Durante décadas, data centers foram sinônimos de sala de servidores: um local gelado, sem nenhum atrativo, que só saía dos bastidores se por acaso falhasse. Até a IA, com todas as suas variações e aplicações, trazê-los para os holofotes, no centro do palco, com direito a um viés adicional associado à urgência de pensar em soberania tecnológica.
Nos últimos dois anos, por causa da inteligência artificial, a capacidade computacional deixou de ser um detalhe técnico e virou um recurso estratégico, comparável à energia elétrica na industrialização ou às rodovias e portos que sustentaram décadas de crescimento econômico. E, pela primeira vez, o Brasil pode liderar essa corrida global, com atributos para se posicionar como um dos principais hubs digitais do planeta.
O país já concentra cerca de 200 data centers e aproximadamente metade de toda a capacidade instalada da América Latina. A demanda por potência ligada ao setor já ultrapassa 800 MW, e dezenas de bilhões de reais em novos investimentos foram anunciados para os próximos anos, atraindo hyperscalers, fundos de infraestrutura e investidores institucionais que veem no país uma das teses mais relevantes da economia digital.
Por trás desses números está um trunfo que poucos países no mundo podem oferecer: segundo o Balanço Energético Nacional 2026 (ano-base 2025), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 86,8% da matriz elétrica brasileira já vêm de fontes renováveis, um patamar muito acima da média mundial. Em um momento em que data centers de IA consomem energia em uma escala sem precedentes, essa é precisamente a moeda que decide onde o próximo ciclo de investimento vai se instalar.

Para Fabrício Araújo, diretor-executivo na prática de Deal Technology da EY-Parthenon no Brasil, essa combinação coloca o Brasil em uma posição privilegiada que precisa ser explorada. “Hoje a energia deixou de ser apenas um insumo operacional e passou a ser um diferencial competitivo, porque data centers com workloads de IA de alta capacidade consomem muito mais energia e exigem uma infraestrutura elétrica muito mais robusta.” Segundo ele, quando fundos de investimento e operadores avaliam um novo projeto, a lógica muda: “a primeira pergunta que vem não é mais onde fica o terreno em que eu vou investir, mas sim onde existe energia disponível.” Em um mundo em que a capacidade computacional se concentra hoje no Norte rico, o Brasil reúne o que falta a boa parte do Sul Global: escala, energia limpa e a possibilidade real de deixar de ser apenas consumidor de tecnologia para se tornar hospedeiro de infraestrutura crítica.
Nessa entrevista, Fabrício detalha por que o Brasil compete de igual para igual com mercados maduros, quais gargalos ainda travam o setor e por que, na visão dele, o país precisa trocar a lente pela qual olha as oportunidades ligadas ao segmento: ao invés de meros projetos imobiliários, os data centers precisam ser vistos como ativos críticos para o crescimento econômico e catalisadores de negócios em segmentos que vão da engenharia e construção civil à manufatura de equipamentos (transformadores, refrigeração), energia, telecomunicações, manutenção, cibersegurança, saúde, finanças e educação. “Os países que lideram essa agenda enxergam os data centers como infraestrutura estratégica para o crescimento econômico, e essa mudança de cenário está acontecendo agora. Quanto antes as grandes organizações entenderem isso, melhor”, diz ele.
Durante muito tempo, se a gente olhar a evolução ao longo dos anos, os data centers eram vistos basicamente como infraestrutura de suporte. Eles estavam nos bastidores da operação, fazendo hosting de dados, e as pessoas nem se perguntavam onde esses dados estavam sendo processados. O que mudou foi o advento recente da inteligência artificial, que alterou completamente essa lógica. Pela primeira vez, a capacidade computacional passou a ser não só um recurso de tecnologia, mas um recurso estratégico. Não estamos mais falando apenas de armazenar dados ou manter aplicações funcionando, mas da capacidade de processar grandes volumes de informação em tempo real, treinar modelos de IA e sustentar praticamente toda a governança digital. É por isso que eu trago essa comparação com outros ciclos históricos de infraestrutura. A energia elétrica foi um fator determinante para a industrialização, depois vieram grandes investimentos em rodovias, portos, aeroportos e telecomunicações, porque essas infraestruturas passaram a determinar a competitividade de empresas e países. Hoje vivemos um movimento muito semelhante: a capacidade computacional passa a ocupar esse mesmo papel estratégico.
Hoje, este é o principal fator de sucesso para um data center. A gente vê como o Brasil tem recebido investimentos, principalmente no Nordeste, em São Paulo, Minas e no Sul. Durante muito tempo, o grande desafio foi localização e conectividade. Elas continuam importantes, mas a inteligência artificial mudou completamente essa equação. Atualmente, a energia deixou de ser apenas um insumo operacional e passou a ser um diferencial competitivo, porque data centers com workloads de IA de alta capacidade consomem muito mais energia e exigem uma infraestrutura elétrica muito mais robusta. Por isso, quando conversamos com fundos de investimento e operadores, a primeira pergunta que vem não é mais onde fica o terreno em que eu vou investir, mas sim onde existe energia disponível, confiável, com capacidade de ser renovável e de expandir.
Eu diria que o segundo gargalo é a mão de obra especializada. Os data centers de hoje não se parecem com os construídos há dez, quinze anos. São ambientes preparados para IA, com alta densidade computacional, refrigeração líquida, automação avançada e padrões de disponibilidade muito mais elevados. Isso exige profissionais especializados em diversas disciplinas, do engenheiro do data center à operação de infraestrutura crítica. O mercado brasileiro já tem essa capacitação, temos bons profissionais e um mercado sofisticado nos pilares de engenharia, energia e tecnologia. O grande desafio agora é escalar essa capacitação para dar conta do volume de investimentos que esperamos nos próximos anos.
Continua atraente, sim. O investidor estrangeiro olha para o Brasil com uma visão de longo prazo. Ele busca previsibilidade e estabilidade regulatória. O Redata infelizmente ainda não avançou, mas todo o mercado tem a expectativa de que volte à pauta do Senado. O que vale notar é que o investidor não avalia o Brasil isoladamente: ele compara com outros mercados do portfólio global dele, como México, Espanha, Estados Unidos e Chile. E um ponto interessante é que, nas conversas que temos na EY sobre data centers, raramente a qualidade dos ativos brasileiros é questionada. O que normalmente entra na discussão é: vou conseguir colocar esse projeto de pé no prazo, ter energia renovável quando precisar, um ambiente regulatório que dê previsibilidade para investimentos de bilhões de dólares?
O Brasil já possui uma demanda doméstica bastante robusta. Somos o maior mercado digital da América Latina, com um setor financeiro extremamente sofisticado, e-commerces bem desenvolvidos e um ecossistema de startups relevante. Praticamente empresas de todos os setores – tecnologia, financeiro, saúde – estão investindo e acelerando iniciativas na nuvem, e agora também em inteligência artificial. Os hyperscalers encontram aqui pelo menos duas boas oportunidades: atender esse mercado interno que continua crescendo e usar o Brasil como plataforma para atender outros países da América Latina, o hub que menciono no artigo.
México e Argentina são os países que estão nessa linha de frente com o Brasil na América Latina. O Brasil continua sendo a grande referência na região. O México tem uma vantagem por estar integrado à economia norte-americana, o que traz uma tendência de reshoring e faz com que seja visto como uma extensão do mercado dos Estados Unidos. Já o Brasil tem outros atributos: o maior mercado consumidor da América Latina, uma matriz elétrica predominantemente renovável, maior disponibilidade territorial para expansão e um potencial muito grande de crescimento de infraestrutura digital. Na prática, o investidor não escolhe entre Brasil ou México porque um é melhor que o outro, ele escolhe em função da estratégia que persegue. Se o objetivo é proximidade com o mercado americano, o México tem vantagem natural. Se a estratégia é desenvolver um grande hub para atender o mercado brasileiro e boa parte da América do Sul, o Brasil se torna um ambiente extremamente competitivo.
Sim, tem bastante coisa. Hoje, os investimentos mais visíveis no Brasil continuam sendo liderados por operadores globais, hyperscalers americanos e fundos internacionais, mas já vemos movimentos como o do TikTok permeados por capital chinês. É natural que as empresas chinesas observem o mercado brasileiro com interesse, porque a China é um dos maiores consumidores e desenvolvedores de tecnologia ligada à inteligência artificial e investe forte em infraestrutura digital e equipamentos para data center. Faz sentido que acompanhem oportunidades em países com vantagens competitivas, disponibilidade de energia e potencial de crescimento.
A gente atua no contexto todo. Atendemos operadores de data centers, hyperscalers, investidores que querem desenvolver ou adquirir ativos, fundos de investimento e private equity avaliando oportunidades no Brasil, empresas de energia interessadas em capturar parte desse crescimento, desenvolvedores imobiliários especializados, fornecedores de infraestrutura crítica e empresas que estão redesenhando sua estratégia digital. É uma prática que veio dos Estados Unidos, onde já temos pelo menos dez anos de atuação; no Brasil, são cinco, seis anos. No mesmo projeto, podemos apoiar desde a definição da estratégia de entrada no mercado, comprar uma empresa, montar uma JV, avaliar um modelo greenfield ou brownfield, até estudos de demanda e viabilidade, due diligence financeira e operacional, modelagem financeira, gestão da implantação, estruturação de governança e assessoria regulatória. Essa visão integrada reduz as interfaces com o cliente e ajuda a garantir que decisões tomadas no início do projeto estejam alinhadas com o que será necessário durante construção e operação.
Hoje, os vencedores são as empresas capazes de combinar diferentes competências. Há três, cinco anos, ninguém imaginava que bastaria construir mais rápido ou investir mais capital, mas hoje isso não é suficiente. Já não basta ter acesso à energia: o verdadeiro diferencial competitivo é a combinação de acesso à energia, capacidade de execução, excelência operacional e relacionamento comercial. Os projetos hoje exigem decisões estratégicas desde o primeiro dia, como, por exemplo, onde implantar, como garantir energia a longo prazo, como estruturar pensando numa expansão futura, como reduzir riscos de implantação e atender às exigências regulatórias crescentes. Não estamos falando de construir para atender à demanda atual, mas de construir ativos capazes de acompanhar uma evolução tecnológica extremamente rápida.
Fabricio Araujo: Sem dúvida. Um dos maiores erros é enxergar o data center apenas como um edifício onde fica um servidor, quando na realidade ele é um catalisador para uma série de outros setores. Durante a construção, movimenta engenharia, construção civil, fabricantes de equipamentos como transformadores, sistemas elétricos, refrigeração e automação, além de uma enorme cadeia de fornecedores. Durante a operação, surgem oportunidades em energia, telecomunicações, manutenção, cibersegurança, serviços gerenciados e formação de profissionais especializados. Mas o efeito mais importante talvez seja o indireto: quando você aumenta a capacidade de infraestrutura digital de um país como o Brasil, cria condições para que outros setores cresçam mais rápido. Bancos aceleram iniciativas de IA, indústrias avançam em automação, hospitais evoluem em medicina digital, universidades ampliam pesquisa, startups conseguem escalar suas soluções. O impacto vai muito além do próprio setor de data center.
Acredito que sim. Nos últimos anos, essa discussão deixou de ser apenas econômica e passou a ter uma dimensão geopolítica muito importante. Cada vez mais os países falam em soberania digital, ou seja, ter capacidade de armazenar, processar e proteger dados críticos dentro de uma infraestrutura confiável e resiliente. Com a inteligência artificial, essa discussão ficou ainda mais forte, porque não basta ter os dados, é preciso ter capacidade computacional para transformar esses dados em riqueza, inovação e produtividade. Se o Brasil se consolida como hub regional de infraestrutura, isso fortalece nossa posição na América Latina e perante o mundo. Passamos a ser um país que não apenas consome tecnologia, como vínhamos fazendo nas últimas duas décadas, mas que também hospeda infraestrutura crítica, atrai investimentos, desenvolve competências e ganha relevância na economia digital global. Assim como no passado alguns países se consolidaram como hub logístico ou hub financeiro, agora o Brasil tem condições de se consolidar como um dos principais hubs de infraestrutura digital da América Latina.
Quero destacar que o Brasil ainda olha, em sua maioria, para data center como projeto imobiliário. Estamos saindo desse paradigma. Os países que lideram essa agenda enxergam os data centers como infraestrutura estratégica para o crescimento econômico, e essa mudança de cenário está acontecendo agora. Quanto antes as grandes organizações entenderem isso, melhor. Quem começar a investir agora para atender à capacidade que a infraestrutura vai exigir para dar conta da IA, que consome muito mais armazenamento do que uma infraestrutura tradicional, vai conseguir atingir seus objetivos. Quem não se antecipar vai acabar enfrentando um gargalo, e isso vai ser ruim para as organizações.
Fabrício Araújo, diretor-executivo da EY-Parthenon, explica como a energia se tornou o critério decisivo para investidores em data centers e por que o Brasil pode se consolidar como hub digital da América Latina.
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