Na segunda-feira, 19 de outubro, sentei diante do Exchange Stage do Money 20/20, em Las Vegas. No palco, Max Neukirchen, do J.P. Morgan, Rubail Birwadker, da Visa, e Stavan Parikh, do Google. Quem mediava era Paige Smith, da Bloomberg.Lá pelas tantas, ela perguntou: se o agente de IA for comprometido ou fizer algo que o usuário não pediu, quem responde?
Era uma pergunta retórica, e ela sabia disso. A sala inteira ficaria desconfortável sem a resposta, e quem tinha uma não parecia ter convicção para defendê-la. As falas vieram corretas. Cautela antes de entregar credenciais aos agentes. Manter os canais de disputa de sempre. Atribuir a responsabilidade de um jeito que não premie a imprudência.
Tudo certo, mas ninguém disse quem paga.
Foi a pergunta que fiz na coluna de 22 de outubro: quem paga a conta quando algo dá errado? Fui a Las Vegas achando que voltaria com uma resposta. Voltei com três.
Neukirchen deu a melhor pista para entender a confusão. Pagamento com cartão sempre teve quatro partes: o cliente, o comerciante, o banco que emitiu o cartão e o banco que credencia a loja.
O agente chega como quinta parte. E quando uma cadeira nova aparece numa mesa que funciona há décadas, ninguém sabe ainda de que lado ela fica na hora da conta.
No dia anterior, num painel sobre carteiras digitais, Kate Walton, também do J.P. Morgan, apostou que a história vai se repetir: a proteção ao consumidor prevalece e os bancos acabam absorvendo o prejuízo.
Ao lado dela, Paul Unterberg, da Uphold (empresa de carteira de criptoativos), lembrou que os termos de uso atuais já colocam a responsabilidade no usuário e que, por isso, as instituições precisam de travas e de estorno.
Em outro painel, no mesmo dia, Kathleen Peters, da Experian, disse que quem arca com o risco é o comerciante e que ele precisa guardar prova clara da intenção do cliente para vencer a disputa.
Banco, usuário, comerciante. Três respostas, cada uma razoável vista da cadeira de quem falou.
Esse é o sintoma. Quando a regra ainda não existe, cada ponta descreve o mundo de onde está sentada.
Opinião de executivo, por melhor que seja, é aposta. O que vale hoje numa disputa é o que está escrito. Então fui ler.
A Target, varejista americana, atualizou seus termos de uso em 10 de setembro de 2026, com uma seção sobre comércio por agentes e acesso delegado. Em tradução livre: “Compras e outras ações realizadas por um agente aprovado que você autorizou são consideradas transações autorizadas por você.”
Pouco depois: “A Target não pretende garantir que um agente aprovado agirá exatamente como você pretende em todas as circunstâncias.”
A Shop, aplicativo de compras da Shopify, foi ainda mais direta na página de ajuda sobre agentes pessoais. Você responde pelas compras feitas dentro das permissões e do orçamento que definiu, “mesmo que o agente entenda mal as suas instruções”.
Se aprovou a compra ou deu ao agente permissão para fazê-la, a sua contestação “pode não ter sucesso”.
Repare na palavra que faz o trabalho pesado: autorizada.
Quem trabalha com cartão sabe que boa parte das disputas gira em torno dela. A cláusula tira o erro do agente da gaveta da fraude e o coloca na gaveta da compra que você fez.
E aqui as falas de Las Vegas se encontram de um jeito que nenhum painelista disse em voz alta.
Peters tem razão: o risco nasce no comerciante. Só que o comerciante leu o mesmo risco e o devolveu ao cliente numa cláusula.
A aposta de Walton, a de que o consumidor será protegido, passa a ser a única força puxando para o outro lado. E ainda é aposta.
Tem um detalhe que considero o mais honesto da semana.
O mesmo banco cuja executiva prevê absorver o prejuízo é o que, pela voz de Neukirchen, se diz cauteloso com o acesso direto dos agentes às credenciais de pagamento, até que controles e responsabilidades ganhem escala.
Faz todo o sentido. Quem espera pagar a conta é quem pisa no freio.
Enquanto isso, o volume cresce. Neukirchen contou um crescimento de 500% a 600% nas transações por agentes entre clientes do Chase, em quatro a cinco semanas.
O número vem do próprio banco e parte de uma base pequena, como ele mesmo disse. Os casos de uso de hoje são de baixo valor ou fáceis de reverter.
O mercado começou pelo que dá para desfazer porque ainda não sabe a quem cobrar quando não der.
E a indústria começou a fabricar recibos.
O KYA (Know Your Agent, verificar quem está por trás do agente e o que ele pode fazer) e os tokens de intenção, que registram o que o usuário autorizou e até quanto o agente pode gastar, apareceram em mais de um painel.
A ideia é boa. Numa disputa, quem tem o recibo tem a defesa.
A pergunta que ouvi pouco foi a seguinte: esse recibo fica guardado na gaveta de quem?
Andei repetindo este ano que a IA amplifica nos dois sentidos e que o método decide o lado, como escrevi neste artigo.
Escrevi isso pensando em equipes dentro de uma empresa. Las Vegas me mostrou a mesma lógica no tamanho de um mercado inteiro.
Num ecossistema de transações, o método se chama contrato.
O mesmo agente que vende mais para quem escreveu a cláusula multiplica o prejuízo de quem só aceitou a cláusula dos outros. A tecnologia é igual para todo mundo. O lado em que cada um cai depende de quem escreveu primeiro.
Isso me obriga a completar uma coluna anterior.
Em “A IA vai errar cada vez menos. O que sobra de erro é nosso”, defendi que a responsabilidade pela decisão nunca sai da mesa de quem lidera.
Continuo achando. Las Vegas acrescentou um detalhe incômodo: a conta do erro pode sair da sua mesa sem que você tenha decidido nada, porque alguém já escreveu para onde ela vai.
Quem lê esta coluna ocupa alguma cadeira dessa mesa.
Se a sua empresa vende, a Target acabou de mostrar que dá para escrever a regra antes do regulador, e cedo ou tarde o seu cliente vai comparar a sua cláusula com a dele.
Se emite cartão ou processa pagamento, a aposta de Walton tem um preço, e alguém aí dentro precisa saber de quanto ele é.
Mas a cadeira que mais me preocupa é a de quem compra.
Empresas já colocam agentes para repor insumo, renovar assinatura e pagar fornecedor. Quase sempre alguém aceitou os termos da ferramenta com um clique, numa terça-feira qualquer, sem perguntar o que eles dizem sobre o erro.
Na sua ponta, a regra vai ser escrita por você ou vai chegar pronta, no contrato de outro?
PS: Na próxima sexta, conto o caso de um agente brasileiro que vi responder a essa pergunta pelo desenho, antes de qualquer cláusula.
Há três respostas possíveis, mas só uma já está no contrato.
Ao automatizar tarefas, empresas ganham produtividade, mas nem sempre preparam seus profissionais para o que vem depois
Com agentes de IA ganhando cada vez mais autonomia para agir em nosso nome, empresas e governos tentam responder a perguntas básicas: quem controla essas decisões e quem paga a conta quando algo dá errado?
A Inteligência Artificial não transforma bagunça em eficiência, mas processa a bagunça mais rápido, cobra por token e deixa a dívida técnica mais difícil de ignorar.
A Inteligência Artificial amplifica nos dois sentidos. Pode acelerar o aprendizado ou apenas dar mais confiança para uma decisão que já estava tomada. O método decide o lado.
Antes de concluir que a IA custa caro demais, vale separar o que é investimento no caso de uso, o que é infraestrutura para o futuro e o que é uma dívida tecnológica que a empresa já carregava.
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