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Plano Quinquenal da China coordena investimentos em IA, robótica e tecnologias emergentes (Crédito: Freepik)
TENDÊNCIAS

A estratégia da China para vencer a corrida tecnológica global

Com IA, Robótica, Computação Quântica e Biomanufatura, o novo Plano Quinquenal tenta transformar prioridades políticas em infraestrutura industrial e liderança econômica

Por Soraia Yoshida 18/03/2026

A China entrou em um novo ciclo de planejamento com uma mensagem bastante clara: o crescimento dos próximos cinco anos será menos sobre velocidade e mais sobre controle, resiliência e poder tecnológico. O 15º Plano Quinquenal, que cobre o período de 2026 a 2030, mantém a ênfase em “alta qualidade” do crescimento, mas coloca inovação, autossuficiência tecnológica e modernização industrial como a espinha dorsal da economia, da competitividade externa e até da gestão de riscos internos.

Entre as metas oficiais para 2030 estão elevar a participação do valor adicionado das indústrias centrais da economia digital para 12,5% do PIB, manter o crescimento anual do gasto social em P&D acima de 7% e elevar o número de patentes de invenção de alto valor para mais de 22 por 10 mil habitantes. Em 2025, o gasto total em P&D já havia atingido 3,92 trilhões de yuans, enquanto a economia digital central respondia por cerca de 10,5% do PIB e o país tinha 16 patentes de alto valor por 10 mil habitantes. Os números da economia traçam um crescimento modesto para os padrões chineses. Em compensação, os planos para tecnologia passam longe da modéstia.

O contexto ajuda a explicar a aposta. A economia chinesa chega a esse novo ciclo pressionada por demanda doméstica fraca, crise prolongada no setor imobiliário, envelhecimento populacional, tensões tecnológicas com os Estados Unidos e queda no uso efetivo de capital estrangeiro. Em 2026, o governo definiu uma meta de crescimento do PIB em faixa de 4,5% a 5%, abandonando a lógica de um número rígido para todo o período do plano. A leitura política é que Pequim está institucionalizando mais flexibilidade para navegar incertezas externas, sem abrir mão do objetivo maior de sustentar a trajetória até 2035.

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O que a China quer alcançar em tecnologia até 2030

O 15º Plano Quinquenal da China prioriza a tecnologia, com um crescimento anual planejado de gastos em P&D superior a 7%, partindo dos níveis de 2024, que ultrapassaram US$ 500 bilhões. O foco da estratégia é escalar a indústria relacionada à IA para mais de 10 trilhões de yuans (aproximadamente US$ 1,4 trilhão) e fazer com que as indústrias da economia digital representem 12,5% do PIB total.

Os recursos para desenvolvimento irão para dez áreas, incluindo:

  • Robôs humanoides projetados para realizar tarefas humanas no trabalho e em casa.
  • Sistemas de IA para o ambiente de trabalho, criando ferramentas para automatizar tarefas rotineiras.
  • Indústrias do futuro, incluindo fusão nuclear, tecnologia quântica para exploração espacial, biofabricação e 6G.
  • Equipamentos de baixa altitude, como carros voadores e entregas por drones, que já estão em operação, mas precisam de aprimoramento para ampliar a produção e o uso.
  • Interfaces cérebro-computador, usando IA para transformar informações neurais em comandos.

A China não está mirando apenas software, chips ou IA Generativa. O plano desenha um ecossistema tecnológico completo. O termo Inteligência Artificial aparece mais de 50 vezes no documento. O texto também destaca um plano de ação “AI+”, pensado para espalhar IA por Manufatura, Saúde, Logística, Educação e Governança Pública. Ao mesmo tempo, o país prioriza Semicondutores, Computação Quântica, Biomanufatura, Robótica Humanoide, Interfaces Cérebro-computador, 6G, Hidrogênio Verde, Energia Nuclear e equipamentos médicos de alta complexidade.

Há uma mudança de escala aí. O plano não fala apenas em desenvolver tecnologia, mas em transformar descoberta científica em capacidade industrial e mercado doméstico. Um dos pontos mais fortes é justamente a tentativa de conectar laboratório, teste-piloto e produção em massa. A lógica é sair do “0 para 1” na pesquisa, passar pelo “1 para 10” em plataformas de teste e chegar ao “10 para milhares” nas empresas. Isso ajuda a entender por que o plano enfatiza bases nacionais de aplicação de IA, consórcios de inovação, incentivos tributários, fundos de venture capital e maior participação das empresas nas decisões de ciência e tecnologia.

Robótica é um dos capítulos mais reveladores: a China elevou “Embodied Intelligence”, ou IA Física em máquinas, a uma posição estratégica inédita. Trata-se de usar Robótica como infraestrutura para modernizar a indústria, enfrentar escassez de mão de obra, apoiar cuidados com idosos e criar novos padrões industriais. O país já parte de uma posição muito forte: em 2024, instalou 295 mil robôs industriais, o equivalente a 54% do total global, e chegou a uma densidade de 470 robôs por 10 mil trabalhadores da indústria, superando Alemanha e Japão. No segmento de humanoides, as empresas chinesas responderam por cerca de 90% das unidades enviadas globalmente em 2025.

 

Aceleração e escala para tecnologias quânticas

O 15º Plano Quinquenal revela uma obsessão com infraestrutura. A China quer ampliar clusters hiperescaláveis de computação para treinar modelos avançados de IA, apoiar comunidades open source e reduzir dependência externa em gargalos tecnológicos. No front mais sensível, o plano fala em “medidas extraordinárias” para avançar em tecnologias centrais, incluindo Circuitos Integrados, Software, Materiais Avançados e Biomanufatura. 

A ambição para Computação Quântica é grande. O plano prevê o desenvolvimento de computadores quânticos escaláveis e tolerantes a falhas, além da construção de uma rede integrada de Comunicação Quântica entre o espaço e a Terra, capaz de oferecer canais de transmissão praticamente invioláveis para dados sensíveis. Essa infraestrutura deve combinar satélites, fibras óticas e centros de processamento para formar uma rede quântica em larga escala, um salto tecnológico que teria implicações tanto para a economia digital quanto para a segurança nacional.

Essa estratégia se apoia em avanços acumulados ao longo da última década. A China foi pioneira no lançamento do satélite Micius, em 2016, parte do projeto Quantum Experiments at Space Scale, que demonstrou a viabilidade de distribuição de chaves criptográficas quânticas e teletransporte quântico em longas distâncias entre satélite e estações terrestres. Esses experimentos abriram caminho para a ideia de uma futura rede global de Comunicação Quântica, capaz de conectar diferentes países por canais ultra-seguros baseados em entrelaçamento quântico.

O novo Plano Quinquenal também indica que a tecnologia quântica deve evoluir do estágio experimental para um ecossistema industrial completo. O setor de Computação Quântica chinês movimentou cerca de 11,56 bilhões de yuans (US$ 1,6 bilhão) em 2025, com crescimento anual superior a 30%. No mesmo período, o número de empresas envolvidas no setor saltou de 93 em 2023 para 153 em 2024, sinalizando rápida expansão de um mercado que começa a integrar universidades, institutos de pesquisa e startups especializadas.

Outro eixo estratégico envolve Sensoriamento e Medição Quântica, áreas consideradas críticas para aplicações militares, navegação, geologia e monitoramento ambiental. Especialistas costumam dividir o campo das tecnologias quânticas em três grandes vertentes – Computação, Comunicação e Sensores Quânticos – e a China vem tentando avançar simultaneamente nas três para construir autonomia tecnológica e liderança científica.

Na prática, o plano busca acelerar a transição da pesquisa para aplicações comerciais. Exemplos recentes incluem plataformas de Computação Quântica em nuvem abertas a pesquisadores e empresas, como o sistema Origin Wukong, que já executou milhares de tarefas experimentais e recebeu acessos de usuários em mais de uma centena de países. Esses movimentos indicam que Pequim tenta transformar suas conquistas científicas em infraestrutura tecnológica disponível para indústria, pesquisa e serviços digitais.

É um desenho que mistura política industrial, segurança nacional e visão de longo prazo.

 

Olhando de fora para dentro

Há também uma dimensão externa relevante. Apesar da retórica de autossuficiência, o plano não fecha a porta ao capital estrangeiro. Pelo contrário: continua prometendo ampliar acesso em Telecomunicações, Saúde, Biotecnologia e Serviços, além de atrair multinacionais para instalar centros regionais de P&D no país. O problema é que isso acontece num ambiente de competição mais dura: o uso efetivo de investimento estrangeiro caiu 9,5% em 2025, ainda que o governo tenha reduzido a lista negativa de acesso ao investimento externo de 117 para 106 áreas restritas. Ou seja, a China quer mais capital e tecnologia estrangeira, mas em setores alinhados às suas prioridades estratégicas.

Dados de uma pesquisa do Politico mostram que, considerando a opinião dos quatro grandes aliados históricos dos EUA, “o século XXI provavelmente pertencerá mais a Pequim do que a Washington”. Mais: os entrevistados afirmam que “é melhor depender da China do que dos EUA”, levados principalmente pelos mandos e desmandos do presidente Donald Trump, que afastou todos os países aliados ao impor tarifas comerciais.

A “preferência” pela China, que a pesquisa mostra ser mais forte entre os mais jovens, carrega muito do “branding” do país, que trabalha quieto, mas mostra com orgulho suas conquistas tecnológicas. Basta pensar no estouro do TikTok e nas ondas recentes de impacto: o modelo de IA DeepSeek, o agente de IA Manus, o chip cerebral para tratar paralisia, o navio de carga autônomo, entre outros. Ao olhar para todas essas conquistas reforça a ideia de que as empresas e os países que prevalecem no desenvolvimento e disseminação de novas tecnologias é que vão liderar o mundo. Ou, como apontam os entrevistados da pesquisa do Politico, “a China está vencendo a corrida tecnológica global”. 

Para quem observa de fora, o principal insight é que o Plano Quinquenal funciona como coordenador de orçamento, prioridades industriais, metas regulatórias e execução regional. Isso significa que, quando Pequim diz que quer IA, Robótica, Computação Quântica e Manufatura Avançada, a máquina pública e os governos locais começam a traduzir isso em subsídios, compras públicas, fundos, infraestrutura, zonas piloto e padronização técnica. É essa capacidade de transformar prioridade política em mercado que ajuda a explicar por que o mundo presta tanta atenção aos planos quinquenais chineses. Neste caso, uma percepção que carrega um tanto de antecipação do futuro.

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