em IA e automação.
Da automação de tarefas à delegação de decisões
Os três estudos apontam para agentes de IA que decidem, e não apenas executam. O CIFS alerta para questões ainda sem resposta sobre “propriedade cognitiva e controle” que devem ganhar volume conforme mais decisões são delegadas a máquinas. O IEEE recomenda que a indústria migre de modelos SaaS para fluxos de trabalho autônomos com IA e aponta a interação humano-IA como a tecnologia com maior chance de sucesso e menor prazo de adoção: em dois a três anos, a interação deve passar do texto para áudio e vídeo.
A EY chama esse modelo de “empresa superfluida”, em que IA Agêntica, contratos inteligentes e gêmeos digitais eliminam atritos. Num horizonte intermediário, agentes de IA administrariam 80% do que hoje se classifica como decisões de rotina. A consultoria estima entre 18 e 36 meses para a implantação generalizada de IA Agêntica. O freio é a governança: três quartos dos líderes de tecnologia a citam como principal preocupação ao adotar sistemas autônomos, mas só 18% criaram conselhos abrangentes de governança de IA.
Confiança em crise e laços sociais mais frágeis
Confiança, governança e interação humano-IA são “condições para ganhar escala, não detalhes de conformidade”. As tecnologias com mais chance de se expandir, de acordo com o relatório do IEEE, são as sustentadas por segurança, explicabilidade e políticas públicas. Os participantes da pesquisa do IEEE foram bem menos otimistas que a equipe sobre garantir privacidade de dados e salvaguardas. Em 2016, a tecnologia era o setor mais confiável em 90% dos países acompanhados pela Edelman; em 2024, em 50%. A confiança na IA fica 26 pontos abaixo da confiança na indústria de tecnologia. Violações de segurança em IA preocupam 64% dos consumidores, mas só 32% dos executivos. Segundo análise da The Economist citada pela EY, empresas perdem 30% do valor após uma quebra de confiança.
A crise também é social. O CIFS aponta a individualização da vida cotidiana, com lares menores, mais gente morando sozinha e casamento e filhos adiados, e o custo disso em solidão e fragmentação. A EY cita ainda a dependência de companheiros de IA que nunca contestam o usuário pode fraturar a confiança interpessoal. O IEEE recomenda que os usuários evitem o isolamento e o pensamento de grupo alimentados pelas redes sociais.
Um mundo multipolar, fragmentado e em busca de soberania
O CIFS descreve a erosão da ordem unipolar liderada pelos EUA, com a ascensão da China e maior autonomia de potências médias. Em “Power Through Networks”, acrescenta que funções sociais, econômicas e de segurança dependem cada vez mais de infraestruturas digitais transnacionais que nenhum Estado controla sozinho. O IEEE cita o mundo multipolar, a (des)globalização, a IA soberana e a fragmentação regulatória, e prevê que a diversificação de fontes de energia e de cadeias de suprimento pode virar imperativo global até 2030.
A EY observa que novas tarifas hoje podem ser impostas em dias, quando a liberalização comercial levava uma década. As exigências de nuvem e IA soberanas transformam multinacionais de tecnologia em alvos geopolíticos, e empresas trocam eficiência por resiliência ao diversificar fornecedores. A volatilidade também atinge o talento: em setembro de 2025, os EUA impuseram taxa anual de US$ 100 mil ao visto H-1B.
Riqueza e poder mais concentrados
O Copenhagen Institute for Future Studies dedica uma megatendência à concentração de riqueza, que considera historicamente distinta pelo grau de extremos e uma ameaça à capacidade do Estado e até à democracia. A concentração de capital em IA e a economia em “K” aparecem entre os fatores das megatendências do IEEE, que observa que o alto custo computacional restringe o treinamento de modelos de fronteira a pouquíssimos atores, criando igualmente uma forma de concentração e colocando as empresas que detêm a tecnologia de fronteira em um patamar acima de todas as outras..
O 0,001% mais rico detém três vezes mais riqueza que a metade mais pobre da humanidade. As sete grandes empresas de tecnologia ligadas à IA somam 33% do valor de mercado do S&P 500, e os 20 maiores gestores de ativos controlavam 47% dos ativos globais sob gestão em 2024. Mais da metade dos jovens de 18 a 34 anos, numa pesquisa internacional, diz que o capitalismo, na forma atual, faz mais mal que bem. E a exclusão digital persiste: 2,6 bilhões de pessoas estão offline, e só 27% da população dos países menos desenvolvidos têm acesso à internet.
Requalificação permanente e o fim da carreira linear
O CIFS afirma que a IA embarcada vai “remodelar onde está o valor do trabalho do conhecimento”. O IEEE é mais direto: a adoção agressiva de IA acelerou a redução de postos de trabalho administrativos, e as habilidades em IA se tornaram “quase obrigatórias para o emprego”. O relatório resume o paradoxo com a frase “pessoas sem emprego e empregos sem pessoas”. No mapa de habilidades do IEEE, ganham peso segurança, operação de IA, pensamento crítico e verificação humana; perdem espaço programação, redação e produção de conteúdo e trabalho manual. Entre as recomendações a governos estão monitorar as categorias de emprego afetadas e criar redes de proteção e programas de recolocação.
Segundo o estudo “Work Reimagined 2025”, da EY, 88% dos trabalhadores usam IA no trabalho, em comparação com 22% em 2023. Cerca de 40% das habilidades essenciais devem mudar em cinco anos, e um quarto dos trabalhadores já enfrenta descompasso de qualificação. A consultoria chama de “dívida de talentos” o potencial perdido quando humanos e máquinas não evoluem juntos: mais de US$ 1 trilhão só nos EUA. Quem recebe 1,5 hora ou mais de treinamento em IA por semana economiza 14 horas semanais, contra três horas de quem recebe menos de 20 minutos. Ainda assim, 47% das organizações priorizam investimentos em IA, mas só 15% investem o suficiente em preparar a força de trabalho. Há um risco adicional: pesquisa do King’s College London citada pela EY mostra empresas muito expostas à IA reduzindo vagas júnior entre 2021 e 2025, o que ameaça a formação de futuros líderes.
Pirâmide invertida, falta de gente e migração como infraestrutura
Há outros riscos humanos que chegam com o envelhecimento populacional. O CIFS descreve a “inversão da pirâmide populacional”: queda sustentada da fecundidade e vidas mais longas pressionam previdência, saúde e educação, estimulam fluxos migratórios e empurram investimentos em automação. O IEEE lista envelhecimento, escassez de mão de obra e taxa de fecundidade “perigosamente baixa” entre os fatores das megatendências, além da migração do Sul para o Norte global e da África como motor de crescimento da força de trabalho.
Em 2050, mais de 2 bilhões de pessoas terão mais de 60 anos. A razão de dependência de idosos na OCDE deve chegar a 52% em 2060, acima de 75% em Itália, Japão, Polônia, Coreia e Espanha. Na União Europeia, 100% do crescimento populacional de 2024 veio da migração líquida. Enquanto isso, a população em idade ativa da África Subsaariana deve saltar de 883 milhões para 1,6 bilhão até 2050. A OMS projeta déficit de 11 milhões de profissionais de saúde em 2030, e a indústria dos EUA precisará de 3,8 milhões de trabalhadores até 2033, com metade das vagas sem preenchimento previsto. Para a EY, a migração passa de economicamente benéfica a economicamente essencial: na Espanha, imigrantes responderam por 64% dos novos empregos em 2023. O gargalo, diz a consultoria, é a capacidade de absorção, como moradia e reconhecimento de diplomas.
A corrida por minerais críticos e novas fronteiras
A transição energética e a expansão digital dependem de materiais que as fontes atuais não conseguem suprir. Com dados da Agência Internacional de Energia, a EY estima o déficit de oferta em 2040 entre 72% e 83% para lítio, 50% e 56% para terras raras usadas em ímãs, 32% e 45% para níquel, 33% e 42% para cobre e 17% e 37% para cobalto. A disputa se estende ao fundo do mar, ao Ártico e à órbita. A economia espacial direta deve passar de US$ 613 bilhões em 2024 para US$ 1 trilhão em 2032. Os satélites ativos passaram de 3.300 em 2020 para 13.000 em outubro de 2025.
O IEEE aponta a dependência de lítio, cobalto e terras raras importados como risco energético, com cadeias dominadas por um único país, e prevê mineração mais limpa impulsionada por IA. O espaço é uma de suas cinco megatendências: o relatório cita de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões em investimentos globais e prevê que a remoção de detritos orbitais vire negócio em dez anos. Mas é também a área em que a equipe se mostrou menos otimista, atrás das demais em todas as categorias avaliadas. O CIFS enquadra a disputa na “economia restrita”: muitas condições que sustentaram três décadas de crescimento e integração se esgotaram ou se inverteram.
Energia vira o gargalo da era digital
Disponibilidade e eficiência energética são agora “restrições vinculantes” do progresso digital. O relatório do IEEE invoca o paradoxo de Jevons: se os data centers ficam mais eficientes, as empresas instalam mais equipamentos dentro do mesmo orçamento de energia. Entre os sinais listados estão hyperscalers comprando energia nuclear. A equipe prevê que o armazenamento de energia dobre em dois a três anos nos países desenvolvidos e situa a fusão nuclear a 10 ou 15 anos de distância. Material de apoio do relatório estima o consumo das tecnologias da informação em cerca de 10% da eletricidade mundial.
A EY chega ao mesmo ponto pela indústria: no setor de tecnologia, a disponibilidade de energia, mais do que capacidade de computação ou matéria-prima, limita cada vez mais o crescimento. Na rede elétrica, o prazo de entrega de transformadores chegou a dois anos, cerca de quatro vezes o de antes de 2022, e os preços subiram de quatro a nove vezes em três anos. O net zero exige adicionar ou substituir mais de 80 milhões de quilômetros de linhas de transmissão e distribuição até 2040. O CIFS completa o quadro: as renováveis se tornam rapidamente a opção mais barata em muitos mercados.
Transição verde em curso, mas mais lenta que o clima
Para o CIFS, a transição verde está em curso, mas avança de forma desigual: a capacidade renovável cresce e as emissões de CO2 são menores do que seriam, enquanto a proteção de habitats e a redução do consumo de materiais ficam para trás. A reação política contra a agenda ambiental em grandes economias, diz o instituto, gera ruído, mas não reverteu a tendência. O IEEE faz leitura semelhante: o avanço de tecnologias de saúde e sustentabilidade segue lento, e a gestão de gases de efeito estufa perdeu fôlego. A equipe prevê que, em cinco anos, reduzir emissões não bastará e a remoção de carbono por processos naturais no oceano será adotada. Material de apoio do relatório estima que ofertas ligadas ao net zero podem gerar mais de US$ 12 trilhões em vendas anuais até 2030.
Os cientistas preveem que o planeta pode cruzar até 25 pontos de inflexão climáticos. Os deslocamentos por desastres bateram recorde de 45,8 milhões em 2024, e o Banco Mundial projeta até 216 milhões de migrantes climáticos internos em 2050. O Ártico aquece quatro vezes mais rápido que o resto do planeta, e verões sem gelo podem chegar na década de 2030.
Saúde fora do hospital, biotecnologia e longevidade
A migração da saúde do tratamento agudo para a gestão crônica no dia a dia: doenças não transmissíveis já respondem pela maioria das mortes fora de pandemias, segundo dados levantados pelo CIFS. Essa visão de saúde em que os wearables e orientação por IA ajudam a tomar decisões, mas trazem riscos de confiabilidade e de desigualdade no autocuidado, já é uma tendência que se nota agora. Em outra megatendência, a revolução biotecnológica, o instituto dinamarquês prevê a biotecnologia integrada à saúde, alimentos, materiais e energia. O IEEE concluiu que a saúde tem o maior potencial de impacto sobre a humanidade, com a medicina personalizada no topo. A projeção é que a engenharia genética chegue a várias áreas terapêuticas em dois anos e que algumas técnicas de diagnóstico precoce saiam do laboratório em cinco anos.
A EY reúne evidências de ganho. Com diagnóstico apoiado por IA, a sensibilidade sobe de 72% para 80% e o tempo de diagnóstico cai 30%. As pesquisas com IA e os laboratórios robóticos alcançam 70% de taxa de sucesso na descoberta de fármacos, contra 10% dos métodos tradicionais. O investimento em longevidade chegou a US$ 8,5 bilhões em 2024, alta de 220% sobre o ano anterior. A EY também registra o outro lado: pacientes se autodiagnosticando com ferramentas de IA, às vezes com resultados perigosos.
Os três estudos concordam que a tecnologia não decide sozinha o desfecho. O Copenhagen Institute for Future Studies insiste que a IA embarcada “não implica um futuro predeterminado”. O IEEE observa que, fora da tecnologia, os fatores que freiam as megatendências predominam sobre os que as impulsionam. A EY conclui que a tecnologia redefine o que as organizações podem alcançar, mas são as pessoas que determinam se esse potencial se realiza. Confiança, requalificação e distribuição dos ganhos aparecem, assim, como as variáveis que vão separar os futuros possíveis até 2030.
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