O Chief Data Officer deixou de ser o profissional responsável apenas por construir a fundação de dados da empresa. Hoje, a função ocupa a interseção entre decisão estratégica, transformação via IA e responsabilização em toda a organização, um deslocamento que a segunda edição do estudo “EY Chief Data Officer Study — Evolution and New Responsibilities of CDOs in the AI Era” buscou capturar em detalhe. A ascensão da IA generativa não apenas somou novas demandas à agenda do CDO: mudou sua escala, velocidade e visibilidade. Não à toa, 85% dos CDOs apontam dados como o maior desafio para colocar a IA em produção, evidência de que a solidez da fundação de dados deixou de ser coadjuvante e virou pré-condição da ambição de IA das empresas.
“Mais do que uma mudança de nomenclatura, isso reflete uma transformação estrutural nas organizações, com dados e IA passando a ser tratados como capacidades estratégicas inseparáveis”, afirma Andrei Graça, sócio-líder de inteligência artificial e dados da EY Brasil.
O estudo identificou que empresas na Europa, América Latina, Estados Unidos e Ásia-Pacífico estão usando doze títulos diferentes para descrever, essencialmente, a mesma função corporativa. Chief Data Officer (CDO) segue sendo a denominação mais comum, respondendo por cerca de um quarto dos respondentes, mas há um movimento que chama a atenção: 31% dos títulos já carregam a sigla “AI”, um elemento que não existia na primeira edição do estudo. Entre os respondentes, a América Latina tem a maior fatia (36%), à frente de Europa (35%), Estados Unidos (20%) e Ásia-Pacífico (9%).
A dispersão de títulos não é o único sinal de que a função ainda está em mutação. O estudo mostra que, mesmo em empresas onde as responsabilidades de dados e IA permanecem formalmente separadas, os CDOs relatam interdependência crescente entre as duas frentes, e apontam a falta de clareza sobre posse e direitos de decisão como fonte crescente de atrito e risco de entrega.
Essa convergência de mandato antecede a convergência de nomenclatura. As empresas ainda estão testando modelos, de liderança integrada a estruturas hifenizadas como VP ou Head of AI, Chief AI Officer e CDAO, mas a mensagem de fundo é a mesma: a entrega de iniciativas de IA depende diretamente da solidez da fundação de dados, e isso está puxando as duas agendas para o mesmo lugar organizacional.
O estudo também sinaliza uma mudança da bagagem de competências e conhecimentos técnicos. CDOs com menos tempo de casa e menos experiência total de carreira apresentam uma proporção de background técnico que ultrapassa 70%, o que é quase 3x maior que a de profissionais com trajetórias mais longas. Ao mesmo tempo, quase um terço dos respondentes já construiu 100% da carreira em disciplinas de dados, um grupo que hoje é maior do que o de profissionais com menos de 50% de experiência na área.
Os três arquétipos identificados na primeira edição foram revisitados: Hired Expert (especialista contratado de fora para liderar a função), Evolved Internal (quem migra de áreas de tecnologia após um tempo de casa) e Homegrown (quem assume a liderança de dados após anos na própria organização). Este ano, os dois últimos perfis aparecem com tempo de permanência ainda maior, sinal de que a função está se tornando mais ancorada dentro das empresas.
Os números de investimento reforçam a centralidade. Mais de 80% dos CDOs reportaram aumento de orçamento nos últimos 12 meses, e 86% esperam novo crescimento no próximo ano, com mais da metade projetando alta de dois dígitos. Prioridades de negócio como melhoria de margem, redução do tempo de lançamento de produtos e ganhos de eficiência continuam a liderar o drive, mas a IA aparece como pressão adicional: as empresas estão associando ambição de IA à necessidade de fortalecer a fundação de dados, reconhecendo que problemas de qualidade, governança e posse podem travar a escala de qualquer iniciativa.
“Dentro de prioridades, pode-se considerar uma gama de aspectos, como melhorar as margens, acelerar o tempo de lançamento de produtos/serviços, impulsionar a eficiência organizacional e a redução de custos em toda a empresa”, diz Andrei Graça.
Esse movimento impacta o tamanho das equipes: o Data Office médio expandiu 19% nos últimos dois anos, com o crescimento mais forte concentrado em governança, qualidade e metadados, funções que sustentam a confiabilidade dos dados que alimentam modelos de IA. Empresas com até 10 mil funcionários lideram essa expansão, em alguns casos com crescimento de equipe entre 35% e quase 50%, sinal de que companhias de porte médio estão tratando a estrutura de dados como capacidade central, e não como função de suporte.
Apesar desse fortalecimento, a posição do CDO no organograma segue dispersa: 23% se reportam ao CIO, 20% ao CEO, 11% ao CTO, 11% ao CFO, e 35% respondem a outras posições, de CCO a conselho de administração. O estudo é direto sobre a hierarquia das cadeiras: CDOs que se reportam a áreas de negócio descrevem alinhamento mais forte com criação de valor, enquanto os que respondem à área de TI tendem a enfatizar capacitação e infraestrutura.
Essa escolha, diz Andrei Graça, “determina se a função dos CDOs será posicionada como habilitação e infraestrutura ou como uma capacidade estratégica de criação de valor”.
Um dos achados de impacto do estudo é que a IA já não é só destino do trabalho do CDO; também é ferramenta dentro da própria função. Nove em cada dez empresas já usam IA para gestão de dados, ainda que de forma exploratória. Cinco usos se destacam:
O retrato que emerge da segunda edição do CDO Study é de um cargo em transição de identidade: mais estabelecido, mais visível e mais cobrado, mas também mais exposto às pressões que a própria IA impõe. O desafio deixou de ser definir a função e passou a ser investir em disciplina operacional, direitos de decisão claros e integração organizacional suficiente para sustentar impacto.
CDOs não guardam mais apenas a fundação de dados. Em muitas organizações, tornaram-se responsáveis por garantir que a promessa da IA seja compatível com a prontidão, integridade e coerência dos dados que a sustentam.
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