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Alex Ibrahim, Chefe de Mercados Internacionais da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) Foto: Divulgação
ENTREVISTA

Um brasileiro nos bastidores da Bolsa de Nova York

Alex Ibrahim, chefe de mercados internacionais da NYSE, sabe antes de muita gente quem vai fazer um IPO. Nessa entrevista, ele fala de Brasil, de América Latina e de como um IPO exige fôlego dos founders

Por Silvia Bassi 01/04/2022

Em 2008, a Bolsa de Nova York (NYSE), uma organização bicentenária (hoje com 225 anos), olhou para o mercado nascente de startups de tecnologia e viu que um padrão disruptivo estava se formando: empresas pequenas, que sequer tinham receita para mostrar, que dirá lucro, lideradas por founders com ideias muito fora da caixa, tinham potencial para virar de cabeça para baixo mercados tradicionais em todas as economias nas próximas décadas. O termo unicórnio nem existia, apareceu em 2013.

Até aquele ano, a NYSE era, como escreveu um repórter do Institutional Investor em 2011, um celular básico comparado com um iPhone. No caso, a Nasdaq, a Bolsa que até então vinha capturando a maioria das empresas de tecnologia que queriam abrir capital (o famoso IPO) e entrar em suas listagens. A NYSE decidiu adaptar suas regras de listagem e abrir a porta para essas empresas fora da curva. Ela mudou a barreira de entrada, colocando como piso um faturamento de US$ 150 milhões (hoje US$ 200 milhões) para a abertura de IPO, e investiu na modernização das sua plataforma de trading.

Três anos depois, a NYSE passava a Nasdaq, capturando 58% dos IPOs de techs no ano de 2011 (em 2006 ela tinha apenas 12% de market share). Entre 2014 e 2021, 75% dos IPOs de tech aconteceram na NYSE, incluindo techs brasileiras como Netshoes, Stone, Nubank, VTex, PagSeguro e Linx. “O Brasil tem empresas fantásticas que estão sendo muito bem vistas pelos investidores globais que negociam através da nossa plataforma. A receptividade a uma empresa como a Vtex, por exemplo, que que abriu capital com a gente no ano passado, foi fantástico. Logo depois veio a CI&T, outra empresa brasileira muito bem recebida no mercado. E fechamos com chave de ouro, que foi o Nubank”, diz Alex Ibrahim, o brasileiro que há seis anos é chefe de mercados internacionais da NYSE.

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Alex Ibrahim não trata só de Brasil, sua equipe é responsável por trazer IPOs de todos os lugares do mundo. Hoje a NYSE tem 520 empresas estrangeiras listadas, 31 das quais brasileiras. E deve ter muitas mais este ano, diz ele, já que o Brasil, ao lado de Israel, Reino Unido, Índia e Sudeste Asiático, faz parte da lista Top 5 em que a NYSE está de olho. Nessa conversa, Alex explica porque não é fácil fazer um IPO, e fala das tendências de tecnologia que devem aumentar presença em Bolsa. Confira.

Disrupção é…

“Eu vou te responder pelo ângulo nosso do mercado de capitais, olhando o Brasil. Se você lembrar, até dez anos atrás, a maioria das empresas que iam ao mercado de capitais eram empresas como Bradesco, Itaú, Vale, Cemig, Copel… Empresas maravilhosas, empresas gigantescas, dos setores de energia, finanças, logística… Mas nos últimos dez anos, quando a gente olha o Brasil, a gente vê empresas fantásticas do setor de tecnologia, que você nunca imaginaria que iriam vir do Brasil. Nós vimos muito dinheiro entrando, principalmente de Venture Capital e Private Equity, de olho no potencial brasileiro em termos de crescimento gigantesco nessa parte toda de digitalização, de inovação.

Então, olhando esse processo todo, identificamos uma mudança radical do processo de levantamento de capital, de empresas do mercado tradicional para empresas, que muitas vezes, sequer têm muita receita, mas têm um potencial de crescimento gigantesco. E nesses últimos dez anos, essa parte de disrupção no Brasil foi muito clara. E o mercado de capitais esteve lá pra ajudá-las a crescer, diversificar, fazer M&A e continuar a inovar.

A primeira empresa de tecnologia da América Latina que veio para o mercado daqui abrir capital, listou com a NYSE. Foi a Globant, em 2014, portanto não muito tempo atrás. Era uma empresa baseada na Argentina, que naquele momento tinha a maior parte da receita vindo do Brasil. Hoje quando olhamos a Globant, é uma empresa multinacional. Logo depois da Globant, nós vimos uma empresa do Brasil, a Netshoes, que listou aqui com a gente. Em 2018 tivemos a PagSeguro, a Stone, a Linx… Ver toda essa inovação pelos olhos da NYSE é muito bonito, porque temos a oportunidade de ajudar empreendedores a levantar capital e crescerem e ajudar investidores de Private Equity e Venture Capital a saírem. E esse movimento continua na América Latina e mundo afora. Ver o Brasil participar dessa disrupção na Bolsa foi e continua sendo fantástico

Para colocar no contexto da NYSE, se você olhar as regras de listagem há 12 anos, era muito complicado para uma empresa de tecnologia, uma empresa disruptiva, estar com a gente. Porque as regras diziam que a empresa tinha que ser lucrativa (profitable) para abrir capital. A porta estava fechada para a maioria dessas empresas inovadoras que estavam indo para o mercado, não só aqui nos Estados Unidos mas em outras partes do mundo.

Mas 12 anos atrás nós conseguimos modificar as nossas regras de listagem e eliminamos esse requerimento de lucratividade e a porta se abriu. A NYSE começou a atrair as empresas de tech do mundo todo. Mesma coisa para o Brasil, porque nossas regras eram mais fáceis para as empresas estarem compatíveis. Com isso, nos últimos 10 anos, o market share da Bolsa de Nova York em tech cresceu muito, 75% nos últimos cinco anos. E o nosso market share de tech do Brasil disparou. Você vê que o maior IPO de tecnologia do ano passado, o Nubank, foi feito com a gente.

Quando a gente olha o pipeline que nós temos hoje, é incrível a quantidade de empresas que estão pensando em ir ao mercado nos próximos meses. Não só empresas americanas e grandes marcas. Se você fizer uma busca vai ver nomes também fora dos Estados Unidos. Lugares como a Ásia, Singapura Indonésia… A China daqui a pouco está voltando ao mercado. A Europa, principalmente nessa área de veículos elétricos, de eletrificação, que está crescendo na região.

Hoje nós já estamos competindo com a Nasdaq por esses IPOs futuros. Porque as empresas tomam decisões sobre Bolsas bem no começo do processo, algumas delas no meio do processo, e muitas dessas empresas estão hoje já conversando com a gente pra decidir em que Bolsa elas vão se associar. Não vou dizer briga, mas a competição pelas empresas é um processo contínuo, mesmo em períodos de janela fechada de IPO, porque a gente está olhando o pipeline para o segundo, terceiro, quarto trimestres e até 2023.

E quando a gente olha para o futuro, é incrível. Eu tenho um múltiplo desses números que estão no nosso radar, que potencialmente podem abrir capital ou aqui no mercado americano, ou até na B3. A B3 é um mercado muito bom. A pipeline é gigantesca globalmente, e lógico no Brasil também.

Em 2021 foi diferente. Depois da Covid-19, começou desde janeiro até dezembro uma movimentação gigantesca, e 2021 foi o melhor ano da história da Bolsa de Valores de Nova York, em termos de empresas listadas, levantamento de capital e inovação. O Brasil tem empresas fantásticas que estão sendo muito bem vistas pelos investidores globais (a maioria americanos) que negociam através da nossa plataforma, em precificação e interesse. A receptividade a uma empresa como a Vtex, por exemplo, que que abriu capital com a gente no ano passado, foi fantástico. Logo depois veio a CI&T, outra empresa brasileira muito bem recebida no mercado. E fechamos com chave de ouro, que foi o Nubank.

Em 2022 acredito que vamos repetir o comportamento de 2019, 2020, com as empresas entrando na janela de abril e maio. Junho e julho estão com um pipeline muito forte. Agora, tem que olhar o que está acontecendo no mercado nesse momento: aumento de taxas de juros, os investidores olhando as empresas de tecnologia com outros olhos, o impacto da situação da Rússia e Ucrânia… tudo isso está deixando o mercado, como um todo, mais volátil, e volatilidade não é um elemento bom em momento de abertura de capital. Eu acho que eles vão esperar um pouquinho, mas o apetite é grande. Nós vimos isso muito claramente nas negociações das empresas como do Brasil.

É importante entender que fazer um IPO não é uma coisa fácil. A coisa mais importante para quem está querendo fazer IPO, e a gente alerta sempre os founders, é ter uma equity story muito bem definida. A sua história do seu IPO tem que ser muito bem arrumada, porque você não vai oferecer apenas a empresa, vai ter que “vender” seu ecossistema todo.

Essa história tem que estar muito bem definida e também o ambiente em que você oferece, como você está vendo isso. Não basta dizer que tem uma operação no México e dizer que vai ser bem-sucedida. Porque os investidores são altamente exigentes e vão fazer perguntas muito específicas que os founders tem que saber responder. A gestão tem que estar preparada. Porque hoje o investidor quer falar com CEOs, com founders. CFOs são absolutamente importantes, mas em uma empresa que está transformando um mercado, os investidores querem falar com founders e essas pessoas precisam estar bem preparadas para conversar, para contar essa história. Isso é importantíssimo.

Um outro ponto é o comprometimento do time com o mercado global. Por que? Se você está por exemplo no Brasil, e faz um IPO no mercado americano, ou na Bovespa, ou duplamente como foi o caso do Nubank, que abriu na B3 e na NYSE, você não pode ficar em São Paulo trabalhando. Você tem que estar aqui. Você tem que estar falando com o investidor diretamente. Você tem que fazer road shows. O dinheiro é canalizado através das Bolsas, que são o mercado mais líquido do mundo, são investidores do mundo inteiro.

Ficar sentado em São Paulo programando não vai ajudar no valuation, não vai ajudar em liquidez. Tem que estar na frente do investidor, dar entrevista, contar a história e redefinir a história caso ela mude, calibrando a conversa para ter certeza de que todos entendam.

O mínimo do tamanho de uma empresa para estar na Bolsa de Nova York é US$ 200 milhões. A oferta mínima que uma empresa tem que fazer para entrar na Bolsa de Nova York é US$ 50 milhões. Isso quer dizer que a NYSE entende que não vai listar empresas multibilionárias todo dia (os chamados unicórnios). A Bolsa é equipada com regras para atrair empresas inovadoras desde pequenas. Por isso mudamos nossas regras lá atrás. Porque quando a gente olhou o mercado, não eram só unicórnios que a gente quis atrair. A gente quer atrair também a empresa pequena. Uma empresa de US$ 700 milhões, uma empresa de US$ 500 milhões que têm uma boa história para contar.

Lógico que todo mundo quer ser uma empresa de um bilhão de dólares, mas a questão de unicórnio muitas vezes é uma questão de branding. Na China eles querem ser decaunicórnios antes de virem para o mercado. Mas nós nos equipamos para receber empresas menores. E a gente gosta delas, porque elas têm uma história boa para contar, têm times de gestão engajados falando com o mercado, executando o business plan, e isso dá oportunidade para os investidores crescerem junto com a empresa.

Hoje as empresas que estão vindo para o mercado de capitais no setor de tech são diferentes do que há dez anos atrás. Hoje estamos falando de Inteligência Artificial, por exemplo. Então eu diria que os investidores precisam entender muito bem o prospecto das empresas para tomar decisões racionais de investimento. Um investidor pode dar um olhar melhor sobre esse assunto, mas do nosso ponto de vista das listagens, estamos vendo um cenário muito diferente de uma década atrás. A tecnologia está evoluindo, agora temos empresas de DeepTech que praticamente são empresas científicas

Mas tem uma coisa interessante sobre o pipeline que estamos vendo para 2022. No ano passado, a maioria das empresas que entraram na NYSE, inclusive as brasileiras, eram empresas de tecnologia, de consumo, de eletrificação, de e-commerce, por exemplo. Quando olhamos a lista para este ano, estamos vendo empresas focadas em setores tradicionais, como logística, mineração, marcas globais de consumo (roupa, sapato).

Estamos vendo um novo mix porque eu acho que os investidores também estão querendo diversificação. Setores que até o ano passado estavam meio escondidos. Logística vai ser interessante de ver, porque eu acho que esse problema de supply chain não somente vai gerar empresas altamente inovadoras que estão criado soluções diferentes, mas também empresas ligadas a delivery.

Eu sou responsável por empresas que estão fora dos Estados Unidos abrindo capital no mercado americano e listando com a NYSE. Então o meu trabalho e do meu time, é primeiro educar executivos, investidores e advisors sobre o benefício de listar no mercado americano e às vezes fazer a dupla listagem (no mercado local delas e na NYSE). Eu tenho um time fantástico. Eu acho que o sucesso nosso aqui na Bolsa é porque eu tenho pessoas fantásticas cobrindo o dia a dia dessas regiões que a gente cobre. Eu tenho uma pessoa em Nova York dedicada a América Latina, dedicada ao Canadá. Eu tenho uma pessoa em Londres dedicada a toda parte da Europa, Oriente Médio e África. Eu tenho uma pessoa em Singapura que cobre toda parte de índia que é superativo, Coreia, Japão. E tenho 4 pessoas na China. Que é um mercado que até pouco tempo atrás era mais importante para gente em termos de listagem.

Nós temos 520 empresas não americanas listadas na NYSE representando 47 países (do Brasil são 31). No ano passado nós listamos uma empresa da Nigéria. Nós estamos em contato direto com o mercado, por isso nosso time é bem-sucedido. Os maiores IPOs na Bolsa de Nova York o ano passado foram empresas não americanas, entre elas a Coupang, uma empresa de e-commerce da Coreia do Sul, que fez um IPO de US$ 5 bilhões., e o Nubank, outro grande IPO. Então foi um ano fantástico para nós na parte internacional. Sem falar das empresas que não são unicórnios.

Em termos de países, o Brasil é o quarto maior na lista toda internacional. O Canadá é número um, lógico, seguido pela China. E Reino Unido, que nos últimos vinte anos tem gerado bastante empresas listadas aqui nós acabamos de listar uma empresa do Reino Unido semana passada de volta

Onde nós vemos oportunidades fora dos Estados Unidos: Brasil, Israel, Reino Unido hoje são os países que nós estamos prestando mais atenção. India vem logo em seguida, e depois o Sudeste Asiático. Essas são as cinco áreas que nós estamos super bem focados. Seis meses atrás de eu colocaria a China como primeiro, mas deu uma retraída. Acredito que eventualmente deve se ajustar, o pipeline da China é gigantesco.

A América Latina, tirando o Brasil, começa a se configurar como uma região potencial também. Eu tenho três transações públicas do Peru que já anunciaram publicamente que vão abrir capital na NYSE. Eu acredito que o México vai ser uma área que possa gerar empresas vindo para o mercado americano em breve. Ali é bem tech também, é como o Brasil talvez há sete, dez anos atrás em termos de empresas para virem para o mercado.

Eu gosto muito da região andina. Ali é bem diversificado, onde você encontra empresas de health tech como a Auna, de agtech como a Campo Sol. Ali as empresas são grandes e olham muito o mercado da região. O Grupo Unina opera na América Latina praticamente toda, com exceção de Brasil, Chile, Argentina, México, Colômbia. Eu gosto da Argentina também. Ali tem muita inovação acontecendo no setor de tech principalmente. Nós estamos inclusive falando com uma empresa da Argentina que está pra vir pro mercado. O interessante dela é que ela é baseada lá, foi criada lá, mas é uma empresa pan-regional. Ela opera na Argentina toda. Eu acho que se tudo correr bem até o final do ano deve estar no mercado.

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