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Estudo do European Innovation Council analisa 25 sinais de inovação emergente com potencial para redefinir infraestrutura digital, saúde e sustentabilidade (Crédito: Freepik)
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O radar da deep tech: 25 tecnologias que podem transformar o mundo

Novo relatório do EIC mapeia avanços em IA, materiais avançados, computação quântica e biotecnologia que começam a ganhar escala na corrida global pela inovação

A disputa tecnológica entre grandes blocos econômicos mira em quatro tecnologias para acertar nas estratégias nacionais de segurança e competitividade. Ao colocar Semicondutores Avançados, Computação Quântica, Inteligência Artificial e Biotecnologia no centro da arena, Estados Unidos, China e Europa buscam liderar ou participar da definição dessas novas arquiteturas tecnológicas. Ao mapear tecnologias emergentes em estágios iniciais no relatório “Tech Report 2026”, o European Innovation Council (EIC) quer ocupar esse espaço de decisão.

O relatório identifica 25 sinais tecnológicos emergentes de deep tech com potencial de impacto econômico, científico e geopolítico nos próximos anos. Produzido no âmbito do programa Horizon Europe, o estudo se baseia na análise de dados de projetos financiados e propostas submetidas ao EIC entre o segundo trimestre de 2021 e o primeiro trimestre de 2025, combinando mineração de dados, análises cientométricas e avaliação de especialistas para identificar tecnologias ainda em estágio inicial, mas com potencial de escalar rapidamente.

O levantamento faz parte do esforço europeu para fortalecer sua soberania tecnológica, reduzir dependências externas e garantir competitividade em áreas estratégicas como inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e energia limpa. Ao todo, o programa European Innovation Council conta com orçamento superior a €10 bilhões para o período 2021-2027, destinado a apoiar desde pesquisa científica inicial até a comercialização e escalabilidade de tecnologias disruptivas.

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Antes de se tornarem tendências consolidadas, muitas tecnologias surgem inicialmente como “signals”, sinais fracos de inovação. Esses sinais são detectados por meio da análise de projetos científicos, patentes, propostas de financiamento e redes de pesquisa. Identificar essas tecnologias cedo é fundamental porque quando se tornam amplamente conhecidas, muitas das decisões que moldam sua trajetória já foram tomadas. Em outras palavras, quem investe primeiro, define padrões e constrói ecossistemas industriais ao redor dessas inovações.

 

A nova fronteira da deep tech

Como seria de se esperar, o relatório reflete uma realidade geopolítica: a disputa tecnológica entre grandes blocos econômicos. As tecnologias para desenvolvimento e produção de semicondutores avançados, Computação Quântica, Inteligência Artificial e Biotecnologia estão no centro de estratégias nacionais de segurança e competitividade. Ao mapear tecnologias emergentes em estágios iniciais, o European Innovation Council busca garantir que a Europa participe da definição dessas novas arquiteturas tecnológicas e não apenas as adote depois de consolidadas em outros países.

Mais do que prever o futuro, o objetivo do relatório é criar um radar tecnológico, capaz de identificar tendências antes que elas se consolidem. O estudo deixa claro que essas tecnologias ainda estão em estágios iniciais, muitas delas com baixo ou médio nível de maturidade tecnológica.

Isso significa que:

  • algumas podem evoluir rapidamente
  • outras podem enfrentar obstáculos científicos ou industriais
  • novas tecnologias ainda podem surgir e superar as atuais

Mesmo assim, identificar esses sinais precocemente permite orientar:

  • políticas públicas
  • investimentos
  • estratégias industriais

As 25 tecnologias identificadas no relatório foram agrupadas em três grandes domínios:

  • Tecnologias Digitais e Espaciais
  • Tecnologias Limpas e Eficientes em Recursos
  • Biotecnologia e Saúde

A seguir estão os principais insights e tendências revelados pelo estudo.

 

Tecnologias digitais e espaciais que podem redefinir a infraestrutura digital

Um dos blocos centrais do relatório analisa tecnologias digitais avançadas e infraestruturas espaciais, consideradas essenciais para a autonomia estratégica da Europa. Entre as áreas identificadas estão novos materiais semicondutores, redes quânticas seguras, arquiteturas de segurança para inteligência artificial e sistemas robóticos para manutenção de infraestrutura orbital.

 

Materiais 2D para novas gerações de memória

Uma das tecnologias analisadas são os materiais bidimensionais para memórias avançadas e dispositivos memristivos, que podem revolucionar a arquitetura dos computadores. Materiais com espessura atômica – como grafeno, dissulfeto de molibdênio e heteroestruturas de van der Waals – apresentam propriedades eletrônicas e magnéticas únicas. Esses materiais permitem:

  • maior densidade de memória
  • menor consumo energético
  • integração com arquiteturas neuromórficas

Avanços recentes já demonstraram memristores com alta relação liga/desliga, baixa tensão de operação e alta durabilidade, características essenciais para aplicações em computação de próxima geração. Essas tecnologias são particularmente relevantes para os setores automotivo, de automação industrial e IoT (Internet das Coisas). Além disso, dispositivos de memória mais eficientes podem reduzir significativamente o consumo energético de data centers.

 

MXenes: novos materiais para eletrônica e telecomunicações

Outra inovação destacada são os MXenes, uma família de nanomateriais bidimensionais composta por carbides e nitrides de metais de transição. Esses materiais apresentam propriedades extraordinárias:

  • condutividade elétrica de até 35.000 S/cm em filmes processados em solução
  • alta resistência mecânica
  • química superficial ajustável

Mais de 50 composições já foram sintetizadas experimentalmente, enquanto centenas ainda são previstas teoricamente. Os MXenes podem ser usados em aplicações como:

  • blindagem eletromagnética para redes 5G e futuras redes 6G
  • sensores e eletrônica flexível
  • armazenamento de energia
  • purificação de água

Um avanço importante citado no relatório do EIC é a produção em escala de quilogramas em poucas horas, indicando que a tecnologia está saindo dos laboratórios rumo à industrialização.

 

Redes quânticas sem nós confiáveis

O relatório também destaca os repetidores quânticos, considerados essenciais para a construção de redes de Comunicação Quântica seguras. Hoje, muitos sistemas de Comunicação Quântica dependem de “nós confiáveis”, que retransmitem informações criptografadas. Esses pontos intermediários representam potenciais vulnerabilidades. Os repetidores quânticos permitem superar essa limitação usando emaranhamento quântico distribuído, possibilitando comunicação segura em distâncias de centenas ou milhares de quilômetros.

Alguns avanços recentes incluem:

  • memórias quânticas com maior tempo de armazenamento
  • fontes determinísticas de fótons únicos
  • circuitos fotônicos integrados

Esses progressos aproximam os repetidores quânticos de aplicações reais em redes de comunicação seguras.

 

Segurança “Zero Trust” para Inteligência Artificial

Com o avanço na distribuição dos sistemas de Inteligência Artificial – operando em múltiplos dispositivos, nuvens e redes –, cresce a preocupação com segurança e proteção de dados. Uma das tecnologias emergentes identificadas pelo relatório é a arquitetura “Zero Trust” incorporada a sistemas de IA distribuídos. Nesse modelo, nenhum componente do sistema é considerado confiável por padrão. Cada interação precisa ser continuamente verificada. Essas arquiteturas permitem:

  • treinamento de IA sem centralizar dados sensíveis
  • proteção de propriedade intelectual
  • segurança em ambientes multi-organizacionais

Além disso, novas implementações estão integrando segurança diretamente no hardware de aceleradores de IA e chips especializados.

 

IA inspirada na Biologia

Outra área promissora é a chamada “bio-inspired AI” ou a IA inspirada na Biologia, que busca inspiração em mecanismos biológicos para criar sistemas mais eficientes. Enquanto muitos modelos atuais dependem de grande volume de dados e energia computacional, abordagens inspiradas no cérebro humano buscam:

  • aprendizado mais eficiente
  • adaptação dinâmica
  • estruturas neurais auto-organizáveis

Segundo o relatório, essas abordagens podem reduzir a dependência de modelos gigantescos e altamente intensivos em energia, dominados por empresas fora da Europa.

 

Tecnologias limpas para enfrentar a crise de recursos

O segundo bloco do relatório aborda tecnologias destinadas a reduzir o impacto ambiental da economia e melhorar a eficiência no uso de recursos. Entre as áreas destacadas estão:

  • mineração biológica de metais
  • dessalinização de água com baixo consumo energético
  • conversão de calor em eletricidade
  • sistemas de energia integrados a edifícios

 

Biomining: mineração usando microrganismos

Uma das tecnologias emergentes é a Biomineração Microbiana, que utiliza microrganismos para recuperar metais de resíduos industriais e mineração. Essa tecnologia pode:

  • recuperar metais críticos
  • reduzir impacto ambiental da mineração
  • tratar solos contaminados

Isso é especialmente relevante para a Europa, que depende fortemente de importações de minerais estratégicos.

 

Dessalinização mais eficiente

O relatório também destaca sistemas de “capacitive deionization” ou “desionização capacitiva”, um processo capaz de remover sais da água com menor consumo energético que métodos tradicionais. Essas tecnologias verdes podem ampliar o acesso à água potável em regiões com escassez hídrica.

 

Materiais termoelétricos avançados

Grande parte da energia utilizada pela indústria é perdida como calor. As tecnologias termoelétricas podem recuperar parte dessa energia, aumentando a eficiência energética de processos industriais.

 

Biotecnologia e Saúde: novas fronteiras médicas

Aqui entramos no campo das tecnologias que podem transformar a Medicina, a Agricultura e a produção de alimentos. Entre os avanços destacados estão:

  • terapias baseadas em microbioma
  • engenharia de proteínas com IA
  • robôs microscópicos para medicina
  • interfaces cérebro-computador
  • novas tecnologias de ressonância magnética

 

Engenharia de proteínas com Inteligência Artificial

Uma das áreas mais promissoras é o design computacional de proteínas, que utiliza IA para criar novas enzimas e medicamentos. Esse campo pode acelerar dramaticamente a descoberta de novos medicamentos, enzimas industriais e biomateriais.

 

Microrrobôs para terapias celulares

Outra tecnologia emergente são os “biohybrid microrobots” ou microrobôs biohíbridos, capazes de operar em escala celular dentro do corpo humano. Esses sistemas podem permitir intervenções médicas altamente precisas, como:

  • entrega direcionada de medicamentos
  • reparo celular
  • diagnósticos avançados

 

Interfaces cérebro-máquina

O relatório também aponta avanços em interfaces cerebrais não invasivas ou minimamente invasivas. Essas tecnologias podem permitir:

  • tratamento de doenças neurológicas
  • restauração de funções motoras
  • novas formas de interação homem-máquina

 

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