Há uma pergunta que Borja Castelar ouve em todas as palestras, em todos os países, diante de qualquer tipo de audiência: a Inteligência Artificial vai tomar o meu emprego? A resposta que ele dá é sempre a mesma: não exatamente tranquilizadora, mas também não catastrófica. “A Inteligência Artificial vai reduzir a importância da parte técnica dos trabalhos. Isso todo mundo sabe. E as habilidades humanas, a parte humana do trabalho vai se tornar mais importante.”
Castelar é espanhol, mora no Brasil há anos e passou uma década à frente do LinkedIn na América Latina e na Europa. Hoje, como autor do livro “Human Skills”, lançado recentemente no Brasil pela Editora Planeta, percorre o mundo defendendo uma tese que soa simples, mas exige uma mudança de mindset: em um mercado em que as máquinas já escrevem, codificam, analisam e até simulam empatia, o que diferencia um profissional de outro não é o que ele sabe. É como ele se comunica.
“As pessoas que triunfam não são as pessoas que mais sabem. São as pessoas que melhor comunicam. Aí está a chave”, disse ele em entrevista exclusiva à The Shift.
Durante os anos no LinkedIn, Castelar teve uma visão privilegiada de um fenômeno que hoje não para de crescer: empresas que contratam pelo currículo técnico e demitem pelo comportamento humano. O famoso “contrato por habilidades técnicas, desligo por habilidades humanas”. A grande mudança que ainda ocorre em ondas é contratar pelo avesso: avaliar primeiro as habilidades humanas (as “human skills” que dão título ao livro), depois olhar as competências técnicas. A mudança, porém, exige uma transformação no próprio processo seletivo. “É uma mudança gigantesca, porque contratar por habilidades humanas é muito diferente. Você tem que fazer mais perguntas situacionais, comportamentais, mais ‘role plays’ para ver essas habilidades em ação.”
A lógica, segundo ele, é reforçada pelos dados. Castelar cita uma pesquisa das universidades de Harvard, Carnegie e Stanford que aponta que 85% do sucesso profissional depende das habilidades humanas. Ele vai além: “Em um mundo dominado pela Inteligência Artificial, eu acho que 95% do sucesso vai depender das habilidades humanas.”
A preocupação de Castelar não é com a IA em si, mas com a forma como as novas gerações estão se relacionando com ela. Ele cita o caso de uma escola no sul da Espanha que, anos atrás, foi reconhecida como pioneira por adotar métodos totalmente digitais – telas por todos os lados, conectividade e plataformas digitais. Hoje, a mesma escola está revertendo o processo. “O que eles estão fazendo agora? Voltando para papel e lápis. O que aconteceu nas últimas gerações foi uma prova de erro”, justificou o autor.
Um paper do MIT Media Lab publicado no ano passado aponta que usuários do ChatGPT apresentaram menor engajamento cerebral e “desempenho consistentemente inferior nos níveis neural, linguístico e comportamental”. Ao longo de vários meses de estudo, os usuários do ChatGPT se tornaram mais preguiçosos a cada redação, recorrendo muitas vezes ao famoso “Ctrl+C Ctrl+V”. O texto sugere que o uso de LLMs pode prejudicar o aprendizado, principalmente entre usuários mais jovens.
Para Castelar, a questão central não é banir a tecnologia, mas reposicioná-la. “Temos que fazer com que a Inteligência Artificial não seja o piloto das nossas vidas, que é o que está acontecendo com muitas pessoas, mas que seja o copiloto”, disse. Dessa forma, ele defende que a IA poderá ajudar muito como um parceiro de ideias, para que os humanos preservem o que a tecnologia não consegue replicar: o bom senso, o julgamento, o pensamento crítico. “Quando se pergunta uma coisa para a IA, é preciso usar o bom senso, o pensamento crítico para ver se faz sentido essa resposta. E é importante dizer, o pensamento crítico se desenvolve lendo livros.” E aí, sim, usar a tecnologia como amplificador.
Um fenômeno visível nas redes sociais, e que fica ainda mais exposto no LinkedIn, é o uso da IA para turbinar perfis, recompor currículos e escrever posts. Embora não haja nada de errado em usar a tecnologia para garantir melhor escrita e pensamento ordenado, ao mesmo tempo a IA torna as coisas muito parecidas nessa tentativa de otimização. Tudo vai ficando muito padronizado. Castelar prefere enxergar o lado positivo da equação. “O conteúdo bem feito, que não é gerado por IA, e que tem um aspecto muito mais pessoal, com storytelling, histórias pessoais, vai se destacar. Porque o conteúdo está virando tão estandarizado que o conteúdo bom vai viralizar mais que nunca.”
A orientação prática de alguém que durante anos trabalhou do lado de lá: use a IA para buscar ideias, estruturar o raciocínio, mas nunca para substituir a voz própria. Mostrar momentos de vulnerabilidade, compartilhar erros e experiências genuinamente vividas, esse é o conteúdo que ainda não tem concorrente artificial.
Se as organizações estão mudando a forma de contratar, os profissionais também precisam mudar a forma de pensar a própria trajetória. O modelo clássico, que envolvia estudar uma determinada área, se especializar e garantir estabilidade já não vale mais. “Essas carreiras lineares que seguiam o velho paradigma, isso já não vai existir mais daqui a pouco. Ir para a faculdade para buscar conhecimento para uma carreira e depois ter um trabalho com segurança, isso já é passado.”
A boa notícia, segundo Castelar, é que a mudança abre espaço para um perfil que o mercado vinha subestimando: o “generalista curioso”. Num cenário em que, segundo o Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades poderão se tornar obsoletas até 2030, o que implica em um movimento gigantesco de reskilling, ganha espaço quem usar curiosidade e seu esforço para aprender novas habilidades, assim como explorar diferentes caminhos para sua carreira. “Considerando que as habilidades técnicas vão se tornando defasadas e você precisa se atualizar, nesta nova era, os especialistas estão perdendo muito valor. Sem dúvida, para mim o futuro é dos generalistas. ”
O argumento se conecta diretamente ao que ele chama de “a morte dos diplomas como prova de valor”. “O que importa é o valor que você gera através das suas habilidades”, afirmou. E isso, acredita Castelar, vai impulsionar uma onda de empreendedorismo individual. “Teremos muito mais empreendedores. A Inteligência Artificial está fazendo com que empreender seja muito mais fácil agora.”
Perguntado sobre como, na prática, é possível desenvolver habilidades humanas, Borja Castelar tem uma resposta direta: colocar o foco em uma habilidade por semestre. “Digamos que você quer desenvolver a habilidade de falar em público. Então, tem que pensar que durante um semestre, você vai aprender e praticar o ato de falar em público. Para essa skills, eu recomendo aulas presenciais, como por exemplo de oratória.” Segundo ele, não há atalho. Não há livro que substitua a prática, é preciso praticar para que a habilidade se desenvolva.
Além da rotina de aprendizado diário – ele defende 20 minutos de leitura por dia como hábito inegociável –, Castelar sugere algo mais radical: tratar cada interação humana como uma oportunidade de treino. Nas suas palestras, ele chega a propor um desafio ao público: falar com quatro desconhecidos durante a semana. Na fila do café, no ponto de ônibus, no elevador, o importante é a interação. “Aí é como se desenvolve habilidades humanas, saindo da zona de conforto também.”
E no centro de tudo, uma qualidade que, para ele, é a origem de todas as outras. “O traço mais importante nesta nova era: as pessoas que vão triunfar são os curiosos e os autodidatas. Hoje em dia você pode aprender com dois cliques sobre o que quiser. Nunca foi tão fácil aprender. Mas para aprender, você precisa ter curiosidade.”
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