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Nave de carga Dragon, da SpaceX: conquista especial que coloca foco nas empresas privadas e não mais nos governos Crédito: SpaceX

O SHIFT DA QUESTÃO

Para onde vai a nova economia?

A Economia Espacial é composta por fabricantes de foguetes e satélites, infraestrutura de telecomunicações e internet, pesquisadores de mudanças climáticas, setores de defesa e mais

Por Cristina De Luca, Marina Hortélio, Silvia Bassi e Soraia Yoshida 21/08/2021

Literalmente, para o espaço. Se você ouviu falar que Jeff Bezos, da Amazon, está competindo com Elon Musk, da Tesla, e que ainda tem Richard Branson, da Virgin, todos competindo para fazer o turismo espacial se tornar um meganegócio, ouviu direito. Só que tem muito mais por trás dessa aparente “disputa espacial de bilionários” para ver qual foguete vai chegar mais longe. A corrida é para levar vantagem na Economia Espacial.

A Economia Espacial vai além do turismo e das áreas de produção, negociação e comércio de bens e serviços que ocorrem entre a linha de Karman (uma altitude de aproximadamente 100 km acima do nível do mar) e o espaço Cislunar (região fora da atmosfera da Terra que se estende para além da órbita da Lua), criando um outro mundo de possibilidades para a humanidade. É composta por fabricantes de foguetes e satélites, infraestrutura de telecomunicações e internet, pesquisadores de mudanças climáticas, setores de defesa, especialistas em dados e finanças, e mais uma infinidade de mentes criativas (e outras nem tanto) que enxergam as possibilidades de novos e velhos negócios que podem vir do fato de que é possível alcançar o espaço.

O espaço é um ímã de investimentos para os setores Aeroespacial e Defesa, Hardware de TI e Telecom. No curto prazo, as maiores oportunidades devem vir do acesso à Internet de banda larga via satélite. Esse ecossistema traz oportunidades na escala de US$ 350 bilhões hoje, segundo o Morgan Stanley. Mas até 2040, ou seja, em dez anos, deverá ultrapassar US$ 1 trilhão.

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Bases em estações espaciais ou em solo lunar para pesquisas de novos medicamentos e avanço genético estão na lista. Da mesma forma, podem guardar o lixo produzido aqui embaixo – uma versão moderna do varrer para baixo do tapete. A possibilidade de criar colônias de férias, ou melhor, postos de observação para quem puder pagar pelo privilégio de fazer o melhor selfie da Terra não podem ser descartadas. Muito menos a criação de subsidiárias de companhias tech.

No artigo “The Commercial Space Age is Here”, os pesquisadores Matt Weinzierl e Mehak Sarang, de Harvard, mostram como saímos do modelo centralizado, em que os governos é que iam ao espaço e controlavam as atividades fora da órbita desde os anos 1960, para o modelo descentralizado das empresas privadas a partir de 2020. Startups como a Made in Space Inc., que está na vanguarda de fabricação no espaço (já imprimiu uma chave inglesa em 3D a bordo da Estação Espacial Internacional), e Axiom Space, que constrói módulos espaciais para uso de empresas no espaço já estão explorando vertentes. Gigantes como a Microsoft, com o Microsoft Azure, que conecta satélites a Edge e nuvem, estão dispostos primeiro a trabalhar com a NASA e crescer seus negócios a partir daí. Acontece o mesmo com a SpaceX, que quer criar uma colônia em Marte, e que tem seu contrato com a NASA disputado pela Blue Origin. Bezos X Musk. Sim, a rusga dos bilionários, again.

“Assim como importa quem impulsiona o progresso em tecnologia aqui na Terra, fará diferença quais empresas e quais países assumirão a liderança na nova corrida espacial”, escreve Bryan Walsh, autor de “End Times”. O foguete da Amazon, digo, da Blue Origin, tem sua próxima viagem programada para 26 de agosto. S.Y.

 


ClearSpace-1

O satélite ClearSpace-1 foi desenhado para se livrar de lixo espacial

Nanossatélites levam mais tecnologia para o espaço

Uma economia espacial compartilhada pode tornar os dados de sensores remotos muito mais acessíveis, rápidos e baratos, além de levar a comunicação de banda larga universal de baixo custo para áreas remotas. Para isso é preciso democratizar o acesso ao espaço e os nanossatélites fazem parte desse esforço.

Comparativamente, os nanossatélites têm o tamanho de uma caixa de sapatos, pesando entre 1 e 10 kg. Além disso, esses modelos podem ser montados em produção em massa por usarem padrões comuns e peças prontas. Tudo isso abaixa os custos de desenvolvimento desses equipamentos, aumentando o acesso a essa tecnologia.

“O uso de componentes definidos por software, que podem ser atualizados com novos recursos e novas técnicas para o desenvolvimento mais rápido de sensores personalizados, reduz ainda mais o custo e o tempo necessários para fornecer novos serviços baseados no espaço. A crescente inteligência dos satélites e a largura de banda de comunicação entre eles permitirá que operem como enxames autônomos, alocando o trabalho de monitoramento ou retransmissão de sinal para o satélite mais eficiente”, escreve Carsten Stöcker, membro do Blockchain Global Future Council, do Fórum Econômico Mundial, em uma artigo no site da organização.

Até agosto, já foram lançados 3.400 nanossatélites mundialmente, dos quais 1766 são classificados como modelos nano e outros 1634 são CubeSats (um satélite miniaturizado cúbico). Os dados foram copilados pelo Nanosats Database.  O mercado global de nanossatélites e microssatélites valia US$ 1,64 bilhão em 2020. A expectativa é que o setor cresça a uma Taxa de Crescimento Anual Composta (CAGR, na sigla em inglês) de 21,8% entre 2021 e 2026. Outro relatório estima que o mercado deve atingir o valor de US$ 4,8 bilhões em 2025.

Geralmente lançados em baixas altitudes, esses equipamentos aumentam a resolução das imagens captadas e a área de cobertura dos satélites, permitindo a ampliação dos serviços de sensoriamento, observação e conectividade.

A Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) é uma das grandes beneficiadas por estes modelos. A Airbus é uma das empresas que apostam na tecnologia. Em parceria com a startup Astrocast, a companhia desenvolveu uma solução de IoT integrada à constelação de cinco nanossatélites da startup para promover uma conexão global.

Na visão da Associação Brasileira das Empresas de Telecomunicações por Satélite (ABRASAT), a conectividade IoT verdadeiramente mundial só pode ser oferecida pelos satélites. Nesse caso, a conectividade de menor custos e consumo de energia disponibilizada pelos modelos nano amplia o número total de sensores conectados.

A inovação pode beneficiar a agricultura ao dar acesso a previsões mais acertadas com base nos dados coletados pelos sensores na propriedade. O monitoramento por imagens também é um benefício desses equipamentos para o agro – em 2020, 18% dos produtores usavam dados ou imagens da propriedade fornecidos por sensores remotos (satélite, avião, vant e/ou drones), segundo a Embrapa.

“Se considerarmos novos lançamentos de sensores previstos nos nanossatélites e nos microssatélites, em 2022 deverá haver um salto significativo no uso dessas tecnologias”, pontua o pesquisador da Embrapa Instrumentação, Lúcio André de Castro Jorge.

Na mesma linha, a ABRASAT acredita que “a indústria espacial deve ser impulsionada pela demanda por melhor conectividade para dispositivos inteligentes, IoT, maior uso de análise de dados e migração para streaming de banda larga”.

Em março, foi lançado o nanossatélite brasileiro NanosatC-BR 2 a bordo do foguete russo Soyuz. O equipamento tem como principal missão monitorar a anomalia magnética do Atlântico Sul, mas também é ferramenta de pesquisa para estudantes de engenharia, aeronomia, geofísica e áreas afins. O Brasil possui alguns projetos de nanossatélites:

  • Projeto CONASAT: desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É uma missão espacial para coleta de dados ambientais baseada em Nanossatélites e visa oferecer uma alternativa ao Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais (SBCDA), que utiliza satélites maiores. O objetivo é coletar dados ambientais em território brasileiro
  • Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA): a estratégia da Agência Espacial Brasileira (AEB) é atrair para Alcântara empresas que queiram lançar satélites pequenos, como uma alternativa para agências espaciais nacionais e empresas privadas, como a SpaceX e Virgin Orbit.
  • Programa Constelação Catarina e o Consórcio Catarina: prevê a criação e fabricação de 13 nanossatélites para atender os setores agropecuário e de defesa civil nacionais. A constelação de satélites desenvolvida pela AEB vai monitorar o clima para prevenir desastres naturais e aprimorar o processo de agricultura de precisão. Outro objetivo é fomentar a indústria espacial no estado de Santa Catarina. Já o Consórcio reúne entidades, que cooperam e atuam nas atividades do programa.

As aplicações de nanossatélites estão crescendo. Segundo pesquisadores do INPE, o setor privado está liderando o desenvolvimento de novas missões, com propostas que envolvem a criação de constelações cujo número varia de 12 a mais de mil equipamentos do tipo.

“Novas missões de nanossatélites vem sendo propostas para lidar com aplicações específicas, como desastres naturais, ou para testar melhorias na resolução espacial, temporal e radiométrica de nanossatélites. A combinação, sem precedentes, de alta resolução espacial e temporal oferecida pelas constelações, associada a esforços de melhoria na qualidade do sensor é promissora e pode representar uma tendência das agências espaciais, universidades e empresas privadas de substituição de grandes satélites por nanossatélites menores e mais baratos”, explicam os pesquisdores Gustavo Nagel, Evlyn Novo e Milton Kampel, em um artigo.

No segmento das pesquisas científicas, os nanossatélites são uma peça para a exploração da lua. A missão “the Volatile & Mineralogy Mapping Orbiter (VMMO)“, financiada pela Agência Espacial Europeia, utiliza CubeSats com lasers para mapear a localização de recursos relevantes e substâncias voláteis que podem ser usadas para produzir combustível e ar respirável.

Ainda existe um uso militar dos CubeSats. A Agência de Defesa contra Mísseis (MDA, na sigla em inglês), do Departamento de Defesa do Governo Federal dos Estados Unidos, está desenvolvendo um sensor para que os satélites implantados na órbita terrestre baixa possam detectar e rastrear ameaças de mísseis hipersônicos e balísticos e fornecer dados críticos para o Sistema de Defesa.

“A capacidade de usar CubeSats para abaixar o custo de acesso ao espaço é essencial para o amadurecimento de tecnologias para futuras aplicações em defesa antimísseis”, afirma Shari Feth, chefe da Diretoria de Inovação, Ciência e Tecnologia da MDA. “Para a iniciativa, precisamos apenas de algo pequeno para levar experimentos de tecnologia ao espaço a fim de realizar testes no ambiente relevante e coletar dados precisos. Os CubeSats são a plataforma perfeita para isso” completa.

 


A banda larga via satélite vai representar 50% do crescimento projetado da economia espacial global até 2040, de acordo com análise do Morgan Stanley. Isso no cenário mais pessimista: é possível que esse crescimento seja de até 70% no cenário mais otimista. A combinação da demanda por dados e da redução nos custos de dados – para menos de 1% do valor atual por megabyte sem fio – com o lançamento de satélites deve levar a uma explosão no uso de data. A demanda deve vir também no uso de banda larga para veículos autônomos, IoT, aplicações diversas de Realidade Virtual (VR) e vídeo.

Atualmente, o custo de lançamento de um satélite caiu de US$ 200 milhões para cerca de US$ 60 milhões, por conta dos foguetes reutilizáveis – podendo chegar a US$ 5 milhões na próxima década. A produção em massa de satélites poderia diminuir esse custo de US$ 500 milhões por satélite para apenas US$ 500 mil.

 


A redução dos custos de lançamento, os avanços em tecnologia e o aumento do interesse do setor privado posicionarão a exploração espacial como a próxima fronteira econômica, de trilhão de dólares

A New Space Economy vai nos levar ao infinito e além

Um dos pioneiros na divulgação do empreendedorismo espacial no Brasil, Lucas Fonseca, CEO da Airvantis e diretor da Missão Garatéa, tentativa brasileira de enviar uma sonda para aLua e propagar programas educacionais baseados no acesso ao espaço, acredita que a New Space Economy é a nova fronteira para a humanidade. Na sua opinião, os novos modelos de negócios espaciais estarão cada vez mais presentes nas nossas vidas, de forma direta ou indireta.

A indústria espacial agora considera o envolvimento das empresas privadas no setor de forma mais positiva. Enquanto entidades governamentais como a NASA se voltam para missões ambiciosas, como a exploração de Marte, as empresas privadas estão se concentrando no transporte em órbita baixa da Terra, lançamentos de satélites e voos espaciais comerciais humanos.

A redução dos custos de lançamento, os avanços em tecnologia e o aumento do interesse do setor privado posicionarão a exploração espacial como a próxima fronteira econômica, de trilhão de dólares.

Como o espaço se tornou mais acessível e menos caro, graças a corrida dos bilionários pelo turismo espacial,  oportunidades potenciais em campos como comunicações de alta velocidade, imageamento, microgravidade, exploração de recursos minerais estão cada vez mais ao alcance das startups, inclusive brasileiras. Foi sobre esses novos mercados que conversamos nessa entrevista.

Lucas Fonseca é CEO da AirVantis

“A corrida dos bilionários pelo turismo espacial acabou gerando muita crítica, né? O momento foi um pouco inoportuno, no meio de uma pandemia. Tem o lance da sustentabilidade também, porque querendo ou não essas viagens de turismo poluem a atmosfera. Para você ter uma ideia, o voo da Virgin gera o equivalente a 10 voos intercontinentais de avião. Eu não descarto que tenhamos de discutir esses pontos, não deveria ser tão solto a ponto de cada um fazer o que quiser, mas tem um outro lado que o pessoal não enxerga, dos benefícios.

A expectativa é que esse acesso ao espaço, facilitado pela futilidade dos milionários, nos dê acesso a novas tecnologias.

O mais interessante, olhando a história recente dessa exploração espacial feita pela inciativa privada, que a gente convencionou chamar de New Space Economy, onde a gente vê esse movimento de startups buscando modelos de negócio junto ao espaço se contrapondo à Old Space ou Legacy Space Economy, para não soar muito pejorativo, é que antes as empresas tinham encomendas tecnológicas governamentais, mas não havia a busca de um modelo de negócio sustentável, recorrente.

Quem realmente inaugurou essa história de sustentabilidade econômica de exploração do espaço foi o Elon Musk, com a SpaceX. Aí vieram mais ou menos no mesmo momento o Richard Branson, o Bezos. Mas o Musk foi o primeiro a conseguir provar que a ideia de ter uma sustentabilidade econômica junto ao espaço, através de um serviço recorrente, realmente fazia sentido.

Então quando olhamos para esse momento econômico do New Space a primeira entrega que a gente enxerga, fácil, são os preços. Hoje, o preço do acesso ao espaço está caindo, não tanto na velocidade que a gente gostaria, mas de forma considerável. Quando o Elon Musk manda os astronautas para a Estação Espacial – que ele já fez duas vezes, e agora no mês que vem vai mandar a primeira tripulação de astronautas não profissionais da NASA, quatro pessoas que pagaram pelo assento – ele ajuda esse preço de acesso ao espaço a cair. E já caiu quase na ordem de 10. Ele está prometendo colocar cada quilo no espaço por 10 dólares. Se ele conseguir por 100 dólares já vai ser uma revolução imensa.

Essa queda de preços é muito importante. Além de você ter toda a economia para o governo para conseguir colocar os astronautas no espaço, acaba viabilizando outros negócios que podem ser feitos no espaço e ainda não foram feitos por questões econômicas.

Existem várias frentes de atividades econômicas ligadas ao espaço hoje em dia. E várias maneiras de definir a economia do espaço. Eu prefiro a maneira que olha para 8 verticais.

Quais são? Pela ordem do que já está estabelecido economicamente, a primeira verticaal é a vertical dos lançadores espaciais. E aí temos esses bilionários todos muito envolvidos na história de criação de foguetes. Depois, a vertical de satélites, com as constelações para telecomunicações,  imageamento, conexões IoT e por aí vai, que era um segmento super restrito, antigamente, que só os grandes players conseguiam participar, mas que já democratizou. Hoje com US$ 50 mil, US$ 60 mil, se consegue lançar um satélite para o espaço.

Existem várias categorias de peso para satélites: menor a 100 gramas, os femto satélites; entre 0,1 e 1 kg, os pico-satélites; entre 1 e 10 kg, os nano satélites; entre 10 e 100 kg, os microssatélites; entre 100 e 350 Kg, os mini satélites; entre 500 e 1000 kg, os médios; e com mais de uma tonelada, os grandes, como o radarsat-2. Os femto estão sendo lançados muito nesse conceito de enxame. Você envia 40 deles para o espaço ao mesmo tempo e eles conseguem se comunicar entre eles e enviar informações para outro um pouquinho maior que consegue se comunicar com a Terra.

A startup brasileira Pion está enviando agora em dezembro um PocketQube, de 250 gramas. O tamanho de uma latinha de refrigerante. O envio de satélites desse tipo custa US$ 30 mil.  A AirVantis entregou um agora para o governo brasileiro, no começo do ano, no formato CubeSat, com 10 cm × 10 cm × 10 cm. A construção e lançamento de um CubeSat custa menos de US$ 150 mil. Então cabe no bolso de uma startup. Não é um negócio que só os grandes podem fazer.

As startups que hoje estão atuando em constelação estão dominando esse mercado.

Um ótimo exemplo é a Planet, uma startup de imageamento terrestre com serviços de uma recorrência muito grande, que consegue colocar muitos satélites no espaço por serem muito pequenos, fazendo com que os intervalos para tirar fotos de um mesmo local comecem a cair. Acho que hoje eles conseguem tirar essas fotos a cada 40 minutos. E os preços dos serviços comecem a cair também. O mercado de observação terrestre está sendo extremamente impactado por essa nova economia do espaço. E isso é algo positivo para todo mundo.

São vários os tipos de imageamento: luz visível, infravermelho, radar (muito usado para subsolo, como a identificação de jazidas de minério, derramamento de petróleo). E quem está dominando isso são as startups.

Outra tendência legal de uso das constelações é no mercado de IoT, a terceira vertical. E ainda não temos claro quem será o benchmark. Mas o fato da startup americana Swarm Technologies ter sido adquirida pela SpaceX é um bom indicativo do interesse cada vez maior de uso dos satélites como um nó das redes IoT, comunicando o campo com o espaço, independente de ter cobertura de telecom (3G, 4G) ou não.

Essas constelações estão geralmente em baixa órbita. A maioria dos satélites menores também. Os geoestacionários geralmente estão em órbitas maiores, mais distantes da Terra. Por isso são muito grandes, têm aquelas antenas enormes. Mas já vi startups falando em lançar satélites menores, geoestacionários também porque a tecnologia de telecomunicações vem melhorando. Esse mercado geoestacionário é muito concorrido, mas eu diria que a tendência é ele acabar. A latência dos satélites da Satlink, do Elon Musk, que estão em uma órbita mais baixa, vai ser tão baixa que será possível transmitir tudo via streaming. E vai ser muito mais barato que posicionar um satélite para banda larga ou TV digital.

Uma das coisas que o Elon Musk está se propondo a resolver é latência. Ele quer oferecer uma latência baixíssima para comunicações internet entre continentes. O principal foco dele é o mercado financeiro. O investidor poder atuar no mercado global com a menor latência possível.

Agora vamos para os negócios mais futuristas, começando pela quarta vertical, dos voos tripulados, onde os bilionários estão se divertindo com a possibilidade do turismo espacial, do transporte de cargas e pessoas até a Estação Espacial, e que pretende levar civis até a Lua ou Marte.  Temos aí toda uma indústria de entretenimento que está começando a se estabelecer.

Aí tem a vertical da microgravidade, que é esse onde a minha empresa atua, viabilizando  experimentos na Estação Espacial Internacional, o principal laboratório em órbita que a humanidade tem. A microgravidade, muito difícil de ser emulada na Terra por períodos longos, é utilizada para várias atividades que vão desde a indústria farmacêutica  ao desenvolvimento de novos materiais, passando por pesquisas na área de agricultura. Por exemplo, o Proliam, carro chefe para o tratamento da osteoporose, foi desenvolvido no espaço. Entre os novos materiais, a fibra óptica que é produzida no espaço tem mais qualidade que a produzida na Terra. Mas essa produção ainda é muito cara. Conheço poucas startups, como a Made in Space, se aventurando a produzir no espaço. O filamento da impressora 3D que ela usa é brasileiro, da Brasken. Um filamento derivado do bagaço da cana-de-açúcar.

Na indústria farmacêutica são vários estudos. Por exemplo, a melhor maneira para investigar como a metástase acontece no corpo é testar em animais ou no espaço. A geometria 3D da metástase acontece de forma parecida no espaço, que se tornou uma alternativa para os testes de sistemas complexos em animais.

O processo de cristalização de proteínas é, de longo, o que mais é feito no espaço. Todas as vezes que a gente vai estudar uma proteína – e o corpo humano tem 110 mil proteínas – para que ela seja passada no raio-X ela tem que ser cristalizada. Um processo que solidifica a proteína para ser colocada em uma máquina e ser lida. As proteínas que são cristalizadas no espaço, por conta da falta de gravidade e da condição térmica ser diferente, assumem uma forma muito mais uniforme. E aí eu consigo olhar para aquela proteína e extrair informações que eu não conseguiria extrair na Terra.

As proteínas são fundamentais para entender como funcionam as doenças e como elas se conectam no corpo e, quando passam pelo processo de cristalização, conseguimos enxergá-la de fora mais pura no espaço já que não tem a gravidade atrapalhando. O Tamiflu, por exemplo, principal agente no combate da (gripe) H1N1, teve sua proteína cristalizada no espaço. Poucas pessoas  sabem disso. Agora em dezembro, por exemplo, estamos mandando três proteínas do Sars-Cov para a Estação Espacial. É uma indústria brasileira que está pagando.

A NASA tenta divulgar esse tipo de atividade. Investe muito dinheiro para mostrar aos americanos tudo o que é feito no espaço. Mas não tem tido muito sucesso nessa divulgação. Boa parte da população americana não tem a menor ideia do que a NASA faz no espaço. Mesmo tendo acesso a um livro lançado anualmente pela NASA com todos os seus spinoffs, tecnologias que beneficiam a vida na Terra na forma de produtos comerciais.

Se nos EUA ainda é difícil dar essa visibilidade, imagina aqui no Brasil… Como a gente tem pouca cultura espacial, sabe-se menos ainda.

A quinta vertical é a dos serviços de base, que é a ideia de você ter um local apropriado para o lançamento de foguetes e comercializar. Essa é uma vertical que o Brasil pode explorar, por causa da base de Alcântara, que tem uma localização realmente diferenciada, mas ainda é uma pedra bruta a ser lapidada. Tem muita coisa par resolver lá no local ainda para ela se tornar um vetor de lançamentos. Se vai ser usado no modelo de New Space ou no modelo de Old Space (estatal) eu não sei te informar. Provavelmente a gente vi ter uma burocracia tão grande para viabilizar Alcântara (MA) que ela vai ficar mais cara que lançar aqui dos EUA. Nesse conceito de New Space era para ser uma base excelente para o lançamento de espaçonaves e satélites de baixa órbita e até para acessar a Lua.

Depois temos a vertical dos serviços espaciais, que é a ideia de prestar serviços no espaço. O mais badalado é o da remoção de dejetos espaciais. Há startups hoje em dia produzindo robôs cuja missão é prender o lixo espacial em redes físicas de arrasto e trazê-los de volta para Terra. Também já começam a aparecer startups para manutenção de satélites de forma automatizada, também com o uso de robôs, e eventualmente até reabastecer os satélites de combustível para aumentar a vida útil deles. Principalmente os geoestacionários, que precisam de tempos em tempos corrigir seu posicionamento em órbita. O objetivo é não ter que levar tantos satélites para a órbita cemitério, para onde vão os satélites fora de uso.

A sétima vertical é a de recursos espaciais. Aí entra a mineração de asteroides, por exemplo. Um mercado que já teve até uma primeira leva de startups adquiridas e começa agora a entrar em uma segunda onda de startups encarregadas da extração de material de valor do sistema solar.

Se a gente pegar todo o cinturão de asteroides que fica entre Marte e Júpiter, minerar e trazer metais valiosos para a Terra, teríamos disponíveis U$$ 15 bilhões per capita. Uma riqueza imensurável, mesmo com o valor caindo diante da quantidade infinita de platina e ouro, por exemplo.

É  primeira vez na história que a humanidade se vê diante da oportunidade de combater a escassez de material. Acessando o sistema solar, teremos aa oportunidade de viver em plenitude de materiais que começam a ficar escassos na Terra. Principalmente materiais metálicos. Um asteroide tem mais ferro disponível que o planeta Terra inteiro. Podemos superar a escassez de minérios.  Agora, se a abundância vai ser dividida entre todos de maneira uniforme é a grande questão.

E aí vem a última vertical, de energia espacial, que é a ideia de tirar energia do espaço, de alguma forma, através de painéis solares e de materiais processados no próprio espaço, como um modal logístico enorme.

Outra forma de dividir a economia do espaço é em hardware e de software.

Você tem uma quantidade enorme de coisas sendo envidas par o espaço e uma quantidade ainda maior de informação sendo retirada do espaço e retornando para a Terra, que é o que a gente chama de segmento upstream e segmento downstream.

O segmento upstream inclui pesquisa, manufatura espacial e sistemas terrestres (atividades de pesquisa fundamental e aplicada, atividades de apoio científico e de engenharia, fornecimento de materiais e componentes, manufatura de sistemas espaciais, subsistemas e equipamentos, telemetria, estações de rastreamento e comando). O segmento downstream inclui operações espaciais para uso terrestre e produtos e serviços que dependem de tecnologia de satélite, sinal, dados para funcionar (por exemplo, transmissão por satélite, GIS selecionado, dispositivos habilitados para GNSS).

Hoje temos mais de 2 mil startups de New Space Economy no mundo, com Estados Unidos e China concentrando o maior número delas. A Europa também tem uma quantidade significativa. E aqui no Brasil temos 13 integrando a Aliança das Startups Espaciais Brasileiras – ASB. Somos poucos. O Brasil ainda precisa acordar para o potencial da economia do espaço.

Criei um programa, sem fins lucrativos, chamado New Space Brazil, com o objetivo de fomentar o empreendedorismo espacial. E a AirVantis investe em startups espaciais. Estamos  buscando 25 empresas para investir nos próximos cinco anos. Capital semente. Mas está difícil encontrar. Falta evangelização do tema no Brasil para que jovens se interessem pelo assunto e tentem abrir algum negócio relacionado ao espaço. Até por conta disso a gente promove uma iniciativa com o Onovolab, de São Carlos, para formação de New Space. Da primeira turma saíram três startups. A ideia é que aa gente possa ajudar a gerar 15 startups por ano e investir em até cinco delas.

No Brasil o pessoal ainda está muito preso a dados. Mas isso é uma das coisas que eu incentivo, inclusive. Acredito que o Brasil pode atuar como provedor de serviços de dados e inteligência de negócios. Tendo incentivado muito o pessoal a olhar para o segmento de BI Space. Por exemplo, que tipo de informações é possível extrair do imageamento para a agricultura?

Duas dessas três startups da primeira turma trabalham nessa área de imageamento terrestre, não com satélite, mas com interpretação dos dados gerados. Querem democratizar o acesso a informações geradas pelos satélites. E a outra é uma startup que está pensando no desenvolvimento de ferramentas para ajudar a recolher lixo espacial. Mas essa é mais embrionária ainda. É mais difícil você estabelecer alguma coisa desse tipo no Brasil.

É muito difícil imaginar uma startup brasileira fazendo um foguete. Mas essa parte dos dados, dos bens intangíveis, é muito viável. Principalmente para atender agricultura, óleo e gás e mineração.

A Petrobras poderia ter uma parceria com uma dessas startups para monitoramento de vazamentos, por exemplo.

Estou investindo em uma startup que está interessa em fazer o link de conexão de sensores IoT com uma constelação de satélites para facilitar o monitoramento das áreas cultivadas. Hoje 63% das áreas agrícolas brasileiras não tem cobertura de serviços de telecomunicações, nem de internet. Mesmo uma rede LoRa tem limitações. Em um campo super aberto e condições muito favoráveis ele vai cobrir alguns quilômetros. O que o pessoal vem fazendo e usar os cubesats, que estão em baixa órbita, par ser um nó de LoRa, que em vez de apontar para frente, para o horizonte, aponta para o alto, para falar com o satélite, amplificando  cobertura.

Olhando muito para o futuro, tem uma startup americana pensando na construção de um data center quântico na Lua. Uma das vantagens é que as crateras lunares, escondidas do sol, têm temperaturas baixíssimas. Além disso, a Lua está repleta de hélio-3, que pode ser usado para gerar energia e também para resfriamento. Seria um passo além do projeto da LunaNet. E isso seria super benéfico para a sustentabilidade da Terra. A gente etária tirando o problema daqui e mandando para outro local com muita energia disponível, ou por painéis solares ou por hélio-3 e fusão nuclear.

A sustentabilidade é uma questão importante. O próprio lançamento de foguetes é poluente. O Jeff Bezos tentou minimizar o impacto usando uma combinação de hidrogênio com oxigênio cuja queima gera vapor d’água. Esse é considerado hoje o melhor combustível para ser usado na economia espacial, embora seja super difícil de ser usado porque a mistura precisa ser mantida em temperaturas criogênicas para que o hidrogênio possa estar em estado líquido. Mas, uma vez dominada a técnica, ela pode servir também para outros usos.

Aqui no Canadá, por exemplo, tem um pessoal usando aa tecnologia do motor dos foguetes para fazer perfurações em fontes hidrotermais. Em vez de usar a broca, usa o propulsor invertido, virado para baixo, para furar a rocha e atingir altas profundidades.

Spinoffs são muito difíceis de antecipar, mas a área espacial tem um histórico gigantesco de spinoffs aos quais a gente deveria estar prestando mais atenção.

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