s
TRANSFORMAÇÃO DIGITAL SEM TRAVAS

Governança 5.0: como se reinventar sem burocratizar

A evolução da governança se propõe a entregar aquilo que o ESG deveria ter conseguido, mas não conseguiu, e deve permitir que as organizações gerem real valor para os stakeholders.

Por Sergio Lozinsky 02/04/2026

Governança é – ou deveria ser – o que sustenta uma organização. No entanto, passou a ser percebida com certa desconfiança, em partes por conta dos vícios que reduzem seus preceitos a mera burocracia, em outras pelos incontáveis escândalos envolvendo fraudes e práticas administrativas duvidosas que passaram a tomar o noticiário. O fato é que o conceito e as bases da governança precisam ser revistos, de forma que ela seja uma ferramenta de real enfrentamento dos desafios da organização.

Esse foi um dos temas aprofundados durante o Eatech Conference, encontro das lideranças de TI de importantes empresas do País, que ocorreu em março e do qual fui convidado a participar como painelista e palestrante. No estudo sobre governança 5.0, me dediquei a investigar o que caracteriza e motiva essa evolução, e o que ela pede dos líderes de tecnologia. E essa análise me reconduziu às bases da governança, que começou a ser estruturada de forma mais disciplinada no início dos anos 1990. A partir daí, foi possível estabelecer uma reflexão sobre o que é necessário para enfrentar o momento atual.

O resultado dessa investigação foi extremamente proveitoso e compartilho os principais pontos dela a seguir.

CADASTRE-SE GRÁTIS PARA ACESSAR 5 CONTEÚDOS MENSAIS

Já recebe a newsletter? Ative seu acesso

Ao cadastrar-se você declara que está de acordo
com nossos Termos de Uso e Privacidade.

Cadastrar

Uma escada de degraus irregulares

Se a governança chegou à sua versão 5.0, é porque ela passou por versões anteriores. Cada nova instância trazia consigo o legado da anterior, refinando o que já existia e expandido gradativamente a visão para incluir novos temas:

  • Governança 1.0: o foco era a preocupação dos acionistas em obter controles para garantir a conformidade das operações da empresa e seus interesses primordiais. Com alguma licença poética, podemos dizer que a governança 1.0 se tratava, praticamente, de uma evolução de uma auditoria;
  • Governança 2.0: essa versão passou a contemplar uma estruturação dos processos, unindo a visão macro (como a empresa deve ser conduzida) com a micro (a confiabilidade das operações);
  • Governança 3.0: aqui começou-se a abrir o leque para a estratégia e os temas que estão inevitavelmente associados a ela, como posicionamento de mercado, competitividade, manutenção de share, possível expansão, etc;
  • Governança 4.0: o olhar se torna mais abrangente, finalmente levando em conta os stakeholders – clientes, fornecedores, e a sociedade como um todo. É aqui que o ESG se estabelece, como um reflexo das intenções essenciais desse novo modelo.

Essa é uma história com êxitos e legados positivos, e também com falhas e algumas promessas não cumpridas. O ESG talvez seja o melhor exemplo: nasceu a partir de um propósito nobre, mas aos poucos começou a se deturpar em meio a vícios corporativos que os modelos anteriores tampouco conseguiram eliminar – falo sobre isso em outro artigo, “A falha essencial das políticas de ESG”.

Dessas lições e revisões críticas nasceram as bases para o que pode ser um modelo mais abrangente e eficaz de garantir a lisura, o crescimento saudável e o impacto positivo das organizações.

Eis a governança 5.0

Nessa nova “encarnação”, a governança se ocupa de tudo o que já fez parte de seu leque, mas abre espaço para entender que aquilo que acontece internamente está conectado ao que ocorre para além dos muros da empresa. É um olhar voltado para o ecossistema e a sociedade, considerando o propósito da organização e a integração entre tecnologia e aspectos humanos.

Estão incluídas neste olhar a cadeia de valor, a cadeia de suprimentos e as comunidades impactadas. A ideia é favorecer, compreender e assegurar a convergência entre o propósito que originou e motiva a empresa e as pessoas que fazem parte dela,, bem como aquelas que, de alguma forma, são por ela afetadas. E em meio a isso tudo, a abordagem da governança deve se direcionar também aos elementos tecnológicos (IA, big data, IoT), garantindo que eles sejam empregados para legitimar o propósito da organização.

Ou seja: assegurar a saúde financeira da empresa é crucial, mas ela não pode estar desvinculada  dos custos e dos impactos envolvidos em atingir esses resultados. É por isso que a governança 5.0 se propõe a entregar o que ESG deveria ter conseguido e não o fez, ao mesmo tempo que atua para garantir que a empresa tenha condições de enfrentar a pluralidade de desafios atuais.

É evidente que esse modelo não é algo consolidado, e sim uma proposição, ainda em desenvolvimento e que exige proatividade e urgência das empresas para que seja consolidada. Nesse caminho, certamente serão necessários ajustes de rota e experimentações, mas o direcional está claro – assim como está claro que a tecnologia desempenha papel decisivo no sucesso desse novo modelo.

Sim, o CIO precisa agir

A TI e seu líder entram nessa história gerenciando a aplicação e integração de tecnologias que proporcionam avanços substanciais para o negócio. De forma prática, podemos dizer que cabem a eles as seguintes ações:

▪ Projeção de cenários de riscos e de crescimento com base na adoção de novas ferramentas (vide a IA, por exemplo);

▪ Decisões táticas e estratégicas com base em dados e correlações de dados;

▪ Estabelecimento da cibersegurança como um pilar estratégico, juntamente com as questões técnicas de proteção e continuidade das operações;

▪ Apoio à decisão e à reputação da marca;

▪ Suporte ao conceito de “conselho digital” em parceria com outras áreas da empresa (entenda-se “conselho digital” como um grupo capaz de acompanhar o desempenho da organização em “tempo real”, algo como um painel de controle que suporta as discussões e decisões do conselho).

A TI deve ser capaz de entender como as áreas e o negócio tomam decisões, avaliando  – ou mesmo propondo – modelos para facilitar esses processos. Porém, agilidade, segurança e eficiência não devem ser os únicos resultados almejados; a entrega precisa contemplar também impacto positivo na sociedade e no meio ambiente, devolvendo à natureza mais do que é retirado dela.

Conquistas duradouras

De certa forma, a governança 5.0 se propõe a levar a tecnologia para fora da empresa não apenas como um recurso que melhore a relação com seus públicos e suas operações, mas principalmente como uma alavanca para um mundo melhor. Nesse sentido, a TI deve acompanhar, e até propor, iniciativas de responsabilidade socioambiental. Mais que tudo, deve liberar o potencial humano, e não substituí-lo ou controlá-lo. É nesse sentido que a tecnologia se estabelece como uma “ferramenta de produtividade”.

Todos os preceitos e premissas que integram essa nova proposição de governança visam, ao fim, garantir e legitimar o propósito e a contribuição da empresa para seus stakeholders e para a sociedade. O modelo de “lucro a qualquer custo” tem se revelado danoso e precisa ser interrompido, antes que esse custo se torne impagável.

É desafiador? Sem dúvida, e exige trabalho. Mas é um modelo pelo qual vale a pena se esforçar, e uma causa pela qual vale a pena lutar.

Governança 5.0: como se reinventar sem burocratizar

Transformação Digital sem Travas

Governança 5.0: como se reinventar sem burocratizar

A evolução da governança se propõe a entregar aquilo que o ESG deveria ter conseguido, mas não conseguiu, e deve permitir que as organizações gerem real valor para os stakeholders.

Por que forçar mudanças gera rejeição — e como evitar isso

Transformação Digital sem Travas

Por que forçar mudanças gera rejeição — e como evitar isso

Se mudar é inevitável, resistir ao novo também é, e é preciso que a liderança saiba se antecipar à resistência assumindo a gestão em todas as etapas do processo.

'Should I Stay or Should I Go?' O dilema silencioso de carreira

Transformação Digital sem Travas

'Should I Stay or Should I Go?' O dilema silencioso de carreira

Saber qual é a hora de deixar uma posição na empresa é uma tarefa tão difícil quanto necessária e é preciso saber navegar por suas complexidades.

O que está contribuindo ou te impedindo de ser uma liderança melhor?

Transformação Digital sem Travas

O que está contribuindo ou te impedindo de ser uma liderança melhor?

Conheça algumas atitudes que podem fazer a diferença entre ocupar um cargo de liderança e ser líder de fato.

A solidão do CEO: quem cuida de quem lidera?

Transformação Digital sem Travas

A solidão do CEO: quem cuida de quem lidera?

A cultura corporativa tende a isolar aquele que busca uma transformação profunda. Como não sucumbir ao isolamento?

Como tomar decisões em um mundo cada vez mais enviesado?

Transformação Digital sem Travas

Como tomar decisões em um mundo cada vez mais enviesado?

Existem alguns fatores que turvam a visão das lideranças, e dos quais elas talvez nem estejam cientes. Mas é possível combater esses deslizes na origem.