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ENTRE DADOS E RESULTADOS

NarcisIA acha feio o que não é espelho

Se as redes criaram câmaras de eco coletivas, os assistentes de IA podem inaugurar a era das câmaras de eco individuais.

Ontem me deparei com uma briga de adultos no LinkedIn sobre álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Um dizia que era resgate afetivo, futebol como cultura. O outro chamava de futilidade inadmissível para pessoas da nossa idade.

Fiquei olhando para o debate com aquela sensação de que o problema não estava no álbum.

Existe uma regra não escrita que observo com frequência: o fútil que o outro faz nunca tem justificativa, mas o fútil que eu faço sempre encontra uma narrativa nobre. Minha coleção de tênis é cultura sneaker*. Minha maratona de série numa sexta-feira é descanso cognitivo necessário. Meu álbum de figurinhas é nostalgia afetiva. O do outro é infantilidade.

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Caetano disse com mais elegância do que eu conseguiria: “Narciso acha feio o que não é espelho”.

A vaidade não vive no espelho, vive no julgamento. Precisa de palco, de contraste, de um outro que serve de régua para confirmar que você está acima. A virtude, essa sim, não precisa de plateia.

Esse fenômeno sempre existiu. A diferença é que agora ele tem infraestrutura.

Depois do TikTok, as redes sociais  fizeram uma coisa silenciosa e grave: colocaram o componente social em segundo plano. O que governa o algoritmo agora não é quem você conhece, é o assunto que te prende. O efeito é que a câmara de eco ficou ainda mais fechada. Antes você tinha que conviver com pessoas de visões diferentes, mesmo que fosse só para discordar. Hoje o algoritmo resolve isso por você: simplesmente não mostra.

Resultado: fica muito fácil achar que a própria visão de mundo está cem por cento certa. Agora imagina isso multiplicado pela próxima camada.

Daqui a alguns anos, boa parte das pessoas vai ter um assistente de IA pessoal rodando em paralelo com a vida. Capaz de ouvir, interpretar, responder. E esse assistente vai ser, por padrão, agradável. Vai valorizar suas ideias e encontrar conexões brilhantes no que você disse. Vai confirmar que seu raciocínio faz sentido.

Para quem já vive dentro de uma câmara de eco algorítmica, esse assistente vai ser o último passo. A validação perfeita.

Um espelho que nunca distorce.

Teremos uma pandemia de testas oleosas que se acham mentes brilhantes. Cada um formando a própria câmara de eco particular, customizada, 24 horas por dia, com uma IA que concorda gentilmente com tudo.

Mas esse indivíduo não fica em casa meditando sobre a própria genialidade.

Ele gerencia equipes, define estratégias, contrata, demite, investe e educa filhos.

Ele vota.

Durante séculos, o mundo resistiu ao narcisismo por fricção. Você podia achar que era o mais inteligente da sala, mas a sala eventualmente discordava. Um cliente reclamava. Um concorrente te vencia. Um funcionário pedia demissão. A realidade empurrava de volta.

A IA que concorda com tudo remove essa fricção.

O que me preocupa não é o narcisista declarado. É o executivo criterioso, o gestor bem-intencionado, o profissional que genuinamente quer acertar, chegando ao trabalho depois de uma manhã inteira sendo validado por uma IA que nunca discordou.

Sem perceber que a câmara já está fechada.


* A cultura sneaker é o movimento global de valorização dos tênis não apenas como calçados esportivos, mas como itens de moda, arte e identidade cultural.

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