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Fernando Paiva é especialista em Internet das Coisas Médicas, Diretor Executivo no ecossistema de saúde digital e conselheiro de uma das maiores empresas de integração de medical devices do país, a InterOpera. Crédito: Arquivo Pessoal

INTERNET DAS COISAS

Internet das Coisas Médicas: salvando vidas com dados

Ao permitir a coleta automatizada de informações do paciente, o IoMT evita o uso de dados incorretos para a tomada de decisão e dá mais assertividade para os tratamentos, explica o especialista em Internet das Coisas Médicas, Fernando Paiva

Por Marina Hortélio 20/08/2021

Nos hospitais, os profissionais de saúde têm a rotina de passar corriqueiramente pelos leitos para checar os sinais vitais dos pacientes. Essa prática pode se tornar antiquada com a Internet das Coisas Médicas (IoMT, na sigla em inglês), já que essa tecnologia permite que os dados dos pacientes sejam coletados por equipamentos conectados e enviados automaticamente para um prontuário eletrônico ou outra plataforma de monitoramento.

Com as informações, os profissionais de saúde conseguem acompanhar o paciente à distância – dentro e fora do hospital. Uma aplicação de IoMT também pode otimizar o transporte dos doentes: os equipamentos conectados de uma ambulância conseguem coletar dados da pessoa que está sendo transportada e enviá-los automaticamente para o hospital de destino. Com isso, a equipe da unidade tem um encaminhamento mais preciso para o enfermo, assim que ele chegar ao local.

“Com o IoMT, na triagem do pronto-socorro o paciente já é avaliado de maneira que os dados são preenchidos automaticamente no prontuário eletrônico para que o médico consiga fazer um desfecho clínico muito mais seguro e inteligente de tratamento”, explica Fernando Paiva, especialista em Internet das Coisas Médicas, Diretor Executivo no ecossistema de saúde digital e conselheiro de uma das maiores empresas de integração de medical devices do país, a InterOpera.

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Dentro dos hospitais, UTIs inteiras podem reportar os dados dos pacientes automaticamente, reduzindo o tempo de estada dos doentes na Unidade de Terapia Intensiva, como aponta um estudo publicado no Journal of Clinical Monitoring and Computing.

A tecnologia reduz ainda a possibilidade de erro humano durante a coleta de dados do paciente, aumentando a confiabilidade das informações usadas para embasar as decisões médicas. Por eliminar os erros na captação dos dados de saúde, o IoMT é essencial para todas as outras tecnologias aplicadas na área, segundo Paiva.

É importante frisar que a tecnologia é uma ferramenta de apoio aos profissionais de saúde, mas não resolve tudo. Tem coisas que só o médico consegue captar durante a interação com o paciente, como uma reação física durante uma consulta. Mesmo nesses casos, o IoMT é importante por retirar parte da burocracia dos atendimentos e abrir espaço para um acompanhamento mais humanizado das pessoas, feito com mais tempo e mais informação – em vez do médico perder tempo confirmando dados.

Nessa entrevista exclusiva, Fernando Paiva explica como a Internet das Coisas Médicas pode transformar a saúde brasileira e ajudar a salvar vidas.

Disrupção é…

“Promover mudanças que beneficiem e coloquem o paciente no centro do cuidado humano. Ao levar um outro mindset, uma nova proposta de valor tecnológica e uma nova percepção positiva sobre a possibilidade de expandir tratamentos, desfechos e diagnósticos, você está promovendo a disrupção dentro do ecossistema de saúde.

A diferença entre Internet das Coisas e Internet das Coisas Médicas é o medical device. Todo hardware utilizado no ecossistema de saúde intra-hospitalar e extra-hospitalar é um equipamento que faz com que você consiga realizar um monitoramento remoto do paciente, em qualquer lugar do mundo.

O que nós estamos fazendo no Brasil nos últimos 3 a 4 anos? A junção do mundo do hardware com o mundo da cloud e do software. Então, a Internet das Coisas Médicas é a junção dessa tríade hardware, nuvem e software.

O IoMT é um maestro que faz com que todos os dados sensíveis do paciente estejam em uma nuvem, independentemente se ele está no beira leito de uma UTI, conectado a um monitor multiparamétrico, ventilador mecânico ou bomba de infusão, ou se é acompanhado por uma home care na assistência domiciliar, onde se utiliza um wearable e esse paciente também é monitorado por uma seguradora, operadora de saúde ou até mesmo um hospital.

É importante entender que a Internet das Coisas Médicas permeia toda a jornada do paciente.

Isso é super rico porque as pessoas vão começar a se familiarizar e entender que o IoMT não é uma tendência, mas uma realidade.

No caso de um paciente que teve algum trauma ou intercorrência [um evento inesperado em um procedimento médico, que não poderia ser previsto ou alertado ao paciente], na ambulância já existem muitas tecnologias que fazem com que todos os equipamentos estejam integrados, via internet, com algum tipo de prontuário eletrônico ou sistema que envia informações de saúde para o hospital ao qual esse paciente está sendo designado.

Quando o paciente chega, o hospital já tem um pré-diagnóstico do caso para fazer um direcionamento, seja para uma sala de cirurgia para uma operação muito mais assertiva, ou para outro procedimento médico necessário, de acordo com o quadro demonstrado pela fisiologia do enfermo conectado aos aparelhos da ambulância.

No hospital, quando o paciente está em um quarto, existe um índice de contaminação não só para coronavírus, mas para diversas doenças. Com a Internet das Coisas Médicas, é possível conter a infecção cruzada ao evitar as idas constantes de um enfermeiro para verificar os equipamentos e indicadores, já que esses dados passam a ser colhidos automaticamente e são acompanhados em uma central de monitoramento ou em um tablet, celular ou TV de monitoramento remoto da equipe multidisciplinar.

Todas essas informações estão sendo transmitidas para uma nuvem que também pode ser acessada pelo médico em qualquer lugar que estiver, conforme o protocolo de segurança e as normas da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) do hospital ou do laboratório.

Um outro ganho significativo para o hospital com a Internet das Coisas Médicas é no tempo de permanência de um paciente no leito de UTI. Antes da pandemia, esse período era, em média, de 5 a 7 dias no Brasil. [A Associação de Medicina Intensiva Brasileira aponta que, em média, o tempo de permanência de um paciente em uma UTI no hospital público é de 6,5 dias]. O paciente na Unidade de Terapia Intensiva consome EPIs e insumos, o que tem um custo. Existem cabos e equipamentos que chegam a custar até mil dólares, dependendo do tipo de equipamento que você está utilizando.

Quando se consegue diminuir o tempo de permanência de um paciente dentro da UTI, ganha-se esse ramp up financeiro para a operação [há uma alavancagem dos resultados financeiros da organização ao reduzir os gastos].

Vários estudos internacionais apontam que se o paciente está acompanhado de maneira automatizada, sem nenhum tipo de interferência humana, o nível de acuracidade de desfecho clínico do médico é estratosfericamente maior e faz com que esse paciente permaneça menos tempo na UTI.

Quando se pensa em Value-based Healthcare nessa jornada do paciente, ao conseguir acompanhar, monitorar, diagnosticar e tratar o enfermo de maneira muito mais assertiva com os quatro Ps de do Michael Porter [uma medicina Precisa, Personalizada, Preditiva e Participativa], também são beneficiadas a seguradora e a operadora porque você evita a quantidade exacerbada do falso positivo em relação à reinternação do paciente.

É possível ainda diagnosticar e acompanhar o falso positivo dos equipamentos ao descobrir se a máquina está calibrada ou não com o uso de Internet das Coisas Médicas. Você consegue saber o tempo de vida útil desse equipamento, dentro de uma estratégia de engenharia clínica.

Existe um oceano azul enorme para assistência domiciliar no Brasil.

Quando se fala em Home Care, as pessoas acham que é somente o acompanhamento de pacientes crônicos de alto risco, mas a população brasileira está num processo de envelhecimento contínuo.

A internet 5G é super importante e, ao ser extrapolada para ambientes domiciliares, há um ganho de latência em relação ao nível de conectividade do equipamento, como um smartwatch ou medical device, e esse dado irá automaticamente para o prontuário eletrônico desse paciente no hospital ou na clínica do médico responsável por seu acompanhamento.

Tudo isso vai enriquecer muito o desfecho do paciente e garantir mais longevidade para as pessoas.

Quando se adota a estratégia de utilizar um wearable ou um medical device, é preciso que o equipamento traga segurança de dados e tenha conectividade para que você consiga ter uma central de monitoramento à distância, através da nuvem, e alimentar a seguradora, a operadora de saúde, o hospital ou a clínica. Aí sim é possível fazer uma estratificação de risco de saúde populacional muito mais inteligente e abrangente para colocar o paciente verdadeiramente no centro do cuidado humano.

Nesse processo de monitoramento de paciente fora do ambiente hospitalar, existe a possibilidade, por exemplo, de ter uma teleUTI. É possível pegar um medical device, que seja clinical care, certificado pelas agências reguladoras de cada país e com um nível de acuracidade de informação de 100%.

O problema é que muita gente fala assim: ‘Eu vou usar o smartwatch’. Esse equipamento não tem 100% de assertividade de dados e informações como, por exemplo, pressão arterial. Existem equipamentos médicos de saturação que não fazem a leitura intraderme de pele preta.

Tem um monte de equipamento que não consegue capturar dados e informações para pessoas negras porque a maioria dos testes de laboratório feitos pelas indústrias de equipamentos provavelmente não tem esse tipo de perfil.

As tecnologias estão avançadas de uma maneira espetacular e esse é um ponto que não precisaria ser falho. Existem exames que não têm fidedignidade para peles mais escuras e mais da metade da população brasileira é negra.

Pensem em quantos equívocos em diagnóstico foram cometidos porque o equipamento que vem das fábricas não tem esse nível de assertividade para peles negras.

Existem múltiplos tipos de equipamentos no beira leito de umaUTI e ainda existe a rotina do profissional captar manualmente as informações do paciente para colocar no prontuário eletrônico. Estamos falando de um trabalho manual repetitivo e é natural do humano cometer erros por estar repetindo as ações recorrentemente.

O médico entra no prontuário depois de 20 cliques em uma experiência de usuário horrível e acessa dados com uma margem de erro por falha humana.

O erro acontece porque a Unidade de Terapia Intensiva é um ambiente de alta volatilidade, é um ambiente VUCA [acrônimo em inglês de Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade] e BANI [acrônimo em inglês de Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível].

Há uma pressão constante com um paciente de alta criticidade e de alto risco. Por vezes, o profissional de saúde trabalha em outro hospital, vem de um plantão noturno e entra em uma UTI. Mas o ser humano perde a sua capacidade vital e cognitiva de assimilação e ao fazer a leitura de um monitorzinho, o número 1 pode acabar virando um número 7.

O profissional de saúde anota em uma prancheta aquele número dos sinais vitais observados, depois aquele mesmo profissional ou outro funcionário injeta essa informação dentro do prontuário eletrônico. As possibilidades de erro crasso são enormes.

A falha pode incidir em um erro fatal por induzir o médico a fazer uma prescrição de remédio equivocada. Toda a análise quantitativa de fisiologia do paciente está com os números incorretos, então o profissional vai fazer a evolução desse paciente de maneira equivocada.

Dados salvam vidas e a Internet das Coisas Médicas é o platô para qualquer outro tipo de tecnologia.

Não adianta falar de Inteligência Artificial, de blockchain e de Realidade Aumentada em saúde, se o dado que todas essas tecnologias usam como fonte tem erro. Com esse cenário, qualquer robô, algoritmo, qualquer camadinha de deep learning aplicada é desenvolvida em cima de uma base que tem uma margem de erro.

As empresas e o ecossistema de inovação de saúde do Brasil acordaram para o fato que a Internet das Coisas Médicas e a interoperabilidade é onde você consegue conectar também as famosas APIs. É onde se faz com que múltiplos tipos de sistemas de suporte e manutenção possam ser convergentes e se somem em benefício do paciente.

Como paciente, eu vou me sentir mais seguro se eu sei que o desfecho da minha avaliação é muito mais fidedigno e usa informações seguras. A relação médico-paciente só vai se fortalecer com a tecnologia.

A atenção primária do Brasil já foi uma das melhores do mundo, e acho que com o advento da tecnologia, o médico de família vai ganhar uma representatividade e um grau de importância e significância na vida das pessoas muito grande – como era no passado.

Ter um médico de família que faz o acompanhamento de uma pessoa durante décadas é algo que foi se perdendo com o tempo, mas estamos fazendo um caminho inverso com sabedoria tecnológica em benefício de uma atenção primária muito mais sustentável e perpétua.

Para conseguir essa operabilidade de transacionamento e processamento em comunicação de dados, é necessária uma arquitetura orientada a dados de IoMT.

Sem internet, não tem dados médicos.

Por vezes, as pessoas querem o IoMT na clínica, só que quando você chega na empresa para fazer um diagnóstico técnico não tem internet. Como é que eu vou fazer Internet das Coisas Médicas sem internet e com um equipamento com 30 anos de uso sem a mínima possibilidade de conectividade?

A pandemia deu uma alavancada na adoção de tecnologias que fazem com que a IoMT seja muito mais presente dentro da estratégia de inovação e transformação digital de qualquer empresa do ecossistema de saúde.

Hoje, a empresa do sistema de saúde deve estar inserida no contexto de saúde 5.0 e transformação digital.

A companhia que não tiver uma mudança cultural, estrutural, processual e sobretudo de tecnologia embarcada, provavelmente vai ficar obsoleta diante de toda a movimentação do mercado para ser mais ágil, mais inteligente, mais seguro e mais eficiente.

A academia médica no Brasil ainda não instituiu nas suas grades curriculares as temáticas de tecnologia. O profissional de saúde ainda está sendo preparado com técnicas e metodologias que usam avaliações clínicas manuais.

Em uma certa perspectiva, isso é positivo, pois existem técnicas praticadas no ambiente acadêmico extremamente importantes para a continuidade de avaliação do paciente. Tem coisas que o robô e a engenharia de software não pegam: a reação emocional do paciente para relatar dor para um tipo de diagnóstico, por exemplo.

A máquina é meio, não é fim. O problema é quando as pessoas tentam usar a tecnologia como fim. Enquanto você tiver um humano para receber um diagnóstico humano, você vai precisar de um outro humano.

A tecnologia é uma ferramenta de apoio que ajuda o profissional da saúde a ter mais celeridade no trabalho e muito mais humanidade em relação ao tempo de permanência e acompanhamento com paciente porque ao invés de gastar meia hora de atendimento clínico com atividades burocráticas e manuais, como o preenchimento de um prontuário eletrônico, ganha-se 30 minutos conversando e fazendo o que nenhum robô vai conseguir fazer como o ser humano.

Quando se fala de segurança de dados, todo mundo está falando de LGPD. Dentro do hospital é solicitada a autorização de usabilidade dos dados do paciente, a pessoa assina o termo de consentimento que aponta os dados que serão utilizados para o desfecho, acompanhamento e avaliação clínica. Fora do ambiente clínico hospitalar, funciona da mesma maneira: é colhido o termo de consentimento do paciente acompanhado pelo medical device.

A questão do consentimento é super importante em todo esse processo de transacionamento. Esse processamento de dados deve estar totalmente salvaguardado e de maneira anonimizada por quem for o responsável pelo processamento das informações.

Quando os dados saem do ambiente do hospital – que tinha um consentimento legal todo regulamentado –, eles são passados para uma operadora com consentimento do próprio paciente, mas de maneira anonimizada, com uso de criptografia, uma camada de segurança para garantir que não sejam utilizados de maneira equivocada.

Quanto à arquitetura de dados, existe um oceano azul de oportunidades de negócio, que é a quantidade massiva de equipamentos que já estavam sendo utilizados por inúmeros pacientes e que não tinham esse firmware ou um feature de atualização para garantir a segurança. Nesse caso, como está sendo feito para garantir a fidedignidade da segurança da informação?

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