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Quando falamos tanto sobre a importância da energia sustentável e seu impacto positivo, é vital olhar para o papel de cada um Crédito: Min Ahn/Pexels
O SHIFT DA QUESTÃO

Como anda a sua pegada de carbono?

A frase "Onde é que nós vamos parar?" não foi feita para a questão da pegada climática, mas bem que poderia

Por Cristina De Luca, Marina Hortélio, Silvia Bassi e Soraia Yoshida 26/06/2021
Conteúdo

 

O problema está dado, e tem dois lados: 1- precisamos impedir que o mundo aqueça mais do que 1,5°C até 2030, zerando nossas emissões de gases de efeito estufa até 2050 (Acordo de Paris); 2- não podemos travar a transformação digital global, porque o futuro da economia é digital, portanto, vamos precisar de mais dados, mais tecnologias, que consomem energia e geram uma pegada de carbono considerável, que aumenta com a digitalização.

E aí, como resolver esse conundrum? O ponto mais importante aqui é entender que, se hoje a TI, a internet, e todos os dispositivos digitais consomem 7% de toda a energia gerada no mundo e chegam a emitir 3,7% do total da pegada de carbono global (veja o infográfico abaixo), na próxima década esses números vão mais que dobrar. Jeff Kettle, pesquisador da Universidade de Glasgow, especialista em engenharia elétrica, calcula que em 2025, a indústria de TI poderá consumir 20% de toda a eletricidade gerada no mundo e emitir 5,5% dos gases de efeito estufa.

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A conta parece que não fecha, certo? Mas pode fechar porque, como no caso da picada de cobra (e das vacinas contra a Covid-19), é o próprio veneno que traz a solução. O caminho para a redução da pegada global de carbono passa pela adoção de fontes de energia renováveis e sustentáveis e pelo uso de tecnologias digitais para criar soluções que ajudem a própria indústria, e todos os usuários, a fechar a conta do net zero até 2050: igualar a quantidade de gases emitidos com a quantidade de gases eliminados da atmosfera.

Um estudo produzido pela International Telecommunication Union (ITU), entidade ligada à ONU, estima que as tecnologias digitais podem ajudar a reduzir em 17% o volume de gases de efeito estufa. E um movimento nesse sentido vem da própria indústria. Cada uma das Big Techs criou seu compromisso de energia sustentável e redução de emissões. Na Europa, um grupo de 26 empresas se comprometeu a investir no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis que apoiem o movimento de transformação digital green da União Europeia.

Coisas para pensar sobre pegada digital de carbono:

  • A venda de uma obra de arte em NFT gera 211 kg de CO2, grande parte pelo consumo de energia para minerar as criptomoedas que vão pagar seu valor. A compra de uma obra de arte digital por e-commerce, gera meros 2,3kg.
  • Os sites de internet têm pegada de carbono sim, e ela pode ser melhorada, segundo a calculadora inventada pela Wholegrain Digital.
  • Cada email produzido gera 4 gramas de CO2, mas ainda assim os emails são mais eco-friendly que o correio convencional.
  • Qual afinal é o tamanho da pegada de carbono dos bitcoins? Estima-se que seja 22 e 22,9 milhões de toneladas métricas por ano.
  • Os data centers consumiram, em 2019, 1% de toda a energia produzida no mundo. Se continuarem a investir em tecnologias sustentáveis e energia renovável, eles vão poder suportar o crescimento de uso em 60%, estimado para 2022, gastando a mesma quantidade de energia. S.B.

 


 

Agora é a hora de investir em colaboração, inovação e, principalmente na transformação digital que pode alavancar o uso, a gestão e a criação de uma nova a matriz energética, mais limpa

Crise energética: soluções passam pelo digital

Nos próximos anos, será vital para os países aproveitar o poder da tecnologia digital para alavancar as mudanças na matriz energética. Apenas as tecnologias digitais se movem na velocidade e na escala necessárias para alcançarmos a redução dramática nas emissões que precisamos ver nos próximos 10 anos.

“Estamos em um momento crucial na história da humanidade. As decisões que tomamos hoje para enfrentar os desafios ambientais e a governança da tecnologia digital irão desencadear uma reação em cadeia que determinará a trajetória da vida neste planeta”, afirma Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “Se adotarmos políticas eficazes, podemos acabar com a pobreza energética e tornar a matriz energética mais favorável ao clima em uma única geração.”

O Secretário-Geral da ONU também deixou muito claro, durante a quinta sessão da Assembleia Ambiental, realizada em fevereiro deste ano, que a transformação digital deve ser parte integrante da ONU.  Tecnologias mais recentes, incluindo observações da Terra com o uso dos nanossatélites, IoT, Big Data, Inteligência Artificial, e 5G podem dar suporte ao monitoramento em tempo real do meio ambiente, ajudar os consumidores a adotar um comportamento mais sustentável e criar cadeias de valor sustentáveis.

Olhando para 2050, quase metade das reduções de emissões necessárias para meta Net Zero World da International Energy Agency (IEA) virão de novas tecnologias digitais e produção de energia limpa. Porém, cerca de metade delas ainda não estão prontas para o mercado. Em seu relatório Perspectivas de Tecnologia de Energia 2020, a própria  IEA afirma que precisaríamos expandir tecnologias que hoje estão apenas no estágio de protótipo ou demonstração para atingir a meta. 

Um novo relatório da IEA, divulgado em maio deste ano, confirma isso. Podemos fazer cortes profundos nas emissões até 2030, expandindo a energia limpa e as tecnologias de eficiência energética que já temos. Mas, depois disso, reduzir as emissões para net zero até 2050 vai requerer inovações em maturação, como a captura direta de carbono pelo ar, combustão a hidrogênio e baterias avançadas.

A eletricidade, por exemplo, pode eliminar sua contribuição de carbono quase inteiramente com as tecnologias que temos hoje. Explico. De acordo com esse novo relatório da IEA, 90% da geração de eletricidade de 2050 deverá vir de fontes renováveis de energia limpa. Grande parte dessa capacidade dependerá da energia solar e da eólica, que têm suas operações cada vez mais auxiliadas pelas modernas tecnologias digitais. 

Portanto, para o bem do planeta e para a lucratividade de longo prazo, as grandes empresas precisam ser proativas e liderar a mudança gerando e adotando tecnologias que nos ajudem a adotar práticas mais sustentáveis. 

Em 19 de março, Dia Digital 2021, 15 empresas de tecnologia assinaram um compromisso de desenvolver “soluções digitais verdes” que ajudarão o mundo a reduzir as emissões de dióxido de carbono e transformar digitalmente os principais setores econômicos. Os signatários, que incluem Microsoft, Ericsson e Vodafone, também se comprometeram a se tornarem neutros em carbono até 2040. O pacto, conhecido como European Green Digital Coalition, foi liderado pela Comissão Europeia e endossado pelo PNUMA.

Como cidadãos também temos a nossa parcela de compromissos nessa luta.

 


 

Como começar?

Uma pesquisa da Ericsson indica que as soluções de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) podem proporcionar uma redução das emissões globais de carbono de até 15% até 2030. Está, de fato, em uma posição única para habilitar setores industriais fundamentais a conquistar uma economia de baixo carbono e cumprir os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU.

  • Big Data

Como podemos chegar a um futuro mais sustentável e inclusivo se não sabemos onde estamos? Se apesar de estarmos imersos em um oceano de dados, não temos os dados de que precisamos, só gotas de informação?

Esse déficit está prejudicando a capacidade do mundo de responder às mudanças climáticas.

“Precisamos construir um banco de dados para todas as tecnologias de código aberto que estão disponíveis no mundo e podem ser aplicadas para construir estruturas de produção e consumo mais verdes e sustentáveis. Essas tecnologias estão disponíveis, mas não existe um banco de dados  que facilite países e empresas a acessá-las”,  explica Munir Akram, presidente do Conselho Econômico e Social da ONU.

Na quarta sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 2019, os Estados Membros solicitaram ao PNUMA uma Estratégia de Big Data até 2025.

  • Internet das Coisas

Ajudar os produtores a medir e divulgar o desempenho ambiental e climático de seus produtos e cadeias de abastecimento; ajudar os investidores a avaliar os riscos climáticos e ambientais e alinhar os fluxos de capital global às metas climáticas; permitir que os reguladores monitorem o progresso e os riscos em tempo real… tudo isso passa por uma boa estratégia de IoT e seus sensores.

Precisamos da geração de informações georreferenciadas, de sensoriamento remoto e observação da Terra e de coleta dados climáticos quase em tempo real.

Uma das metas do PBUMA é integrar esses dados gerados pelo IoT à economia digital para moldar incentivos, ciclos de feedback e comportamentos.

  • Inteligência Artificial

Algoritmos de Inteligência Artificial que impulsionam alguns das aplicações mais avançadas hoje, podem exigir uma grande capacidade de computação para serem treinados. E isso, por sua vez, vai requer grandes quantidades de eletricidade, levando muitos a se preocupar com a pegada de carbono desses sistemas de IA cada vez mais populares, tornando-os ambientalmente potencialmente insustentáveis, se não fizemos algo a respeito.

A solução depende do projeto do algoritmo, do tipo de hardware usado para treiná-lo e da natureza da geração de eletricidade onde o treinamento ocorre. Portanto, pelo uso crescente de energia gerada por fontes renováveis que, por sua vez, têm na IA uma grande aliada. E isso quase que mereceria um artigo à parte.

Primeiro, é preciso lembrar que o uso de energia renovável aumentou 3% em 2020. Esse ano, a expectativa é de expansão de mais de 8%, atingindo 8.300 TWh, o crescimento anual mais rápido desde os anos 1970. A energia solar fotovoltaica e a eólica deverão contribuir com dois terços do crescimento das energias renováveis. Só a China deve responder por quase metade do aumento global da eletricidade renovável em 2021, seguida pelos Estados Unidos, União Europeia e Índia. 

Com as crescentes preocupações com o esgotamento dos combustíveis fósseis e as mudanças climáticas, mais e mais países começaram a apoiar o desenvolvimento e a utilização de energia renovável, e muitos desses projetos estão relacionados à tecnologia de IA. Ela já é apontada como a principal tecnologia capacitadora para os futuros sistemas de energia inteligente, acoplando diferentes portadores de energia (eletricidade, hidrogênio e combustíveis de hidrocarbonetos de vento, solar, nuclear e outros recursos de energia renovável com base na produção de hidrogênio, captura de carbono / reutilização e outras tecnologias) com os usuários finais (aparelhos elétricos, transporte, aquecimento, manufatura, indústria e outros).

Na China, por exemplo, acelerar o desenvolvimento da rede inteligente de energia, por meio da profunda integração do mercado de eletricidade e das tecnologias de IoT, 5G e IA, é considerado um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento do país. E uma das empresas que mais tem se destacado na produção de tecnologias capazes nesse sentido é a Huawei, principalmente em relação à energia fotovoltaica.

A combinação de energia e IA também vem sendo  amplamente aceita e adotada pela indústria. A China Petroleum and Chemical Corporation (Sinopec) vem trabalhando com a Huawei para construir fábricas inteligentes que aplicam big data e aprendizado de máquina no processo de refino para melhorar a eficiência e a produtividade. A ExxonMobil vem usando robôs de IA para exploração e produção de hidrocarbonetos para melhorar a produtividade e reduzir o custo e o risco da sua operação. O Google diminuiu o consumo de energia de refrigeração de seu data center em 40% usando a tecnologia AI fornecida pela DeepMind. 

As últimas duas décadas também testemunharam o rápido aumento das investigações sobre como aplicar IA a estudos relacionados à energia. O número de publicações na Scopus com as palavras-chave “Energia + AI” aumentou significativamente, principalmente nos últimos dez anos, indicando que mais de um quarto das pesquisas em IA são relacionadas à energia.

No ano passado a Huawei lançou suas 10 tendências técnicas emergentes para PV inteligente em 2025. Elas abrangem quatro dimensões: menor custo nivelado de eletricidade (LCOE), facilidade de uso da rede elétrica, convergência inteligente e segurança e confiabilidade. Em praticamente todas há a forte presença da IA. 

  • E o 5G

As redes 5G requerem menos energia do que suas antecessoras, o que significa que alimentar as telecomunicações inteiramente com energia verde e renovável é finalmente uma opção. Mas o 5G também será um aliado importante para estimular a produção de energias renováveis como a solar e a eólica. O uso da tecnologia pela indústria de energia e recursos naturais pode ser considerada um dos principais marcos digitais no setor, segundo a KPMG, principalmente no que diz respeito à captação de dados em tempo real.

Ao compartilhar dados sobre o uso de energia por meio de conexões 5G, a nova tecnologia pode ajudar a garantir que os gastos com infraestrutura de energia sejam gerenciados de forma mais eficiente, com base em dados, a fim de reduzir o tempo de inatividade. E em caso de qualquer falha, a tecnologia de rede inteligente habilitada por IoT e IA e conectada por 5G será capaz de fornecer um diagnóstico instantâneo – até o nível de qual poste ou transmissor é provocou a interrupção – tornando mais fácil remediar a situação e obter a rede instalado e funcionando novamente.

Já um estudo da Accenture sobre Smart Cities aponta como maior contribuição do 5G para a matriz energética o potencial de ajudar a gerenciar a geração e a transmissão de energia com mais eficiência e, portanto, com melhor custo-benefício.  Os autores do relatório antecipam que “ao permitir que muitos dispositivos consumidores de energia não conectados sejam integrados à rede por meio de conexões 5G de baixo custo, o 5G permitirá que esses dispositivos sejam monitorados com mais precisão no grid para dar suporte a uma melhor previsão das necessidades de energia.

 “Ao conectar esses dispositivos que consomem energia usando uma rede inteligente, o gerenciamento do lado da demanda será ainda mais aprimorado para suportar o balanceamento de carga, ajudando a reduzir os picos de eletricidade e, por fim, os custos de energia.”

Portanto, combinar a indústria de telecomunicações com o setor de energia renovável facilitará o crescimento de ambas as indústrias.

Um trabalho coletivo

Precisamos garantir que as novas tecnologias sejam projetadas com a circularidade em mente para reduzir o impacto ambiental da tecnologia. As novas tecnologias de energia precisam fluir para as economias em desenvolvimento e emergentes, junto com o financiamento que torna sua implantação possível, ou simplesmente não resolverá nosso desafio climático.

Só a colaboração entre os setores público e privado, incluindo a partilha de riscos como soluções de baixo carbono maduro, atrairá fontes diversificadas e resilientes de capital necessário para vários anos e várias décadas investimentos em sistemas de energia, segundo o mais recente relatório do Fórum Econômico Mundial a esse respeito.  Construir uma transição energética eficaz e resiliente requer todas as mãos no convés

Os benefícios de investir em energia sustentável e eficiente são numerosos demais para serem ignorados. Para aproveitar todos os benefícios, precisamos agir com urgência, ambição e em conjunto. Fazendo isso, podemos trazer mudanças reais e positivas para o nosso planeta, melhorando a vida de bilhões de pessoas.

A menos que transformemos nossos sistemas de energia, estaremos caminhando para uma grande crise climática – com impactos negativos massivos para a saúde humana, para o clima e para a natureza e a biodiversidade. A ciência é absolutamente clara que precisamos reduzir as emissões em 45% até 2030. Responsável por 78% das emissões globais de gases do efeito estufa, o G20 tem uma responsabilidade especial aqui.

Precisamos de energia limpa e eficiente para fornecer essas reduções – ao mesmo tempo que acabamos com a pobreza energética de centenas de milhões de pessoas. Para acelerar a ação, devemos usar os pacotes de estímulo e recuperação COVID-19 para implantar a tecnologia de energia limpa existente e colocar as novas tecnologias online.

Disponibilizar a tecnologia certa para os países em desenvolvimento não apenas representa um desafio de financiamento, mas também destaca a profunda necessidade de tecnologia acessível e de código aberto.

O mundo já tem as plataformas para aumentar a coordenação desses esforços, como a  Cool Coalition, o ABC global e as iniciativas de implantação de equipamentos e aparelhos supereficientes do G20.


Por que isso é importante?

Porque o uso da tecnologia auxiliará o mundo a cumpri dois objetivos imprescindíveis para que as nações  reconstruam suas economias no pós-Covid, tornando-as mais verdes e vibrantes.

1 – Aumentar a eficiência energética

Para garantir que o aumento da demanda por energia não faça com que as emissões de gases do efeito estufa saiam do controle, temos que priorizar a energia limpa e renovável. Mas isso deve ser acompanhado por esforços conjuntos para melhorar a eficiência energética de todos os aparelhos e edifícios que consomem energia. É uma medida importante de curto prazo para reduzir a demanda de energia enquanto mudamos para as energias renováveis. É uma medida importante de longo prazo para evitar que a demanda exceda a oferta quando a rede global funcionar com fontes renováveis. 

As tecnologias que melhoram a eficiência de cada eletrodoméstico e edifício que usa energia são fundamentais. A eficiência energética é uma medida importante de curto prazo para reduzir a demanda de energia enquanto mudamos para energias renováveis ​​e uma forma de longo prazo de reduzir a pressão sobre as redes. Precisamos torná-lo uma parte muito maior da mistura. De acordo com a Agência Internacional de Energia, reformas de eficiência de construção e novos edifícios eficientes podem criar de 9 a 30 empregos por milhão de dólares gastos. 

Existem muitos caminhos para o topo da montanha da eficiência energética. O roteiro da Aliança Global para Edifícios e Construção ( GlobalABC ) (2020-2025) pode ajudar os países a alcançar edifícios com emissão líquida zero de carbono. Governos e empresas podem adotar compras verdes, adquirindo apenas os produtos e serviços mais ecoeficientes, economizando bilhões de dólares a cada ano no processo. 

2 – Intensificar a adoção das chamadas Soluções baseadas na Natureza (SbN)

A implementação de soluções baseadas na natureza tem crescido. Mas há uma necessidade urgente de reunir mais evidências sobre os resultados dos projetos de adaptação em todo o mundo. À medida que as temperaturas sobem e os impactos das mudanças climáticas se intensificam, as nações devem urgentemente intensificar as ações para se adaptar à nova realidade climática ou enfrentar sérios custos, danos e perdas, constata o Adaptation Gap Report 2020, da PNUMA.

No entanto, uma análise extensa das ações de adaptação levantadas em artigos científicos mostrou que a maioria estava nos estágios iniciais de implementação, apenas 3 por cento foram capazes de relatar como trazer reduções reais aos riscos climáticos. O relatório demonstra uma necessidade urgente de reunir mais evidências sobre os resultados de projetos e iniciativas de adaptação em todo o mundo. Também aí as tecnologias digitais podem ajudar os países a intensificarem a implementação para evitar atrasos, como recomenda o Adaptation Gap Report 2020.

Lembrem-se, a sustentabilidade energética não pode ser alcançada apenas no nível do país. Precisamos trabalhar juntos para enviar sinais eficazes aos consumidores e fabricantes para aumentar a eficiência.

 


 

A pegada de carbono da Internet

Mais de 4 bilhões de pessoas são usuários ativos da Internet. Isso significa uma enorme massa de dados, máquinas, nuvem em funcionamento 24 horas por dia. Quando se pensa em tamanho da pegada, o setor global de TI só perde para China e Estados Unidos. Se você algum dia imaginou o impacto, ele está neste infográfico.

 


 

turbinas eólicas são vistas ao fundo de placas solares

As empresas estão desenvolvendo soluções cada vez mais inovadoras, criativas e eficientes com uso de energia limpa

Inovação é o grande driver das empresas

1,5°C. Esse é o limite estabelecido pelos cientistas para que a temperatura do planeta não suba a níveis ainda mais preocupantes e que, no longo prazo, não vivamos cenas parecidas com a de um apocalipse zumbi, como estabelece o rascunho do relatório de ciência do clima das Nações Unidas. É um desafio? Claro que é. Mas evitar os piores impactos das mudanças climáticas não pode mais ser opção – e as empresas enxergaram isso e estão desenvolvendo soluções cada vez mais inovadoras, criativas e eficientes para que possam cumprir as metas de energia limpa e, de quebra, envolver mais gente no processo.

Confira a seguir algumas empresas e iniciativas que olham para a questão da energia sob os mais variados aspectos.

Climateview. Considerada uma das startups mais “quentes” da Suécia, a Climateview cria ferramentas para ajudar cidades a fazer a transição de fontes de energia e alcançar seus objetivos de carbono zero. A partir de um programa digital, as cidades podem obter dados com análise de fontes de emissão, estimativas de maiores fontes emissoras e recomendações de ações e políticas para aumentar os níveis de sustentabilidade e resiliência. A visualização de dados permite que os governantes e organizações possam acompanhar o progresso de eventuais mudanças em leis. No primeiro semestre do ano passado, a Climateview levantou US$ 2,5 milhões. A companhia está presente no Reino Unido, em vários países da Europa e brevemente Estados Unidos.

EDP. Trabalhando com inovação aberta, que inclui o ecossistema startups, instituições acadêmicas e outras companhias, a EDP mantém iniciativas como Starter Business Acceleration, um programa de aceleração de negócios com startups que operam nas verticais de energia limpa e armazenamento de energia limpa. Também conta com um braço de investimento, a EDP Ventures Brasil, venture capital do setor elétrico. Recentemente, a empresa recebeu aval para exportar energia junto a Argentina e Uruguai. É a companhia de energia melhor colocada no Top 100 Open Corps 2020, da plataforma 100 Open Startups

Enel X. A empresa do grupo Enel, com atuação também no Brasil, investe continuamente em iniciativas inovadoras. Lá fora, a companhia lançou o carregador EV Juice Box que permite que carros elétricos sejam carregados quando a rede está produzindo a energia mais limpa. Na Califórnia, o equipamento permitiu reduzir o uso durante os períodos de maior demanda, e diminuiu os apagões. No Brasil, a empresa anunciou recentemente uma parceria com o Itaú para operação de projeto-piloto de carros elétricos.

Engie. Através do Engie Lab Brasil, seu braço de inovação, a multinacional trabalha com inovação aberta em parcerias com startups, empresas e times montados entre diferentes áreas para buscar continuamente soluções. Essa virada de chave lhe valeu a inclusão no ranking Top 100 Open Corps 2020, da plataforma 100 Open Startups.

GE. A empresa que durante anos foi sinônimo de lâmpada agora está associada a turbinas de última geração para geração de energia eólica. A GE aposta em tecnologia e design na criação das maiores turbinas offshore, através de seu braço de energia renovável GE Renewable Energy (GERE). Pelas estimativas da General Electric, a GERE é agora um negócio de US$ 15,7 bilhões, ostentando um dos mais amplos portfólios de energia renovável do setor: soluções de energia eólica, hídrica e solar em grande escala, entre eles. E foi uma das primeiras grandes empresas de energia a apostar em parcerias para projetos de inovação, como o recente apoio à Eleven-I e Innvotek para desenvolvimento de ferramentas robóticas para inspeção.

NHS. A empresa paranaense que durante 30 anos fabricou nobreaks tem investido em energia solar fotovoltaica. A NHS lançou recentemente um inversor híbrido, que desvincula automaticamente da rede e passa a puxar energia das placas e banco de baterias de propriedades rurais e pequenos negócios. Produtores de leite, restaurantes, bancos de sangue e geladeiras de vacina ficariam com energia garantida.

Oxford Properties. A incorporadora canadense que investe em gerenciamento de assets tem planos de criar um portfólio multibilionário de aquisições ligadas à ciência. No ano passado, mesmo com pandemia, a Oxford concluiu o maior projeto residencial feito de placas de madeira coladas (mass-timber), uma alternativa de baixo carbono ao uso de concreto e aço na construção. A empresa também está utilizando esse material para um prédio de 18 andares, que será carbono zero em sua conclusão em 2022. E recentemente adquiriu o Cambridge Science Park, aproveitando o crescimento dos setores ligados a descobertas científicas.

Pine Gate Renewables. A empresa norte-americana de energia solar opera em larga escala com gerenciamento operacional, desenvolvimento estratégico e financiamento e construção de projetos de energia renovável. Seu projeto mais recente é uma instalação com capacidade para gerar energia para 14 mil residências. Mas o projeto mais comentado foi a adaptação da fazenda solar Eagle Point, no Oregon, que permitiu a criação de um apiário sob as placas de energia solar. O braço de gestão ambiental da companhia trabalhou com criadores locais e 48 colmeias foram instaladas na área.

Raízen. Atuando nos segmentos de produção de açúcar e etanol, distribuição de combustíveis e geração de energia, a empresa inaugurou no ano passado a primeira planta para produção de biogás a partir de dois subprodutos do processamento da cana, a vinhaça e a torta de filtro. O que antes eram resíduos agroindustriais agora geram novos produtos. A planta tem capacidade para gerar 21 MW de energia elétrica e o biogás pode ser convertido em biometano para substituir o gás natural e diesel no transporte de carga. O desenvolvimento do chamado etanol de segunda geração, que utiliza o bagaço de cana como matéria-prima, tem uma pegada de carbono 30% menor do que o etanol convencional.

Solfácil. A fintech brasileira que financia projetos de energia solar acaba de captar R$ 160 milhões em investimentos. Somente no primeiro semestre de 2021, a empresa emprestou R$ 250 milhões, duas vezes e meia a mais que o total originado no ano passado inteiro. A empresa financia até 100% do valor do sistema de energia solar, parcelando o valor do projeto em até 10 anos para que o valor da mensalidade seja mais baixo que a economia gerada na conta de energia elétrica.

Sonnen. A empresa alemã produz baterias que são carregadas com energia solar. Um dos projetos mais recentes da companhia é um complexo de apartamentos chamado Soleil Lofts na cidade de Salt Lake, que é desenhado para ser uma usina. Cada apartamento vem com uma bateria e à medida que é carregada por energia solar através das placas instaladas no telhado, abastece a residência e o excedente vai para o condomínio. As baterias também podem ser descarregadas pela concessionária local em épocas de uso de alta energia, barateando as tarifas.

Sparkmeter. Nascida como uma spinout de uma organização sem fins lucrativos que levava energia para cidades e vilas no Haiti, a startup Sparkmeter criou uma plataforma mais eficiente de gerenciamento de microrredes (microgrids) de energia, que é desenhada para comunidades rurais. O sistema digital permite o acesso remoto, o que é um feature valioso em tempos pandêmicos. A startup fechou uma rodada de US$ 12 milhões em agosto do ano passado (liderada pela Breakthrough Energy Ventures de Bill Gates) para expandir sua atuação da medição dos minigrids para a análise de grids instáveis. Hoje a empresa atua em mais de 22 países e tem mais de 100 mil medidores vendidos. Seus clientes variam de instaladores e desenvolvedores solares locais a desenvolvedores de minigrid apoiados por empreendimentos, como Husk Power e Powerhive, e o braço de minigrid da gigante global de energia Engie.

Turntide Technologies. Uma das primeiras companhias a receber o Climate Pledge Fund da Amazon, a Turntide oferece soluções que reduzem o custo de energia para construção, agricultura e transporte elétrico. Seu Smart Motor System otimiza o uso de energia do motor e ainda ajuda a eliminar problemas mecânicos, reduzindo em até 64% o consumo de energia. A recente aquisição da Hyperdrive Innovation e da BorgWarner Gateshead vai permitir à empresa acelerar seu desenvolvimento de tecnologias para o transporte comercial. S.Y.

 


 

Trocar o carro pela bicicleta é uma das ações de grande impacto

Como reduzir a minha pegada de carbono?

O ano de 2020 ficou 1.2°C acima das temperaturas da era pré-industrial. A meta preferencial do acordo de Paris é manter o aquecimento global a 1.5º C. Fica o questionamento: O que acontece se a meta do acordo não for alcançada? O desequilíbrio vai causar secas, submersão de cidades e mortes de animais, apenas para citar algumas das consequências. Cada uma pode fazer sua parte para barrar esse futuro desastroso, as ações individuais variam de fazer pequenas escolhas diárias até levar a questão climática em consideração ao votar em seu candidato nas eleições.

Ninguém disse que o processo é fácil. A transição para uma vida mais sustentável requer mudanças profundas nos hábitos do dia a dia. Há quem diga que qualquer passo em prol da sustentabilidade é válido, mas realizar grandes alterações é mais certeiro. Ao invés de andar menos de carro, por que não trocar o veículo por uma bicicleta?

Muito também pode ser feito ao adotar um comportamento de consumo sustentável. No mercado de moda, a adesão pelas marcas de modelos de negócios radicalmente novos poderia contribuir com uma redução de 347 milhões de toneladas métricas de emissões em 2030. Nesse sentido, é possível se beneficiar da economia circular.

É preciso agir para mitigar os impactos ambientais e o corte nas emissões de gases estufa fazem parte da solução. Um estudo da Universidade de Lund recomenda quatro ações mais eficazes na redução das emissões individuais de gases de efeito estufa:

Vale lembrar que nem todas as trocas valem a pena porque algumas ideias que parecem ser mais sustentáveis podem não compensar a poluição dos antigos hábitos. Em exemplo: trocar seu carro à gasolina por um modelo elétrico parece ser uma boa solução, mas pode ser bastante poluidor se a energia da região for produzida por fontes poluentes, como carvão. Nesse caso, seria melhor escolher um veículo híbrido.

Outros estudos trazem mais soluções para ter uma menor pegada de carbono. O Imperial College London indica nove pontos para combater as mudanças climáticas, como reduzir o uso de energia, respeitar e proteger espaços verdes e fazer investimentos mais verdes (é possível fugir de fundos com aplicações em combustíveis fósseis). O The Guardian também listou 50 formas de ter uma vida mais sustentável.

Como medir sua pegada de carbono?

Para saber se sua pegada de carbono está dentro da média – ou até mesmo perceber que é urgente adotar hábitos mais sustentáveis, é possível recorrer à calculadoras. Confira algumas ferramentas:

  • Pegada ecológica: Com perguntas sobre alimentação, moradia, bens, serviços, tabaco e transporte, a ferramenta da WWF indica quantos planetas seriam consumidos se todas as pessoas tivessem o mesmo estilo de vida. Ainda são indicadas formas de reduzir a pegada de carbono.
  • MOSS: A ferramenta calcula a emissão de gases de efeito estufa em 2020 com base no estado de residência de cada pessoa e outras perguntas como quantidade de pessoas que moram na mesma casa e gasto mensal com energia elétrica. Ao final, é apontada as emissões do respondente no último ano em comparação com a média de outros países. Ainda é possível compensar as emissões com a compra de ativos de carbono.
  • Iniciativa Verde: a calculadora da organização mede as emissões de carbono individuais com base no consumo de eletricidade, gás e transporte. Com o resultado, é indicado quantas árvores a pessoa deve plantar para compensar as emissões.

A educação é uma importante arma contra as mudanças climáticas. Com conhecimento, fica mais fácil agir em prol da sustentabilidade. Confira livros que abordam o tema:

  • Cooler Smarter: Practical Steps for Low-Carbon Living , por The Union for Concerned Scientists (Kindle por R$122,81 ou R$ 154,26 capa comum) – baseado em dois anos de pesquisa por especialistas da The Union for Concerned Scientists, o livro indica como fazer mudanças efetivas para cortar as emissões individuais em, pelo menos, 20%.
  • No One Is Too Small to Make a Difference, por Greta Thunberg (Kindle R$ 22,45 ou R$ 138,24 capa comum) – o livro é uma compilação dos discursos da jovem ativista e aponta como cada pessoa tem o poder de lutar contra as mudanças climáticas.
  • Diet for a Hot Planet: The Climate Crisis at the End of Your Fork and What You Can Do About It, por Anna Lappe (Kindle R$ 76,37 ou R$ 308 capa dura) – a cadeia produtiva de alimentos é uma grande emissora de gases do efeito estufa. O livro busca mostrar como a comida pode ser um inicio poderoso para as soluções ambientais do planeta.

A Yale Climate Connections, uma iniciativa do Yale Center for Environmental Communication (YCEC), fez uma lista de 12 livros sobre soluções climáticas que merecem ser lidos. M.H.

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ESG para um desenvolvimento sustentável

Executivos brasileiros de empresas com faturamento igual ou superior a R$ 200 milhões anuais se reúnem para discutir a governança corporativa dentro do cenário distópico da crise climática mundial