s
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Engenharia e P&D sob pressão: custos sobem, decisões atrasam

Relatório global da Capgemini mostra por que tecnologia não é mais o gargalo — e como a lentidão organizacional ameaça a competitividade.

Aumento da pressão sobre os custos. Alongamento do tempo de lançamento no mercado. Perturbações globais cada vez mais frequentes. Líderes de engenharia e P&D, de setores que vão da indústria aeroespacial e automotiva à energia e às ciências da vida, enfrentam hoje um conjunto de desafios sem precedentes. Não por acaso, 70% das organizações apontam velocidade de lançamento como sua principal prioridade estratégica.

O risco deixou de ser abstrato. Em uma pesquisa global com 1.500 executivos, 44% afirmam que suas organizações podem perder uma parcela significativa de mercado nos próximos cinco anos caso não consigam acelerar seus processos de inovação. Em um ambiente de competição global intensificada, errar o ritmo já não é um problema operacional — é uma ameaça existencial.

O primeiro choque, porém, não vem do mercado. Vem de dentro. 78% das organizações reportaram aumento nos custos de engenharia nos últimos três anos, enquanto quase metade viu os prazos de design e desenvolvimento se alongarem. O paradoxo é evidente: a urgência cresce, mas a máquina desacelera.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

Escassez de talentos, sistemas legados e culturas resistentes à mudança formam um tripé estrutural que compromete a execução. Mesmo quando a estratégia está clara, a organização muitas vezes não está preparada para sustentá-la no dia a dia. A engenharia passa a carregar o peso de promessas que não controla integralmente.

É nesse contexto que o Engineering and R&D Pulse 2026, do Capgemini Research Institute, ganha relevância. Mais do que um retrato do presente, o relatório funciona como manual de navegação em águas turbulentas, partindo de uma constatação simples: eficiência, resiliência e velocidade não virão de uma única aposta tecnológica, mas da combinação disciplinada de IA, digitalização profunda e novos modelos de parceria.

A IA ocupa naturalmente o centro dessa agenda. Mais de 75% dos executivos esperam que a IA gere melhorias entre 20% e 50% em produtividade, time-to-market e redução de custos. 84% planejam aumentar investimentos, com China e Japão liderando esse movimento, sinalizando onde o ritmo da transformação tende a ser mais agressivo.

Quando questionados sobre quais tecnologias têm maior potencial para transformar engenharia e P&D nos próximos dois a três anos, os executivos convergem para um topo claro: IA (71%), gêmeos digitais (68%) e materiais de próxima geração (66%). O consenso é revelador: o futuro da engenharia será profundamente digital — e integrado ao core do negócio.

Mas o entusiasmo encontra rapidamente seus limites na realidade operacional. Apesar do alto potencial atribuído, a maturidade dessas tecnologias ainda é baixa. Em IA — incluindo GenAI e agentes — a maioria das organizações permanece presa a pilotos ou implantações restritas. O mesmo ocorre com gêmeos digitais e materiais avançados.

O chamado gap de escala se impõe como um dos maiores gargalos da engenharia contemporânea. Ambição estratégica existe, mas transformá-la em impacto consistente exige muito mais do que tecnologia disponível. Exige integração, disciplina operacional e capacidade de mudança organizacional.

As barreiras são recorrentes: preocupações com confiabilidade dos resultados, dificuldades de integração com sistemas existentes, escassez de talentos, resistência cultural e governança ainda frágil para GenAI e agentic AI. Em setores regulados ou safety-critical, a pergunta central deixou de ser “o que a IA pode fazer?” e passou a ser “o que pode ser certificado, auditado e sustentado ao longo do tempo?”.

Paralelamente, o relatório aponta uma transformação menos visível, mas igualmente estrutural. Digitalização e terceirização diversificada deixam de ser táticas pontuais e passam a atuar como alavancas estratégicas. Crescem modelos de parceria baseados em desempenho, compartilhamento de receita e arranjos BOT, aproximando engenharia de uma lógica clara de retorno, risco e accountability.

Ainda assim, a narrativa não é de substituição humana. Apenas 15% dos executivos acreditam que a IA pode substituir a criatividade e a capacidade de resolução de problemas dos engenheiros humanos. O futuro projetado é o de equipes híbridas humano–IA, nas quais máquinas ampliam velocidade e escala, enquanto pessoas mantêm julgamento, contexto e responsabilidade final.

O paradoxo é que o maior gargalo segue sendo gente. Menos de um terço das organizações se sente preparada para lidar com incerteza geopolítica, choques na cadeia de suprimentos e escassez de talentos. O discurso sobre requalificação é forte, mas a execução ainda é desigual e, muitas vezes, lenta demais para a velocidade das mudanças externas.

Manter-se à frente em engenharia e P&D exige, portanto, um roteiro claro: aplicar múltiplas modalidades de IA com disciplina, transformar a engenharia para equilibrar custo, velocidade e agilidade, ampliar o acesso a talentos globais e expandir ecossistemas de parceiros capazes de gerar impacto real — não apenas provas de conceito.

No fim, o Engineering and R&D Pulse 2026 aponta menos para uma revolução súbita e mais para uma década de decisões difíceis. Vencer em engenharia exigirá coragem: coragem para simplificar arquiteturas, decidir antes da perfeição, aprender fora das fronteiras tradicionais e, talvez o mais desafiador, fazer perguntas melhores. Porque, nesta década, a competência central da engenharia não será apenas técnica. Será estratégica.

A ordem importa: como empresas líderes transformam habilidades em resultado de negócio

Tendências

A ordem importa: como empresas líderes transformam habilidades em res...

Pesquisa da Deloitte com 87 organizações mostra que não existe modelo universal de talentos — mas existe uma sequência que funciona

Sem motorista, sem conversa, sem gorjeta

Inteligência Artificial

Sem motorista, sem conversa, sem gorjeta

Os robotáxis ainda não dominam o mercado. Mas já estão alterando a sua lógica.

SAS Brasil investe em governança e IA confiável

Inteligência Artificial

SAS Brasil investe em governança e IA confiável

Em entrevista durante o SAS Innovate 2026, o Country Leader Brazil André Novo explica a nova estrutura da empresa, fala sobre as tecnologias que já estão em produção no Brasil — e as que ainda precisam esperar — e revela por que vi...

Atenção humana: o custo que agentes de IA não exibem na fatura

Inteligência Artificial

Atenção humana: o custo que agentes de IA não exibem na fatura

Supervisão humana mal alocada e workflows sem processo crescem com o uso agêntico; esse custo não aparece em nenhum relatório de infraestrutura.

Aos 50 anos, SAS aposta em IA Agêntica, Gêmeos Digitais e Computação Quântica

Inteligência Artificial

Aos 50 anos, SAS aposta em IA Agêntica, Gêmeos Digitais e Computaç�...

No SAS Innovate 2026, a empresa trouxe suas apostas tecnológicas e culturais que devem guiar os próximos anos da empresa: IA Agêntica com governança integrada, simulação industrial com Gêmeos Digitais e uma plataforma para democratiz...

Quando a IA já compra por você, para que serve uma loja?

Tendências

Quando a IA já compra por você, para que serve uma loja?

Com 68% dos consumidores usando IA nas compras, o relatório da McKinsey e do ICSC revela o novo imperativo do varejo físico: ou a loja tem uma missão clara ou ela não tem razão de existir