Durante algum tempo, boa parte das conversas sobre Inteligência Artificial (IA) nas empresas terminava em uma prova de conceito. Criava-se uma demonstração, testava-se um modelo e se apresentava algo capaz de impressionar. Tudo funcionava naquele ambiente controlado, mas poucas iniciativas chegavam, de fato, à rotina da operação. Esse cenário começa a mudar.
A Ai4 Conference, realizada em Las Vegas, nos Estados Unidos, é uma das maiores conferências de Inteligência Artificial voltadas para negócios e empresas. O evento reúne executivos, pesquisadores, desenvolvedores e líderes de tecnologia para discutir IA generativa, agentes de IA, machine learning, governança, segurança e casos de uso reais em diversos setores.
Na edição deste ano, o que mais chamou a atenção não foi o lançamento de um modelo ou alguma demonstração surpreendente, mas a mudança no tom das conversas.
Falou-se menos sobre o que a IA poderá fazer e mais sobre aquilo que já está fazendo. Também houve espaço para discutir o que deu errado, quanto custa manter uma solução em produção e quais controles são necessários para que ela opere com segurança. Pode parecer uma mudança pequena, mas não é.
Quando a Inteligência Artificial deixa a apresentação e entra na operação, o desafio passa a ser outro. Um agente de atendimento, por exemplo, não pode apenas produzir uma resposta convincente. Ele precisa consultar informações atualizadas, identificar quem está fazendo a solicitação, respeitar as políticas da empresa, registrar suas ações e responder dentro do tempo esperado.
Mais ainda, tudo isso precisa funcionar em grande escala e com um custo que faça sentido para o negócio. É nesse momento que aparece a diferença entre uma boa demonstração e uma boa solução.
A escolha do modelo continua importante, naturalmente. Mas já não ocupa sozinha o centro da discussão. As empresas estão percebendo que depender de um único fornecedor pode se transformar em um risco.
Modelos mudam, preços são alterados e funcionalidades deixam de existir. Uma tecnologia considerada a melhor opção hoje pode ser superada em poucos meses. Há ainda questões regulatórias e geopolíticas capazes de afetar o acesso a determinadas soluções.
Por isso, ganhou força a ideia de combinar modelos diferentes. Os mais avançados podem ser reservados para tarefas que exigem maior capacidade de raciocínio. Atividades repetitivas e de grande volume podem ser executadas por alternativas menores, mais rápidas e econômicas.
Uma arquitetura bem construída deve permitir a troca de modelos sem comprometer as regras, o contexto e o conhecimento acumulado pela organização. A tecnologia pode mudar, mas o conhecimento da empresa precisa permanecer.
Esse cuidado se torna ainda mais importante quando o verdadeiro diferencial está nos dados privados. Em um banco, por exemplo, o valor não está somente na capacidade de gerar um texto. Está nas relações entre clientes, contas, limites, transações, riscos e permissões.
Em uma indústria, pode estar no histórico dos equipamentos, nas condições de produção, nos registros de manutenção e no conhecimento adquirido durante anos de operação.
A empresa precisa saber onde seus dados estão sendo processados, quanto custa cada execução e quais informações permanecem sob seu controle. Não existe uma única arquitetura adequada para todas as organizações, mas essas perguntas não podem ser deixadas para depois.
“Human in the loop” foi um dos termos que mais apareceram nas discussões do Ai4. A expressão descreve uma lógica simples: os agentes de Inteligência Artificial serão cada vez mais autônomos para analisar informações, organizar etapas e executar tarefas, mas determinadas ações continuarão dependendo da decisão de uma pessoa.
Na prática, um agente pode receber a tarefa de analisar uma solicitação de crédito, consultar dados, verificar regras e recomendar um caminho. No entanto, se a decisão puder gerar um impacto financeiro, regulatório ou direto sobre a vida do cliente, a palavra final deve ser humana.
Isso não significa que uma pessoa precise acompanhar cada movimento da tecnologia. O humano entra no processo nos momentos em que há risco, impacto relevante ou necessidade de julgamento. Assim, a empresa preserva os ganhos de velocidade e produtividade sem abrir mão do controle sobre decisões mais sensíveis.
Há ainda um ponto essencial nessa relação: delegar uma tarefa a um agente não significa transferir a responsabilidade. O humano que autoriza sua atuação continua responsável pelos efeitos daquilo que foi delegado. Quanto mais autonomia os agentes conquistarem, mais importante será definir quem pode acioná-los, até onde eles podem avançar e em quais situações devem parar e pedir uma decisão humana.
A experiência mostrou: um agente não precisa fazer tudo sozinho para gerar valor.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes desta nova fase. O objetivo não deve ser alcançar o maior nível possível de autonomia, mas encontrar a combinação adequada entre velocidade, controle e julgamento humano.
A Inteligência Artificial empresarial entrou em uma etapa mais madura. Já não basta perguntar qual modelo será utilizado. Também precisamos saber quais dados sustentam cada decisão, quanto custa manter a solução, quem acompanha seu desempenho e quem responde quando alguma coisa dá errado.
O próximo passo, portanto, não é necessariamente criar mais projetos. Para muitas empresas, será mais importante revisar com seriedade aquilo que já está em produção.
A IA deixou o laboratório e essa é uma boa notícia! Mas é justamente agora que começa o trabalho de verdade.
(*) Sergio Larentis é COO do MATH Group
O discurso mudou em Las Vegas: o desafio agora é fazer agentes operarem em escala, com múltiplos modelos, dados sob controle e humanos responsáveis pelas decisões que importam.
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